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Viagem à Itália II – O Natal é para todos

Arquivado em: Sociedade incluído por Guilherme Malzoni Rabello
Data do post: 26 de fevereiro de 2010

Um mês foi o tempo que passei na Itália; um mês é o tempo que passou desde o primeiro post sobre a viagem. Mas viajar não é bater ponto, e escrever é aceitar que o tempo passa.

Então voltemos a uma tarde chuvosa. Havíamos almoçado no Trastevere e a garoinha que caía não deixou dúvidas quando um taxi apareceu. Era véspera de Natal e todos me diziam que seria impossível conseguir um taxi às nove da noite para ir ao Vaticano. Perguntei ao motorista se era mesmo tão difícil:

- Ma certo… C’é Natale per tutti!

- Vabbè… ma non ci sono taxisti mussulmani?

- Èh… ma non è tanto una questione religiosa… Perchè oggi c’è da mangiare. [vira para trás como se a rua fosse um detalhe desprezível]. È Il giorno che si mangia di più in tutto l`anno!

Isso me lembra da resposta dos italianos à proibição de cruzes em locais públicos e todo o rebuliço que se seguiu: prefeitos indignados, senhoras chorando, cruzes de 10m em praça pública, etc. e etc. O pessoal da Dicta ficou todo contente, como se fosse um gesto realmente heróico. Não sei não, acho que mais preciso foi meu taxista: non è tanto una questione religiosa, perchè c’è da mangiare!

Por lá, nada substitui a teatralidade do gesto; e nada passa muito da teatralidade do gesto…

*****

25.12.2009

- Hai vissuto un giorno storico ieri!

- Non lo sai, Principe, ero proprio li. La ragazza era a due passi di me!

Essas foram as únicas palavras que consegui dizer ao anfitrião no almoço de Natal – e elas não expressam completamente a frustração da noite anterior. Ao contrário do que havia previsto o taxista no Trastevere, encontrar um taxi foi a parte mais fácil daquela noite.

No dia anterior havia conseguido um convite todo especial para a Missa do Galo. Vermelho. Com lugar marcado. Na décima segunda fila. Tudo indicava que seria uma noite de Natal muito especial – e não seria um atraso a acabar com o programa. A missa começaria às dez da noite e o convite avisava que “a entrada será permitida a partir das 20hs30″. “Vamos chegar às nove; é cedo o suficiente para não correr risco e, afinal, temos lugar marcado” –  foi o que pensei. Mas não o que aconteceu.

Chegamos à Piazza San Pietro e o que impressionou não foram as colunas de Bernini, mas uma fila que fazia um caracol de duas voltas entre elas. “Mas meu convite é vermelho”. Perguntei a um guarda onde seria a entrada e ele começou a acompanhar a fila com os olhos: era a mesma para todos. Pensei em furar a maldita, mas logo senti um misto de vergonha e medo – “furar fila de missa é Inferno na certa!”

Quarenta e cinco minutos se passaram e quando finalmente entramos na basílica uma sensação especial tomou conta de todos. Era como se estivéssemos na final do campeonato italiano, Roma x Lazio. Eu devia mesmo era ter furado aquela fila e chegado ao meu lugar em paz. Mas que nada, nesse momento até as Carmelitas davam cotoveladas umas nas outras para garantir o seu cantinho. Uma desordem completa.

Oito cotoveladas depois, cheguei à lateral da igreja rumo ao bendito lugar marcado, mas agora para ouvir da guarda papal que não poderíamos entrar. “É uma questão de segurança. O papa está chegando e lá dentro já está tudo lotado”, dizia o mais bravo. “Daqui a pouco a gente dá um jeito”, dizia o outro, mais caridoso com as várias pessoas que como eu tinham ficado presas naquela fila sem sentido.

E de repente entra o Papa. Agora sim uma comoção real, capaz até de ultrapassar a coluna que bloqueava completamente minha visão da cena.  Foi sem ver nada que ouvi apenas um grito histérico, seguido de um silêncio completo. Devem ter tido vários gritos e o silêncio certamente não foi completo. Mas não importa: para mim foi um grito e o mais completo silêncio. Vocês lembram da história. Só voltei ao normal quando cinco guardas passaram exatamente na minha frente arrastando uma moça com a brutalidade esperada para ocasião.

“Viva il Papa”. E a multidão respondeu: “Viva il Papa”. A música voltou a tocar e minha esperança de chegar ao lugar foi embora junto com o Cardeal que passou numa cadeira de rodas. O papa levantou, a missa prosseguiu e tudo o que conseguia ver era uma coluna da Basílica de San Pietro. Ainda tentei achar um lugar, furar o bloqueio, subornar o guarda… Não, antes de subornar o guarda simplesmente reconheci que todo aquele teatro – a fila, a multidão, a louca – tinham acabado com minha chance de assistir à Missa do Galo. Fui-me embora.

*****

“Mas e o Príncipe?” – dirá o leitor curioso.

Na Itália é assim: nada passa da teatralidade do gesto porque tudo está na teatralidade do gesto.


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Crianças infelizes

Arquivado em: Sociedade incluído por Joel Pinheiro
Data do post:

Se há uma manobra retórica que me irrita muito, e cria em mim profunda antipatia pelo texto e seu autor, é apelar para a segurança e bem-estar “das crianças”. É uma demagogia barata, que visa gerar, como resposta emocional automática e socialmente obrigatória, a indignação moral mais vulgar nos leitores.

Contudo, há também a preocupação legítima com as crianças. E, em nossos dias, é bastante evidente que algo de fato não vai bem com a molecada.  Uma recente pesquisa revela que as crianças inglesas estão crescentemente infelizes com a vida. Se feita em outros países, arrisco, os resultados não seriam muito diferentes; embora admita que a Inglaterra atual esteja sempre um passo a frente do resto do mundo quando o assunto é decadência social. Outra novidade é que 1 em cada 20 alunos do ensino secundário (11 aos 18 anos) ficou bêbado de duas a três vezes no último mês. Não acho que é preciso ser um reacionário de direita para achar ruim uma juventude cada vez mais alcoólatra, obesa, consumista, imediatista, ignorante, violenta, baderneira e mal-educada.

O governo inglês, sempre prestativo, concorda com o diagnóstico e, tomando a dianteira, já tem planos para corrigir essa tendência preocupante. Implementará, no currículo das escolas de todo o país, “aulas de felicidade”, cursos de saúde, economia pessoal e educação social. Será que vai funcionar?


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O bardo da entropia nacional

Arquivado em: Literatura incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 25 de fevereiro de 2010

Existem momentos na história brasileira que sequer passam pela cabeça de um historiador que deveriam ser analisados. São lacunas em nossa visão-de-mundo que ainda não percebemos e, quando isso acontecer, tenho a impressão de que será tarde demais. Para muitos, nossa história pára em 1964, quiçá em 1968. Desta data em diante não sabemos de mais nada; e conta-se nos dedos quantos estudiosos resolveram fazer uma  (boa) análise do período dos nossos últimos vinte anos – no caso, de 1989 até o presente momento.

A literatura pode suprir esta lacuna – não por ser um reflexo de anseios sociais, como supõem os acadêmicos calcados em seu padrão marxista, mas sim por ser a radiografia de crises muito mais profundas, crises que realmente importam ao indivíduo, crises que atingem as nossas perturbações mais sérias.

A tristeza é que, aparentemente, nem sequer tivemos essa literatura. Durante os últimos vinte anos, ficamos atrasados em relação a tudo o que importa no mundo das letras; enquanto a Itália tinha um Claudio Magris, nós nos encantávamos com Miltom Hatoum; enquanto os EUA têm um Thomas Pynchon, um Don DeLillo, um David Foster Wallace, um Russell Banks, preferimos paparicar Chico Buarque; quando a França apresentava um Jonathan Littell, com seu As Benevolentes, o consumado exemplo do escritor de talento globetrotter, resolvemos criar a Geração 90 e acreditar que escrever sobre favelados, prostitutas, jovens que escrevem em blogues, era tudo o que a literatura deveria ser; até de Portugal quisemos o exemplo errado a seguir – se Antonio Lobo Antunes ou um José Cardoso Pires lançava um novo romance, logo os jogávamos à sombra e alçávamos José Saramago nas alturas. Da América Latina é melhor nem comentar; colocamos as inquietações de um Vargas Llosa à serviço de um Garcia Márquez e sequer nos preocupamos em saber o que acontece na Argentina, no Chile e outros países que consideramos como vizinhos.

A literatura nacional ficou reduzida a uma falta de ambição intelectual e, sobretudo, a uma falta de humor que chega às raias do insuportável. Por humor entenda-se não aquele que provoca gargalhadas tolas, mas sim àquele que nos faz pensar a partir de um certo absurdo da condição humana. Não precisa nem rir; basta ver as coisas pelo seu avesso, algo que, atualmente, é impossível para qualquer brasileiro, pois, como diria Paulo Francis, “a ironia é uma espécie de segredo na pátria amada”. Leia mais…


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Uma longa tarde de compras

Arquivado em: Geral incluído por Guilherme Malzoni Rabello
Data do post: 24 de fevereiro de 2010

Hoje tive uma longuíssima tarde de compras e não poderia deixar a dica passar. Até sexta-feira (26/02), a loja online da Oxford University Press oferece uma impressionante Winter Sale. Para vocês terem uma idéia, aí vão algumas das minhas aquisições:

- The Oxford Book of Essays – 706 págs. –  £3.37

- The Major Works – Alexander Pope – 768 págs. – £2.74

- The Poems of Catullus – 224 págs. – £1.74

- The Oxford Book of Comic Verse – 560 págs. – £2.62

Avoid Boring People – James D. Watson – 368 págs. – £3.74

Foi difícil, mas consegui chegar ao fim da tarde com 12 livros a mais e umas 90 libras a menos (nem tudo é tão barato). O envio para o Brasil custa £9.00, não importa quantos livros. Aproveitem!


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Herança e mérito

Arquivado em: Sociedade incluído por Joel Pinheiro
Data do post:
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A composição da elite americana tem mudado. O poder não está mais nas mãos de umas poucas famílias (majoritariamente protestantes e brancas) cujos filhos podiam ter a certeza de herdar o poder dos pais – entrada garantida nas melhores universidades, altos cargos da política, direção das grandes empresas, financeiras e bancos. Ele é cada vez mais acessível a quem provar o  mérito próprio; isto é, a quem tiver o melhor desempenho na escola e, em seguida, nas melhores faculdades.

Mas será que a nova elite, meritocrática, é melhor do que a antiga, hereditária? David Brooks, do New York Times, tem suas dúvidas.

Afinal, no que consiste esse “mérito” que tem permitido a ascenção social? No domínio de técnicas e conhecimentos específicos da área em que se quer trabalhar; o político de hoje em dia é o político profissional, que domina a técnica da política; e o mesmo vale para o jornalista (um caso curioso, aliás, pois a elite jornalística não era composta de gente rica – ainda assim, era um clube de difícil acesso a quem vinha de fora), para o dono ou administrador de empresas, etc.  A velha elite ao menos provia à sua descendência uma educação abrangente, capaz de lidar com grandes idéias e conceitos. A perspectiva de deixar um legado aos filhos também produzia, segundo o articulista, um incentivo em se pensar no longo prazo, ao contrário dos tecnólogos atuais, para quem – da política ao mundo financeiro – só o presente importa.

Afinal, o que era melhor (ou pior)? O privilégio hereditário, fechado e excludente, mas promotor de uma formação mais global e humana; ou a meritocracia democrática, transparente e aberta a todos, mas produtora de fileiras de mentes formatadas às suas especializações?


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Qual é a religião do seu super-herói favorito?

Arquivado em: Geral incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 23 de fevereiro de 2010
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aqui você descobrirá que:

- Super-Homem é um metodista;

- Batman é uma mistura de episcopaliano com católico;

- Wolverine é budista;

- Elektra é ortodoxa grega.

E outras cousas mui interessantes.


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Goethe e a retidão

Arquivado em: Filosofia incluído por Julio Lemos
Data do post: 22 de fevereiro de 2010

Goethe conhecia muito bem a natureza humana. Difícil dizer se foi o gênio — esse “quase mito” tipicamente romântico-germânico — ou o contato com os homens eminentes do passado e do presente que lhe trouxeram esse conhecimento.

O fato é que os dois versos a seguir estão entre os mais densos, os mais ricos em sentido da sua obra:

Ein guter Mensch, in seinem dunklen Drange,
Ist sich des rechten Weges wohl bewußt
(Faust I, 328-329).

“Um bom homem, por obscura que seja sua luta / Está ciente de que há apenas um caminho correto” (trad. livre).

Com isso Goethe revelava duas coisas: que o homem tem a sua liberdade limitada pelas circunstâncias e pela sua consciência (um duplo ‘obstáculo’, interior e exterior, mas sempre redutível à realidade); e que mesmo assim está dotado da prudência — ao menos sob a forma do dever — para decidir corretamente, mesmo que erre por algum motivo alheio ao seu controle.

Aí a tragédia e a esperança que rondam o coração do homem. Não à toa a sua obra da juventude, o “Werther”, traga já nas suas primeiras linhas a pergunta/afirmação: Bester Freund, was ist das Herz des Menschen!, que é o coração humano!


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Martin Scorsese é uma farsa?

Arquivado em: Cinema incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post:

Pelo menos é o que pergunta este texto do The League of Ordinary Gentlemen. Gosto muito de seus filmes – tenho especial predileção por A Época da Inocência (1993), geralmente subestimado em relação aos já comentados Taxi Driver e Touro Indomável – mas é evidente que Scorsese perdeu um pouco a mão nos últimos anos. Agora, com o lançamento de Shutter Island, a imprensa americana, que antes o considerava como a salvação do cinema, agora resolveu fazer a campanha de difamação, própria daqueles que pensam “vamos cuspir no prato em que comemos”. Quem estava certo era William Faulkner: “Temos que tratar o mundo como se ele fosse uma mulher muito mimada – ou seja, à base de palmadas”.


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Poland Springs

Arquivado em: História incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 20 de fevereiro de 2010
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Esta matéria séria, porém hilária, de David P. Goldman, a.k.a. Spengler, sobre o empresário de estratégias George Friedman mostra que a profecia pode ser um jogo arriscado quando se antecipa de que, dentro de cinquenta anos, a Polônia será uma potência mundial, de que teremos uma guerra entre os EUA e o eixo japonês-turco e de que o México pode ser importante na geopolítica mundial porque possuirá nove engenheiros de computação tão cruéis quanto um exército.

É ver para crer.


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Pio XII e os judeus

Arquivado em: História incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 19 de fevereiro de 2010

Está prestes a ser digitalizada a série de documentos das ações do Vaticano e do papa Pio XII durante a Segunda Guerra. Ela havia sido publicada em vários volumes há décadas, mas recebeu muito pouca atenção. Sua publicação online deve aumentar o alcance das informações lá contidas. Segundo Gary Krupp, organizador da atual empreitada (e, ele próprio, judeu), a história que emerge dos documentos é muito diferente daquela consagrada na mídia, segundo a qual o papa teria ficado em silêncio e não teria feito nada para ajudar os judeus perseguidos.


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