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Links & Notas Literárias

Filed under: Literatura incluído por Rodrigo Duarte Garcia
Data do post: 28 de março de 2010
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Na New Yorker, texto sobre os livrinhos que aqui se chamavam Enrola e Desenrola (ou algo assim). Basicamente, aquelas histórias em que o leitor pode chegar a vários finais diferentes, a depender das escolhas feitas durante o livro. Sempre achei que seria interessante que alguém escrevesse um romance filosófico desse tipo. Optou por uma solução marxista? Banho de sangue. Niilista? Sorry, pulsos cortados na banheira.

Memorial para Ted Hughes no poets corner da Abadia de Westminster. Merecido.

Mapa da evolução de certas histórias clássicas.

Foram divulgados os finalistas para o Booker Prize de 1970, que ficou sem premiados à época por conta de uma alteração de critérios. Muriel Spark entre os favoritos.

Embora já tenha sido ultra-falada, sempre vale a pena lembrar a matéria do Guardian com as dez regras para escrever ficção, segundo diversos autores. Entre outros, tem Elmore Leonard e o conselho para que nunca se abra uma história descrevendo as condições do tempo, PD James sobre a riqueza da língua inglesa, e Philip Pullman – o anti-Chesterton - que confunde witticism com grosseria.

Ao contrário da Dicta – como vocês verão -, a Rússia aparentemente vai ignorar o centenário de Tolstói.

No New York Times, Ross Douthat (ex-Atlantic) dá a lista dos dez livros que mais influenciaram sua visão de mundo. Ele fala de Tolkien, Chesterton, Paul Johnson, C.S. Lewis e Graham Greene: ”If Chesterton is the writer to read when you’re becoming a Catholic, then Greene is the writer to read when you realize — as everybody does, except (or maybe especially) the saints — that you’re going to be really, really bad at being one”.

Lendo Caçadas de Pedrinho para os meus filhos, outro dia: “Apanharam as armas e se arrojaram contra a fera com verdadeira fúria. Narizinho esfregou-lhe a faca no lombo, como se a onça fosse pão e ela quisesse tirar uma fatia. O Visconde conseguiu, depois de várias tentativas, enterrar-lhe no peito o seu sabre de arco de barril. Emília fez o mesmo com o espeto de assar frango. Pedrinho macetou-lhe o crânio com a coronha de sua espingarda. Até Rabicó perdeu o medo e depois de carregar de novo o canhão deu-lhe um bom tiro à queima-roupa. Assim atacada de todos os lados, a onça não teve remédio senão morrer. Estrebuchou e foi morrendo. Quando deu o último suspiro, Pedrinho, no maior entusiasmo de sua vida, entoou um canto de guerra: Alé guá, guá, guá… E todos responderam em coro: Hurra! Hurra! Picapau Amarelo!…” Depois de modificarem - de maneira grotesca - algumas musiquinhas infantis, e de patrulharem até a Chapeuzinho Vermelho, quando tempo para que os aiatolás do politicamente correto cheguem a Monteiro Lobato? Façam suas apostas.


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Albert Jay Nock, a massa e o “remanescente”

Filed under: História,Literatura incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 25 de março de 2010

Albert Jay Nock era o que podemos chamar de membro da velha direita americana, um tipo de pensamento quase inexistente hoje em dia, quando falar em direita significa falar de neo-conservadores, militaristas e populistas, com um certo pendor anti-intelectual.

Nock pertenceu a outro mundo: erudito, cosmopolita, crítico ferrenho do poder estatal (inclusive das guerras supostamente patrióticas) e, é preciso admitir, elitista; mas elitista do espírito! Elitista no sentido de não botar grandes esperanças na massa, isto é, na maioria da população, composta de pessoas incapazes de extrair conclusões de princípios abstratos ou, o que talvez seja até mais comum, de tornar essas conclusões algo real em suas vidas. Há, contudo, em toda e qualquer sociedade, uma minoria, um “remanescente”, um grupo de indivíduos diferenciados, totalmente desorganizado e espalhado por todos os grupos sociais (pobres, ricos, homens, mulheres, intelectuais e profissionais; a maioria de todos esses são membros da massa; um ou outro pertence ao “remanescente”), capazes de pensar seriamente e dispostos a viver de acordo com o que pensam. É o trabalho desses que sustenta espiritualmente qualquer sociedade e que lhe garante a possibilidade da permanência.

Neste artigo, de 1936, tomando inspiração no profeta Isaías, em Platão e Marco Aurélio, Nock fala da escolha que se coloca para todo intelectual ou profissional: trabalhar para a massa ou para o “remanescente”. Apelar ao mínimo denominador comum ou produzir algo de valor real; dar à massa o que ela quer ou oferecer algo que, embora acessível a todos, será querido por poucos: a excelência. É um dilema entre aparência e substância, entre fama no presente e um legado duradouro (embora talvez anônimo). Quanto à massa, quanto mais se conhece, menos esperança se tem; sobre o “remanescente”, nada se sabe fora dois fatos: 1) ele existe; 2) ele te encontrará.

Talvez seja minha formação moderna e democrática, mas tenho dificuldade em enxergar com tão maus olhos o grosso dos seres humanos. Ainda assim, o artigo tem seu poder inspirador e toca em verdades que nós, de tempos mais igualitários, temos medo de aceitar.

Versão traduzida indicada pelo leitor: http://www.aristoi.com.br/node/42


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Multiculturalismo nigeriano

Filed under: Sociedade incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 24 de março de 2010

Joseph Bottum vê e afirma uma verdade óbvia (que é a mais difícil de ser aceita quando o valor máximo socialmente imposto é não ferir a sensibilidade alheia): os confrontos religiosos na Nigéria… têm motivação religiosa.


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O Batismo dos Incautos

Filed under: Literatura incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 23 de março de 2010

Em Contra o Brasil, último romance escrito por Diogo Mainardi, somos apresentados na cena inicial a Pimenta Bueno, uma mistura de Macunaíma urbano com a idéia-fixa de um Policarpo Quaresma. Ele está deitado languidamente em seu escritório e ensaia alguns versos decassílabos para a realização de uma epópeia que provará que o Brasil nunca teve jeito. No transcorrer do romance, não consegue passar do décimo verso e qualquer outro projeto seu, como o próprio país onde vive, naufraga sem misericórdia.

Marco Catalão, com seu O Cânone Acidental (É Realizações, 2010), consegue realizar o intento de Pimenta Bueno – com a diferença de que este último nunca chegaria aos pés da excelência técnica e mestria estilística do primeiro. A começar pelo título, uma verdadeira declaração de princípios que não tem nada de aleatório, Catalão faz uma radiografia estética, política e moral do nosso Brasil brasileiro – e seu diagnóstico não é nada agradável para quem ainda nutre sonhos em relação a este país.

Ao fazer trocadilho infame com o livro de Harold Bloom, O Cânone Ocidental, mas ao mesmo tempo repleto de segundas intenções, Catalão se apropria dos topoi e estilos clássicos – como o soneto camoniano, a redondilha árcade, as canções de escárnio, os versos livres de Bandeira, o estilo seco de João Cabral, o ceticismo de um Drummond, o epigrama de um Horácio – para emulá-los e depois transformá-los em material próprio, incorporando-os na linguagem contemporânea, vista aqui com um cinismo que não deixa nada a dever a um Karl Kraus.

O “acidental” está no fato de que a própria poesia contemporânea – da qual Catalão faz parte, quer queira ou não – esqueceu-se deliberadamente de toda essa tradição. O que antes marcava a poesia como a arte da auto-consciência estética, agora é apenas um acidente de percurso, mero joguete, somente uma maneira de ser classificado como “classista” e “antiquado”. O importante agora é insistir na “morte de verso” a tal ponto que um poeta no Brasil é chamado como tal somente quando mostra que sequer sabe escrever um mero hexassílabo.

Contudo, para Marco Catalão, a poesia e o cânone da tradição não têm nada de acidentais. Ele mostra que sabe fazer versos logo no poema de abertura, Síndrome do Pânico:

“Conheci o Brasil que não dá ibope
e tive medo. Como quem do morro
inutilmente grita por socorro
e sua voz se perde no po-pop

das balas dos bandidos e do Bope,
assim tive que ouvir, como um esporro
da realidade, como um sai-cachorro,
o rap do terror que a tudo entope.

Forçado a olhar sem máscaras a impura
cara da vida, suja, feia e dura,
vi o que não cabe na televisão.

Recebi o batismo dos incautos
e, incapaz de agüentar novos assaltos,
já não saio de casa desde então.”

Reparem na dicção, firme, forte, imitando o respiro de alguém que se encontra aprisionado; ao mesmo tempo, o poeta demonstra um controle de distanciamento notável, permitindo ao leitor que reflita sobre a situação narrada. Catalão consegue isso pelo efeito da emulação bem-sucedida, mas também pela ironia usada na forma como registra a linguagem coloquial, inserindo aqui e ali algumas gírias. Mas o que impressiona mesmo é a visão-de-mundo por trás de cada verso, uma visão terrível, diga-se de passagem, de verdadeiro filme de horror. A comparação não me parece ser aleatória; apesar de todo o seu humor, apesar de toda a sua limpidez de estilo, O Canone Acidental me parece muito com uma dessas películas de horror que rimos com a boca travada e um sabor agridoce na língua.

O tema do livro, desdobrado de forma obsessiva em 68 poemas, em sua maioria sonetos, é a entropia natural da condição humana – e, mais precisamente, o horror de se viver no Brasil. Há ainda uma peculiaridade: a própria emulação que Catalão faz dos topoi clássicos torna-se uma forma de criticar uma outra emulação, desta vez muito mais nociva, que existe entre as pessoas – em outras palavras: a velha e boa inveja. Isso fica explícito no poema Círculo Vicioso, uma pérola de narrativa concisa e elegante, com um arremate irônico que não deixaria nada a dever a um Gregório de Matos:

“No ônibus cheio, a diarista reclamava:
– Quem dera a minha vida fosse mansa e boa,
com carrão e piscina, como a da patroa!
Mas a patroa dizia ao marido, brava:

– Não fosse o nosso filho, eu bem que te largava,
e ia viver igual à tua amante, à toa,
sem dívida que vence, sem cheque que voa!
Mas a amante, sem conseguir dormir, sonhava:

“Ah, se eu tivesse sido menos azarada,
já estava no apogeu da carreira de artista!”.
Mas a artista, no quinto café, entediada

enquanto concedia a décima entrevista,
num momento de lucidez inusitada,
pensava: “Foda mesmo era ser diarista!”.”

Catalão parece dizer que há uma inveja toda especial e que só o brasileiro insiste em ter: aquela que nasce de um profundo desprezo pelo sentido da vida. Tudo tende a dar errado no Brasil, tudo parece estar consumido por uma espécie de “teoria da conspiração”, como alega um dos poemas de mesmo título, em que “a tentativa da revolta/ se incorpora ao enredo previsível/ e se torna somente um nó a mais/ na rede onipresente e indestrutível“.

Ainda assim, se o poeta continuasse nessa toada, O Cânone Acidental seria apenas um livro resmungão. Há também doçura em suas páginas, quando, por exemplo, Catalão brinca de Baudelaire e de Petrarca com os sonetos dedicados às suas passantes; ou então quando brinca de Dirceu e faz uma ode a uma Marília que se preocupa somente com a posteridade das revistas de fofoca. Em outros momentos, personifica Cecília Meirelles como se ela estivesse no meio de um engarrafamento na Marginal Tietê (Motivo) ou sugere ao leitor que não leia mais seu próprio livro e vá com Paulo Coelho na cabeça (Antiápice).

Tal doçura é, na verdade, um disfarce para a melancolia que impregna o livro. Como todo poeta que se preza, Marco Catalão preocupa-se com o atual estado de coisas – mas também olha para o passado e anseia algo pelo futuro. O Cânone Acidental é um batismo para os incautos que ainda acreditam que não se pode fazer mais poesia após Auschwitz; é a prova de que o verso ainda tem uma longa vida pela frente; e uma amostra de que, por mais que queiram, a poesia continuará a ser realizada por verdadeiros poetas, que não têm nada de acidentais e que estão aí para marcar um novo começo para quem quiser iniciá-lo. Basta ter ouvidos para ouvir e, principalmente, olhos para ler.


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A suma girardiana

Filed under: Literatura incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 22 de março de 2010

Se eu tivesse de indicar um livro de René Girard para o leitor iniciante, seria este: Shakespeare – Teatro da Inveja. A É Realizações prova a sua ousadia em editar esta obra fundamental, não só para quem estuda o”desejo mimético”, mas também para quem quer realmente entender o que acontece conosco.

E, para quem não sabe, a tradução ficou a cargo do nosso girardiano-mor Pedro Sette-Câmara.


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House no raio-x

Filed under: Cinema,Filosofia incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 18 de março de 2010
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Não há atualmente melhor série televisiva do que House (salvo um possível concorrente: The Good Wife). Personagens marcantes e um mistério envolvente a cada episódio levam-me à tela toda quinta à noite. E me entretém ainda mais a profundidade filosófica da série ao expor com honestidade sua concepção do ser humano e da relação entre razão e sentimentos, concepção aliás muito comum, cujos atrativos e fraquezas ficam explícitos, pois não se foge das possíveis contradições e dos becos sem-saída existenciais aos quais suas premissas básicas naturalmente levam.

Como é comum em tantas séries, House entrelaça duas narrativas: uma de curto e outra de longo prazo. A de curto prazo consiste em House e sua equipe desvendarem e curarem uma doença misteriosa a cada episódio, numa fórmula que pouco varia a cada semana. Isso permite ao espectador não-assíduo acompanhar qualquer episódio, tendo, ao fim dele, uma boa idéia do que é a série. Já a narrativa de longo prazo desenrola-se ao longo de vários episódios e até de temporadas. Nela, acompanhamos as mudanças na equipe do hospital e no relacionamento de seus membros, com o foco nos altos e baixos pessoais de House, que ora parece se afundar ainda mais em seus vícios, ora parece tornar-se, passo a passo, uma pessoa melhor. O que faz dessa série algo muito superior à média é que a narrativa de longo prazo mina e questiona as verdades tidas como evidentes na narrativa de curto prazo.

O curto prazo

O gancho que prende o espectador não é o enredo, mas os personagens, principalmente o protagonista, o médico Gregory House, que encarna à perfeição a idéia contemporânea de racionalidade: no âmbito do pensamento, a busca da verdade pelo método científico e, no da ação, a adequação de meios a fins. Nada que fuja disso é racional. A razão é entendida como oposta a sentimentos, a qualquer fé ou crença não-científica, e à moralidade (todos os três províncias das paixões). Sendo assim, a motivação de House enquanto médico não é salvar vidas (o que seria uma intromissão dos sentimentos, da empatia) mas pura e simplesmente descobrir a verdade, desvendar os enigmas apresentados pelos pacientes que lhe são encaminhados. Sua inteligência lhe permite, além disso, ser igualmente brilhante no diagnóstico das motivações humanas e dos relacionamentos alheios, que também o interessam sobretudo enquanto enigmas e objetos de manipulação. Como não poderia deixar de ser, racionalidade significa ateísmo convicto e uma visão cínica da humanidade (todo indivíduo é egoísta). O que o salva de ser insuportável é o senso de humor, que não se priva de nenhuma tirada espirituosa. Nem a paz de espírito e nem a ilusão de bondade devem vir antes da busca pela verdade que, por mais dura que seja, não nos impede de rir dela. Leia mais…


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A opção preferencial pela loucura

Filed under: Cinema incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 16 de março de 2010

Recentemente, foi publicado um texto na blogosfera que perguntava se Martin Scorsese não passava de uma farsa. Depois de ter visto Ilha do Medo (Shutter Island, 2010), creio que as suspeitas foram infundadas. É simplesmente um de seus melhores filmes, que fica anos à luz de Os infiltrados, O Aviador e Gangues de Nova York – e não deixa nada a dever ao seu cânone, composto por clássicos como Taxi Driver, Touro Indomável, Os bons companheiros e Cassino.

A obra de Scorsese peca por irregularidades. Ela não consegue, por exemplo, atingir a coesão de intensidade de um Kubrick, de um Bresson ou até mesmo de um John Ford. Existem altos e baixos – mas jamais um filme ruim ou até mesmo insuportável de assistir. Scorsese sempre quis fazer um cinema que atingisse o público no âmbito dos sentimentos e que também o completasse como autor, como um artista que usa o meio para expressar suas candentes obsessões.

Este método deu certo em Depois de Horas, Cabo do Medo (Cape Fear) e A Época da Inocência (talvez sua obra-prima e seu filme mais subestimado pela crítica), mas agora, com Ilha do Medo, ele realiza aquilo que era uma de suas intenções desde do início da carreira: o filme subversivo.

Scorsese discorre longamente sobre esse gênero perdido, que fica entre o filme B e o suspense psicológico, em seu documentário Uma viagem pessoal pelo cinema americano (1996). Para o cineasta nova-iorquino, o filme subversivo é capaz de transmitir ao público uma série de reflexões que jamais seriam compreendidas se fossem exprimidas de forma direta, justamente por seu caráter perturbador. Os temas são os mais desagradáveis possíveis: perversões sexuais, loucura, paranóia, drogas – um infinito etécetra que só precisa de uma oportunidade para que o ser humano mostre sua verdadeira natureza.

Esta é a pergunta que Scorsese lança ao espectador com Ilha do Medo: Qual é a verdadeira natureza humana? E, para isso, ele utiliza de todos os recursos cinematográficos de manipulação para que poucos percebam o que está em jogo. De cortes abruptos a uma fotografia estilizada, passando pelo uso de música clássica contemporânea, até intepretações que não têm medo de atingir o histriônico (e aqui temos de fazer justiça a Leonardo DiCaprio, que melhora a cada filme que faz – veja seu trabalho em Revolutionary Road, de Sam Mendes), Scorsese brinca com os sentidos da platéia e a faz também questionar sobre o que seria a realidade e como a apreendemos na nossa consciência.

Parece que estou a comentar um tratado filosófico – e não seria exagero fazer isso se Ilha do Medo não fosse um filme complexo que, mesmo com seu final surpresa, só pode ser apreciado após repetidas revisões. Mas, como se não bastasse,  é também um tratado de história cinematográfica: Scorsese dialoga com Fritz Lang, Samuel Fuller, Alfred Hitchcock e, de quebra, ainda faz referências à sua própria obra, ao Silêncio dos Inocentes de Jonathan Demme (o que faz ali Ted Levine, o Buffalo Bill, como diretor de segurança do presídio – e sua estranha conversa a respeito de Deus e da violência?), além de não hesitar em experimentar com a forma narrativa se for necessário, jogando a platéia em um labirinto indigesto.

A ousadia formal e temática de Ilha do Medo atinge o seu ápice quando se apresenta como uma tragédia – um gênero raro para nossos tempos pós-modernos. Não há alívio ou muito menos a possibilidade de redenção. E tudo isso por causa da escolha final do personagem de DiCaprio que não sabe se é melhor morrer como um animal ou viver como um homem bom. A pergunta trava a nossa garganta porque é a mesma que fazemos todos dias, ao acordarmos e, depois, ao dormirmos. No mundo atual, que tornou-se uma espécie de ilha do medo, a opção preferencial pela loucura é, em muitos casos, uma opção real. E quando uma obra de arte mostra esse dilema com tal presciência, a única coisa que podemos fazer é nos render e também nos perguntar se não tomaríamos a mesma decisão.


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Uma luta muito antiga…

Filed under: Religião incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 14 de março de 2010

Neste post esclarecedor, Richard Fernandez explica e comenta as raízes da luta entre cristãos e muçulmanos que desembocou, por exemplo, no massacre  de 500 pessoas que ocorreu na cidade de Jos, na Nigéria, há cerca de uma semana – e que foi tratado com desprezo pela mídia e pela casta política (obviamente, se as vítimas fossem muçulmanas e não cristãs, tenho certeza de que a reação seria diferente).

Fernandez se inspira nas observações do prof. Philip Jenkins, que afirma claramente que o futuro do Cristianismo não se encontra mais no Ocidente secularizado e sim no Terceiro Mundo africano. Vejam só um trecho:

The relationship between Christianity and Islam poses a challenge for at least half of the 20 nations expected to have the world’s largest populations by 2050. By present projections, three of these future mega-states—Nigeria, Ethiopia, and Tanzania—will be almost equally divided between the two faiths. In several others, like the Congo, the Philippines, Russia, and Uganda, predominantly Christian nations will have Muslim minorities of 10 percent or more. Mainly Muslim states will coexist with comparable Christian sub-populations in Indonesia, Egypt, and the Sudan. In all of these places, if relations between the faiths do not improve over the next 40 years, prospects for civil order are terrifying. The world’s roster of failed states would have several new members.


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Relembrando Eric Rohmer

Filed under: Cinema incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 12 de março de 2010

Porque é bom lembrar de quem sempre foi elegante com Deus e também com os homens.


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Vocação na obscuridade

Filed under: História incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 11 de março de 2010

Interessante artigo de Gary North, sobre músicos e intelectuais que trabalharam anos – ou décadas – a fio na mais completa obscuridade para serem fiéis a sua vocação, isto é, a um projeto cuja importância eles perceberam claramente e que ninguém mais no mundo se disporia a fazer. Após décadas de trabalho árduo, solitário e frequentemente não-remunerado, tendo criado uma obra respeitável ou completado um projeto visionário, morreram antes de alcançar qualquer fama (ex: o tradutor do código de Justiniano para o inglês). Mas o mundo lhes é imensamente grato pelos frutos de seus esforços. Graças à internet ou outras novas tecnologias, uma multidão pode agora se beneficiar deles.


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