O filme que não houve
Data do post: 30 de novembro de 2010
Dia desses encontrei-me com o Bráulio Mantovani para conversar sobre a Dicta. Como na semana que vem estaremos juntos para o lançamento, estava ficando chato não o conhecer pessoalmente. Mas este blog não virou (ainda!?) um site de fofocas e só contei a história para dar o devido crédito por uma grande dica:
A revista Esquire publicou em seu site um especial com The 7 Greatest Stories in the History of Esquire Magazine… in Full. Pareceram-me sensacionais… diversão garantida para depois do lançamento. (Quer dizer, vocês terão outra coisa para ler a partir da próxima terça. Por isso, por favor, leiam as reportagens antes!)
Duas delas têm relação direta com a Dicta 06. A reportagem eleita como “a maior” já publicada pela revista, Frank Sinatra Has a Cold, é citada pelo nosso correspondente aéreo e pode servir como uma boa dica do que quase esperar de nosso encontro com Mario Vargas Llosa. A segunda – que foi a dica de Mantovani – é sobre o massacre na escola de Beslan. A reportagem The School seria a base de um dos vários roteiros que ele começou a escrever mas naufragou pelo caminho. É um texto muito impressionante e por ele só podemos imaginar o grande filme que perdemos…
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O mergulho nas trevas
Data do post: 29 de novembro de 2010

(Francis Ford Coppola visita o Brasil nesta semana, com direito à premiére exclusiva de seu novo filme, Tetro. Abaixo, um ensaio sobre sua obra, uma das poucas na história do cinema que une ambição, tragédia e uma considerável dose de loucura.)
No meio da selva, com apenas um short, sem camisa, barbudo, os olhos faiscando, Francis Ford Coppola fala sem parar, gesticulando os braços como se fossem as hélices de um helicóptero. “O que eu quero fazer”, ele diz, “é um filme no melhor estilo Irwin Allen…. com ação, muita ação, repleto de sexo, com coelhinhas da Playboy balançando seus rabos para a esquerda e para a direita, e bombardeios a cada quinze minutos, e muitos, mas muitos astros…”. A declaração, dada para a câmera de sua esposa, Eleanor, em meados de 1977, é hilária: Coppola está empolgado como uma criança, e sua magreza – estranha para quem o conhece através das fotos dos últimos vinte anos – parece que vai desmoronar a qualquer momento, com uma barriguinha protuberante prestes a explodir.
O tal filme no melhor estilo Irwin Allen que ele tanto falava era “Apocalipse Now” (1979). Produzido ao custo de U$$ 20 milhões, uma fortuna na época, e filmado nas selvas das Filipinas, o filme foi a ousadia que nenhum diretor teria a coragem de fazer. Ninguém, exceto Francis Ford Coppola que, baseado na novela de Joseph Conrad, “O Coração das Trevas”, insistiu que se fizesse tudo em locação, sem nenhuma trucagem para captar, como o próprio afirmou em uma entrevista dada dez anos depois, “a insanidade da guerra”.
A loucura de Coppola volta às telas grandes e pequenas neste final de 2001 e, por incrível que pareça, ela se torna extremamente útil para compreender os nossos tempos após o Terror de 11 de setembro. “Apocalypse Now Redux” (2001), a versão de três horas e meia de um filme que já era insano demais para suportar duas horas e meia na poltrona do cinema, volta às salas neste mês de novembro, com cenas inéditas, nova trilha sonora, tudo devidamente supervisionado pelo próprio diretor. E, como se não bastasse, acabou de ser lançado em DVD a caixa de “O Poderoso Chefão”, com as três partes, mais um disco com cenas que não foram para a edição final, comentários do diretor, documentários, entrevistas – enfim, tudo aquilo que o DVD nos dá se você tiver tempo suficiente para ver e não esquecer. Leia mais…
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Todas as Dictas. Ou, até que enfim…
Data do post: 27 de novembro de 2010

Membro novo na família, hora de arrumar a casa!
Uma das lições mais importantes que aprendi nesses anos com a Dicta foi que você nunca termina uma edição, uma hora você simplesmente desiste. Como aqui nos recusamos a desistir, a conseqüência é que sempre terminamos os últimos retoques no computador de diagramação, quase na porta da gráfica.
O problema deste método é que a versão final dos textos transforma-se quase numa entidade metafísica. Existir existe, mas ninguém tem acesso a ela. (O computador do nosso diagramador é muito sofisticado para o nosso analfabetismo digital).
Mas a boa notícia é tiramos o mimeógrafo do porão, trabalhamos bastante e – nem acredito! – temos as versões finais dos textos da Dicta 04… (e da 05 também, esperem só mais um pouquinho).
É isso mesmo, o texto completo da Dicta 04 já está disponível no site.
Um dos meus números preferidos, com alguns dos melhores ensaios que já publicamos. Querem algumas dicas? Então lá vai (segundo o meu sempre arbitrário gosto):
- A pobreza do mal, por Theodore Dalrymple. Como vocês sabem, esse é o pseudônimo de Anthony Daniels e considero este um de seus grandes ensaios. (E que eu saiba nunca foi publicado em inglês. Ha! só na Dicta)
- Tucídides, o estudioso do comportamento político, por Donald Kagan. É muito difícil encontrar (e escrever) um bom ensaio de História. Eu acho que este é um dos poucos!
- O leilão do Sargento Pimenta, por Martim Vasques da Cunha. Este vai por dois motivos: em homenagem ao Paul McCartney, que parece ter feito belos shows por aqui; e, sobretudo, para vocês contrastarem com o que vos espera do mesmo autor na Dicta 06 (dizem que o Martim só não domina a arte da culinária, mas quem sabe ele ainda não aprende alguma coisa com a Marílena Chauí?!)
- E um caso único até agora: a Dicta 04 saiu com três textos que fazem rir: Carreiras para nossos filhos, História da literatura acidental e Uma ciência na corda bamba. Que coisa, não?
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Lançamento Dicta&Contradicta No. 6
Data do post: 24 de novembro de 2010

Aí está! Esperamos todos vocês (paulistanos ou viajantes, por que não?!) na Livraria Cultura. Será uma chance única de ter uma conversa franca com os criadores do maior personagem do cinema brasileiro até hoje. Porque aqui “missão dada é missão cumprida, parceiro”!
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Retroceder nunca, render-se jamais
Data do post:
Enquanto o Rio de Janeiro se deixa seqüestrar pelo medo provocado pelos traficantes e São Paulo espera a sua vez, é edificante saber da história que Richard Fernandez nos revela sobre Don Alejo Garza.
No último dia 13 de novembro, Don Alejo decidiu enfrentar uma gangue de terroristas narcotraficantes que queriam invadir o seu rancho, batizado de San José, próximo da cidade de Vitória, Tamaulipas, no México, este país que ainda vamos nos aproximar muito em termos de guerra civil.
Ele ficou sozinho com armas e granadas. A gangue ficou surpreendida pelo ataque e achou que estava lutando contra um exército, mas descobriu que se tratava de um único homem. Estava morto, completamente metralhado. Contudo, morreu como um homem.
Parece história de faroeste moderno – mas é assustadoramente real. Em um Brasil em que o cidadão está refém do crime, permite que o Estado seja o delinqüente oficial e que as vítimas não tenham o direito de ter armas para deixarem de ser meros sitting ducks, o exemplo de Don Alejo deveria ser ensinado e repetido como um mantra, um exemplo que nos mostra o que é recuperar a dignidade devida.
Porque se há algo que o terror provocado pelo narcotráfico faz à pessoa comum – e não só o tráfico, mas também os islamofascistas e os esquerdistas radicais que se tornaram agora o estabilishment - é sufocar a capacidade de resistência do indivíduo até ele sequer poder gritar “chega!”. Afinal, quem vigia os vigilantes? Somente aqueles que decidiram ser guerreiros, os únicos capazes de transformar a violência em algo positivo para a sociedade. O resto é conversa fiada de quem usa a paz para criar ainda mais guerra e impor a destruição para quem quer continuar a escolher o momento de sua própria morte.
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Dicta&Contradicta No. 6
Data do post: 23 de novembro de 2010
E já está à venda na Livraria Cultura (é só clicar aqui ou na imagem!). O lançamento também já está marcado. Será no dia 07 de dezembro, às 19hs30, no Teatro Eva Herz (Livraria Cultura – Conjunto Nacional). Por que precisaremos de um teatro? Bom, essa surpresa fica para amanhã!
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“Ican Going to graduate now”
Data do post:
Há algo profundamente errado com o sistema de ensino em geral, e com a academia em particular; suspeito que grande parte do que se produz, do resultado da “pesquisa” acadêmica, é puro gasto burocrático de tempo e espaço que não contribui em nada para o conhecimento de ninguém; nem do próprio estudante, que deveria ser o maior beneficiado.
Essa suspeita é confirmada pela existência de toda uma indústria de fabricar papers, trabalhos e dissertações. Neste artigo para o Chronicle, um escritor de teses anônimo (identificado como Ed Dante) nos deixa vislumbrar o alcance desse mercado negro. A demanda da empresa para a qual ele trabalha (que atende de alunos do colegial a pós-graduandos) abrange todas as disciplinas: enfermagem, negócios, filosofia, religião comparada, ciências naturais, economia; mas a campeã de pedidos é, curiosamente, a educação. Graças a ele, centenas de semi-analfabetos se formam e adquirem títulos acadêmicos sem ter que passar pela chatice do aprendizado. Que tantos alunos estejam dispostos a usar o serviço é sem dúvida preocupante, e levanta diversas considerações éticas (até alunos de seminário estão na lista!); mas o fato mais revelador é que nenhum professor ou diretor percebe nada. É provável que muitos deles próprios tenham subido na instituição graças a algum Ed Dante.
De fato, ao contrário do plágio, que pode ser facilmente descoberto, no caso da fraude não há o que perceber. Os artigos prolixos e vazios de Ed Dante (que se gaba de usar 40 palavras onde outros usariam 4) são exatamente aquilo que a instituição espera. E são produzidos por alguém sem conhecimento ou interesse algum pelo assunto; alguém que antes nem sonhava em pesquisar, digamos, Platão, ou a relação entre liberalização do comércio e práticas corporativas anti-éticas, e que consegue em dois dias ininterruptos de Google e Wikipedia escrever um trabalho de setenta páginas plenamente satisfatório. Em outras palavras, sucesso acadêmico não tem relação necessária alguma com aquisição de conhecimento e formação intelectual. O que os professores esperam não é uma mente capaz e interessada, e sim um repetidor de frases feitas e acumulador de notas de rodapé.
Ao fim de um longo e laborioso processo de escrever capítulos para uma dissertação, não há recompensa maior que receber por email a gratidão do aluno:
“thanx so much for uhelp ican going to graduate to now”.
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Será que é isso mesmo?
Data do post: 22 de novembro de 2010
Pois é, já estamos nos aproximando do final de novembro e até agora nenhum sinal da nova Dicta. Será que é isso mesmo? Nenhuma novidade? Nenhum lançamento?
Nada mais longe disso! E nada de suspense também: dessa vez estamos com tantas novidades que não vai precisar. A verdade é que a Dicta No.6 já está saindo da gráfica e o lançamento já está marcado. Vamos contar tudo ainda nessa semana. Por enquanto só uma pequena pista para vocês verem quem anda nos lendo pelos ares…
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A visão interior de Lou Reed
Data do post:

Enquanto me recuperava de uma forte gripe e lia JR, de William Gaddis, soube como foi a reação do público do SESC Pinheiros em relação ao show de Lou Reed em São Paulo e dei várias gargalhadas. Esperavam o quê? Que ele cantarolasse Perfect Day? Fizesse as pessoas suspirarem com Walk on the Wild Side? Nada disso. Lou Reed veio para apresentar Metal Machine Music, um de seus projetos mais esquizofrenicos que nunca consegui entender.
Contudo, vislumbrei o homem quando esteve no Conjunto Nacional, para uma sessão de autógrafos na Livraria Cultura, depósito da Companhia das Letras. Parecia um cover punk do Bruno Tolentino: tudo enrugado, rosto chupado, óculos enormes, pequenininho, estilo what the fuck do i care. Não me impressionou em nada. Voltei para casa, comecei a perceber que a gripe iria ficar pesada e coloquei Berlin para me acalmar.
Para completar, resolvi aumentar a intensidade da gripe com JR, de William Gaddis, um dos meus autores de cabeceira. Quando crescer quero ser alguém como Gaddis. Minha ambição é escrever um romance com o escopo de The recognitions, a melancolia de Berlin e o bom humor de Set the Twilight Reeling.
Obviamente, Gaddis entrou no delírio da minha gripe. O romance – um dos mais díficeis que já li na minha vida, estou no encalço de sua leitura há cerca de dois anos – conta a história de um garoto de 11 anos que resolve fazer algumas especulações financeiras, monta um império, destrói a vida de várias pessoas e termina incólume, como se fosse um rapaz inocente. A trama é absurda porque o mundo é absurdo – mas quando se nota que o livro foi escrito na década de 70, torna-se realmente profético.
O que há de perturbador em Gaddis é a visão de que a vocação artística não tem chance no mundo tal como conhecemos. O artista sempre estará fadado ao fracasso. Não há como preservar a sua visão interior porque os homens irão corrompê-lo através das tentações do poder e do dinheiro. Afinal, não se come de literatura. Logo, para sobreviver, o artista faz pequenos pactos fáusticos para conseguir manter a sanidade do corpo e se esquecer do “ser que poderia ter feito algo mais”.
Ao ler sobre a reação do público do SESC Pinheiros ao show de Lou Reed, minhas gargalhadas tiveram também um toque de inquietação. Os jornais informaram que mais de metade da platéia se levantou depois de 20 minutos de apresentação; muitos gritaram um fuck you para Lou enquanto ele tocava sentado com uma guitarra, com mais dois músicos que o acompanhavam com um saxofone e um laptop (?!). Para quem escreveu Kill your sons, isso foi fichinha.
Será que ninguém avisou o público que Lou sempre foi dessa maneira? Será que o organizador do show sabia o que havia contratado? A reação de tamanha turba lembrou-me do dia em que gritaram a Bob Dylan em 1966 que ele era um Judas porque trocara o folk pelo rock elétrico. Os anos passam, a malta continua a mesma.
Não fui ao show porque eu já sabia o que ia acontecer. Mas depois do que foi narrado gostaria de ter estado ali. Seria uma oportunidade única: ver um artista mantendo a sua visão interior independentemente do que o seu público quer ou espera. Isso é algo raro, muito raro. Sem dúvida, Lou Reed é hoje metade do homem que foi antes, mas a sombra de sua vocação sempre estará dependurada em seu pescoço – e ele sempre exigirá muito do “ser que poderia ter feito algo mais”. E, nos tempos atuais, isso é uma atitude que deve ser comemorada sem hesitação.
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The Good Wife – Televisão para adultos
Data do post: 19 de novembro de 2010
Não sei se é o meu gosto que mudou, mas vejo cada vez menos motivos para ir ao cinema. A quase totalidade dos filmes (ou ao menos dos filmes que passam aqui no Brasil) são produções boçais para o público adolescente. Basta lembrar que o filão de maior sucesso são os inspirados em histórias em quadrinhos (nada contra as HQs, mas às vezes precisamos de mais densidade). Ao mesmo tempo, as séries de TV têm ficado cada vez melhores. Sem a limitação de tempo do filme, e sem os recursos bilionários para se perder em efeitos especiais, elas podem se dar ao luxo de construir bons roteiros e personagens interessantes, indo além da pose que passa por caracterização em nosso cinema pós-Tarantino.
Mesmo entre as séries, há as adolescentes e as adultas. Nas primeiras nada é permanente: empregos e relacionamentos mudam com facilidade; aliás, o enredo consiste basicamente na troca de casais, briguinhas explosivas e saídas repentinas. Apesar de constantes e irrelevantes, as mudanças são sempre acompanhadas de muito drama, e a falta de valor objetivo é inversamente proporcional à quantidade de lágrimas e considerações pseudo-filosóficas para convencer o espectador de que tudo aquilo é profundo e “importa”, sempre da forma mais óbvia e escancarada possível. O melhor exemplo desse tipo é Grey’s Anatomy.
The Good Wife, cuja segunda temporada acaba de começar, está na categoria oposta: a série adulta. Isso quer dizer que os eventos na tela de fato importam. Atos têm consequências e valores reais estão em jogo: uma família, uma carreira, uma empresa, uma reputação. Por isso mesmo ela pode ser sutil e não exagerar no melodrama.
O centro da série é a advogada Alicia Florrick, que se vê forçada pelas circunstâncias a retornar à profissão quando o marido Peter, promotor público, é preso num escândalo envolvendo corrupção e prostituição. Até que ponto ele é corrupto nunca fica claro, mas ao adultério com uma profissional não há dúvidas. Com o marido preso, Alicia e os filhos mudam-se para um apartamento e ela volta ao Direito que havia abandonado para se tornar dona de casa; mais especificamente, vai trabalhar na Sterne, Lockhart & Gardner, empresa de seu velho amigo e antigo flerte de faculdade, Will Gardner. O problema é que a própria empresa não tem ido muito bem das pernas, e só pode contratar mais um associado; Alicia terá que disputar a vaga com Cary Agos, um jovem promissor recém-saído de Harvard Law. Paralelamente, Peter e seu estrategistas conseguem aos poucos reverter a situação calamitosa e suas perspectivas começam a melhorar, de forma que ele não só talvez saia da prisão, como possa até mesmo voltar à vida pública. A relação com Alicia, contudo, continua fragilizada; Peter a quer de volta e ela resiste.
Esse é, em poucas linhas, o enredo da primeira temporada de The Good Wife. Vamos ao que a torna um produto superior. Em primeiro lugar, fugir de todas as resoluções fáceis. Uma série inferior com um enredo desses teria uma saída fácil e convencional: Peter como o grande vilão, o machista dominador que manipula sua esposa, ao passo que Will seria o verdadeiro amor da vida dela. Nada disso por aqui. Primeiro porque Will é alguém com sérios defeitos: é alguém que encarnou em si a lógica do Direito, e para quem vitórias no tribunal e o dinheiro da firma estão acima de tudo (a proximidade com Alicia parece abrandar um pouco sua inescrupulosidae); ao mesmo tempo, é alguém distante e defensivo, que foge de seus verdadeiros sentimentos em one-night stands inconsequentes. Que o objeto de interesse ilícito seja imperfeito é até comum; o mais inesperado é a caracterização de Peter e sua mudança ao longo da temporada.
Seria muito fácil retratá-lo como um crápula: corrupto, adúltero, dominador; e de quebra isso daria uma licença moral para Alicia jogar-se sem remorsos num caso com Will. Mas, surpreendentemente, Peter arrepende-se do que fez, defende-se com maestria das acusações legais e passa, na frente dos espectadores, por algo que, ao que tudo indica, é uma sincera conversão espiritual. Que um político queira aparentar piedade religiosa depois de envolvido num escândalo é comum o bastante, e inclusive é isso que leva seus assessores à igreja do pastor Isaiah. Mas que a conversão seja real e, para desespero dos mesmos assessores, leve Peter a conter os golpes baixos contra sua concorrência e a recusar novas possibilidades de adultério é surpreendente. O homem branco e rico não conta com muitas possibilidades de redenção no entretenimento contemporâneo.
Como bem disse um amigo meu, The Good Wife é sobre tentação. A tentação de se abrir mão de quaisquer princípios para se perseguir com mais eficácia os próprios objetivos. No final das contas, princípios não-negociáveis são uma vantagem ou um obstáculo à vida bem-sucedida? Alicia é uma boa mulher e uma boa esposa; alguém que tem valores não-negociáveis. Ao assumir as novas responsabilidades do mundo do trabalho (ao qual ela volta inicialmente sob necessidade, mas no qual continua por decisão livre), ela será pressionada a deixá-los de lado. Terá ela que podar sua natureza benevolente e disposição de ajudar para o bem de sua carreira e de sua empresa? E estará disposta a usar de quaisquer meios para chegar aos fins que almeja? É possível ser um bom ser humano e um bom advogado?
Há dois personagens que representam o uso inescrupuloso dos meios: Eli Gold, estrategista da campanha de Peter; e Kalinda, investigadora privada contratada pela Lockhart & Gardner. Eli emana uma aura de invencibilidade; Kalinda é obviamente alguém mais vulnerável. Reservada, ambígua (a começar por sua sexualidade, que é uma das ferramentas a seu dispor), implacável quando quer algo e, ao mesmo tempo, dotada de um lado benevolente. Fica patente que ela quer ajudar Alicia, e faz muito mais do que o mínimo profissional exigiria; ela é sua mentora no lado negro do Direito. Talvez veja na nova advogada o ideal de mulher que ela nunca conseguiu ser. Alicia é alguém que, acima de tudo, se preserva; Kalinda se entrega e se vende, e carrega na alma as cicatrizes de suas decisões. Já Eli Gold, ao que tudo indica, não faz favores a ninguém; com ele tudo é uma troca, um negócio; e sua grande virtude é deixar isso claro, sem rodeios ou máscaras. Até que ponto isso tem afetado sua vida pessoal é deixado para a segunda temporada. Uma terceira personagem, que pode ser ou não uma manipuladora de primeira ordem, é a mãe de Peter, Grace; uma boa vovó (que cuida e gosta verdadeiramente de seu filho, nora e netos) que por trás dos panos pode ser manipuladora e agressiva feito uma leoa se o sucesso do filho estiver em jogo. Se sua disposição mais profunda é em última análise moralmente positiva (e portanto de acordo com seu nome, Grace, ou seja, a influência divina que eleva a alma ao seu legítimo fim) ou negativa (algo mais próximo das conspirações diabólicas) só o tempo dirá.
Outro dado distintivo da série é que ela se passa no mundo real: na Chicago dos dias de hoje. Não faltam alusões e referências às figuras reais da política (Obama, Hillary, Sarah Palin) e nem à divisão cultural dos EUA. Liberais e conservadores aparecem e, novamente, nem sombra do maniqueísmo que facilmente se insinua até nas séries supostamente neutras. Aliás, a série vai ainda mais longe ao deixar ver que a posição política do indivíduo é, por vezes, seu traço mais superficial. Diane Lockhart, uma das donas da firma, é liberal até a medula; e mesmo contra todas as suas convicções políticas envolve-se (tanto profissional como pessoalmente) com os tipos mais reacionários e conservadores para muito além da prudência.
O mundo adolescente é o mundo das ações sem consequência. Troca-se de namorada, troca-se de emprego, troca-se de sonho, troca-se de amigos, e tudo continua na mesma. Em The Good Wife estamos em território francamente adulto. Tudo tem conseqüências. Alicia tem um casamento e filhos, e agora uma nova paixão que é sua carreira; Peter tem sua reputação e futuro político na linha. A Sterne, Lockhart & Gardner é a grande obra de Will e Diane. Todos têm o que perder. Seguir um impulso, um desejo momentâneo (que por algum motivo a nossa sociedade confunde com o amor profundo), é uma burrice. E, ao mesmo tempo, os dilemas são reais; pois para que servem os laços duradouros se eles não dão ao homem aquela satisfação mais profunda que um arroubo momentâneo promete por alguns instantes? Pegue quaisquer dois personagens e você encontrará uma combinação de competição e cooperação. É impossível descrever os relacionamentos em sua complexidade. A graça mesma de assistir está em vê-los se desenrolar aos poucos; um olhar, um desencontro, um silêncio; há histórias progredindo nas entrelinhas, há o passado de cada personagem que descobrimos pouco a pouco e as inseguranças quanto a um futuro ainda indefinido. Tudo muito real e relativamente sutil.
A primeira temporada termina num clímax. Todos os conflitos se intensificam, e mesmo os que se resolveram dão uma virada nova (a disputa pela vaga entre Alicia e Cary, por exemplo, foi resolvida mas deu lugar a algo ainda mais sério). Se a segunda e as subseqüentes mantiverem o mesmo nível, teremos bons motivos para ir menos ao cinema.
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