Sociedade anti-épica
Data do post: 30 de junho de 2009
E se todo o aparato de seguridade social que define as sociedades contemporâneas for uma das causas do tédio, da frustração e do niilismo que crescentemente caracterizam a vida nessas sociedades, por tolherem toda forma de heroísmo e de vitalidade dos seres humanos? Onde foi parar aquele outro ideal de existência, tão bem representado nos filmes de John Ford ? (E, acrescentaria eu, nos de Sergio Leone também, embora de uma forma talvez excessivamente nietzscheana).
Não conheço o autor, mas o artigo traz ideias a meu ver interessantes.
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Whytube
Em Crimes and Misdemeanors (1989), Woody Allen conta a história de um homem comum, integrante de uma família comum, que tem a oportunidade de matar um homem, vamos dizer assim, sem a mínima possibilidade de ser descoberto. E então entra uma discussão cinematográfica razoavelmente profunda sobre teodicéia, ou seja, sobre o destino, Deus e a liberdade humana. No background, a vida de um filósofo humanista capturada em um documentário (posteriormente o velhinho comete suicídio).
Não podemos reclamar do fato de que Allen dá a sua resposta, ou melhor, de que ele faz prevalecer a sua visão de mundo durante todo o filme. O absurdo sempre vence – o absurdo é a substância das coisas que não se vêem; nós damos sentido às coisas, mas no fim das contas esse “sentido” é uma criação virtualmente ex nihilo. Mas a pergunta está lá: será mesmo assim? O suicído do filósofo prova alguma coisa? (e aqui ponho a velha pergunta, raramente digna de nota: quando algo dá errado com alguém que representa um ideal de virtude, isso é sinal de que a virtude não existe?).
Com isso Allen, fiel a Heidegger, insere-se num ambiente tipicamente moderno, morto lá nos anos 40 ou 50, se muito. Ele está totalmente fora de moda, e por isso o filme, apesar de ser considerado por muitos críticos o melhor do diretor, só costuma ser visto por woodymaniacs.
Não há espaço para algo próximo ao “existencialismo” no mundo contemporâneo – ao menos no mainstream. O que tem emplacado é a ocultação do absurdo; a ocultação da pergunta. Não há fundamento e ponto final: e portanto a pergunta por um fundamento é perda de tempo. Nesse sentido, a contemporaneidade é uma afirmação nietzscheana; por isso triunfou a MTV, o otimismo naif auto-ajuda, os reality shows (experimente analisar filosoficamente a banalidade – o banal é o absurdo inquestionável – e prepare-se para não sair do lugar) e tudo o mais que nos autos consta. Uma grande suma do que é mais trendy hoje é o empreendedorismo total: não questione, seja simplesmente pró-ativo.
Num universo paralelo, o dos estilos de vida ligados à música, temos um novo culto da tristeza e do desespero; mas mesmo aí, só há afirmação epidérmica. (Le plus profond, c’est la peau, dizia profeticamente Paul Valéry). E um revival da colagem pós-moderna, que pensei ter enxergado em “Daniel”, do Bat for Lashes: ela soa como The Cure, mas a pergunta pela existência, característica do “gótico” inglês, que aparece explicitamente até em álbuns medianos e tardios como Bloodflowers, está completamente ausente. A figura exterior está lá, mas foi recortada e não resta qualquer memória da sua origem. Musicalmente, estamos ainda nos anos 90, apesar do sucesso do gosto pelo underground (indie=pop), inimaginável uma década atrás.
Uma geração extremamente conservadora e conformista, a que nasceu nos anos 80-90. Não se deixe enganar pelas aparências. A única pergunta que ela realmente faz a si mesma é “por que devo questionar?” E os mais novos, nascidos depois de 2000, perguntam coisas do tipo (o caso é real): “como vocês ficavam online antes da Internet?” Eles fazem parte da geração atual, que nasceu conectada, e que sequer pode imaginar uma sociedade offline.
(Não é fácil dizer se isso desembocará numa era de pessimismo, saudável ou não, dado o movimento pendular das visões de mundo. Alguém disse que a crise econômica pode despertar questionamentos. Não duvido. Mas sou “individualista” a ponto de só acreditar em pessoas concretas, e de afastar prudentemente, quando se torna perigosa, a divisão ingênua entre pessimistas e otimistas).
Mesmo assim, espero a volta da pergunta e do questionável ao amado mundo dos i-phones. Isso me lembra a especulação de um matemático dos anos 80: como seria a vida de um objeto tridimensional num mundo bidimensional?
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Dois anos sem Bruno Tolentino
Data do post: 27 de junho de 2009
“(…) e o mundo é cada vez mais estrangeiro”.
Soneto 99 de A Imitação da Música (in: O Mundo como Idéia)
Toda vez que alguém me pergunta sobre ou então me lembro da minha convivência com Bruno Tolentino, chego sempre à seguinte conclusão: ele foi o único sujeito de quem posso dizer com certeza que era um gênio.
Mas hoje, dois anos depois de sua morte, não sei se responderia da mesma forma. É claro que Bruno era, de facto e de jure, aquilo que, na falta de expressão melhor, chamaríamos de “gênio” – até porque era realmente capaz de momentos brilhantes e de momentos em que era nada mais nada menos que “genioso”. Entretanto, depois de ter muito meditado sobre o uso e o abuso desta palavra – até mesmo Arnaldo Jabor conseguiu torná-la insuportável quando elogia alguém em suas colunas ou em declarações na televisão – creio que Bruno Tolentino não era apenas um “gênio”. Era, sobretudo, e aqui plagio descaradamente o ensaio de Joseph Brodsky sobre W. H. Auden (por sua vez, um exemplo para Bruno), a pessoa mais inteligente que já conheci – e acho que não conhecerei outra.
Explico-me: como já disse uma vez aqui, creio que o “gênio” é uma espécie de ruptura, não de continuidade, dentro do continuum da tradição de um país ou de vários países – aquilo que denominaremos mais tarde, se tudo der certo, de “civilização”. O próprio Bruno, alías, baseou a sua argumentação de polêmica cultural neste princípio ao se confrontar com o concretismo em Os Sapos de Ontem; para ele, os irmãos Campos eram uma ruptura para pior, herdeiros da anti-tradição do Modernismo de 1922, enquanto o modernismo europeu (o de Eliot e de Yeats) era um diálogo com a tradição ocidental e também a sua superação. O exemplo mais próximo que tivemos nesta linha foi a chamada Geração de 45, com Cecília Meirelles, João Cabral de Melo Neto e Murilo Mendes, sem contar, claro, com os inclassificáveis Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira.
Se estes poetas não eram propriamente “gênios”, eram também pessoas inteligentes que construíram uma obra idem porque preservavam a estrutura da língua e da linguagem – algo que os concretistas sempre quiseram derrubar com a chamada “morte do verso”. Mas este não é o xis da questão: para mim, Bruno Tolentino não pode ser catalogado como um “gênio” porque sua obra – um verdadeiro enigma para as limitações provincianas da nossa intelligenstia – cumpre exatamente aquilo que esperamos de pessoas inteligentes. Mas o que seria isso – ser inteligente?
Uma pessoa inteligente caracteriza-se por estar disposta a estar aberta à verdade do real – e esta verdade pode ser expressada por um paradoxo terrível que Bruno sabia muito bem como comunicar com o uso do famoso adágio lux sine umbra non est. Não há luz sem sombra. Ele foi a pessoa mais inteligente que conheci porque era capaz, muitas vezes em uma questão de segundos, de agarrar a essência de uma pessoa ou de um problema intelectual, e defini-la de um modo supreendente para todos, sem ser abstrato, chegando ao ponto de usar a linguagem chula. Uma tarde, por exemplo, enquanto conversávamos sobre um jovem poeta que era aclamado pela crítica nacional, Bruno definiu a sua poesia da seguinte forma: “Esse sujeito é incapaz de pedir uma pizza pelo telefone” (E era verdade: os versos daquele sujeito pareciam ser de alguém que preferiu a dislexia como modo de vida). Mas é claro que essa atitude – que era honesta e impiedosa, chegando ao limite da insensibilidade com muitas pessoas que realmente o admiravam – não era somente uma grife de gypsy-scholar metido a besta. Era sobretudo um princípio moral: Bruno Tolentino sabia que a vida era um palco de luz e sombra, ambas misturadas, e que a função do poeta era trazer ao leitor aquela firmeza de alma que só um permanente state of wonder pode provocar nas pessoas, e isso quando elas decidem ver o mundo tal como é – e não como eles querem que seja.
Se Bruno fosse um “gênio”, sua obra teria fracassado – o que não acontece porque ela é um portal para novas descobertas, não o fim de uma era. Cada vez que releio um poema, um ensaio ou estudo um verso tolentiniano, percebo que Bruno não só dialogava com toda a tradição – de Machado de Assis a Yves Bonnefoy, passando por Santa Teresa D´Ávila e Charles Baudelaire – mas também sempre desbravava um novo caminho para os novos poetas. Há, contudo, sempre um pseudo-contraponto. Li recentemente um artigo escrito por um desses “falsos novos poetas” badalados por essas editoras de butique, que, a partir da análise de um único soneto de A Imitação do Amanhecer, já diagnosticava que Bruno Tolentino era um fóssil do passado. Uma verdadeira estultice: como analisar a obra de um sujeito através de um soneto de um livro que é, na verdade, um painel de mais de 537 sonetos? O que falta a este rapaz é a apreensão de que a obra de Bruno exige do leitor a aceitação do mesmo princípio moral que o guiou em sua complicada vida: o de que a vida (e a poesia) tem uma margem de ambigüidade inexplicável – e que as coisas não podem ser definidas tão facilmente.
Desta maneira, creio que Bruno Tolentino não foi um “gênio”, mas sim uma pessoa extremamente inteligente que criou uma obra genial. Este paradoxo – tão comum em seus versos e em sua postura diante das outras pessoas – mostra a dificuldade de entender o que ele queria. Bruno foi um homem muito solitário – e talvez esta tenha sido a sua verdadeira tragédia. Mas, mesmo assim, não desistiu: a sua inteligência o fez ser mais que um professor – era também um “educador de sensibilidades”. Ele nos fazia retornar à experiência verdadeira da poesia e nos forçava a ver que a arte tinha uma dinâmica particular que não podia ser insultada. Isto foi, alías, o meu primeiro insight para sentir sua ausência quando, um dia, ao escutar uma excelente palestra de um amigo meu sobre Hamlet em um ambiente repleto de supostos magistrados, chegou o momento dos debatedores. Era uma mulher e um homem: ela era uma juíza federal, cheia de referências aos Derrida-e-desce e aos Foucaults da vida, e ele era um advogado beletrista, sócio de uma importante casa de cursos. A juíza fez uma palestra de quase uma hora sobre como a peça de Hamlet deveria ser chamada de Ofélia porque Shakespeare era, afinal de contas, um machista misógino, enquanto o tal advogado perguntou ao palestrante se era possível uma interpretação GLS de Hamlet. Fiquei chocado que alguém se aventurasse a fazer tal pergunta; certamente, se Bruno estivesse vivo e ali presente, levantaria-se de imediato e daria um safanão na cara do sujeito. Claro que o motivo não seria apenas a polêmica pela polêmica – acusação injusta que atingiu postumamente a obra de Bruno. A verdadeira razão seria essa “educação de sensibilidade” que Bruno cultivava em cada um que conhecia e que ele fazia questão de extrair em conjunto sobre os mais variados assuntos: desde como era trabalhar com Auden, passando sobre como era uma conversa com Bonnefoy e Geoffrey Hill, até o vislumbre de um detalhe em um quadro de Uccello e, sem dúvida, o respeito que devemos ter com a luz do dia que some em um pôr-do-sol.
Confesso que só fui sentir falta de Bruno muitos meses depois da sua partida porque, de certa forma, a sua obra inteira nos ensinou a ficarmos preparados para a sua morte. Mas não era algo mórbido: quando leio O Mundo como Idéia ou As Horas de Katharina tenho a impressão de que, apesar de seu sentimento trágico da vida, Bruno Tolentino sabia que ela valia muito a pena. Não é à toa que resistiu a uma doença cruel até o fim, independentemente do sofrimento – do qual saiu irreconhecível, mesmo para os seus amigos mais próximos. Havia uma perseverança nele que, sem dúvida, deixava todos espantados – e que talvez não fosse deste mundo.
Assim, à guisa de despedida, deixo-lhes a seguinte citação:
“Ele foi um grande poeta (a única coisa que está errada com esta frase é o tempo de seu verbo, já que a natureza da linguagem faz com que o que alguém realiza em seu contexto permaneça invariavelmente no presente), e me considero intensamente afortunado por tê-lo conhecido. Mas mesmo que não o tivesse encontrado de todo, ainda me restaria a realidade de sua obra. Devemos agradecer ao destino por termos sido expostos a esta realidade, pela generosidade dessas dádivas, mais preciosas ainda porque não se destinavam a alguém em particular. Podemos dizer que se tratava de uma generosidade do espírito, só que o espírito sempre precisa de um homem para refratar-se através dele. Não é o homem que se torna sagrado devido a esta refração: é o espírito que, assim, se torna mais humano e compreensível. Isto – e o fato de que o homem é finito – já bastaria para nos fazer venerar este poeta”.
As palavras são de Joseph Brodsky e são sobre W.H. Auden. Mas eu não mudaria uma linha, pois dizem a mesma coisa sobre Bruno Tolentino. Independentemente de ser um gênio ou uma pessoa inteligente, o fato é que era um grande poeta – e um dos maiores, em qualquer língua. E quando os grandes poetas se encontram, seja lá onde estão, sabemos que são um dos poucos grupos – junto com os santos e os mártires – que podem dizer com certeza que, independentemente das sombras dentro das luzes existentes em nossas vidas, eles realmente venceram o mundo.
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From Russia With Love
Vejo com interesse a notícia de que algumas agências de turismo russas vêm oferecendo cruzeiros na costa da Somália, a clientes que pagam pequenas fortunas para participar de viagens de caça aos piratas que aterrorizam a região.
São iates fortemente armados que percorrem e patrulham calmamente – a menos de 5 milhas náuticas – uma das rotas marítimas mais perigosas do mundo (Djibouti a Mombasa), à espera de eventuais ataques dos famigerados piratas africanos. Uma vez abordados pelos bandidos, os barcos respondem com lançadores de granadas, metralhadoras e até pequenos mísseis.
A partir daí, surgem problemas bastante interessantes. Sem pensar muito especificamente nas questões técnicas de Direito Internacional, o que dizem disso os liberais e libertários em vocês? O Estado deveria interferir e proibir esse tipo de coisa? É moralmente admissível, em se tratando “apenas de uma reação”? Cartas para a redação.
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Os reis também morrem
Data do post: 25 de junho de 2009
Se alguém duvidava de que estavámos a ficar velhos, eis a prova: morreu Michael Jackson. Tudo bem: ele já estava em decadência há muito tempo (e colocarem a Sandy, o Gilberto Gil e a Cláudia Leitte como “artistas” ideais para comentar sobre sua morte é a prova disso), mas foi também responsável por duas obras-primas do pop - Off the Wall e Thriller. É claro que ele não teria conseguido nada disso se não tivesse a grande ajuda de Quincy Jones; é claro que ele decidiu por um tipo de vida que não era a mais indicada para a maioria dos seres humanos; mas quem não se lembra do dia em que pediu para ganhar ou ganhou ou até mesmo comprou o vinil de Thriller? Michael Jackson é o que sobrou da nossa infância: algo retorcido, inacabado, trágico. Sua morte é a comprovação de que, se os reis morrem, o mesmo pode acontecer conosco e, por isso, devemos aproveitar a vida em seu equilíbrio e em sua alegria. Como diria Cervantes no final de Dom Quixote: Vale.
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O mercado não opera milagres, mas é movido pela fé
Data do post:
Abrir um negócio próprio é, sem dúvida, uma loucura. Não há garantia de sucesso; paga-se antes para contratar funcionários e comprar máquinas e materiais sem saber se o produto final agradará aos consumidores, ou que será sequer conhecido por eles. Tantos são os que dão errado!
E, mesmo assim, novas iniciativas ainda surgem; novos e velhos empreendedores dão a cara para bater em projetos audaciosos. Sem dúvida, trata-se de um ato de fé. Quem descreve melhor a posição singular do empreendedor no mercado é Lew Rockwell, conhecido do público internauta libertário, e provavelmente desconhecido de todo o resto.
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Em Portugal, 20 anos atrás…
Data do post:
Somente há pouco tempo conheci a extinta Revista K, editada em Portugal entre 1990 e 1993, com ensaios e artigos de Miguel Esteves Cardoso, Vasco Pulido Valente, Augustina Bessa-Luís, Carlos Quevedo e Francisco José Viegas, entre outros grandes.
Aqui você encontra muitos dos textos originais – alguns engraçadíssimos e politicamente-incorretos ao extremo -, outros comoventes, como este - do MEC – sobre a ingrata profissão dos agentes funerários:
“Percebe-se assim que, para ele, como para os agentes funerários dignos desse nome, a morte é um instante, por onde espreita a verdade que pode haver numa vida. O que comove não é a morte nem a ausência de quem morre – é a incapacidade de aceitá-la (ou acreditar nela) de quem fica. [...]
Mas não se pode fazer sem sofrimento, sem respeito, sem revolta, sem solidão. É por estas razões que os enterros mais bonitos e comoventes são, para os agentes funerários, os das freiras e das crianças. É porque neles a morte é mais evidente. Mais evidente para os homens. E mais evidente para Deus. É quase como uma prova de vida”.
Ou esta entrevista demolidora com Pedro Santana Lopes, Secretário de Estado da Cultura à época, em que o homem é praticamente acusado de analfabeto por não ter lido Proust e Joyce.
Por fim, deixo-lhes o editorial da edição nº 01, publicada há quase vinte anos, que dá bem a ver o espírito da coisa toda:
“Desinformação
Vivemos na idade da informação. Nunca foi tão fácil a tantas pessoas estarem tão bem informadas acerca de tantos assuntos. Óptimo. O pior é aceitarmos acriticamente que a informação é sempre boa, útil e formativa. A verdade é que nunca houve tantas bestas bem informadas. É muito mais fácil uma pessoa informar-se sobre um assunto do que pensar acerca dele. A partir de certa altura, um excesso de informação pode prejudicar a compreensão de dado acontecimento. Hoje, muitas pessoas informam-se em vez de tentar compreender. É a mulher que sabe tudo acerca dos filmes em cartaz, mas não viu nenhum. É o homem que segue cada passo dos acontecimentos na Roménia sem parar para tentar compreender o que se passa. É o jurista que conhece toda a legislação mas é incapaz de ter uma discussão sobre conceitos de justiça.
A informação pode ser brutal ao ponto de prejudicar a comunicação. As notícias, em vez de serem pontos de partida, tornam-se em fins. As pessoas, em vez de discutirem eventos e significados, partilham conhecimentos. Em vez de produzirem argumentos, reproduzem factos. Através da mera partilha de informação cria-se assim uma comunidade artificial.
Não há expressão mais mentirosa do que ‘comunicação social’. Que comunicação existe? Apenas se comunica a – não se comunica com. Isto é, não se comunica. Informa-se. O mal está no facto de não haver reciprocidade.
Claro que os chamados meios de comunicação social não ouvem o público a que se dirigem. O velho lugar-comum do ‘diálogo com o leitor’ é uma treta em que ninguém acredita. O mal é que a indiferença com que se distingue quantidade e qualidade de informação torna cada vez mais difícil ao cidadão médio ter opiniões pessoais acerca do que o rodeia.
Há qualquer coisa de arrogante e insuportável no acto de ‘informar’, tal qual ele se concebe modernamente, cheio de gráficos, sondagens, esquemas e painéis equilibrados. Há uma pretensão de definição e cobertura que, além de ridícula, parece violenta, por não admitir discussão. A discussão já surge ‘feita’. O leitor limita-se a escolher uma das posições.
Esta revista vai ser mais comunicativa do que informativa. O nosso objectivo não é sermos respeitados, compreendidos, seguidos, ou representados ou definitivos – é sermos lidos” (in K, nº 01, outubro de 1990).
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O lançamento do ano
Data do post: 24 de junho de 2009
Alguém tem a mínima noção do que significa a publicação disso aqui no Brasil?
P.S. A Editora Loyola informou que a data de lançamento de “Ordem e História I – Israel e a Revelação” será no dia 03 de julho. E mais: os outros quatro tomos da série também já estão na programação de lançamento deste ano.
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Exposição imperdível da arte medieval…. bem longe daqui
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Que bela nova exposição no Metropolitan de Nova Iorque: 50 desenhos da Idade Média feitos por monges ao longo de 5 séculos. E não é que eles sabiam desenhar? Para aqueles que, como eu, não têm conexão direta e imediata para a grande maçã, há um pequeno slide-show com alguns dos desenhos da exposição – quem não tem dinheiro para comprar o produto, que se satisfaça com a amostra grátis!
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Elogio do insulto
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Bem, não tivemos em nossa última edição o elogio do jeitinho? Agora teremos a defesa da polêmica, do humor escrachado, do palavrão desequilibrado, do sarcasmo – enfim, de tudo aquilo que o jornalismo cultural (em especial, o tupiniquim) evita como o diabo que foge da cruz. Lá na terra de Obamis, tivemos o caso de David Denby, que resolveu publicar um pequeno livro contra uma determinada espécie de polemista: o snark. O termo parece ter saído do Finnegans Wake, de James Joyce, e significa mais ou menos o seguinte: para Denby, existe um tipo de polêmica cultural que infecta os meios intelectuais e que é nociva porque incentiva o xingamento pelo xingamento, o sarcasmo pelo sarcasmo – ou seja, a diversão de ofender o seu adversário sem se importar se ele tem alguma dignidade.
Ao que parece, o livro de Denby – crítico de cinema da The New Yorker que não hesitou em fazer as suas polêmicas sobre alguns filmes – foi um fracasso de público e de crítica (é só ler as resenhas dos leitores da Amazon). Não é por acaso: apesar da maioria dos americanos achar que Obamis é o salvador do mundo, alguns ainda acreditam que uma boa polêmica é sempre igual a uma boa porrada. Os EUA sempre foram uma nação dominada pela luta intestina entre suas várias facções políticas, que muitas vezes terminam em tragédias (é só lembrar das lutas raciais e dos atentados contra vários presidentes), outras vezes terminam em reformas fundamentais para a estrutura democrática (é o exemplo do debate em torno da Constituição que aconteceu na década de 1780).
Mas há algo mais para a defesa da polêmica, do sarcasmo e do insulto no ambiente cultural. Sem estas três características, não poderíamos recuperar a nossa própria humanidade. A tese não é minha, mas sim de Nicholas Desai, autor de um excelente ensaio sobre Aleksander Solzhenitsyn, o responsável por esse grande livro de mártires que é Arquipélago Gulag. De acordo com Desai, em resposta ao argumento de Denby, Solzhenitsyn é um excelente exemplo de snark russo, que usou do sarcasmo e até da ofensa (afinal, o russo foi para um gulag justamente porque fez uma piada a respeito de Stálin) para relembrar ao leitor da crueldade que o totalitarismo estava a provocar com a Rússia. Desai exemplifica:
One of the funniest (and snarkiest) passages in the whole book describes how the Tsarist justice system dealt with Lenin before the revolution. After relating, among other things, how under communism entire peasant families were executed for “hoarding” the crops they hoped to subsist on, Solzhenitsyn describes the ordeals of the young Vladimir this way:
…he was merely expelled. Such cruelty! Yes, but he was also banished….To Sakhalin? No, to the family estate of Kokushkino, where he intended to spend the summer anyway. He wanted to work, so they gave him an opportunity….To fell trees in the frozen north? No, to practice law in Samara, where he was simultaneously active in illegal political circles. After this he was allowed to take his examinations at St. Petersburg University as an external student. (With his curriculum vitae? What was the Special section thinking of?)
That dismissive “Such cruelty!” is related to what is one of his strangest rhetorical effects, namely how when describing the remorseless cruelty of the Soviet system, he seems almost, but not quite, to convey admiration for their total lack of scruples. This black humor is just one element of tone that achieves a chord-like complexity, giving the lie to the notion that snark is always simple.
Ou seja: um mundo cultural destituído de polêmica e de insultos é um mundo que começa a perder a sua humanidade. No Brasil, o caso é de uma patologia clássica: todo mundo agrada todo mundo e, quando há sempre um outcast que resolve furar o bloqueio, sacam misteriosamente um abaixo-assinado ou chamam as forças da mídia para a realização de um manifesto ou de uma passeata. Nem sequer é uma espécie de “patrulha ideológica”; é um exemplo cristalino de “egocentrismo cognitivo“, para usar o termo de Richard Landes. O intelectual ou jornalista brasileiro só vê o que quer porque é a única coisa que o seu mundinho fashion permite. Ao contrário dos EUA, o meio cultural brasileiro sempre preferiu a conciliação e, exceto por um ou outro evento, nunca houve um embate intelectual de grande porte por essas plagas.
Aqui, se alguém parte para a verdadeira porrada, logo é tratado como “louco”, “grosso”, “paranóico” – termos vazios de sentido que atingem a pessoa, nunca o que ela está a discutir. Com este tipo de argumentação, a única coisa que resta para os poucos snarks nacionais é mandar seus oponentes para o lugar que merecem. Afinal de contas, a humanidade só recupera o que é seu se levar um bom pontapé na bunda.
E nem preciso dizer que, da minha parte, se alguém me chamar da mesma coisa, quero mais é que tome um piparote na testa.
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