Diplomacia e religião
Data do post: 30 de abril de 2010
Neste texto de Nathan Ritchen que, de certa forma, pode ser lido como uma continuação do texto que o Joel postou ontem, tenta provar, com simples palavras, que a liberdade religiosa é a única solução para uma diplomacia mais racional e razoável. Mas, na prática, não é isso o que está acontecendo:
Here is an empirical fact we must all face: the world is far more religious than secular, and to a vast global majority, religion is a realistic way of living in the world [Statistical extrapolations suggest that only 15% of the world’s population is “non-religious” while Christians, Muslims, and Hindus compose 66% of the world’s population. See Johnson and Barrett, 2001.] The United States is itself an overwhelmingly religious nation, as sociologist Peter Berger confirmed with the U.S. Religious Landscape Survey published by the Pew Forum in 2008. Consequently, any new realism must take religion seriously. The U.S. foreign policy bureaucracy, however, does not take religion as seriously as it might; Civil and Foreign Service professionals still exist who regard religion as epiphenomenal, emotive, a source only of conflict, and in the least, irrational. The disconnection between the views of U.S. foreign policymakers and their Arab Muslim counterparts on religious life is an enormous problem.
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Um católico é um islâmico é um budista?
Data do post: 29 de abril de 2010
Segundo Stephen Prothero, as religiões (mesmo as tradicionais) não são uma só, ao contrário do que disseram William Blake, Aldous Huxley e René Guénon; não partilham uma unidade de fundo. Seus conceitos mais básicos têm significados diferentes, de forma que é até difícil compará-las.
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Para quê serve a literatura?
Data do post: 27 de abril de 2010
Segundo Myron Magnet, do City Journal, praticamente tudo. A literatura nos dá um conhecimento mais profundo e útil do que a história, a filosofia, a psicologia e as ciências naturais.
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Os homens ocos da Avenida Madison
Data do post: 25 de abril de 2010

Recentemente, fiz a descoberta de dois nomes que já coloquei no panteão de gênios da sétima arte americana, ao lado de Stanley Kubrick, Martin Scorsese, Francis Ford Coppola, entre outros: David Chase e Matthew Weiner.
O primeiro é o criador e o produtor da melhor série dramática de TV da primeira década dos anos 2000: The Sopranos. Com argumentos inusitados, direção inventiva, vontade de ousar e desejo de transgredir as regras dramáticas, ela transcendia o mote a lá Mafia no Divã (mafioso-com-ataques-de-pânicos-vai-para-a-terapia) para se tornar uma reflexão angustiante sobre a geração que criou e viveu o economic meltdown que transformou o nosso mundo nos últimos dois anos.
Chase acompanhava a produção da série em todos os detalhes e dava liberdade para que os seus roteiristas fizessem o que achavam que deveria ser feito. Um desses sujeitos era Matthew Weiner, que, formado em literatura e filosofia, simplesmente ficou encarregado de escrever e produzir os melhores episódios de The Sopranos, especialmente os da última temporada, que, para quem viu, sabe que é uma das coisas mais chocantes e ambíguas já feitas em qualquer meio artístico.
Quando a série acabou, Weiner tratou logo de fazer o seu próprio show. O canal a cabo AMC então bancou Mad Men, a história de uma agência de publicidade que vive os tumultuados anos 60, com especial atenção à Era Camelot de Kennedy.
A série é um primor de roteiro e realização; está destinada a entrar no imaginário popular da mesma forma que The Sopranos. A ousadia de Weiner, que aprendeu as regras do jogo direitinho com David Chase, é dar tempo para a sua história se desenvolver sem pressa. Cada diálogo e cada silêncio têm um peso enorme no desenvolvimento dos personagens. E, além disso, há um poderoso comentário sobre como os costumes da América mudaram de forma silenciosa, sem que ninguém percebesse.
Neste texto de Ed Driscoll, que comenta os principais eventos da terceira temporada da série (atualmente em exibição na HBO brasileira), temos uma reflexão sobre como Weiner é ambicioso em seu painel histórico e como isto pode ter seus impactos na atual sociedade americana. E não se preocupe com os eventuais spoilers que o artigo de Driscoll possa contar; eles não estragam em nada o prazer de ver as aventuras e as desventuas de Don Draper.
(E quem quiser saber mais sobre Matthew Weiner, leiam esta reportagem da Vanity Fair, publicada no final da segunda temporada de Mad Men. O epísódio mais memorável é quando Weiner pede à equipe para mudar as frutas em um detalhe de cena porque elas estavam, segundo ele, “muito perfeitinhas”. A vida é breve, a arte é longa, etc. e tal)
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O escândalo do Vaticano
Data do post:
Esperei algumas semanas para encontrar um texto que fosse realista e verdadeiro sobre a praga que assolou o clima midiático a respeito das acusações de pedofilia (e pederastia, sim senhor) na Igreja Católica. Aqui está: este ensaio longo e minucioso de Joseph Bottum mostra os prismas e as nuances da situação, além de atacar o ponto principal do problema, o de que a mídia, salvo as exceções de praxe, está intoxicada pelo pensamento anti-católico como se fosse um novo ideal, uma nova forma de viver.
Eu iria além: trata-se mesmo de pensamento anti-cristão, cristofobia, para usarmos um termo próximo da patologia médica, algo que atinge indiscriminadamente protestantes, batistas, evangélicos, etc. (Querem uma prova? Quando a Folha de S. Paulo escreveu algum editorial a favor do Cristianismo? Nunca, é claro. Mas ela fez isso para o Santo Daime.) E que os esquerdófilos que visitam às vezes este espaço não me venham com o argumento de que Bottum é um “católico-conservador-conselheiro-de-Jorge-Buxí” e fiquem, por exemplo, com este trecho do texto, que cita Brendan O´Neill, editor da prestigiada Spiked On Line e, de modo algum, amigo da Igreja Católica, mas que prefere enfrentar os riscos da verdade a continuar na segurança da ilusão:
Brendan O’Neill, editor of the Spiked-Online website and no particular friend of the Church, points out that the Irish government’s official commission spent 10 years, from 1999 to 2009, intensively inviting, from Irish-born people around the world, reports of abuse at Irish religious institutions. Out of the hundreds of thousands of students who passed through Catholic schools in the 85 years from 1914 to 1999, the commission managed to gather 381 claims—with 35 percent of those charges made against lay staff and fellow pupils rather than priests.
“It might be unfashionable to say the following but it is true nonetheless,” O’Neill concludes. “Very, very small numbers of children in the care or teaching of the Catholic Church in Europe in recent decades were sexually abused, but very, very many of them actually received a decent standard of education.”
E, como bem disse O´Neill em seu artigo, quem se mostra enfraquecido com esse auto-engano não é a religião cristã, que ajuda o ser humano a reconhecer seus pecados com humildade (como o próprio Bento XVI fez na Ilha de Malta, ao chorar com as famílias das vítimas de pedofilia – e de pederastia), e sim o secularismo, que, por causa de sua costumeira hubris, entra em uma sinuca de bico (e, não, não peço perdão pelo trocadilho).
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Contra o pedantismo conservador
Data do post: 20 de abril de 2010
A primeira coisa que um esquerdista afirma sobre um conservador é que se trata de um pedante – e, lamento informá-los, ele está certo. No Brasil, e talvez em boa parte do mundo, sempre que alguém se diz conservador, católico, tradicionalista, logo imaginamos um desses sujeitos que andam com uma cruz gigante no peito, falam sempre em latim, citam Sto. Tomás e, claro, acreditam que o rock é, de fato, a música do demônio.
O estereótipo não está completamente errado; de fato, existem pessoas que vivem assim. Mas também não podemos deixar de culpar a própria elite conservadora – que, no Brasil, não há, mas que existe muito nos EUA e na Europa – de querer se exibir no seu high brow e esquecer que existem formas de cultura popular tão válidas como, por exemplo, um lied de Schubert ou um soneto de Andrew Marvell (notaram como fui propositadamente pedante neste trecho?).
É o que argumenta Andrew Klavan em seu pequeno, mas estimulante artigo para o City Journal. Só para ficar em exemplos, ele cita ninguém menos que Tom Stoppard e David Mamet como a prova de criadores que sabem equilibrar suas visões conservadoras e sua integridade artística, sem caírem na esparrela ideológica:
We might consider, for instance, that both the greatest living English playwright—Tom Stoppard—and the greatest living American playwright—David Mamet—are not only brilliant but politically conservative. We might take delight in some of the amazingly beautiful video games that allow young men to imagine themselves as American soldiers and other heroes, just as we older guys used to do while watching John Wayne and Clint Eastwood films.
Or we might consider television, which has been enjoying a startling Golden Age with great police dramas like The Wire and The Shield, soap operas like The Sopranos and The Tudors, and plenty of good straightforward comedies and mysteries like The Big Bang Theory and the new Justified. And while too much family entertainment is still marred by political correctness, there’s also wonderful stuff like Up, Ratatouille, and The Incredibles.
Da minha parte, o meu sonho atual é fazer um seriado de TV com o mesmo requinte artístico de um Sopranos ou de um Mad Men, e com um pendor para a cultura popular que não ficaria nada a dever a um Daniel Filho (sem as esquisitices espíritas de seu Chico Xavier, é claro). Alguém se habilita a financiar tal loucura?
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Teologia no American Idol
Desde que o movimento da auto-estima ganhou força (impulsionado em grande parte por Nathaniel Branden, ex-pupilo e ex-amante de Ayn Rand – para quem, inclusive, já nos anos 40 e 50, a auto-estima era um conceito importante, embora com um significado muito mais são), julgar e criticar as ações alheias é um pecado gravíssimo. Esse sentimento tem sim alguma origem no “não julgar” bíblico, mas as diferenças são mais profundas que as semelhanças.
A máxima dos evangelhos é antes de tudo um chamado à realidade, que exige, em primeiro lugar, não se deixar levar pelas aparências, mas julgar “com justiça”. Em segundo, não tomar uma ação alheia, por pior que seja, como representação fiel da totalidade do caráter do agente. Isso para criar em todos a consciência de que mesmo no pior dos próximos pode haver um valor desconhecido que o torne superior a quem o julga. A prostituta está mais próxima do céu do que o fariseu. É um alerta contra a tendência quase natural a condenar nos outros o que seria justificado em si mesmo. Julgamentos precipitados podem ferir a sensibilidade de seus alvos, mas não é para preservar o ego alheio que devemos nos abster de julgar; a meta é, antes de tudo, preservar-nos do orgulho, fonte de todos os pecados, e assim fortalecer o amor ao próximo.
Na auto-estima contemporânea, o objetivo é justamente preservar o ego alheio em seu auto-contentamento, por mais distante da realidade que esteja. Essa nova política do “não julgar” permite que cada construa para si sua bolha de ilusões e auto-justificativas sem medo de que seja estourada pelo graveto alheio. (A construção da bolha, contudo, não é um processo especificamente moderno; repete-se em cada indivíduo humano desde que as coisas deram errado num certo Jardim.) Assim, todos podem nutrir a ilusão de serem homens bons, talentosos, honestos, bem intencionados, sem medo de que apontem os defeitos que ignoram ter. Ninguém julga e ninguém é julgado; I’m ok, you’re ok; auto-estimas intactas, o rei desfila nu e todos se prostram em reverência.
Causa alguma surpresa, então, que os programas de maior sucesso da TV, reality shows, tenham o julgamento como elemento central. E mais: arrisco a dizer que a diversão de assisti-los reside exatamente na expectativa dos juízos negativos e da honestidade brutal que será desferida contra o participante indefeso. O ridículo será, finalmente, objeto de riso – a justiça será feita. O que seria do American Idol sem Simon Cowell? (Leitores de hábitos mais educados, perdoem o mergulho no que há de mais vulgar e massificado na cultura pop.) Isso revela algo sobre a constituição moral humana, ou ainda sobre a relação entre homem e Deus? O padre Robert Barron acha que sim.
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Estudos do homem
Data do post: 19 de abril de 2010
A igualdade dos sexos demanda que, já que existem incontáveis cursos de “estudos femininos”, cujo objetivo é mostrar como as mulheres foram e são injustiçadas nas sociedades ocidentais, o mesmo seja feito para os homens, uma minoria cada vez mais oprimida pelo establishment cultural. É Barbara Kay do National Post quem dá a notícia e faz o comentário, ela que tem se consagrado como crítica mordaz (ser mulher torna-a imune à condenação automática de machismo patriarcal que recairia sobre um homem que dissesse as mesmas coisas) das absurdidades e incoerências cometidas em nome do feminismo, como pode ser visto neste outro artigo.
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Aramaico ressurrecto
O aramaico, língua franca do Oriente Médio até a expansão do Islã (que trouxe consigo o árabe), hoje em dia se restringe a três vilas da Síria. Para que ele não seja completamente perdido em poucas gerações (era, afinal, a língua falada no tempo de Jesus Cristo, e uma das línguas da Bíblia), foi fundado um instituto para ensiná-lo e difundi-lo. Infelizmente, certas semelhanças com o hebraico vêm causando problemas com as autoridades políticas…
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O que é hipocrisia?
Data do post: 13 de abril de 2010
A lista de pecados (lembrem que o termo “pecado” não tem nenhuma conotação religiosa; significa ato imoral) mudou muito de uns tempos para cá. Alguns foram praticamente eliminados: da luxúria, por exemplo, sobraram só o estupro e a pedofilia, o resto tendo se transformado em virtude. Quanto à violência, embora considerada má, a maioria de suas manifestações é sintoma de desvios psicológicos ou estruturas sociais, e portanto fora da esfera moral. Só um ou outro serial killer é realmente mau. E há pecados novos, como os ambientais e sociais. Ambos extremamente convenientes, pois via de regra não se identificam a nenhum ato específico, e portanto ou estão sempre nos outros e nunca em nós, ou, mesmo quando admitidos, não implicam grandes mudanças de vida. A correção de conduta que porventura demandem (jogar o lixo na lata certa, fechar a torneira ao se ensaboar) será sempre algo confortavelmente distante do nosso núcleo central de gostos, desejos e amores; e então é possível ser bom sem nenhuma reforma muito profunda do caráter. Outros pecados, contudo, permanecem universalmente condenados há milênios; é o caso da hipocrisia.
Ocorreu, é verdade, uma mudança de definição. Para muitos, hipócrita é quem ousa fazer apelo a uma ordem moral objetiva para condenar o que quer que seja. É uma definição difícil de engolir: levá-la a sério significa, perante um crime hediondo, ver como única reação aceitável o “não julgar”. Ademais, é autocontraditória, pois, ao julgar que é mau julgar, se está julgando. Ainda assim, essa definição capenga preserva algo verdadeiro: a condenação moral é um ato no qual a hipocrisia pode se dar. O dicionário dá conta de defini-la melhor: manifestação de virtude fingida; e uma forma de fingir a virtude é condenar alguém para parecer bom em oposição. Leia mais…
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