Teardrop falling
Data do post: 30 de setembro de 2010
E ontem assistimos Brad Mehldau no concerto de piano realizado pela TUCCA, na Sala São Paulo, um evento que, toda vez que o pianista norte-americano vem ao Brasil, é divulgado de última hora.
O que dizer? Mehldau é um dos poucos que podemos chamar de “virtuoso popular”. Sim, ele sabe tocar. Sim, ele sabe escolher seu repertório. E, sim, ele sabe improvisar – algo essencial para um pianista que, antes de tudo, pratica o jazz.
Contudo, confesso que, no início, temi pelo meu próprio gosto musical. Estaria eu errado? Mehldau é um virtuoso que pode cair na armadilha do cerebralismo, do toque seco no piano que soa a um timbre mecânico. Um romantismo cibernético que cai bem nos dias de hoje e nas gravações assépticas, mas que, ao vivo, causa um sabor agridoce.
Mas eis que, após ter tocado uma versão circular de Bittersweet Symphony, do Verve, e duas composições próprias, Brad Mehldau mostra a que veio com uma versão arrepiante de Teardrop, do Massive Attack.
Isso é o que pode ser chamado de ousadia: em uma sala de música erudita e sofisticada, um dos pianistas mais talentosos de uma arte que anda meio sorumbática em seu próprio páis (afinal, não temos mais os Oscar Petersons e os Bill Evans como antes) resolve recriar uma das canções mais bonitas do pop nos últimos anos – e que foi composta por uma dupla de música eletrônica.
Mehldau estendeu a estrutura de Teardrop até o limite, transformando-a em uma marcha fúnebre. Pode-se dizer que faz a mesma coisa em sua célebre recriação de Paranoid Android, do Radiohead; mas aqui não é mais tique ou estilo no piloto automático; é obsessão mesmo, o virtuoso levando as notas e os acordes ao extremo da desintegração, para depois recuperá-las de uma vez e voltar com o mesmo tema e a mesma estrutura anterior, agora carregados de um novo pathos.
Como se não bastasse, emendou com uma improvisação em cima de My Favourite Things, de Rodgers and Hammerstein, que fez os olhos deste resenhista lacrimejarem suavemente, porque trouxe memórias de uma infância que estava adormecida e que é sempre bom recuperar quando precisamos.
Este choque de repertórios provocado por Mehldau tem um propósito: Colocar, por exemplo, Cole Porter e Thom Yorke lado a lado seria um crime? Sua resposta é um claro “não”. O cancioneiro popular americano é amplo o suficiente para incorporar as mais variadas experimentações musicais. De certa forma, Porter era ousado com a estrutura da canção e Mehldau mostra que Yorke, Richard Ashcroft e Paul McCartney não deixam nada a dever aos grandes mestres da canção sofisticada. O pop se tornou standard.
O show terminou com Exit Music, do Radiohead, em um timbre a lá Robert Schumann, romântico, pesado. Brad Mehldau pode ser um músico considerado “excêntrico”, mas foi a sua imprevisibilidade que me fez lavar a alma, deixando-me aberto para qualquer nova lágrima que possa sair dos meus olhos.
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Mais solitárias a caminho…
Data do post:
Se vocês se deliciaram com as entrevistas da Paris Review, temos aqui outra oportunidade que só a Internet traz: as entrevistas completas do programa de TV Apostrophes, com Bernard Pivot, o único homem que soube unir a literatura de alta qualidade com o entretenimento de massas que é a televisão. Temos aqui imagens de Saul Bellow, Vladmir Nabokov, entre tantos que fazem nossos olhos e nossos ouvidos sorrirem de tanta alegria.
(Via Michel Laub)
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Exclusivo dos EUA – visita ao MOMA
Data do post: 29 de setembro de 2010
Uma viagem parte turística, parte médica, tem me mantido ocupado aqui nos EUA e um tanto distante deste site. Mas agora que as coisas acalmaram, e que a Dicta terá, por um mês, um correspondente exclusivo em Baltimore, MD (“the greatest city in America”; ou pelo menos é o que está escrito nos bancos públicos ao longo do cais), tenho tempo de sobra para compartilhar as vivências culturais e sociais do coração do império.
Quero começar pela minha incursão ao MoMA (não vá ser grosseiro a ponto de errar as maiúsculas e minúsculas!) em Nova Iorque. Sim, sim, lá estão grandes clássicos da arte moderna (o Noite Estrelada de Van Gogh é, merecidamente, o maior destaque da casa); peguei até uma mostra especial de Matisse.
Mas para quê perder tempo com história antiga? O melhor da festa é o andar de arte contemporânea. Já de entrada se é brindado com cenas de muito bom-gosto em franca discordância com a moralidade sexual catoburgopuritana e uma mini-mostra de quadros protesto das “Guerrilla Girls”, que vai chacoalhar todos os seus preconceitos de gênero e raça.
Já devidamente conscientizado, pude elevar minha experiência estética com a obra de um artista – quem diria -brasileiro: Cildo Meireles. Vejam só a obra-prima (“first time on view at the MoMA”) que me aguardava.
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Você é filisteu o bastante para ter achado que se trata apenas de um enorme bloco de feno? Think again…
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Por mim, passaria horas naquela sala. Contudo, o doce aroma do feno que aos poucos adentrava minhas narinas acabou tendo um efeito diurético, e logo mais era minha vez de ter preocupações políticas e filosóficas enquanto promovia uma mistura de substâncias. Cota periódica de arte contemporânea: preenchida.
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Na véspera do nosso futuro – Lançamento de Karl Kraus
Data do post: 28 de setembro de 2010

Como o Nelson Ascher já notou num excelente texto que escreveu para nós, o nome Dicta&Contradicta foi inspirado no título de um livro de Karl Kraus, o escritor austríaco que captou desde o início (e como muito poucos) a perniciosidade do nazismo e como a língua alemã foi uma das primeiras vítimas do horror que ainda tentava esconder a cara.
Neste mês foi lançado no Brasil, depois de uma longa ausência, uma coletânea de aforismos do mesmo autor e obviamente a Dicta não poderia ficar de fora. Como não participamos da edição, posso dizer sem medo: é um livro espetacular, que capta a genialidade de Kraus no que ele foi mestre. O livro é imperdível e, ouso dizer, o lançamento paulistano também. O debate, com três dos nossos melhores intelectuais, promete. E a própria data do evento não deixa dúvidas sobre a atualidade e importância do tema.
Espero vocês lá!
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O exílio interior de John Ford
Data do post:

Exceto por um ou outro caderno cultural que fez o devido anúncio da mostra que o CCBB realiza este mês sobre a obra de John Ford, parece que o público paulistano – que está mais preocupado com uma Bienal que mata os presidentes do País e se escandaliza com pichações performáticas – se limita a cerca de 70 pessoas por sessão para as películas deste gênio da sétima arte.
Nada disso assusta. Afinal, se há algo que caracteriza a vida e a obra de John Ford é a persistência de se manter em um exílio interior que se mostra cada vez mais íntegro e, por isso mesmo, cada vez mais melancólico.
A prova desta atitude não está apenas no próprio Ford, que alegava de forma simples que “fazia westerns” e que era rude ao extremo só para disfarçar o seu bom coração. Está, obviamente, em todos os seus filmes.
Vejamos O homem que matou o fascínora, de 1962, considerada como sua última obra-prima. Seu assunto não é um mero duelo de bangue-bangue entre James Stewart e Lee Marvin (com uma pequena ajuda de John Wayne nas sombras) e sim a própria democracia americana. É um filme que, como bem disse Sérgio Alpendre, deveria ser ensinado no estágio Fundamental para as crianças e, quando estas se tornassem adultos, colocado lado a lado em uma edição comentada de A democracia na América, de Alexis de Tocqueville.
Ou então vamos voltar um pouco mais e relembrarmos as imagens que abrem e fecham The Searchers, talvez o grande épico sobre o fardo de ser um Homem com H maíusculo nos nossos dias. Ali temos a história de Ethan Edwards que, depois da Guerra da Secessão, decide não ter mais uma família, decide não ter mais ninguém, e olha tristemente para a harmonia que seu sobrinho mestiço conseguiu, indo em direção ao Monument Valley, sempre a se perguntar o que significa a canção que fecha o filme: What makes a man to wander?
Não é à toa que os dois personagens principais destes filmes são interpretados por John Wayne, um sujeito que parecia não fazer nada na tela, mas sabia dar um chute como poucos e transmitir uma sensação de obstinação como poucos. Ford gostava tanto dele que não percebia como era bom (acredite, os amigos fazem isto entre si) e queria enquadrá-lo em um estereótipo que, quando Wayne conseguiu escapar disso em Rio Vermelho, de Howard Hawks, o Homero das Pradarias disse que “puxa, então o filho da puta sabe atuar!”.
John Ford é o cineasta do exílio interior porque, feliz ou infelizmente, esta é a nossa condição natural – quem quer se manter íntegro em um mundo corrompido paga um preço caro demais para isso. Ou é esquecido pelas pessoas que amou ou é excluído de qualquer participação em uma simples harmonia comunitária. Ele nos ensina a triste lição que a vida dá aos pouquinhos e em goles bem amargos: a de que quanto mais tempo passa, ficamos cada vez mais sozinhos, vivendo em uma prisão onde é melhor ficar na solitária.
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Empreendedores demoníacos
Data do post: 27 de setembro de 2010

Sabe qual é a razão do povo brasileiro defender o Estado como uma Providência divina e se esquecer dos empresários que fizeram a economia crescer?
Eis a resposta: nunca fizeram filmes sobre eles.
Isso mesmo, você leu corretamente. Se um ou dois empresários brasileiros juntassem os seus dinheirinhos e investissem em um filme que os mostrasse, não como heróis, não como vilões, mas sim como seres humanos, o Brasil teria plena noção da sua importância para o cotidiano.
Vejamos os seguintes exemplos dos EUA, esta nação em que macaqueamos o que tem de pior e não imitamos o que tem de melhor. Garanto que, se não fosse por Orson Welles e seu Cidadão Kane, os americanos não teriam dado a importância que hoje dão para a impresa. Algum engraçadinho argumentará que Hearst – o inspirador de Charles Foster Kane – fez de tudo para destruir a carreira de Welles (o que conseguiu), mas pense bem antes de dizer esta besteira: você acha que se lembraria de Hearst se não fosse por Kane? Você se lembraria de Watergate se não fosse por Dustin Hoffmann e Robert Redford? Lembraria-se da indústria do tabaco se não fosse por Al Pacino e Russell Crowe? Ou quando vê notícias sobre mineiros enterrados no Chile não lhe vem à memória as imagens de um Kirk Douglas querendo tirar a notícia a qualquer custo?
Notem que não eram filmes elogiosos; muitas vezes, são filmes críticos, até ácidos, que vão contra qualquer princípio do capitalismo saudável; contudo, eles são, antes de tudo, obras de arte feitas para conquistar o espectador com sua ambigüidade – e esta tem a vantagem de ser muito mais persuasiva do que qualquer visão de mundo, porque permite ao espectador que construa a história em sua cabeça e o faça julgar por si mesmo.
Ora, por que o Brasil não fez o mesmo? Até agora, o único filme que fez isso foi Tropa de Elite, que mostrou a polícia e a questão do tráfico de drogas como um problema bem cabeludo – e deu no que deu: sucesso de bilheteria e Urso de Ouro em Berlim. (Além de, claro, da criação de um personagem imortal: o Capitão Nascimento)
Logo, os empresários deveriam investir nisso, se quiserem manter uma certa compreensão do povo brasileiro a respeito de suas atividades. Tenho a impressão de que, se não fizerem isto logo, serão jogados na vala do esquecimento e lembrados somente através do filtro do desprezo e do ressentimento.
Mas claro que isso não é culpa somente do povo ou do Estado Previdência. O fardo cai sobre os próprios empresários. Em geral, são incapazes de articular uma sentença com sujeito e predicado. Infelizmente, só pensam em quanto vão ganhar – e quando investem em alguma coisa é sempre para satisfazer o ego ou então para agradar alguma ONG de pretensa caridade que, no fundo, é uma lavanderia de dinheiro sujo.
Além disso, argumentarão que nunca foi feito isso – um filme sobre empresários inovadores – nos termos em que escrevi acima. Pois eu os mostrarei um exemplo recente - que se chama The Social Network.
The Social Network é o novo filme de David Fincher, o nosso velho conhecido de Seven, The Game, Fight Club e Zodiac. Exceto por seu último trabalho, O Curioso Caso de Benjamin Button, ele geralmente costuma a acertar no que faz. Com a ajuda do roteiro de Aaron Sorkin, o mesmo sujeito que nos deu The West Wing, Fincher conta a história de nada mais nada menos do que a criação do Facebook.
A essa altura do campeonato, todos já sabem que não se trata de um filme elogioso. Mark Zuckerberg, o criador do Facebook, é descrito como um egocêntrico que vende a própria mãe e traí os amigos para realizar a sua ambição. Ao que parece, Fincher não fez uma ode ao capitalismo e sim uma descrição daquilo que diferencia o empresário do resto da sociedade: o daimon do empreendedorismo, a força criativa que leva o sujeito a ser um inovador a qualquer custo e criar um negócio que transformará a sociedade em suas estruturas mais profundas. É algo inexplicável e, de certa forma, envolve um processo alquímico que se assemelha a uma obra de arte: o empresário reflete as suas necessidades mais profundas no negócio e, de forma paradoxal, consegue resolvê-las impondo a um público que, vejam só, também quer encontrar um meio de resolvê-las em suas vidas.
Como bem escreveu David Denby em um artigo sobre o filme para New Yorker:
From the first scene to the last, “The Social Network” hints at a psychological shift produced by the Information Age, a new impersonality that affects almost everyone. After all, Facebook, like Zuckerberg, is a paradox: a Web site that celebrates the aura of intimacy while providing the relief of distance, substituting bodiless sharing and the thrills of self-created celebrityhood for close encounters of the first kind. Karl Marx suggested that, in the capitalist age, we began to treat one another as commodities. “The Social Network” suggests that we now treat one another as packets of information.
Obviamente, o empresário brasileiro tem medo de fazer um filme que, ao mostrá-lo como alguém problemático, traria ao público áreas de sua personalidade que não são muito agradáveis. Mas não deveria ter isso. Afinal, alguém duvida que The Social Network não será um maravilhoso incentivo para os negócios do Facebook? Dizem que Mark Zuckerberg não aprovou o filme – o que é ótimo porque mostra a imparcialidade de David Fincher -, mas isto não significa que ele prejudicará a marca. Querem apostar que, se The Social Network for um sucesso de crítica e público, será a única forma de manter na memória das pessoas o logo do Facebook quando este for substituído pela última moda do momento?
No Brasil, onde uma empresa é engolida por outra ou então as empresas são engolidas pelo próprio Estado, o daimon do empreendedorismo é substituído pelo demônio da amnésia. Fica aqui a dica: empresários do nosso rincão brasileiro, invistam em filmes sobre suas próprias vidas! Dêem liberdade total para os bons roteiristas e os bons cineastas para criarem as obras de arte que vocês precisam! E, claro, se derem tudo isso, pagarem bem e a sua história provar ser realmente uma boa história, saibam que serei o primeiro a fazer isto.
(Como diria John Wayne em The Searchers: That´ll be the day.)
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Londres est jolie
Data do post: 25 de setembro de 2010
O jovem parisiense Pierre, desde cedo, aprende a admirar de longe — sem deixar sua terra natal — a cidade de Londres, repetindo de si para si: “Londres est jolie” (“Londres é bela”).
Sua família, entretanto, se muda para Londres algum tempo depois, e Pierre aprende o inglês diretamente, sem traduções para o francês (seus colegas são todos ingleses que não falam francês; é assim que as crianças aprendem línguas novas). Em razão de um lapso raro, mas possível, Pierre nunca aprende que “Londres” (o nome francês de Londres) é o mesmo que “London”. Pari passu, costuma dizer, ao caminhar pela nova cidade, “London is not pretty” (“Londres não é bela”). De fato, o bairro para o qual seus pais mudam está numa região pouco atraente da cidade.
No entanto, continua com a velha idéia ‘francesa’ da sua infância: “Londres est jolie”. Sua sinceridade é indubitável; e mesmo assim, ambas as opiniões são contraditórias.
O criador dessa história hipotética é Saul Kripke, o genial lógico americano, professor honorário em Princeton. Sua sentença é cortante: “This, then, is the paradox. I have no firm belief as to how to solve it”. (O leitor talvez tenha uma solução; recomenda-se, entretanto, que não “pule para as conclusões” tão rápido. Aproveite para considerar também: “Lois Lane acredita que Superman pode voar” / “Lois Lane acredita que Clark Kent não pode voar”).
Esse e outros paradoxos e trivialidades — capazes de entreter um leitor curioso por horas — podem ser encontrados na parte de ciência e matemática do Futility Closet, um site editado por Greg Ross. Uma dica para nossos finais de semana atribulados…
Créditos: a dica veio da dileta Juliana Lemos.
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A parábola da solitária
Data do post: 24 de setembro de 2010
Mario Vargas Llosa sempre gosta de citar a famosa parábola da solitária quando discorre sobre a vocação da escrita. Segundo ele, o escritor não pode se acomodar nunca, sempre deve ficar à frente do seu tempo e, para isto, deve tratar o seu ofício da mesma forma que as moças nos século XVIII e XIX faziam para emagrecer e se encaixarem em seus espartilhos: ingeriam uma solitária e deixavam-na dentro do estômago, como se fosse um pequeno feto que se alimenta de qualquer coisa que a pessoa engolia, tanto para abastecer a si mesma como também ao seu pequeno hóspede.
A vocação de escritor é exatamente isso: o daimon da literatura lhe come por dentro – e não há outra coisa a se fazer exceto se render aos seus caprichos e incertezas.
Tenho estes pensamentos por um motivo: ontem vibrei de emoção ao descobrir que a Paris Review finalmente disponibilizou na internet todas (sim, repito, todas) as suas clássicas entrevistas, da década de 50 em diante, com os grandes escritores da literatura moderna e contemporânea.
A grandeza destas entrevistas é que elas são um vislumbre do processo criativo da escrita como poucas vezes foi feito no jornalismo cultural. Não é à toa que se tornaram um exemplo do que deve ser feito – e, para nós da Dicta, são a nossa meta de qualidade quando fazemos entrevistas como a de Ferreira Gullar e a de Roberto Minczuk.
Entre os nomes mais alentados por este que vos escreve, temos Geoffrey Hill, Yves Bonnefoy, David Mitchell, Javier Mariás, William Faulkner, Graham Greene, entre outros que, se você tem respeito pelo o que a solitária da arte faz contigo, sem dúvida ficará deliciado com o que descobrirá.
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René Girard – Desejo, Violência e Literatura II
Por Felipe Cherubin
João Cezar de Castro Rocha, ex-aluno de Girard em Stanford e co-autor com René Girard e Píerpaollo Antonello do livro Um Longo Argumento Do Principio Ao Fim, fala em entrevista exclusiva concedida a Dicta.com sobre a obra girardiana.
René Girard é hoje tido como um filósofo, antropólogo e cientista social, mas é fato que sua carreira começou por meio da literatura. Você poderia nos explicar essa relação de Girard com a literatura?
É uma relação pouco convencional. Muitos críticos já apontaram corretamente que o modo de leitura do Girard é avesso a certa concepção modernista de literatura; afinal, para Girard a literatura não é prioritariamente metalingüística. Em palavras mais precisas: a metalinguagem de que trata a literatura não é apenas a da literatura, mas é a da própria sociedade. Porém, ao contrário de que algumas pessoas pensam, não se trata de defender um modelo “realista” tradicional, não é isso o que Girard propõe. Na sua perspectiva, se queremos compreender a sociedade, o discurso que mais aprofundou os mecanismos fundadores da relação interpessoal foi a literatura. Portanto, durante a modernidade, mais precisamente de Cervantes até Proust, o esforço de entender como se manifesta o desejo humano foi, por assim dizer, a tarefa central da literatura. Aliás, não estamos muito distantes de Freud, pois uma parte considerável da teoria psicanalítica construiu-se a partir de uma leitura interessada da literatura. Girard também viu na literatura reflexões profundas sobre determinados comportamentos humanos.
No seu primeiro livro, Mentira Romântica e Verdade Romanesca, Girard analisa autores como Cervantes, Stendhal, Dostoievski e Proust, lançando as sementes de seu pensamento. Você poderia nos explicar o propósito dessa obra e o que Girard encontra nesses importantes autores da literatura universal?
Girard encontra fundamentalmente o que, num primeiro momento, foi para ele mesmo uma grande surpresa, ou seja, a presença de um mecanismo semelhante na descrição de desejo humano. Vale dizer, na análise de romances de tradições diversas e temporalidades muito diferentes, Girard descobriu o mesmo mecanismo básico: é o mecanismo do desejo mimético. A partir dessas obras, portanto, ele principiou a desenvolver sua teoria, com base numa compreensão inovadora do desejo humano.
Girard dedicou alguns de seus livros a Dostoievski. Como ele interpreta o grande escritor russo?
Numa fórmula polêmica, poderíamos sugerir que Dostoievsky seria um Nietzsche com consciência do desejo mimético. Em outras palavras, o que Nietzsche realiza na filosofia, Dostoievsky compreende radicalmente como sendo os desdobramentos do desejo mimético. Esse exemplo demonstra a compreensão que Girard tem da literatura. Ele situa a literatura num patamar absolutamente primordial. Ora, em alguma medida, é o caráter sistemático-especulativo da reflexão filosófica que afasta a compreensão profunda do desejo mimético, pois cristaliza seu dinamismo em conceitos e teorias. Pelo contrário, para a literatura abre portas novas ao entendimento do desejo mimético, pois não o descreve como um conceito, mas o expõe através da trama e dos conflitos entre os personagens.
Em Shakespeare: Teatro da Inveja, Girard faz uma análise exaustiva de quase toda a obra do bardo inglês, considerado uma espécie de precursor da teoria mimética. A que conclusões chegou Girard diante do legado shakespeariano?
Girard parte de uma observação que é simples, o que também é muito característico da obra girardiana: partir de uma observação simples, porém tornando-a sempre mais complexa, como se fosse uma verdadeira matriz de pensamentos. É muito comum nas obras de Shakespeare que um personagem se apaixone por outro sem jamais tê-lo ou tê-la visto. Como isso é possível? A resposta girardiana seria a seguinte: eu não me apaixono por uma relação direta com o objeto do meu desejo, em geral, eu me apaixone por alguém porque eu escuto coisas muito positivas sobre essa pessoa, porque eu sou induzido, porque socialmente essa relação é favorecida. Em outras palavras, Girard encontra em Shakespeare uma compreensão plena do desejo mimético. Além disso, ele vislumbra em Shakespeare a encenação do mecanismo do bode expiatório, e isto em diversas peças. Então, Girard surpreende em Shakespeare um inesperado tratado das diversas fases do desejo mimético! Na obra do poeta inglês, o leitor atento pode identificar a compreensão da natureza mimética do desejo. Isto, claro, em primeiro lugar. Depois, Shakespeare revela um claro entendimento tanto da crise provocada pelo desejo mimético, quanto da resolução dessa crise por meio do mecanismo do bode expiatório. E não é tudo: compreende-se, ainda, que o mecanismo do bode expiatório consiste em transformar a vítima do ritual expiatório em culpado, de modo a esquecer que a culpa pertence ao próprio sistema mimético. Eis o sentido da extraordinária interpretação que Girard propõe do Hamlet.
Há muitas aproximações entre Girard e filósofos do século 19 como Nietzsche e Kierkegaard. Você poderia comentar?
Há uma ligação muito forte com um conjunto de pensadores que em geral não associamos de imediato a Girard. Por exemplo, há um diálogo profundo com Freud, com Lévi-Strauss, com Nietzsche e, indiretamente, com Heidegger, Kierkegaard, entre outros. Nesses casos em geral, a estratégia girardiana é demonstrar como existe nesses autores uma compreensão profunda do desejo mimético, mas o que não há nesses autores é o desvelamento completo das consequências do desejo mimético, assim como do caráter genético desse desejo na formação da cultura humana.
Muitos desses autores do século 19 trataram da questão da violência. Um pergunta que não só muitos desses autores fizeram, mas que as pessoas fazem o tempo todo é: É possível uma sociedade sem violência?
Há um momento na obra do Girard em que ele parece acreditar na possibilidade de uma civilização sem violência, uma civilização idealmente cristã, por assim dizer, sempre pronta a oferecer a outra face. Posteriormente, ele compreendeu que isso não é possível, porque a violência é constitutiva do homem; e isto a partir da própria dimensão apropriadora da mímesis. Recordemos os termos propostos por Girard: eu desejo o mesmo objeto que você, quanto mais eu o imito tanto mais eu desejo o mesmo objeto, até que em um determinado momento eu não quero mais apenas limitar-me a imitá-lo: eu quero a posse do objeto, mesmo que para isso precise entrar em conflito com quem antes fora meu modelo. Essa é a novidade girardiana, ao apontar, na dimensão apropriadora do desejo mimético, a irrupção da violência, seja simbólica, seja física. A plena aceitação dessa violência como elemento constitutivo do humano, por isso mesmo, fecundo, porém potencialmente destruidor é uma das forças do pensamento girardiano.
Como Girard analisa a questão da centralidade do sujeito na modernidade?
Talvez o principal desafio de Girard ao lugar comum da cultura ocidental moderna seja o questionamento da centralidade do sujeito. O que chamamos de modernidade é um conjunto de pensamentos ou de gestos que situam o sujeito com centro do universo. Essa é a mentira romântica. Mas a mentira romântica surge não pela colocação do sujeito no centro do universo, mas pela crença de que o sujeito, colocado no centro do universo, é autotélico e autocentrado. Girard não vai retirar o sujeito do centro e colocar, como diriam alguns de seus críticos, a providência divina ou a revelação. Contudo, o sujeito girardiano é acima de tudo um sujeito que somente pode definir-se a partir de sua relação com um modelo. Somos sujeitos em relação com outros sujeitos, e o centro desse princípio relacional é a natureza mimética do sujeito, pois implica pressupor que somente defino meu objeto de desejo com o auxílio de um modelo que, consciente ou inconsciente, adotei.
O pensamento de René Girard pode ser sintetizado por duas descobertas: O desejo mimético como parte constituinte do ser humano embora o homem não se reduza a isso e o mecanismo do bode expiatório como mecanismo fundador de qualquer comunidade humana e de qualquer ordem cultural. Como se deu o desenvolvimento que culminou nessas teorias?
Girard não partiu de um sistema a priori, preconcebido para então encontrar evidências de sua teoria. Pelo contrário, foi através da literatura que ele intuiu a natureza mimética do desejo. Mas o desejo mimético, tal qual ele descreve em Mentira romântica e verdade romanesca, é um desejo mimético presente em sociedades já constituídas, organizadas através de disciplinas que criaram mecanismos extraordinariamente sofisticados de controle da violência: o Estado, o exército nacional, as leis, a escola. Numa palavra: a internalização de códigos. Então, há todo um aparato que permite controlar a violência que não seja por meio do mecanismo do bode expiatório. Essa foi a primeira intuição girardiana, a do desejo mimético. Porém, as derivações desagregadoras da mímesis levaram Girard a perguntar-se sobre os primórdios da organização social, quando os mecanismos modernos de controle da violência ainda não haviam sido desenvolvidos. Por isso, ele passou uma década relendo os clássicos da antropologia. Esse estudo produziu uma intuição rigorosamente radical. Afinal, a leitura da antropologia permitiu a Girard encontrar um instante histórico em que os mecanismos de controle da violência ainda não estavam presentes ou eram muito recentes. Ao combinar essa leitura da antropologia com a análise dos mitos e da tragédia grega, Girard pôde aprofundar sua teoria. O resultado dessa década de leituras e reflexões é A Violência e o Sagrado. Neste livro, Girard estudou as consequências da violência do desejo mimético não controlado, o que o conduziu à hipótese do bode expiatório. Ou seja, quando a violência se dissemina, estamos no reino da violência de todos contra todos, e o caos é inevitável. Contudo, quando a violência passa a ser de todos contra um, surge o mecanismo do bode expiatório, que permite resolver a crise mimeticamente engendrada, ao canalizar a violência da comunidade contra um único alvo: o bode expiatório. Mas não se trata de uma abstração filosófica, não se trata de uma especulação. Pelo contrário, Girard acredita ter encontrado esse mecanismo a partir da comparação dos mitos mais distintos possíveis, em sociedades as mais distantes entre si, que não tiveram nenhuma espécie de contato. Nas descrições desses mitos aparece o mesmo mecanismo fundamental: o mecanismo do bode expiatório, da canalização da violência contra o bode expiatório que é visto como culpado, mas que, logo depois que é sacrificado, é considerado sagrado. Afinal, graças a seu sacrifício, a paz retorna. Então, imediatamente, ele se transforma em um objeto sagrado, por isso, a violência e o sagrado são duas faces da mesma moeda. Mais: a cultura humana surge da relação tensa desses dois termos.
Você comentou brevemente que esses reality-shows, do tipo Big Brother, onde os participantes estão todos confinados em busca de um prêmio em dinheiro refletem, de certa forma, a teoria girardiana. Como é isso?
Os reality-shows possuem uma dimensão que talvez possamos compreender melhor com o concurso da teoria mimética. Eles têm a seguinte estrutura: você reúne um grupo de pessoas díspares numa casa. A disparidade é importante para a criação de conflitos. Contudo, depois de duas semanas confinadas, essas pessoas são idênticas, fazem todas as mesmas coisas! Elas tornam-se tão idênticas que o programa só existe porque, a cada semana, todos se reúnem contra um ou dois dos participantes, indicando-os para o famoso “paredão”. Por fim, o publico tem a tarefa de sacrificar um dos dois. Ora, o reality show é uma teoria mimética em miniatura, pois, a cada semana, é necessário buscar o bode expiatório e as justificativas são sempre as mesmas! Ainda mais: nesse caso, o culpado é visto como culpado mesmo, pois ele só sai do programa porque foi “sacrificado” por milhões e milhões de telespectadores. Em outras palavras, puro paganismo!
O Girard tem um livro, por exemplo, falando da anorexia. Em que medida a anorexia se relaciona com a teoria mimética?
É a imposição de um modelo. Você deseja um corpo que você não tem, mas um terceiro possui e, sobretudo, exibe. A propaganda no século 20 é uma fábrica de produção de desejo mimético, como tantos girardianos já demonstraram, com destaque para a obra de Jean-Pierre Dupuy.
Em termos de uma sociedade globalizada onde encontramos a teoria mimética atuando?
Outra contribuição da teoria mimética, mas que exige ainda uma reflexão que ainda não está totalmente feita, é justamente o estudo das novas tecnologias de comunicação que permitem uma capacidade infinitamente maior de contágio mimético. Por exemplo, hoje um jovem, mesmo nos enclaves capitalista da China, dança a coreografia do último videoclipe da Beyoncé. Há 20 anos na época do Thriller houve um concurso no mundo inteiro para ver quem imitava melhor a coreografia do Michael Jackson e ganhou um japonês. Há tecnologias de comunicação hoje que permitem uma difusão inédita do contato mimético, havendo aí um vasto campo para a reflexão.
Quais as possíveis contribuições da America Latina em termos do pensamento girardiano?
Se a verdadeira derivação do desejo mimético é que o sujeito não é autocentrado, que se alimenta do outro, que se alimenta do alheio para constituir-se como sujeito próprio, haverá uma cultura mais adequada que a latino-americana para desenvolver essa teoria? Porque nos constituímos desde sempre a partir do alheio, a própria língua que falamos não é própria, dela nos apropriamos e isso é válido para toda a América Latina. Talvez, então, intelectuais latino-americanos tenham condições de desenvolver radicalmente o pensamento mimético, e isso de uma forma que seria mais difícil em outros contextos autocentrados como o europeu, ou autoconfiante como o norte-americano. Para nós, latino-americanos, radicalizar, do ponto de vista mimético, a reflexão acerca da história cultural não exige um grande esforço metafísico: em alguma medida, é o nosso próprio cotidiano de intelectuais “periféricos” buscando, a todo custo, atualizar-se, isto é, reproduzir as últimas novidades dos grandes “centros”. No entanto, se radicalizarmos as conseqüências da teoria mimética, talvez possamos dar uma contribuição teórica relevante, substituindo de vez o preconceito da originalidade pelo apego à complexidade. Esse é o sentido da minha atual pesquisa sobre o que denomino “poética da emulação” (pode-se ver um primeiro resultado aqui: http://ucsj.edu.mx/assis/assis.html).
O desenho acima foi criado por Cido Gonçalves, caricaturista, ilustrador e infografista. Iniciou a carreira no jornal Folha de S. Paulo no inicio da década dos anos 90, passando depois pelas redações do jornal O Estado de S. Paulo e revista Veja. Blog do Cido: ciddogonn.blog.uol.com.br
Felipe Cherubin é jornalista, formado em Direito e estudou Filosofia na Harvard Extension School.
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O Cardeal dos Cardeais
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Não, nós aqui da Dicta.com não nos esquecemos do evento mais importante da última semana – que não foi nenhum escândalo envolvendo governo ou coisas afins – mas sim a visita de Bento XVI à Inglaterra, que teve como motivo principal a beatificação de John Henry Newman, o cardeal que dizia que não era santo porque os santos não eram homens de letras. Bem, ele foi ambos.
No dia da beatificação ouvi estupefato de uma apresentadora do canal de TV por assinatura Globo News dizendo que o Papa havia homenageado um cardeal da Igreja Católica, que, só faltava dizer que por acaso se chamava Newman. Isso é o que chamo de analfabetismo funcional.
Para quem não sabe o que significa esta beatificação do cardeal dos cardeais, eis que vamos ao seu socorro e descobrimos, caso você seja poliglota e entenda inglês (se for monoglota, a Casa Civil o aceita perfeitamente, fique tranquilo), um texto recente de ninguém menos que Roger Scruton, explicando a importância de Newman para nossos dias tão conturbados - e em especial sobre o assunto da educação.
Agora, se você quiser saber mais sobre John Henry Newman, faça como qualquer um que tenha o dom da curiosidade: leia os seus textos. Estão todos disponíveis neste site e são o exemplo de que uma vida que envolve a busca pela verdade é sempre uma vida bem vivida.
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