A redescoberta da filosofia no Brasil II – Mário Ferreira dos Santos
Data do post: 31 de agosto de 2010

Por Felipe Cherubin
Mário Ferreira dos Santos nasceu em Tietê, São Paulo. Formado em Direito e Ciências Sociais pela Universidade de Porto Alegre, muda-se para São Paulo e funda as Editoras Logos e a Matese com o objetivo de publicar e divulgar sua obra. Foi um pensador incrivelmente fecundo que legou uma obra monumental com mais de 90 títulos publicados, alguns inéditos e outros inacabados.
Em menos de 15 anos publica a “Enciclopédia de Ciências Filosóficas e Sociais”, que abrange cerca de 50 volumes, parte de caráter teorético e parte histórico-crítico. Sua obra vai além das exposições de temas filosóficos e se encontram romances, dicionários, cursos de oratória e traduções comentadas. Seguindo tradição pitagórico-platônica, a obra de Mário explora com originalidade os caminhos da Metafísica.
Em 1957, publicou “Filosofia Concreta”, que estabelece o seu modo de filosofar. Mário Ferreira dos Santos considera a Filosofia como ciência rigorosa, aceitando o que é demonstrado e não o problemático e provável. Para ele, a Filosofia possui o genuíno valor de ciência, seja na investigação e na sistematização, seja na análise e na síntese de temas expositivos e polêmicos. Em 1959, a edição de “Métodos Lógicos e Dialéticos” expõe uma nova metodologia para guiar com segurança o estudioso no campo do saber.
A década de 1960 foi o período em que suas obras tiveram maior difusão em todo o território nacional.
***
Luís Mauro Sá Martino, professor da Fundação Cásper Líbero e estudioso da obra de Mário Ferreira dos Santos, fala a seguir em entrevista exclusiva concedida à Dicta.com, sobre o filósofo.
Quem foi Mário Ferreira dos Santos?
Mário Ferreira dos Santos foi um filósofo brasileiro que desenvolveu um pensamento bastante original na segunda metade do século 20, dialogando com filosofias aparentemente dispares como, por exemplo, a escolástica medieval, Nietzsche e Sartre, trabalhando também com descobertas e pesquisas recentes para sua época .Foi um dos primeiros leitores de Piaget no Brasil, por exemplo. Dedicou a vida à filosofia, daquele preceito de Schopenhauer que se deve viver para a filosofia e não da filosofia. Mário conseguiu uma síntese original: vivia para filosofia e ao mesmo tempo vivia da filosofia sem nenhuma incongruência entre as duas.
Como foi seu primeiro contato com a obra do Mário Ferreira dos Santos e a partir de que ponto você começou a se dedicar a um estudo sistemático de sua obra?
Meu contato foi acidental, por meio dos sebos. De tanto ver os livros dele um dia acabei me interessando e à medida que eu ia lendo percebi que tinha alguma coisa muito boa embora na época eu não soubesse exatamente o que; me faltava ainda como sempre vai faltar, mas faltava mais ainda naquela época bagagem para entender o que ele estava querendo dizer, com quem estava dialogando e a partir daí que eu comecei a estudar sistematicamente a obra dele, fora do circuito acadêmico – como um desafio pessoal. Leia mais…
Comments (10)
A redescoberta da filosofia no Brasil I – Panorama Geral
Data do post:
A Dicta.com começa a publicar uma série de artigos e entrevistas a respeito do tema “A redescoberta da filosofia no Brasil”, feita por um de nossos colaboradores, Felipe Cherubin. Hoje teremos um pequeno panorama histórico de um problema que até agora parece ser insolúvel: temos ou não temos condições de entender o que realmente significa a Filosofia? Somos capazes de pensá-la e, sobretudo, fazê-la como os mestres da tradição? Para Cherubin, este impasse é resolvido com a redescoberta das obras de Mario Ferreira dos Santos e Vicente Ferreira da Silva. (M.V.C.)
Por Felipe Cherubin
A reedição das obras dos filósofos Mário Ferreira dos Santos e Vicente Ferreira da Silva dão novos ares ao estudo da filosofia no país e demonstram que é possível um pensamento original e de alcance universal em terras brasileiras.
Mário Ferreira dos Santos (1907-1968) e Vicente Ferreira da Silva (1916-1963) estão entre os filósofos brasileiros mais importantes do século 20. Foram pensadores independentes que trataram dos mais importantes temas da filosofia com impressionante interdisciplinaridade, dialogando tanto com a tradição quanto com o que havia de mais importante e atual no debate intelectual de seu tempo. A redescoberta de suas obras lança novas bases para a construção de uma cultura mais refinada e autoconsciente, recolocando o Brasil, definitivamente, no cenário global da história da filosofia.
***
Em 1986, o Embaixador Mário Vieira de Mello publicava O Conceito de uma Educação da Cultura, retomando a reflexão de seu livro anterior sobre o tema do esteticismo na formação da cultura brasileira e como a partir daí lançar bases para a criação de um espírito ético no Brasil.
Seguindo o espírito da letra de Vieira de Mello, podemos compreender de que a proposta de transformar a consciência que temos da realidade brasileira, de uma percepção estética para uma percepção ética, nada tem de um empreendimento moralista e tampouco se trata de menosprezar as realizações e experiências brasileiras no campo das artes e do sentimento nacional.
O problema que se coloca é se devemos manter nossa auto complacência ao repetir erros que nos saltam aos olhos ou se não seria a hora de tentarmos uma arrancada, elevando o nível de nossas realizações e da nossa inteligência combinando assim fatores culturais mais sólidos e abrangentes.
A educação é um processo limitado que se encerra onde começa a cultura que nada mais é que o reflexo social do esforço intelectual de cada ser humano de educar os outros e a si mesmo. Educação e cultura são as duas faces de uma mesma moeda chamada pedagogia e não se deve confundida com o que hoje entendemos por ensino, esse rito social intimamente ligado com o mercado de trabalho e com as pressões da empregabilidade e nos discursos recheados por palavras de ordem como “educação para a democracia”.
A questão não é polarizar a discussão entre democracia versus aristocracia ou em educação de elite e educação para as massas, mas sim entre poder versus cultura e reconhecer que a pedagogia deve ter independência em relação a democracia, assim como de qualquer regime político, como bem perceberam Sócrates e Platão quando criticaram os sofistas por exercerem um magistério à revelia da sociedade, abrindo um perigoso espaço para corrompê-lo por distorções da vida democrática e as exigências do poder, na perda a longo prazo da noção exata do que realmente é a educação.
No século 21, países colonizados como o Brasil vêem-se diante do dilema em optar entre o artificialismo de uma cultura cerrada no passado e o funcionalismo de uma cultura desvinculada da tradição. Como equacionar esse desafio? Para um país da dimensão do Brasil recorrer ao mito da brasilidade e das formas mais esdrúxulas de provincianismos apenas produz documentos para etnólogos do futuro e nunca expressões de alta cultura e patrimônios para a humanidade. Leia mais…
Comments (14)
A literatura como salvação
Data do post: 30 de agosto de 2010

E, de novo, lá vamos nós.
Para onde? Para o mundo maravilhoso das esperanças antecipadas do universo literário.
A bola da vez agora é Jonathan Franzen, o autor de As Correções, que, junto com As Benevolentes, do também xará Jonathan Littell, salvaram a literatura do esquecimento completo nesta primeira década dos anos 2000.
Franzen lança esta semana nos EUA seu novo romance, Freedom. É um outro catatau que nem li, mas me parece que já gostei. As Correções era um livro invulgar porque era capaz de misturar William Gaddis, C.S. Lewis, crítica social, inquietação existencial, sem se perder nos maneirismos de estilo e, sobretudo, sem deixar que o leitor parasse de se preocupar com seus personagens idiossincráticos.
Parece-me que Freedom vai pelo mesmo caminho, mas desta vez coloca, no seu quadro de referências, Tolstói com uma pitada de Richard Yates. Uma espécie de Guerra e Paz em versão suburbana WASP.
O problema é que a crítica já entoou em unanimidade que Jonathan Franzen é o Grande Romancista Americano (como apontou a Time em uma reportagem de capa).
Não é. Querem um exemplo? Seu longo ensaio sobre William Gaddis pode ser divertido, mas é extremamente equivocado ao tratar da obra deste que foi o pai de todos os Pynchons, todos os DeLillos, todos os David Foster Wallaces e, claro, de todos os Franzens.
Mas por que a crítica entra na vertigem do hype? Por que querem logo eleger alguém como a salvação da literatura?
Suponho que o motivo é que as pessoas – mesmos os críticos, estes sujeitos sem coração – querem a própria salvação a qualquer custo – e a literatura pode fazer isso em um piscar de olhos. Basta o leitor querer.
Contudo, como todos nós sabemos, nem isso a literatura pode fazer. Afinal de contas, a vida se encarrega de nos avisar direitinho do nosso lugar no mundo. De preferência, no último lugar da fila ou na pior carteira da sala de aula.
Jonathan Franzen pode ser um escritor talentoso. Disso não tenho dúvidas. Mas não poderá nunca nos dizer como sair da enrascada em que nos metemos e que damos o apelido de “nossa vida”.
Comments (4)
Balde de água fria
Data do post: 28 de agosto de 2010
Pensando em escrever seu grande ensaio e vender milhões de cópias? Detesto ser um estraga-prazeres, mas a coisa não é fácil. Este artigo de Thomas Woods Jr., autor muito bem-sucedido (especialmente pelo “Politically Incorrect Guide to American History”), dá uma idéia das dificuldades do mercado de não-ficção. Segundo ele, menos de 10% dos títulos ultrapassam as 2000 cópias vendidas.
Para tranquilizar os escritores em formação, ele olha também para o lado positivo: há muitos benefícios não-monetários em se escrever um livro. E realisticamente, é nesses que o escritor deve pensar. Reconfortante.
Só uma nota final: tudo o que Woods fala é sobre o mercado de língua inglesa. Agora imagine os números do mercado editorial em português.
Comments (1)
Um convidado bem perturbador
Data do post: 24 de agosto de 2010

Os primeiros sintomas de que a sociedade está doente são a descrença de que o mal existe e a insensibilidade em relação ao bem, já dizia Jean Bodin.
É o que acontece atualmente no Brasil – e no restante do mundo.
Querem provas? Nem falo da eleição que já está decidida desde o início dos tempos, muito menos da imbecilidade que reina nos centros pensantes dos EUA e da Europa.
Falo de um sentimento que, apesar de ser pouco palpável, algumas pessoas podem sentir no zeitgeist: a cegueira do ser humano em saber que é capaz de realizar atrocidades – sempre com as melhores intenções, é claro.
Anos e anos de iluminismo, anos e anos de razão, anos e anos de ciência e progresso – e para quê? Para termos Auschwitz, Dachau, Treblinka. Os Gulags. O 11 de setembro.
Como disse Theodore Dahlymple em artigo magistral para o City Journal, o mal é sempre uma presença incômoda em nossas vidas, que queremos vê-lo embaixo do tapete, mas não podemos porque, afinal, ele é a verdadeira prova de nossa tão querida igualidade: a capacidade de ferir o seu semelhante.
Além disso, há um outro problema: o mal tem uma persistência assustadora. Ele sabe se disfarçar. Sabe se esconder. E é incapaz de chegar ao seu ladinho e disser: “Olá, eu sou o Mal, prazer em conhecê-lo”.
Mas o fato é que as pessoas pensam dessa forma. Acreditam que ele se anuncia como se tivesse um mínimo de sensibilidade. Meus caros, esqueçam tal idéia pois ele não tem essa politesse, apesar de, muitas vezes, se camulfar na aparência de um gentleman (leiam King Lear, ouçam Sympathy for the Devil e saberão do que falo).
Quando entramos nessa espiral, não há retorno. Pode demorar, mas a derrocada é inevitável. A doença se alastra pela sociedade e não se pode fazer mais nada. Exceto, é claro, dançar um tango argentino e fantasiar de que o mal possa ter a aparência de um Peter Sellers.
Comments (5)
De viagens e promessas não cumpridas
Data do post: 21 de agosto de 2010

Há alguns meses prometi aqui e aqui que faria uma série de crônicas sobre uma viagem que fiz à Itália no fim do ano passado. Foram dois posts, o que tecnicamente é suficiente para definir uma série, mas a verdade é que não cumpri essa foi uma promessa não cumprida.
Como sempre, obviamente tenho duas dúzias de desculpas e mais de uma delas envolve a dedicação – silenciosa, por enquanto – ao IFE e à Dicta. Mas desculpas continuam sendo desculpas: não resolvem o problema e abusam da paciência de quem não tem por que se preocupar com elas.
Mas se não posso mais voltar atrás, tenho ao menos mais um texto a oferecer: depois de escrever aqueles dois posts fui convidado a fazer algo parecido para uma revista chamada Itália em São Paulo. O que vai abaixo foi publicado por lá em junho deste ano. E espero poder compensar essa falha injustificável com bons resultados nas várias Dictas e otras cositas mas que estão por vir. E, para a sorte de vocês, nestes casos os outros responsáveis são muito melhores que eu.
*****
Num dos mais famosos versos da poesia latina, dizia Horácio que caelum non animum mutant qui trans mare currunt. “Mudam de ares, mas não de ânimo, os que cruzam os mares”. Amante dos prazeres da vida como era, só pode existir uma razão para ter dito uma coisa como essa: ele vivia na Itália. Para nós que estamos longe, só nos resta arrumar as malas e cruzar estes mares com a certeza de que muito, muito em nós pode mudar nessa viagem.
Comments (2)
Encontro de culturas
O embaixador japonês na Santa Sé explica porque o Cristianismo permanece algo “estrangeiro” aos japoneses. Partindo de sua espiritualidade que mistura elementos de Budismo e Xintoísmo, Kagefumi Ueno enumera três pontos principais.
- Diferentes concepções do “eu” (ou “self”): para o japonês, é algo a ser superado e eliminado, para o ocidental, algo a ser afirmado e aperfeiçoado.
- Relação diferente com a natureza: para o ocidental, matéria inferior, para o oriental, algo divino a ser reverenciado.
- modo de encarar os valores: para os ocidentais, valores são absolutos e devem ser afirmados a qualquer custo (sejam os valores da fé cristã, da liberdade de imprensa ou dos direitos dos animais); já os japoneses consideram mais prudente relativizar os valores quando isso evitar a violência.
No fim das contas, a fala envereda para a economia, na qual, apesar das diferenças de fundo, o embaixador reconhece preocupações comuns entre a Igreja Católica e o Budismo.
Não vejo como discordar das idéias apresentadas (ao menos na parte inicial e mais importante), mas ao mesmo tempo fico querendo fazer a pergunta: “Sim, as diferenças culturais são reais; mas então qual das duas responde melhor aos anseios da natureza humana?”
Comments (18)
A morte nas esferas pública e privada
Não sabemos lidar com a morte. Com menos gente morrendo “fora de hora” (o que é bom), pensamos menos nela. Ao mesmo tempo, a mídia e a Internet confundem as esferas pública e privada. Antes, saber que alguém distante morreu era só mais um fato abstrato; agora temos que ver a mãe chorando na TV e os vídeos-tributo que os amigos publicaram no Youtube. Sentimentos privados vêm a público, e todos se sentem obrigados a partilhar do sofrimento de quem era próximo. Pior: confundimos isso com respeito.
“Que homem bom: ele sente profundamente a morte de todos os seres humanos” – isso pode bem ser verdade, mas as poucas pessoas que de fato sentem assim só se encaixam em dois tipos de vida: se acreditam numa transcendência, vida dedicada à oração ou ritos propiciatórios para os que se foram. Se atéias, vida melancólica contemplando a tragédia da humanidade destinada aos vermes. Claro, a imensa maioria não está nem aí para a morte de desconhecidos, caso contrário viveríamos em luto constante, pois tem sempre alguém morrendo.
Ficamos tristes quando morre alguém próximo. Quanto mais conhecemos sua vida, mas tocados ficaremos em saber de seu fim. Mas se desconheço o morto e não tenho relação com seus entes próximos, por que manter a pose e condenar como “desrespeitoso” quem não entre no jogo? Quem nunca riu com o Darwin Awards que atire a primeira pedra.
Continue a leitura no Terra à Vista.
Comments (3)
Sir Frank Kermode RIP
Data do post: 19 de agosto de 2010

Enquanto as pessoas defendem a mesquita no Ground Zero e me chamam de imbecil, vamos sacudir um pouco a poeira e prestar homenagem a este grande crítico literário falecido ontem e que sabia de cor e salteado Shakespeare, John Milton, William Blake e T.S.Eliot.
Comments (4)
Comer = Rezar, Amar
Não li “Comer, Rezar, Amar”, o best seller de Elizabeth Gilbert, e não vi “Comer Rezar Amar”. Nem pretendo; quando chegar à TV, quem sabe. Mas depois de ler inúmeras resenhas (como esta), sinto como se o conhecesse sem experimentar, a uma distância psicológica e espiritualmente segura. Afirmo com a mais absoluta certeza, por exemplo, que a Elizabeth interpretada por Julia Roberts come durante o filme. Relutaria, contudo, em dizer se ela reza ou ama.
Há que se notar que a reza, se acontece, é um tanto peculiar. Depois de um mês gastro-intestinal na Itália, Elizabeth vai à Índia entrar em contato com o Absoluto. O curioso é que sua atitude na hora de rezar e de amar seja tão parecida com a da hora de comer. Come-se aquilo de que se gosta; claro que a pessoa de gosto bem desenvolvido estará aberta a todas as comidas; mas mesmo assim, dentro de uma restrição mínima de nutrição e comestibilidade, é o gosto que determina o prato, ainda que se escolha as poucas opções de um balcão self-service.
Na hora de rezar e amar, ela também escolhe o que gosta; não tenta moldar-se a uma realidade objetiva fora dela (o sagrado no rezar, uma outra pessoa no amar), mas procura o que molda-se ao seu gosto. Poderia ter ido ao shopping, mas achou mais divertido descobrir os segredos de Deus e da alma.
Elizabeth Gilbert é o centro do universo. Sim, é um fato: Elizabeth Gilbert é Deus. Não estou exagerando. O filme confirma isso explicitamente com pérolas do tipo “God dwells in me as me” – ou seja, Deus se identifica com Elizabeth Gilbert não enquanto ela é um ser humano, ou uma imagem de Deus, ou uma individualidade ilusoriamente separada de Deus, mas na medida em que ela é Elizabeth Gilbert.
É preciso notar que isso é o exato oposto do que ensina o Hinduísmo ou, para dizer a verdade, todas as religiões. Sim, Atman é Brahman, “Tu és Aquilo”; ou seja, o princípio interno do indivíduo identifica-se com o princípio externo e infinito por trás de todas as aparências de multiplicidade, mas essa identificação se dá exatamente na medida em que o indivíduo não é um indivíduo. Toda a disciplina dos monges e dos yogis visa a se libertar do próprio ego, dos egoísmos que colocam o “eu” no centro, do “eu” que come-reza-ama. É quando rompem com esse ego que se descobrem idênticos ao princípio não-pessoal de todas as coisas e se libertam dos infinitos ciclos de nascimento e renascimento. (Os especialistas em cultura indiana me corrijam se disse alguma grande besteira – você sabe quem você é!).
Nesse sentido, a fé cristã é mais próxima do impulso da Elizabeth do que o Hinduísmo no qual ela (e a própria Julia Roberts, que nas filmagens passou de católica a hindu praticante) foi buscar as respostas às grandes perguntas. Pois o Cristianismo, ao dar importância central ao amor, por isso mesmo afirma a existência do indivíduo realmente distinto de Deus; a união divina, e até mesmo a transformação divina que o Cristianismo prega não é a dissolução do ego no Absoluto, mas a elevação da pessoa a um estado de participação no ser de Deus. A luta contra o egoísmo é a mesma que nas religiões orientais; mas paradoxalmente, quanto mais o indivíduo se liberta do poder dominador do ego auto-idolátrico, mais ele se transforma naquela pessoa individual que ele poderia, e deveria, ser. No caminho hindu, Elizabeth Gilbert teria que abandonar Elizabeth Gilbert, como a gota que se dissolve no oceano. No Cristianismo, ela se tornaria a verdadeira Elizabeth Gilbert, divinizando-se de forma particular e irrepetível, e então ela iria Comer, Rezar e Amar com todo seu ser.
Alguma coisa boa o livro deve ter; não se fica 2 anos no topo dos mais vendidos à toa. Mas esse bem só encontraria seu lugar legítimo no caminho espiritual que ela nem sequer pensou em seguir (Roma é lugar de comer! Quem pensaria que lá também se reza?), e não naquele que ela fingiu, para si mesma, trilhar.
Comments (9)
Posts Antigos »






