A ciência torna a crença em Deus obsoleta?
Data do post: 30 de junho de 2008
O debate entre ciência e fé ganhou força nos últimos anos com a publicação de livros polêmicos que combatem a crença em Deus em nome da ciência. Em resposta, há defensores da religião que denigrem a razão humana e questionam o método científico enquanto tal, o que também tem aprofundado a aparente divisão entre os dois campos.
Outras vozes, na minha opinião mais razoáveis, argumentam que não há incompatibilidade alguma entre ciência e fé; o que não deve ocorrer é que uma tente responder questões próprias da outra.
É para levar à frente esse interessante debate que a Fundação John Templeton convidou importantes cientistas, filósofos e teólogos para dar sua resposta à pergunta: “A ciência torna a crença em Deus obsoleta?”
Entre os convidados estão o famoso psicólogo evolucionista Steven Pinker, o polemista ateu Christopher Hitchens, a filósofa Mary Midgley, o nobel de física William D. Phillips e o cardeal Schonborn, arcebispo de Viena, que tem escrito muito sobre o tema. Confiram os textos de cada um deles aqui.
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Um minuto de silêncio
Data do post: 27 de junho de 2008
Hoje faz um ano que o Bruno Tolentino morreu. Aqui vai a nossa pequena homenagem,
A Explicação
Por Bruno Tolentino
[...]
É o real tudo aquilo que, à medida
em que nos abandona e se evapora,
sagra o aqui e o agora
entre os braços da Cruz, nosso sinal
de mais na escuridão.
Tudo o mais é ilusão,
mero jogo mental
que às vezes nos confunde,
mas que não pode desfazer o nexo
entre o instante mortal
e o perene esplendor da rosa-mundi.
Esse é o grande cordão umbilical,
o traço de união, aquele elo
que Eliot entreviu num roseiral
e o Velho do Restelo
num cais de Portugal.
É o mesmo nexo sobrenatural
que, às vezes, com uma rapidez de seta,
inexplicavelmente nos inquieta
ao deixar-se entrever à face lisa
do que eu chamo de espelho convexo
e Platão comparava a uma gruta.
Metáforas que valem como o indício
de que a mente se expande quando escuta
o sussuro imortal que anima a brisa,
sossega a ventania
e acode a cada rosa na agonia;
ele é que suaviza
o derradeiro amplexo
que desfigura e transfigura o ser,
ele é que acalma
e leva pela mão a pobre alma,
resgatada dos braços do suplício
para enfim perceber
o esplendor de um jardim muito maior
que seu curto reflexo.
Se enxergá-lo é difícil,
não ver é ainda pior
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Platão ou Confúcio?
Data do post:
“Intellectual elitism, as much as an appreciation of Aristophanes’s bawdy humour, is the glue that binds Hellenists together—stoked, in some schools, by a feeling of official neglect or hostility from peers.”
Trecho tirado de um artigo na Economist sobre o estudo do grego clássico atualmente. Ponto interessante: como fica o estudo de uma língua morta (mas clássica) no mundo globalizado? Afinal, nos dias de hoje, a história gloriosa da Europa antiga parece apenas mais uma. É mesmo?
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A linha da sombra de Philip Roth
Data do post: 26 de junho de 2008
Terminei de ler o mais recente livro de Philip Roth, “Fantasma Sai de Cena” (Exit Ghost, Cia. das Letras). Não é tão poderoso quanto, por exemplo, “O Animal Agonizante” e “Everyman” (não consigo pronunciá-lo como “Homem Comum”) - e não chega aos pés de “O Teatro de Sabbath”, um dos grandes livros da década de 90. Mas há momentos tocantes - e insights que não deixam a dever nada ao melhor Roth, como, por exemplo, as citações a Joseph Conrad (há uma verdadeira obsessão por The Shadow Line que permeia cada linha do romance) e as inúmeras reflexões sobre a mortalidade humana. Ao que parece, “Fantasma Sai de Cena” é a despedida de Nathan Zuckerman, o alter-ego de Roth, agora impotente, incontinente e sofrendo com as perdas de memória - algo cruel para quem vive das lembranças como seiva da vida.
Mas também cheira a uma despedida do próprio Roth - uma despedida triste, diga-se de passagem. Há um odor amargo no final do livro, um odor que fica com o leitor quando este percebe que tanto o personagem como Roth não possuem meios para encarar a derrota da vida. Porque a vida é isso, meus amigos: um constante atravessar da linha da sombra, se não for da juventude para a maturidade (como é o caso da obra de Conrad), sem dúvida será um dia da maturidade para o nada. Roth bate na tecla da mortalidade com uma freqüência que nos deixa estonteados; mas aí vem a pergunta: será que a vida é só isso - derrota atrás de derrota?
Para Roth e Zuckerman, a resposta é positiva. Não há volta para qualquer ato, até mesmo para a grande literatura. De nada adianta criar uma obra - a vida pedirá um preço e este será alto demais. Para quem era conhecido como um “transgressor” (para usar um termo de Carlos Felipe Moisés) no início de carreira, Philip Roth atravessa a sua última linha de sombra como um conformado com a decadência e com o fim. Talvez este seja o caminho de todos os marginais - de maior ou menor talento.
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The Brave Ulysses
Data do post:
Alguns astrônomos aparentemente identificaram a data exata em que Ulisses revela o seu disfarce e parte para a vingança contra os pretendentes de Penélope, na Odisséia. Os cálculos foram possíveis porque Homero fornece inúmeros detalhes sobre a posição das estrelas e a órbita dos planetas naquele primaveril 16 de abril de 1178 A.C., o dia em que:
Then fierce the hero o’er the threshold strode; Stripp’d of his rags, he blazed out like a god. Full in their face the lifted bow he bore, And quiver’d deaths, a formidable store;
(tradução clássica de Alexander Pope)
A dica é de Joseph Bottum, também colaborador da primeira edição de Dicta&Contradicta.
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Flann O’Brien na First Things
Data do post: 25 de junho de 2008
Franklin Freeman escreve hoje sobre Flann O’Brien na First Things: “I will probably reread O’Brien before tackling Ulysses again, and the main reason is because his writing makes me laugh and astounds me with its strangeness. [...] Joyce is a greater writer as an artist, but O’Brien is more approachable and a lot more fun”.
Esse “a greater writer as an artist” resume toda uma tendência defensiva da crítica em querer sempre justificar qualquer elogio a algum autor “não muito sério”. Quanto a mim, estou com Hilaire Belloc, que em 1934 provocou a indignação da intelligentsia ao então apontar P.G. Wodehouse como o melhor escritor vivo: “Writing is a craft, like any other: playing the violin, skating, batting at cricket, billiards, wood carving [...] ; and mastership in any craft is attainment of the end to which that craft is devoted. The end of writing is the production of a certain image and a certain emotion. And the means towards that end are the use of words in any particular language; and the complete use of that medium is the choosing of the right words and the putting of them into the right order. It is this which Mr. Wodehouse does better, in the English language, than anyone else alive”.
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Nossa vã filosofia
Data do post: 24 de junho de 2008
Foi com uma grande felicidade que ficamos sabendo que a Dicta&Contradicta está em segundo lugar entre os mais vendidos de não-ficção da Livraria Cultura. Obrigado a todos pela força! Nosso trabalho continua.
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A Gênese de ‘Do Enigma ao Mistério’ - III
Data do post:
Como disse na semana passada, eu entrei na história dessas últimas aulas para ajudar o Bruno nas questões práticas. Normalmente, esta seria a função mais simples. Mas quando a “questão prática” envolvia o Bruno Tolentino, as tarefas mais simples ganhavam a dimensão de uma maratona. Ele era incrível justamente por isto; era capaz de recitar trechos e trechos e Dante com uma pronúncia perfeitamente florentina, mas era incapaz de organizar o quer que fosse.
Enfim, o primeiro “desafio” foi a ementa do curso. Em qualquer situação normal esta seria uma das partes mais fáceis, afinal o professor e o diretor da Instituição que promoveria o curso já haviam acertado todos os detalhes. Faltava apenas uma brevíssima descrição dos temas que seriam abordados. O problema foi justamente a “brevíssima” da frase acima. Como o responsável pela parte acadêmica era o Marcelo Consentino, coube a ele elaborar a ementa junto com o Tolentino. O curso quase não saiu por conta disso! O Marcelo ia à casa do Bruno e cinco horas depois saia de lá sabendo tudo sobre, digamos, Conrad, mas sem nenhum parágrado descritivo. A história foi assim até que um dia - acho eu - liguei ao Marcelo e disse algo assim: “Inventa uma ementa. Qualquer ementa! Não vai fazer difenrença nenhuma, o Bruno não vai seguir de qualquer jeito!”
Mas o problema não acabou aí. Entre a finalização da ementa e o começo do curso eu pensei em cancelar tudo mais de uma vez. Todo mundo sabia o tamanho do esforço que seria para o Bruno falar por duas horas, se locomover à noite etc. Mas não desistimos porque também era muito claro que ele precisava disso; que se não pudesse falar, não valeria a pena fazer mais nada.
O momento mais significativo, no entanto, foi o início do curso. Até o dia da primeira aula havia cinco inscritos. Ninguém sabia o que fazer: normalmente o Bruno falaria para cinco pessoas sem nenhum problema, mas todo aquele esforço para cinco pessoas? Não seria mais fácil levar essas pessoas até a casa onde ele morava? Sem contar a frustração de decidir pronunciar as suas últimas palavras e ficar sabendo que apenas cinco pessoas se interessaram. Mas seguimos em frente, o Bruno fazendo piada como sempre, e qual não foi a nossa surpresa ao chegarmos para a aula e encontrarmos algo em torno de 30 alunos no local. Foi um problema, mas daquele tipo de problema que todos querem ter, com os alunos sentados no chão (já que havíam separado uma sala para cinco pessoas). E a felicidade do Bruno em falar para 30 pessoas era algo indescritível.
Até hoje este é o fato externo que mais me marcou ao longo de todas as três aulas. Já tirei muitas conclusões dele, mas não vou cansar vocês com elas. Cada um que tire as suas…
***
Em relação à edição do texto, agora vocês vão começar a ter noção das minhas escolhas. Peço que as critiquem! Uma das partes mais delicadas foi a VI parte do texto impresso. O começo dela está no áudio abaixo. Precisei mudar a ordem dos parágrafos, excluir várias repetições etc.
Como vai ficar claro com o áudio, a primeira aula foi ficando gradativamente mais confusa, mas também gradativamente mais impressionante. Isso foi uma grande dificuldade, porque o raciocínio não era linear, mas era também a descrição mais vital que eu já ouvi o Bruno pronunciar sobre o “mundo como Idéia”. Decidi excluir várias passagens, como a que ele faz referência à governanta escocesa que ele teria tido, os vários intelectuais com os quais ele conviveu na infância etc. É a mesma história: estas digressões, sensacionais na boca do Bruno, num texto escrito trariam mais confusão do que qualquer outra coisa.
Outras histórias não poderiam ser excluídas de maneira nenhuma. A mais interessante delas foi quando ele contou aquela coisa de Tomás Antônio Gonzaga ser o terceiro poeta mais lido da Rússia, ou da Ucrânia que seja. Não faço a mais vaga idéia da veracidade disto, de fato não apostaria minhas economias nesta história; mas se non è vero, è ben trovato - e totalmente tolentiniano.
Mas há também o que não pode ser transcrito, dois pequenos acidentes saborosos que estão na gravação: quando toca o telefone celular do poeta e ele não sabe o que fazer, e quando ele pede uma água sem perceber que há uma exatamente na sua frente (e só depois de algum tempo uma pessoa tem coragem de se levantar e dizer, sem pronunciar as palavras, “olha, tá aí na sua cara!”).
E eu fico por aqui, com um aviso aos corações mais fracos: se preparem para, daqui pra frente, gravações cada vez mais emocionantes.
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Olhem só o que vão fazer com o Evelyn Waugh…
Data do post: 23 de junho de 2008
Stefan Beck nos alerta para o que a Miramax irá fazer com a obra-prima de Mr. Waugh, “Brideshead Revisited”.
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Esquerda e direita e a crítica à Universidade
Data do post:
Uma coisa que me tem chamado a atenção é como as críticas feitas ao estado atual do ensino superior são fundamentalmente as mesmas ao longo de todo o espectro político-ideológico.
Compartimentalização do saber; especialização extremada que não permite mais uma visão do todo; ensino voltado exclusivamente para o mercado de trabalho. Sai-se, não formado, mas formatado.
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