Jonathan Lethem relembra John Updike
Data do post: 29 de janeiro de 2009
A New Yorker faz um tributo a John Updike, um dos escritores do seu staff, e que morreu esta semana. O depoimento de Jonathan Lethem, autor de A Fortaleza da Solidão, é o mais comovente até agora:
Eis o retrato do artista diante da desolação humana.
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Entrevista exclusiva com João Pereira Coutinho – Parte 6 (final)
Data do post: 28 de janeiro de 2009
E aqui termina a conversação frutífera e divertida com nosso lusitano favorito, João Pereira Coutinho. Como diria John Lennon, esperamos que você tenha gostado do show e que sua satisfação tenha sido garantida. Enquanto isso, acompanhe os últimos oito minutos e quarenta segundos de conversa e saiba como João gostaria de ser recebido por Deus no Paraíso (um momento James Lipton-Bernard Pivot que o entrevistador ousou cometer para que o público fale mal dele pelas costas), como elabora suas crônicas para a Folha de S.Paulo e, por fim, a gentileza e a retribuição inusitadas que ele recebe de seus amigos e leitores brasileiros.
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“A leitura não redime ninguém”
Data do post: 25 de janeiro de 2009
A consideração de que a leitura torna necessariamente as pessoas melhores tornou-se uma “verdade” assente entre pessoas cultas. Quem não lê seria evidentemente inferior a quem lê, e um dos critérios para saber se alguém tem ou não autêntica consistência é a quantidade de livros que leu. Ora, essas afirmações não suportam o menor confronto a realidade! Como praticamente todas as coisas humanas, a leitura pode ajudar… ou atrapalhar tremendamente a vida de alguém.
Recentemente, vários intelectuais ficaram boquiabertos e indignados porque o nosso Presidente reconheceu não gostar de ler. Parece-me que há outros aspectos muito mais pertinentes para avaliar o nosso Presidente do que sua paixão (ou ausência dela) pela leitura.
É o caso de perguntar: será que não ler é pior do que ler mal? Quantos estragos têm sido por pessoas que leem muito! Conhecem inúmeros autores (é curioso que costumam ser principalmente os mais recentes), sabem a história da arte, da filosofia e da música, mas acabam defendendo posições contrárias ao senso comum e à realidade diante dos seus olhos.
Recordo-me de uma charge da época do Presidente Reagan. Havia nela uma placa imensa, com uma seta indicando: “Aqui está a biblioteca com todos os livros lidos pelo Presidente Reagan”, e apontava para uma casa absolutamente minúscula… No entanto, hoje em dia, o legado desse “homem inculto” é extremamente valorizado: trata-se de alguém que mudou a história, ajudando a acabar com a Guerra Fria e modificando a fundo o país que começou a governar em um momento de crise de confiança.
É claro que Reagan não fez isso porque leu pouco. O que quero dizer é que não é necessário ser um intelectual para ser um grande presidente. Também não quero cometer a tolice de comparar Reagan com Lula, o que, acredito, ofenderia os dois interessados, por motivos diversos. Mas o pecado de Lula não é ter lido pouco, assim como o acerto de Reagan não veio do fato de ele ter lido muito. São coisas diferentes tomar decisões certas na vida e ler bastante, ainda que não sejam excludentes.
“A leitura não salva nem redime ninguém”. Quem me disse isso foi exatamente a pessoa mais lida que conheci, o poeta Bruno Tolentino. Uma pessoa não se faz principalmente pelo que lê, mas sim pelas suas ações e pelo que é. Alguém que leia bem, reflita sobre o que aprendeu e saiba incorporá-lo ao próprio comportamento, tem um instrumento para ser melhor. Não é simplesmente a leitura que aprimora, mas a reação que se tem a partir dela.
A verdade é que a degradação em virtude da leitura ocorre com maior frequência do que os “promotores de cultura” reconhecem. Basta ver quantas pessoas se tornam céticas, cínicas ou niilistas por força dos autores que leram. Lembro-me de uma atriz que dizia ter deixado sua religião porque leu Herman Hesse… Meu Deus, por Herman Hesse! Realmente, não me parece ter sido uma boa troca.
Escrevo tudo isso sendo um apaixonado pela leitura. Mas sei que ela não me faz, por si mesma, um homem melhor. Esquecer disso abre caminho para a vaidade e a tolice, além de levar a desprezar aqueles que, por qualquer motivo, não leem de maneira habitual. E a verdadeira percepção sobre a melhor maneira de agir vem da virtude (como afirmava o bom e velho Aristóteles… caramba, mas aprendi isso lendo!); por isso uma pessoa de caráter íntegro saberá quase sempre agir muito melhor do que alguém que leu toneladas de livros.
E termino ressaltando que ler é habitualmente um verbo transitivo direto: leio algo. E esse algo pode ser bom ou não, tornando assim a leitura algo enriquecedor, uma perda de tempo, ou, em não poucos casos, um verdadeiro atentado contra a própria alma. É importante ler bem, mas é igualmente necessário evitar ler mal.
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A longa noite da estrela vermelha
Data do post: 22 de janeiro de 2009
Leiam este diálogo histórico entre Simon Sebag Montefiore, autor de “O Jovem Stalin” e “A Corte do Czar Vermelho”, e o casal Jung Chang e Jon Halliday, autores de “Mao – A História Desconhecida”.
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Entrevista exclusiva com João Pereira Coutinho – Parte 5
Data do post: 21 de janeiro de 2009
Esta quinta parte da conversa com João Pereira Coutinho talvez seja a mais profunda e a mais reveladora. Agora, o espectador saberá que nosso lusitano favorito é um adepto do “desejo mimético” de René Girard (influências de Pedro Sette Câmara e Martim Vasques da Cunha, nossos girardianos de plantão?), admite a influência estilística de Eça de Queiroz em sua escrita e – alas! -, como qualquer jornalista que se preza, foi condenado na Justiça portuguesa por criticar um vereador. Mais uma prova que João não faz parte do armazém de secos e molhados (apud Millôr Fernandes) que se tornou o jornalismo brasileiro.
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It’s gobbledygook
Data do post:
Would you really compare an education in modernist architecture to a cult indoctrination?
Nikos Salingaros: Yes. The groundwork was laid out brilliantly by both Frank Lloyd Wright and by Gropius. They studied cult techniques in order to use them to promote their sort of architectural education. The Bauhaus was a hotbed of cultish affinity. There were several distinct cults there — really weird cults, which is the reason the government finally closed them down (extrato de uma entrevista cujo link, só por chatice, vai só lá no final).
Salingaros é uma figura excêntrica: um matemático da Universidade do Texas nascido na Austrália, PhD. em física teórica pela Universidade de Nova York. É autor do best-seller Anti-architecture and Deconstruction e membro da International College of Traditional Practitioners, apadronado pelo Príncipe Charles, e um grande autor na área do urbanismo. Um homem imerso no mundo da ciência-da-computação-tecnologia-biologia-física que, de repente, após travar conhecimento com o teórico da arquitetura Christopher Alexander, autor do conhecido The Nature of Order, resolve… travar uma ácida batalha de palavras contra o modernismo arquitetônico.
Não é necessário concordar com Nikos Salingaros. Não é fácil saber se ele está certo – embora o seja perceber que Le Corbusier era um cara meio tantã, um agorafóbico que fugia o tempo todo de pessoas e queria acabar com a agitação das ruas.
A sua preocupação é com algo análogo à sustentabilidade, mas com um acento meio, digamos, reacionário na dignidade do homem… O sujeito é uma mistura de Gaudi com Turing com Gomez Dávila (ao que parece, por esse motivo, troquei uns e-mails com ele há uns 5 anos).
Confiram a primeira parte da entrevista cheia de wit e condenações sumárias e vejam se é possível escapar ao contágio desse estranho vírus.
Ah, e aproveitem para conferir (não com tiros) o site pessoal de Nikos Salingaros.
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Começa um novo ano… E daí?
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A possibilidade de perder a vida por tê-la empregado mal causa um justificado temor. Penso em tantas pessoas que gastaram horas, dias, anos, em tolices que depois se mostraram totalmente ocas. Lembro-me de um professor que, no começo da década de 90, logo após a queda do Muro de Berlim e a dissolução do Partido Comunista Soviético, dizia: “Não sei o que fazer com minha biblioteca de marxismo… Tudo aquilo que li e estudei não parecer servir para mais nada”.
Não quero dizer que não se deva estudar o marxismo – ainda que me pergunte se vale a pena fazê-lo… –, mas que aqueles que apostaram a vida nessa ideologia embarcaram numa canoa furada, isso sim! Gerações e gerações se perderam aí, como aconteceu com outras ideologias que passaram sem levar a uma aproximação da verdade e do bem.
E há também os que empregam o principal da vida em coisas como os esportes, a televisão, os passatempos, a comida, ou simplesmente dormir… Temos que reconhecer que são certeiras as palavras de Shakespeare: What is a man, / If his chief good and market of his time / Be but to sleep and feed? (Hamlet, Ato 4, Cena 4).
Hoje em dia, há uma pressão social em favor do sleep and feed, como se todo o resto fosse tolice. No fundo, o maior ideal do ser humano seria conseguir viver como um cachorro: sem responsabilidade, fazendo o que agrada aos instintos, enfim, a beast, no more. E ainda chamam isso de “aproveitar a vida”… Que vida?, cabe perguntar.
As comemorações da passagem do ano, com tudo o que têm de convencional, podem servir como uma espécie de beliscão, de despertador. Afinal, o tempo está passando… e o que tenho feito eu com ele? Acredito que o incômodo dessa pergunta leva muita gente a passar esses dias com uma espécie de melancolia de fundo, muitas vezes disfarçada pelo frenesi próprio de quem tem a alma insatisfeita.
Contudo, não é o caso de cair no pessimismo. Pois o novo ano também representa mais tempo que nos é concedido, novas oportunidades para fazer algo que valha a pena. E mesmo o tempo perdido pode ser recuperado, se servir de aprendizado. Para tanto, é preciso refletir sobre ele e apreender as lições que nos possa ministrar. Então, mesmo os fracassos, as decepções e as torpezas se tornam combustível para acertos e realizações.
Não posso deixar de transcrever aqui uns versos de Bruno Tolentino, nos quais ele se refere à sua vida:
Naturalmente, quem sou eu para que Deus
cumprisse em minha vida promessa tão perfeita,
e no entanto ei-Lo arando, limpando os olhos meus,
fazendo-os ver que, no trigal em que se deita
a luz dourada e musical, se algo perdeu-se
foi como o grão – entre a seara e a colheita
(Imitação do amanhecer, “Em frontispício”)
Também nós estamos entre a seara e a colheita. Não sabemos no que vai dar a nossa vida, que pode se corromper com facilidade. No entanto, pode também ser retificada e enriquecida, cumprindo seu sentido e tornando-se uma pequena obra-prima, ainda que desconhecida até de nós mesmos. Por isso, estamos sempre em um tempo de esperança.
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Em que uma frase de “Star Wars” explica como o mundo mudou
Data do post: 20 de janeiro de 2009
“So this is how liberty dies, with thunderous applause”.
Cortesia do Lew Rockwell blog.
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Mais pérolas cinematográficas
Data do post: 19 de janeiro de 2009
- A caixa “Robert Bresson”, lançada pela Versátil, e que contém as três obras-primas “Pickpocket” (1959), “O Processo de Joana D´Arc” (1962) e “O Dinheiro” (1984), vale cada centavo dos R$ 108,00 que custa – especialmente devido ao pequeno extra em que Bresson é entrevistado por dois “jornalistas” franceses. Bresson não gostava de dar entrevistas e, no final da vida, era considerado um recluso e se recusava a tirar fotografias. É só ver esta entrevista e entende-se o porque: os jornalistas são mais inexpressivos que os próprios atores amadores que Bresson tanto usava e este tem mais expressão nos olhos – de um profundo enfado e pesar, diga-se de passagem – do que qualquer ator hollywoodiano possui atualmente. Mas o momento mágico é quando perguntam: “O senhor se sente só?” e ele somente responde: “Sim, eu me sinto só, mas não fico nada feliz com isso”. Em poucas palavras, eis aí a cruz do verdadeiro artista.
- “O Curioso Caso de Benjamin Button” é o pior filme de David Fincher. Também poderia ser chamado com outro título: “A História do Homem que Não Fez Nada”. Brad Pitt tenta ser excelente (seu melhor papel ainda é o de Jesse James naquele faroeste estranho de Andrew Dominik) e Cate Blanchett mostra que, finalmente, tem curvas naquela sua silhueta andrógina, mas e Fincher? Fincher perde-se no seu virtuosismo técnico, perde-se em querer se distanciar do seu assunto e acaba fazendo um filme impecável em termos de carpintaria, mas sem nenhuma alma. Como diria Paulo Francis: mais um que desponta para o anonimato.
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Entrevista exclusiva com João Pereira Coutinho – Parte 4
Data do post: 14 de janeiro de 2009
A pessoa ideal para ser seqüestrada em São Paulo. Esta é mais uma auto-definição que o nosso lusitano favorito, João Pereira Coutinho, faz sobre “sua alma pura que luta contra a corrupção do mundo”. Por quê? Nesta parte da conversa, João se identifica com ninguém menos que Immanuel Kant – chega a acreditar que as pessoas acertam os seus relógios e hábitos pelas suas manias, da mesma forma que o povoado de Konisberg fazia quando o filósofo iluminado passava pela praça pública. Mas, ao contrário de Kant, João Pereira Coutinho não escolhe se fechar na gaiola da irrealidade (ok, bem que ele gostaria de estar preso em uma universidade para provar a sua benevolência, como o próprio diz) e, de brinde, nos dá suas opiniões sobre dois dos mais polêmicos assuntos da condição humana: Deus – e, last but not least, as mulheres. Como João disse no final de seu último artigo na Folha de S.Paulo: Quem viver, verá.
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