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O Natal na Arte

Filed under: Artes plásticas incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 22 de dezembro de 2010

A prova de que o Natal não precisa ser cafona. Já que nossa revista não tem (ainda) o cacife para mandar seus leitores à Europa, podemos ao menos apontar o dedo.

O Museo Nacional del Prado, de Madri, iniciou uma nova exposição de parte de seu acervo: quadros ligados à Natividade.  Da Anunciação à Fuga ao Egito, do século XV ao XVIII. É só clicar na bolha com o tema, clicar no quadro particular e clicar mais uma vez no botão para expandir a imagem; a qualidade das fotos em geral está bem alta; dá-se zoom máximo sem borrar. Memling, El Greco – cuja Anunciação é um dos pontos mais altos de uma exposição cuja média já está nas alturas -, Fra Angelico; preparações para um Natal mais feliz do que exércitos de papais Noel tocando instrumentos de jazz.


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Códigos, sistemas, palidez

Filed under: Feliz Nova Dieta incluído por Julio Lemos
Data do post: 21 de dezembro de 2010

Alguns enxergam padrões em tudo. Quando era pequeno, andava pelo calçadão do centro de Londrina descobrindo figuras geométricas escondidas e saltando-as para não interromper com meus pés nenhuma linha invisível que formasse ou ligasse as ditas figuras. Imaginava — sonhava, acordado e dormindo, com — o mecanismo escondido nos mostradores do elevador do prédio. Percebia que ninguém se importava com essas coisas e, pouco a pouco, soube reprimi-las (para deixar que, mais adiante, voltassem como obsessões antigas vestidas com roupas novas).

Muito depois, tentei enxergar padrões nas expectativas das pessoas — procedimentos intuitivos que eu tentava tornar lógicos e evidentes, passíveis de exposição racional — quando em sociedade. Encontrei adiante reflexos disso na obra de Niklas Luhmann (em especial em Soziale Systeme e no seu bizarro tratado sobre o amor, Love as Passion – The Codification of Intimacy, que pretendo reler em breve).

A sociedade possui códigos ocultos de comportamento que, se fôssemos listar, renderiam gigabytes de raw text. As pessoas, por sua vez, carregam consigo curricula ocultos. Muitos aprendem muito cedo a lê-los e entendê-los: e a exatidão com que o fazem causaria inveja em qualquer gênio das ciências sociais — caso, por exemplo, esse conhecimento intuitivo pudesse ser transformado em uma lista de procedimentos, atos e relações por meio de um complexo algoritmo lógico-deôntico.

Outros parecem ignorar esses códigos, e precisam apreendê-los do modo difícil: racionalmente. Os códigos, processamentos ocultos de inputs/outputs, critérios de positividade e negatividade, reprocessamento, acoplamento estrutural, etc (tudo isso manifestando-se na linguagem, simplesmente, quase sempre não-verbal)… Apreender tudo isso racionalmente exige um QI avantajado e, pior, um esforço sobre-humano. Como saber e lembrar qual a distância que deve manter um homem de uma mulher ao conversar com ela, com variações de intimidade, diferença de idade, hora do dia, contexto, situação, lugar? Isso pode levar facilmente ao esgotamento mental.

Lembro-me da conversa com um advogado em 2001. Em dado momento, perdi a conta dos códigos e não sabia o que falar ou para onde olhar. Fiquei pálido e precisei sentar. Estaria racionalizando códigos ocultos? Isso acontece com muita gente, variando apenas a freqüência. Com o tempo, aprende-se a colocar o carro no piloto automático. Pensar estraga e torna o processo todo algo extremamente lento.

(publicado em Feliz Nova Dieta).


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Melhores do ano – parte IV

Filed under: Literatura incluído por Joel Pinheiro
Data do post:

Minha vez de fazer as cinco recomendações natalinas.

A Confederacy of Dunces – John Kennedy Toole

Ignatius Reilly é preguiçoso, mal-humorado, fracassado, hipocondríaco, arrogante, extremamente pretensioso e carece do mais básico senso de ridículo. Sua visão de mundo reacionária e teológica, que culmina na devoção pela Consolação da Filosofia de Boécio e uso dela como guia existencial, tornam-no uma figura improvável na lasciva New Orleans dos anos 60. Para completar, tem trinta anos de idade, quatro dos quais gastos num mestrado ainda inacabado, nunca trabalhou e mora com a mãe. Ah sim, e é obeso mórbido com flatulência crônica. Como pode ser ele cativante e, junto com Myrna Minkoff, sua antítese espelhada e antiga rival ideológica da faculdade, o personagem mais são de toda a trama? Acompanhar as peripécias desse “Oliver Hardy louco, Dom Quixote gordo, Tomás de Aquino perverso” (como o descreveu Walker Percy) quando circunstâncias externas o obrigam a procurar um emprego – mais uma iniqüidade do mundo moderno – é uma experiência ao mesmo tempo hilária e enriquecedora a nosso sentido de humanidade.

The Bourgeois Virtues – Deirdre McCloskey

Sim, o mercado precisa de uma base moral para funcionar. Nada mais lugar-comum. O que muitas vezes não se diz é que ele é também um ambiente que permite e incentiva a formação das virtudes. O livro de Deirdre McCloskey, primeiro de uma trilogia, é desigual – há longas considerações de virtudes particulares que parecem fora de lugar (especialmente quando o assunto é “gênero”). Mas a substância principal, a reunião há muito adiada de economia de mercado e ética das virtudes, é um bálsamo para qualquer leitor insatisfeito com as escolhas-padrão entre liberais amorais e virtuosos filo-socialistas. Ela é uma ótima economista, escreve bem e revela amplidão de leituras; é bom que não-filósofos invadam um pouco o terreno; o desvio ocasional é mais do que compensado pelo frescor de novas perspectivas no debate.

The Book in the Renaissance – Andrew Pettegree

A boa História é feita menos de leituras grandiosas do que de fidelidade aos fatos. Esse é o grande mérito de Andrew Pettegree: debruçar-se sobre os dados dos primeiros 150 anos da imprensa (de meados do XV até o fim do XVI) e nos pintar um retrato bastante convincente e extenso de como foi esse conturbado mercado em seu início. O que as pessoas liam, o que sustentava as empresas, quais os grandes empreendedores, quais as principais cidades do mundo editorial, os tamanhos das tiragens, como evoluiu a tecnologia, as técnicas de diagramação e a tipografia; tudo isso embasado em pesquisa minuciosa. Há algo mais contrário às humanidades do que a contabilidade? E, no entanto, séculos mais tarde, são os registros contábeis que nos ajudam a contar a história. A riqueza de dados e fatos anedóticos encantará qualquer um que se interesse pelo Renascimento europeu ou pela história da imprensa.

Memórias do Subsolo – Dostoievski

Precisa de elogio meu? Melhor estudo da ação do mal na natureza humana do que muitos, ou até todos, os tratados filosóficos; que dirá científicos. Leiam.

The Mysterious Flame – Colin McGinn

O problema da relação mente e corpo é dos mais complicados da filosofia. Colin McGinn é da escola dos “mysterians”, colega de Thomas Nagel: defendem, por um lado, um dualismo bastante forte e, por outro, que não conhecemos, e mais, que somos incapazes de conhecer, a natureza da relação. E por acaso é de se espantar que um alicate não consiga desmontar a si mesmo? O livro é bem acessível, chegando a pecar por uma simplificação demasiada das discussões, mas os argumentos principais estão lá e há momentos de pura maestria argumentativa (por exemplo, quando McGinn mostra que, se as máquinas futuras operarem pelos mesmos princípios que as atuais, então nunca criaremos um robô “consciente”, não importa o quanto a IA avance). A tese de que mente e corpo são duas substâncias sempre me pareceu inverossímil; e ele é mais dado a reducionismos fáceis do que Nagel, que é inegavelmente superior. Mas quando qualquer um dos dois descreve a natureza da sensação subjetiva e sublinha a diferença dela para com os processos físicos do cérebro, desperta o cartesiano dentro de mim; sem glândula pineal, claro.


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A chaga do Cristianismo

Filed under: História,Religião incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 20 de dezembro de 2010

(É Natal, como todos sabem. Toda vez que chega esta época penso igual a T.S. Eliot em seu poema Journey of the Magi: That this was all folly. Tudo isto aqui é uma tolice só. Seria verdade? O Natal coloca o mundo em sua verdadeira perspectiva – isto é, em absoluto ceticismo que paradoxalmente nos abre para algo maior. Abaixo, um texto antigo que tenta mostrar, talvez mais para mim mesmo do que para o leitor, como o Cristianismo consegue – e conseguirá – prevalecer, independentemente de todas as chagas que o consomem e que são produzidas justamente por seus membros mais devotos.

Ah, sim: entro em recesso a partir de agora. Volto só no dia 20 de janeiro de 2011. Feliz Natal e um Próspero Ano Novo aos leitores e leitoras que me acompanharam neste blog e na revista. Obrigado pela leitura e pelo silencioso apoio.)

“O cristianismo, identificando verdade com fé, deve ensinar – e, adequadamente compreendido, de fato o faz – que qualquer interferência à verdade é imoral. Um cristão com fé nada tem a temer dos fatos; um historiador cristão que estabelece limites para o campo de investigação, em qualquer ponto que seja, está admitindo os limites de sua fé. E, naturalmente, também destruindo a natureza de sua religião, qual seja uma revelação progressiva da verdade. Por conseguinte, o cristão, a meu ver, não deve ser impedido, nem no mais leve grau, de seguir o fio da verdade; com efeito, é, positivamente, fadado a segui-la. De fato, ele deveria ser mais livre que o não-cristão, comprometido por princípio com sua própria rejeição. Em todas as circunstâncias, procurei apresentar os fatos da história cristã do modo mais verdadeiro e mais cru de que sou capaz, deixando o resto para o leitor”.

Paul Jonhson, no prefácio da sua “História do Cristianismo”.

O evangelho de João diz que, depois que Cristo morreu na cruz, soldados romanos quebraram as pernas do primeiro homem que estava ao lado dele, e depois as do segundo. Quando chegaram a Jesus, decidiram, repentinamente, não quebrar suas pernas. Conta o discípulo amado (João 19:34-37): “Em vez disso, um dos soldados perfurou o lado de Jesus com uma lança, e logo saiu sangue e água. Aquele que o viu, disso deu seu testemunho, e o seu testemunho é verdadeiro. Ele sabe que está dizendo a verdade, e dela testemunha para que vocês também creiam. Estas coisas aconteceram para que se cumprisse a Escritura: ‘Nenhum de seus ossos será quebrado’ e, como diz a Escritura noutro lugar: ‘Olharão para aquele que trespassarem’ “.

Como tudo na história de Cristo, cada detalhe tem um sentido simbólico intenso, que ecoa através dos tempos. João é o único dos evangelistas que afirma ter visto o cadáver de Jesus ser ferido após suas morte porque, segundo os estudiosos, dos doze apóstolos, ele teria sido o que presenciou a crucificação (é o que também afirma o seu evangelho). Portanto, esta chaga post mortem possui um significado que se traduz no movimento da História, assim como a súbita decisão de não quebrarem suas pernas. Ferem o corpo de Cristo, mas o mantêm intacto. O que isso quer dizer? Compete a nós, que estamos neste presente sombrio (como todos os presentes), avaliar o que aconteceu no passado para entender melhor este fato inusitado – e o que isso tem a ver com nossa vida cotidiana e futura. Leia mais…


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Melhores do ano – Parte III

Filed under: Geral incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 19 de dezembro de 2010

File:Bryan Ferry - Olympia.jpg

Se Túlio Borges, nosso candango favorito, e Jonas Lopes, nosso pequeno gênio, podem mostrar a sua seleção de melhores do ano de 2011, por que não eu, trabalhador incansável neste in partibus infidelium?

Portanto, lá vai:

Filmes

A safra de filmes 2010 foi relativamente fraca. Da minha parte, vi e revi muitos clássicos antigos e recentes, mas os dois melhores filmes deste ano foram coincidentemente estrelados por Leonardo Di Caprio – Shutter Island, de Martin Scorsese, uma meditação trágica sobre a escolha da realidade, e Inception, uma diversão subversiva sobre a nossa falta de originalidade.

Outros filmes que merecem a nossa menção são o italiano Vincere, de Marco Bellochio, que deveria ser visto como uma aula de como não podemos negociar com nenhuma espécie de tirania (e ainda com o brinde de ver uma interpretação poderosa de Giovana Mezzogiorno); Tetro, de Francis Ford Coppola, que, mesmo com sua irregularidade, nos dá os 40 minutos finais mais poderosos do cinema recente, provando que o velho Coppola ainda consegue fazer Cinema com C maísculo; e The Social Network, em David Fincher tenta emular o Howard Hawks de Jejum de Amor e nos dá algumas cenas implacáveis sobre o ressentimento que guia a sociedade atual.

Da minha revisão de clássicos, tiro o meu chapéu para Akira Kurosawa que, com o seu quarteto sobre a hybris, Os sete samurais, Trono manchado de sangue, Kagemusha e Ran, dá um curso intensivo de filosofia política que muita gente precisa, especialmente no Brasil.

E, por falar em Brasil, não podemos nos esquecer de Tropa de Elite 2, o filme de José Padilha, com co-roteiro de Bráulio Mantovani, que fez o cinema brasileiro entrar definitivamente na idade adulta.

Televisão

Se o cinema foi claudicante, não se pode dizer o mesmo de sua irmã menor, a Televisão. Neste ano de 2010, descobri duas obras-primas do gênero, que aumentaram as possibilidades dramáticas de como contar uma história: The Wire, de David Simon, e The Sopranos, de David Chase. Há de se fazer também uma menção honrosa a Deadwood, de David Milch, uma minisérie que deveria ser assistida junto com uma leitura sistemática de A democracia na América, de Alexis de Toqueville.

Da escola de David Chase saíram duas das melhores séries realizadas entre 2009-2010: Mad Men, de Matthew Weiner, e Boardwalk Empire, de Terence Winter, com produção executiva de Martin Scorsese.

Já na TV aberta, a grande série do momento é The Good Wife, que consegue estabelecer as ousadias de The Sopranos e The Wire para um público menos sofisticado. E as decepções foram Lost, com seu final constrangedor, e House, que caiu no lugar comum do água com açucar.

Livros

Os dois livros recentes que me impressionaram e que foram lançados neste ano no Brasil são Às cegas, de Claudio Magris, um dos livros definitivos sobre o funcionamento da mentalidade revolucionária, e Até mais, vejo você amanhã, de William Maxwell, uma pérola sobre culpa e amizade. Magris é talvez o único escritor europeu que pode ficar frente a frente com Mario Vargas Llosa no quesito abrangência e ambição; e Maxwell foi editor de ficção da New Yorker, revisando contos de escritores como Updike, Nabokov e Salinger, e provando que, na hora de criar, é do mesmo patamar de todos eles, mesmo com uma obra feita na surdina.

E falando em Vargas Llosa, como fui incubido de entrevistá-lo para a Dicta 6, tive de ler toda a sua obra, do início ao fim, fiz exatamente isso. Ainda não cheguei ao último romance, O sonho do celta, mas estou quase lá. Contudo, de todos os seus livros, o que me deixou mais surpreendido foi A festa do bode, uma obra-prima de maturidade, o ápice de tudo aquilo que o escritor peruano sempre desejou realizar.

Na minha leitura de clássicos, o prêmio vai para a minha redescoberta das obras completas de Dostoievski, que agora estão lidas com lápis e papel na mão, e A democracia na América, livro essencial para se entender o que acontece no mundo justamente agora.

Entre as editoras, temos de fazer menção às três grandes do mercado editorial: a Companhia das Letras, com  a iniciativa Penguin Clássicos, a Record, pela ousadia de ter enfrentado a turma de Luiz Schwarcz e ter provado que tinha razão, mesmo com toda a mídia querendo dizer o contrário, e a Cosac Naify, que publicou O outono da idade média, de Johan Huizinga, e Os embaixadores, de Henry James, em volumes de altíssima qualidade.

A outra editora que ainda tem muito o que fazer é a É Realizações, que expandiu consideravelmente o seu catálogo com obras de René Girard, Xavier Zubiri, Bernard Lonergan e Eric Voegelin, além de ter lançado o melhor romance da literatura brasileira atual, As almas que se quebram no chão, de Karleno Bocarro.

E da parte que nos toca, nem preciso dizer do relançamento de As horas de Katharina, editado pela Record, organizado pelo IFE e que, independentemente do que se diga sobre Bruno Tolentino, não há como se negar de que se trata de um dos maiores livros de poesia já feitos.

Música

Um dos grandes problemas entre os chamados jovens conservadores – que não são jovens coisa nenhuma, são apenas velhinhos que se vestem como hipsters – é que eles desprezam a música pop e ficam arrotando sobre as benesses da música erudita, como se soubessem Bach e Mahler a torto e a direito.

Da parte que me cabe, música pop, o velho e bom rock-n´-roll são tratados como arte – e vá para o brejo quem quiser me confrontar com argumentos pseudo-eruditos.

Assim, digo que o melhor álbum do ano é Olympia, de Bryan Ferry, que mostra como se faz rock com elegância. Cheio de referências à primeira fase do Roxy Music, Olympia tem o charme de uma noite regada a sexo que depois desembocará na ressaca da realidade. Contudo, tudo isso acontece com muita finesse – algo complementado com a visão de nossa Olympia atual, uma Kate Moss rechonchuda para os seus próprios padrões e que mostra a destruição dos abusos do tempo em suas linhas antes tão angelicais.

Agora, se você procura redenção, vai encontrar em The union, álbum que reúne Elton John e Leon Russell; o primeiro se mostra aqui como uma diva pop que se arrepende de uma vida desregrada; o segundo, já destruído por uma vida que quase caiu no esquecimento, volta como o troubadour evangélico e mostra que sempre foi um estranho numa terra estranha. Nunca gostei de Elton John – a visão dele cantando Candle in the wind no funeral de Lady Di ainda me provoca pesadelos – mas dou meu braço a torcer desta vez e afirmo que ele produziu uma obra-prima.

The union foi produzido por T-Bone Burnett, que também ajudou Elvis Costello em seu National Ranson, um ciclo cômico sobre o capitalismo nos EUA. Costello mostra seu habitual brilhantismo em composições intrincadas que, mesmo para um ouvinte muito sofisticado, devem soar excêntricas.

É isso. Esta foi a minha lista de melhores do ano de 2010. Quem quiser reclamar, a caixa de comentários está para isso mesmo, obviamente dentro das regras da boa educação.

 


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Melhores do ano – parte II

Filed under: Literatura incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 17 de dezembro de 2010

Continuando com nossa série de presentes de Natal que gostaríamos de dar para você, leitor, mas não podemos, apresentamos agora as escolhas de Jonas Lopes, que, se não fosse pelo fato de sofrer do Mal de Montano, sem dúvida seria o nosso futuro Edmund Wilson.

Por Jonas Lopes

Alguns grandes livros de 2010:

Ficção contemporânea

Javier Marías – Seu Rosto Amanhã: 3. Veneno, Sombra e Adeus. Finalmente os leitores brasileiros têm à disposição a integral do estupendo romance em três partes do escritor madrileno (e não uma trilogia, como alguns críticos brasileiros imaginam…). Nessa meditação sobre o tempo, o medo e a indefectível tendência humana de trair o próximo, Javier Marías conseguiu levar ao extremo sua particular arquitetura literária, formada por períodos quilométricos, digressões metafísicas que duram dezenas de páginas e insights sobre Oxford, a ditadura de Franco e o serviço secreto britânico. Não por acaso, a crítica internacional tem feito comparações com Proust e Henry James. Dá para contar nos dedos quantos autores vivos conseguem ainda levar o romance de ideias a tal patamar.

Philip Roth – A Humilhação. Roth dispensa apresentações: desde Operação Shylock, de 1993, não para de produzir obras-primas. A novela A Humilhação integra uma tetralogia sobre a morte composta ainda por Homem Comum, Indignação e o recente Nemesis, programado para sair no Brasil em 2011. Mais uma vez Roth explora o massacre que é a velhice através da história de Simon Axler, ator dedicado aos grandes personagens do cânone teatral (Falstaff, Tio Vânia, Peer Gynt) que um dia simplesmente perde a magia. A abordagem do autor, mais uma vez, é cáustica: mais do que se preocupar com a proximidade do fim e com seu senso de finitude, Axler precisa encontrar um modo de apodrecer dignamente. Uma chance ocorre quando se relaciona com uma mulher bem mais jovem. Quanto à atmosfera do livro, impossível não pensar em Death, poema de Yeats (que tem um verso utilizado como referência por Roth para o título de outra obra, O Animal Agonizante): “He knows death to the bone/ Man has created death”.

Juan José Saer – O Grande. Saer morreu tragicamente cedo, em 2005, aos 67 anos, e sua produção continua saindo a ritmo de conta-gotas no Brasil (corra atrás de A Pesquisa e As Nuvens). Inspirado na Grosse Fuge de Beethoven e na Nona Sinfonia de Schubert, O Grande ficou inacabado. Nada que atrapalhe o ritmo febril e tortuoso do texto saeriano, tão ensaístico quanto o de Marías. Algo mítica, a trama trata do retorno de Willi Gutiérrez à região natal, no norte de Argentina, depois de trinta anos vivendo na Europa. Em sete capítulos, um referente a cada dia da semana, Saer destrincha as mudanças ocorridas na população da pequena e abafada Rincón devido a esse inesperado regresso.

Ficção clássica

Henry James – Os Embaixadores. Pode parecer mentira, mas aquele que concorre seriamente ao posto de mais perfeito livro de Henry James – e que the master himself considerava o seu predileto – nunca tinha sido editado no Brasil. Agora foi, graças aos esforços da Cosac Naify e do crítico e professor Marcelo Pen, estudioso da obra do escritor (vale a pena ler sua tese de doutorado, que traça paralelos pertinentes entre este romance e Memorial de Aires). Exemplar típico do estilo tardio de James, Os Embaixadores é uma obra-prima de transição entre a velha narração novecentista e o nascente modernismo. Em poucos trabalhos percebe-se tão bem como o americano aproveitou a rápida carreira de dramaturgo (abortada pela incompreensão e estupidez do público) para criar uma prosa alusiva, rica em sugestões e ambiguidade. Por meio de um narrador espertamente incerto e não-confiável, James vasculha cada canto da consciência de Lambert Strether e induz o leitor a confrontar os conflitos morais antes mesmo do protagonista.

Liev Tolstói – Ressurreição. Ainda tem muita gente que associa os livros do final da vida de Tolstói às ideias sobre moral, religião e arte que o gênio russo adotou na época. Bobagem. Como negar as imensas qualidades de A Sonata a Kreutzer ou de Khadji-Murát (aliás, também relançado este ano)? Ressurreição encaixa-se nessa categoria: por vários anos o romance foi considerado uma mera pregação. Azar de quem não reconhece o impacto desse mergulho nos meandros da redenção. Trata-se, em especial, de um ataque feroz ao desejo do Estado de nos conduzir como carneirinhos. A tradução é de Rubens Figueiredo, agora debruçado sobre o monumental Guerra e Paz. Encontro marcado, portanto, daqui a um ano, nesta mesma lista, neste mesmo blog.

Mas houve muito mais coisa em 2010, inclusive de não-ficção, como O Outono da Idade Média (Johann Huizinga), O Poder da Arte (Simon Schama), Aforismos (Karl Kraus), O Tempero da Vida (Chesterton) e Arte Moderna na Europa (Giulio Carlo Argan). Na literatura brasileira, destaco livros de três gêneros: poesia (Em Alguma Parte Alguma, de Ferreira Gullar), conto (Uma Fome, de Leandro Sarmatz) e romance (Passageiro do Fim do Dia, de Rubens Figueiredo). Entre as reedições, As Viagens de Gulliver enfim ganhou versão de um tradutor digno, Paulo Henriques Britto, e tivemos novas edições de Bellow, Cheever, Bioy Casares, Bulgákov, Carver, Gógol, Sebald, Sarmiento…


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Melhores do ano – parte I

Filed under: Literatura incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 16 de dezembro de 2010

A Dicta publicará entre hoje e amanhã uma seleção de melhores livros que você pode querer como presente de Natal. O primeiro a indicar é Túlio Borges, o enfant-terrible de Brasília, um de nossos colaboradores mais rigorosos e, por isso mesmo, mais confiáveis.

Por Túlio Borges

From Gibbon to Auden: Essays on the Classical Tradition (Oxford University Press, 2009), do exímio classicista G. W. Bowersock, é um belíssimo livro – a começar pela pintura de Hubert Robert que adorna a jaqueta. De Gibbon a Auden, passando por Berlioz, Burckhardt e Cavafy. Os vários ensaios são elegantes, eruditos e escrupulosos; e têm um tema em comum: as diversas maneiras pelas quais o espírito da Antigüidade Greco-Romana tem animado o Ocidente nos últimos séculos. Scholarship of the highest order! Um magnífico resumo da carreira de Bowersock, bem como uma estimulante introdução à sua obra.

Se Bowersock representa o ideal do estudioso, George Steiner é o polímata por excelência. Está no auge de sua forma na coletânea de ensaios George Steiner at the New Yorker (New Directions, 2009). Talvez a seleção se concentre demasiado na Europa Central, mas ainda assim dá ao leitor mais do que ele aprenderia em vários anos de um curso universitário nas Humanidades ou Ciências Sociais. Foi-se o tempo em que os docentes tinham algo inteligente a dizer sobre Anton von Webern e Viena, a culpabilidade de Albert Speer, a traição de Anthony Blunt, a sagacidade de Karl Kraus, a correspondência entre Walter Benjamin e Gershom Scholem ou a obra de Alexander Soljenítsin.

Por falar nisso, finalmente consegui terminar a leitura dos três volumes que compõem a edição americana de O Arquipélago Gulag, republicada em 2007 pela Harper Perennial. Um livro monumental. Soljenítsin sobreviveu ao inferno e tornou-se um homem de assustadora sabedoria. Em sua magnum opus, ele radiografa a alma humana, demonstrando indignação diante da estupidez e perfídia de que somos capazes. Só Tucídides – embora com menos paixão – demonstra semelhante competência no exame da natureza do homem.

Ainda em meados de 2009, foi-me enviada uma review copy de Disturbing Revelation: Leo Strauss, Eric Voegelin and the Bible (University of Missouri Press, 2009), de John J. Ranieri. O subtítulo diz tudo. Strauss e Voegelin, dois gigantes da filosofia política que travaram um dos diálogos mais fascinantes da história do pensamento, examinam um dos textos constitutivos da civilização ocidental. E Ranieri, autor de aguda sensibilidade, os coloca diante de outra imponente presença intelectual, a de René Girard. O livro deve sair no Brasil pela É Realizações.

Por fim, pude ler algumas extraordinárias biografias em 2010, como a de Whittaker Chambers, escrita há mais de uma década por Sam Tanenhaus, ou aquela de V.S. Naipaul, publicada em 2008 por Patrick French. Não obstante, devo destacar George Kennan: A Writing Life (ISI Books, 2008), de Lee Congdon. Trata-se de uma apropriada homenagem ao “maior americano do século XX”, o famoso diplomata cuja verdadeira vocação era a literatura e um homem de alma européia, que adorava o século XVIII. O livro de Congdon é tão bom que merece figurar ao lado da mais famosa biografia de Kennan, publicada um ano antes por John Lukacs.


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William Faulkner, bardo norte-americano

Filed under: Literatura incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 15 de dezembro de 2010

  

Em A Democracia na América, Alexis de Tocqueville medita sobre a pobreza de uma literatura voltada para os novos padrões da sensibilidade democrática. Alega que faltará a ela uma nova forma de ver as coisas; de que será substituída por uma superficialidade jornalística; de que comoverá os leitores apelando para as paixões baixas e não elevando as virtudes necessárias.

Tocqueville escreveu isso em 1835. O tempo mostrou que ele estava errado. Os EUA produziriam Herman Melville, Emily Dickenson, Walt Whitman, Edgar Allan Poe, Henry James e, enfim, William Faulkner. Este último é a prova de que a América pode produzir um estilo aristocrático, difícil, exigente – e ainda elevar as virtudes humanas a picos mais elevados.

O Brasil redescobre a obra de Faulkner aos poucos, com o lançamento de suas obras mais importantes pela Cosac Naify, como O som e a fúria, Luz em Agosto, Palmeiras Selvagens e agora Sartoris, o primeiro épico que se passa no mítico condado de Yokapathawpha. O próximo lançamento é Absalão, Absalão!, previsto para meados de 2011.

Durante o lançamento de Sartoris no Brasil, a editora trouxe ao país Noah Polk, talvez o maior especialista de William Faulkner em todo o mundo. Foi Polk quem estabeleceu o texto das edições definitivas de O som e a fúria e de As I lay dying, além de organizar as obras completas de Faulkner para a coleção da Library of America. Além disso, ele é professor de literatura na Universidade do Mississipi, onde leciona na catédra de estudos sobre Literatura Americana do Sul, com cursos sobre Eudora Welty e, claro, William Faulkner.

A Dicta&Contradicta conversou por e-mail com Polk, que foi gentil o suficiente para responder a algumas perguntas.

1)  Sartoris é o primeiro grande épico de William Faulkner sobre Yokapathawpha, o mítico condado onde passa a maioria de suas histórias. É necessário conhecer a história da Guerra Civil Americana para entender as sutilezas do universo de Faulkner, especialmente neste romance?

Não, não é necessário. Mas claro que pode ajudar. Acredito que os bons romances suprem tudo aquilo que o leitor precisa saber. O mesmo pode ser dito de Tolstoi e Dostoievski, por exemplo: ninguém precisa de um conhecimento enciclopédico sobre as guerras napoleônicas ou sobre os camponeses russos para lê-los de forma inteligente. A mesma coisa com os escritores da América Latina: ajudaria aos leitores de Cem Anos de Solidão saber um pouco mais sobre o contexto histórico do qual Garcia Márquez se refere, mas o romance é poderoso por si só sem este conhecimento.

 2)  William Faulkner era um escritor obcecado com a passagem do tempo?

É mais exato afirmar que Faulkner era um escritor obcecado com a perda e o seu interesse em relação à passagem do tempo surge como conseqüência disso. Seus personagens sempre estão olhando para trás, sempre tentam recuperar algum momento edênico que perderam – seja um lugar, um amor ou uma experiência que os definiu e que jamais recuperarão. É algo como o conceito cristão do Pecado Original: nós crescemos sentindo que perdemos alguma coisa (inocência? Completude?) que de fato nunca tivemos; portanto, sempre há uma lacuna, uma sinapse, que a passagem do tempo cria porque não podemos, no presente momento, nos conectar com a completude. Penso que Faulkner está mais interessado em como negociamos esta lacuna no nosso presente. E o tempo está sempre envolvido nesta negociação, é claro.

3)  Faulkner usa uma técnica ousada para mostrar ao leitor esta passagem do tempo. Como ela se desenvolve de Sartoris a Luz em Agosto?

Estou convencido de que Faulkner sabia o suficiente sobre as teorias de Einstein para usá-las em O som e a fúria. Neste romance, Quentin Compson medita sobre “os longos e solitários raios de luz” sobre os quais ele vê Jesus caminhando. A frase citada pode ter vindo de Einstein, que entendia como o tempo e o espaço estão relacionados: ele percebeu que a gravidade faz a luz se dobrar, como a matéria, e como ele iguala o tempo com a velocidade da luz, então a luz pode também se dobrar; se o tempo se dobra, não se move de maneira linear de A para B para C. Se ele se dobra, deve dobrar-se de volta para A – portanto, está constantemente se repetindo, nunca se completando. Se isto é verdade, como Faulkner sugere, se podemos nos mover na velocidade da luz, nós poderemos ver Jesus caminhando. Faulkner retrata isto na primeira parte do romance em que o mentalmente incapaz Benjy Compson vive em um constante desdobramento entre 15 ou 16 episódios importantes de sua vida. Os críticos acreditam que sua memória se move para frente e para trás entre os episódios e isto é verdade; mas acredito também que Faulkner pretende mostrar que todos esses mesmos episódios acontecem ao mesmo tempo em sua mente, retornando aos “longos e solitários raios de luz”.

4)  Em Luz em Agosto, Faulkner aborda o tema do racismo com nuances cristãs. Acredita que a obra faulkneriana ajudou por um melhor entendimento do problema racial nos EUA nos últimos 40 anos?

Sim, acredito, apesar de que as observações de Faulkner sobre raça não mudaram muita coisa na arena política dos EUA – afinal, o racismo vive muito bem por aqui. Mas é claro que a obra ajudou os leitores a entenderem melhor o problema da raça de uma forma mais profunda. Penso também que a pessoa que melhor aprendeu sobre o problema da raça foi o próprio Faulkner: quem poderia escrever o que escreveu e não ficar impressionando com o que viu? Creio que foi o seu próprio trabalho que o motivou a entrar no período de ativismo da década de 1950, quando desceu de sua torre modernista e resolveu se engajar publicamente nos assuntos de raça, escrevendo ensaios e aparecendo nos programas de rádios, tentando impedir que acontecesse uma nova guerra civil.

 5)  O que você pode nos dizer a respeito das crenças religiosas de Faulkner, especialmente em livros como Luz em Agosto, Réquiem para uma negra e Uma fábula?

Bem, penso que Faulkner não era uma pessoa religiosa no sentido convencional. Argumentei durante anos que Uma fábula não é uma versão da paixão de Cristo, como boa parte dos críticos entenderam, mas uma reescritura das implicações políticas da crucificação de Cristo. O que Uma fábula denuncia é como a estrutura de poder na Primeira Guerra Mundial – e, portanto, todas as estruturas de poder – cooptam o sacrifício do soldado pela sua vida e como cooptam o seu próprio sentido de poder sobre este mesmo sacrifício. Faulkner entende que o Cristianismo é uma extensão do poder político, que explora tudo aquilo que “Cristo” defende por seus próprios fins.

6) Em Absalão, Absalão!, Faulkner escreve sobre o “grande desígnio” de Thomas Sutpen, que pensa que mudará o mundo. Claro que isto não aconteceu. Será que Faulkner está refletindo sobre uma tirania política que esmaga a vida das pessoas comuns?

Muitos leram Absalão, Absalão! desta maneira. Penso que a vida de Sutpen foi tão caótica quando criança – a pobreza, um pai racista, violento e alcoólatra – que tudo o que ele queria foi impor alguma espécie de ordem. E assim entendeu que para conseguir isso tinha de ter uma grande mansão, com vários empregados, construída por ele mesmo. Se tinha de impor ordem, faria com todos ao seu redor, sem desculpas. Hoje ele seria chamado de “control freak”. Mas como não conseguiu controlar a desordem da sua alma, então tornou-se igual ao pai que nunca quis ser. Acho que, se lido dessa forma, Absalão, Absalão! é mais como uma busca pessoal, não como algo político, apesar de que idéias como controle e poder estão intimamente relacionadas com a política.

7)  Mario Vargas Llosa, prêmio Nobel de Literatura de 2010, é um grande fã de Faulkner. Ele é um dos inúmeros escritores latino-americanos que usaram a técnica faulkneriana de contar uma história – e existem outros que foram profundamente influenciados, como Gárcia Márquez, Juan Carlos Onetti e Juan Rulfo. Por que você acha que Faulkner teve essa influência na literatura latino americana?

Esta é uma questão difícil para mim pois conheço muito pouco sobre os escritores latino americanos e, durante a minha visita ao Brasil e ao Uruguai, tentei aprender um pouco mais sobre eles. O que posso falar do pouco que sei é que Faulkner parece ter dado uma espécie de mapa para um novo modo de entender e de usar a linguagem. De várias maneiras ele conseguiu desconstruir a história do Sul: muito do que Absalão, Absalão! fala é como uma história se torna a construção de uma voz narrativa – há sempre duas vozes que conversam entre si, que se contradizem, contam e recontam, aperfeiçoando o que uma disse a outra e só no final ambas chegam a um consenso. A narrativa tenta dar unidade e coerência a um documento, a uma foto, a um pedaço de uma tumba – enfim, a algo que não pode ser contado de forma direta. Os historiadores tentam fazer a mesma coisa: explicam, aperfeiçoam, se contradizem, interpretam, até conseguirem alguma coerência na história de seu país ou de sua região. O que chama atenção em Absalão, Absalão! é precisamente a natureza “construída” de sua história, e mostra como esta mesma construção pode ser usada por políticos para justificarem os seus regimes. Logo, talvez o que Faulkner deu a vários escritores latino americanos – além de grandes romances! – foi o acesso ao que chamamos de “contra-narrativas” que possam “re-contar” as histórias de seus países.

8)  Quem é o herdeiro de William Faulkner na literatura americana atual?

Uma outra questão difícil, já que Faulkner é um desses colossos e sua influência pode ser vista de diferentes formas na literatura atual. Creio que o falecido Barry Hannah foi o único escritor que conseguiu realizar algo parecido na linguagem e no estilo com o que Faulkner tentou realizar, i.e., atravessar novas fronteiras em ambos. Admiro profundamente Philip Roth, um escritor muito diferente de Faulkner, e, claro, Eudora Welty.

9) Qual é o seu romance favorito de Faulkner?

Sempre respondo a esta pergunta da seguinte forma: “Aquele que estou lendo no momento.” Isso é quase verdade porque agora são todos interessantes. Se me perguntar qual romance eu levaria para uma ilha deserta, se eu tivesse que levar um pelo resto da minha vida, a resposta mudaria todo dia! Atualmente, eu diria que meu favorito é Go down, Moses. Se pudesse levar mais quatro livros, seriam O povoado, O som e a fúria, Absalão, Absalão! e A cidade.

10)  William Faulkner é um bom exemplo para os jovens escritores dos nossos tempos, repletos de Kindle, Internet e i Pads?

Sim. Suspeito de que Faulkner jamais usaria um computador (sequer autorizava televisão, rádio ou ar-condicionado em sua casa!), mas ele diria que o importante é o resultado final e não como você chegou lá! Boa literatura é sempre boa literatura: se emocionar o coração sempre será boa, não tenha dúvidas disso.


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A crônica da auto-destruição

Filed under: Música incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 14 de dezembro de 2010

(Quem já viu The Social Network, de David Fincher, deve ter reparado na música hipnótica que acompanha as canalhices do Mark Zuckerberg de Jesse Eisenberg. Ficamos surpresos quando lemos nos créditos que quem fez isso foi ninguém menos que Trent Reznor, o líder e o principal integrante da banda Nine Inch Nails, um dos grandes grupos musicais dos anos 90. Depois de ter feito dois álbuns medíocres, Reznor parecia que não retornaria aos bons tempos de The Downward Spiral e The Fragile. Será que agora ele voltará à antiga forma? Enquanto não sabemos a resposta a esta pergunta, que tal rever os álbuns que lhe deram fama e glória?)

I saw the best minds of my generation destroyed by madness, starving hysterical naked
Allen Ginsberg, “Howl”

“Eu sou o Senhor Auto-Destruição”, gritava Trent Reznor na abertura de “The Downward Spiral” (1994), um dos mais impressionantes discos dos anos 90. E ele estava falando a verdade. Gritos, sussurros, silêncios alternados com uma bateria brutal e uma sonoridade eletrônica que remetia aos nossos piores pesadelos, davam ao ouvinte a sensação de que o rock podia captar as sutilezas de uma mente e de um espírito mais do que mórbidos. Reznor fez isso como ninguém na década de 90, a mesma década em que Deus virou uma mercadoria à venda e que a humanidade ficou mais próxima da bestialidade.

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Lançamento Dicta 06 – PREVIEW

Filed under: Geral incluído por Guilherme Malzoni Rabello
Data do post: 12 de dezembro de 2010

O nosso lançamento foi na última terça e até agora ninguém veio aqui contar como foi. Somos obviamente suspeitos para falar, mas desconfio de que quase todo mundo gostou do que viu. Tivemos uma boa conversa, com um público espetacular e convidados de primeira.

O vídeo do lançamento está em processo de edição, mas espero colocá-lo aqui antes do Natal. Enquanto a brincadeira completa não chega, vocês podem matar a curiosidade no site da VejaSP. Eles cobriram o evento e já colocaram uma amostra no ar. É só entrar aqui (são 11 trechos ao todo).


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