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Morre Daniel Piza

Filed under: Sociedade incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 31 de dezembro de 2011

Esse fim de ano está, ao menos é o que me parece, especialmente tétrico. Vaclav Havel, Joãosinho Trinta, Cesária Évora, Christopher Hitchens; e agora o jornalista Daniel Piza, vítima de um AVC inesperado na noite de ontem, 30/12. A natureza é mesmo indiferente às expectativas humanas. Leva-nos a pensar na fragilidade da vida.

Aguardem, contudo, para hoje ou amanhã, uma mensagem mais otimista sobre a passagem do ano.


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Lei da Palmada, ou Xuxa vai ao Congresso

Filed under: Sociedade incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 28 de dezembro de 2011

Os ilustres do Congresso conseguiram mais uma: aprovaram a Lei da Palmada, que agora segue para o Senado. Sim, a palmadinha será proibida e passível de punição; basta que alguém delate o agressor. O benefício é 2 em 1: não só coíbe uma prática violenta e perigosíssima como estimula a virtude cívica da delação. O projeto de lei é da ex-deputada, hoje ministra, Maria do Rosário; a mesma que considera o aborto questão de saúde de pública. Ou seja: palmada no bumbum, ato criminoso; esquartejar feto e jogá-lo no lixo, medida profilática. Detalhes. Vamos à discussão da palmada em si.

O que mais chama atenção é a ausência de qualquer dado objetivo para embasar a afirmação principal: palmadas esporádicas na criança pequena têm consequências danosas no longo prazo? Há pesquisas que mostram que maus tratos e violência doméstica têm; mas essas práticas já eram proibidas. Por que ir além da lei existente e punir também a palmada leve? Leia mais…


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Os três espíritos do Natal

Filed under: História,Sociedade incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 26 de dezembro de 2011
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É lugar-comum conservador criticar a época do Natal como desprovida de seu sentido espiritual original, tendo sido reduzida a mera festividade egoísta e materialista, celebração vazia do comércio e do consumismo exacerbado.

Sou o primeiro a deplorar o exército de Papais Noéis que dominam a cidade em novembro, impondo em terras brasileiras o império da cafonice americana (não que careçamos de muitas e abundantes cafonices nacionais!), e que hoje começaram a bater em retirada. Mas não é verdade a afirmação de que, se o Natal não é religioso, ele é egoísta, materialista, ou o que o valha.

O Natal continua a ser uma celebração, ao menos em intenção, do amor entre os homens; de um amor benevolente, generoso, que quer espalhar esperança e alegria a todos. Os dois rituais do Natal laico o ilustram bem: a troca de presentes e a ceia.

Tomem a troca de presentes. Ela não é, de forma alguma, uma mostra de egoísmo e ganância. O que egoístas fariam? Comprariam presentes para si, e não para os outros. Do ponto de vista material, o Natal é uma grande perda econômica. Faça o cálculo com você mesmo: calcule o montante que você gastou com presentes este ano. Suponha que este montante de dinheiro equivalha precisamente ao valor monetário dos presentes que você recebeu. Agora pegue todos esses presentes recebidos (os calções de banho, as meias, etc.), olhe-os com calma e reflita honestamente: valem o que custaram? Não valem. Se o dinheiro tivesse sido dado em sua mão, você poderia fazer um uso muito melhor dele. Quem melhor sabe o que você quer é você mesmo; não seu tio-avô.

O valor da troca de presentes está em ser troca; em pensarmos nos nossos familiares e amigos e dar-lhes algo de que gostem. Fora um ou outro presente ideal – categoria mítica que designa o presente tão bom que supera o que a própria pessoa poderia comprar para si – o benefício dos presentes está nos laços de amor que unem os participantes da troca, que são com ela fortalecidos. A ceia também não vale pelo peru e pela farofa, mas pela união familiar que celebra e efetua. Para muitas famílias, é a grande reunião do ano; e, em geral, uma reunião alegre. Assim, a festa de Natal laica, a festa de Dickens, de Frank Capra e do Papai Noel, não é a festa do egoísmo, mas do amor entre os homens.

Não foi Dickens, contudo, quem inventou o Natal. Ele sempre foi uma ocasião festiva no Ocidente, com banquetes, cantigas, peças dramáticas religiosas, trocas de presentes (dados seja pelas muitas versões locais do Papai Noel, oriundos de S. Nicolau, ou pelo Menino Jesus em pessoa) e celebrações várias. A árvore de Natal existe desde pelo menos o século XVI na Europa central. A cantiga “Noite Feliz”, criada por um padre austríaco e até hoje uma expressão clara da ternura e alegria do espírito natalino, data de 1818, ou seja, é anterior ao conto de Dickens. O Natal antes dele nem passava batido e nem era uma bacanália camponesa.

Enfim, se Dickens não criou a festa, podemos dizer que seu conto manifesta, com maior força, o espírito do Natal laico; espírito cuja gênese histórica está no Natal religioso mas que busca se afirmar como realidade autônoma, aberta e atrativa a todos, não apenas aos cristãos. É esse o Natal público de nossos dias, naquilo que ele tem de melhor, e seu representante é o Papai Noel, figura que só alguém inacreditavelmente ranzinza quereria destruir.

Essa festa laica, contudo, corre o risco de se esvaziar. Quando a compra dos presentes vira uma obrigação custosa e estressante e a escrita dos cartões um processo burocrático; quando a ceia familiar é um ritual tedioso e do qual se quer escapar; quando as decorações de Natal, cujo objetivo é transmitir alegria, tornam-se objetos de competição e vaidade. Então, a “good will to all men” sai gradativamente de cena, deixando em seu lugar enfeites e embalagens coloridos que escondem um espírito cinza, um espírito que com o tempo convencerá a todos que a festa custa mais do que vale. Esse terceiro espírito, o do puro egoísmo materialista, terá vencido quando, e se, o mundo não mais celebrar o Natal e não mais trocar presentes.

Pode ser que o espírito laico do Natal, universalmente acessível e valorizado, se descolado do espírito religioso que o originou, degenere irremediavelmente no espírito materialista que o nega. E se esse for o caso, não se ofendam os ateus com presépios e manjedouras. Permitam, tolerem; ou melhor, abracem, encorajem e até participem das cantigas, Missas e rezas, pois o império do Papai Noel pode levar à morte do Papai Noel. Sem esperança de ressurreição.

Um feliz Natal a todos!


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Vaclav Havel (1936-2011)

Filed under: História,Literatura incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 18 de dezembro de 2011

Nem Christopher Hitchens e muito menos Joãozinho Trinta me fazem sair das minhas férias.

Mas Vaclav Havel sim.

Ele morreu na madrugada de hoje, dormindo.

Se o mundo sente falta de uma bussola moral, ainda tínhamos Havel como norte, com suas peças e discursos que mudaram a história de um país (a Tchecoslováquia) sem usar uma manobra de violência física ou verbal.

(Esta opinião não é apenas minha. Tenho ninguém menos que Tom Stoppard ao meu lado)

Hitchens desponta para o esquecimento, apesar de seu talento inegável.

Já Vaclav Havel será alçado a partir de agora à redescoberta de uma vida que se manteve íntegra mesmo quando enfrentou o Poder que quer nos corromper a qualquer custo.

Sugiro aos leitores que, como homenagem a um verdadeiro grande homem, leiam nada mais nada menos “The power of powerless”, um ensaio que, por si só, poderia refundar toda uma nação.

R.I.P.


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A lágrima feroz

Filed under: Cinema,Religião incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 16 de dezembro de 2011

But Love is not a victory march,

It´s a cold and it´s a broken

Hallelujah

Leonard Cohen

A dor mais insuportável é a do amor não-correspondido. Existem, obviamente, outras dores, como a da doença incurável, a da morte surpreendente, a da perda de um ente querido, a da despedida sem razão – mas elas passam conforme o ritmo do tempo, conforme as lembranças se transformam em lições para as cicatrizes do futuro. Já a dor do amor não-correspondido tem seu impasse peculiar. O tempo não cura suas chagas; a memória não a afaga com a maturidade; ela ecoa pelas épocas e através dos séculos porque, simplesmente, nunca foi consumada em sua forma completa. É uma espécie de maldição que espera um milagre para sua realização definitiva e, enquanto isso, somente será lembrado como um lamento ou, no seu extremo, uma paixão.

Este foi o caso de Jesus de Nazaré, profeta judeu, filho de carpinteiro, amigo de doze pescadores rudes, condenado e crucificado como criminoso, numa morte violenta e estúpida que, sabe-se lá porque, não resistiu de forma alguma. Dois mil e onze anos depois desses fatos, o nome de Jesus ainda é invocado por várias pessoas, em um daqueles enigmas que ninguém tem a coragem de compreender. Ele abençoa, irrita, incomoda, fascina, transforma a vida delas de uma maneira que nenhum outro homem fez. Quando alguém arrisca fazer uma definição precisa sobre quem foi este sujeito, a única coisa que alcança é uma pálida silhueta, uma visão que, se não tomar cuidado, pode envolvê-lo nas sombras se fitar demasiadamente a luz que O envolve.

Estas reflexões me vêm à mente neste momento de Natal e me fazem voltar também à Paixão. O nascimento e a morte de Cristo sempre foram vistos como coisas separadas e isso sempre me pareceu um equívoco. Afinal, como diria São João de Ávila, a madeira da cruz já esta na madeira da manjedoura.

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A nobreza do fracasso

Filed under: Filosofia incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 14 de dezembro de 2011

“Julgo que Deus nos expôs, a nós, apóstolos, em último lugar, como condenados à morte: fomos dados em espetáculo ao mundo, aos anjos e aos homens. Somos loucos por causa de Cristo, vós, porém, sois prudentes em Cristo; somos fracos, vós, porém sois fortes; vós sois bem considerados, nós, porém, somos desprezados. Até o momento presente ainda sofremos fome, sede e nudez; somos maltratados, não temos morada certa e fatigamo-nos trabalhando com as próprias mãos. Somos amaldiçoados, e bendizemos; somos perseguidos, e suportamos; somos caluniados, e consolamos. Até o presente somos considerados como o lixo do mundo, a escória do universo”.

(1 Coríntios 4:9-13)

O drama da pedagogia

“A Nuvem da Ignorância” (The Cloud of Unknowing) é um texto místico inglês redigido em meados do século XIV. Seu autor é um monge cartuxo e até hoje ninguém sabe a sua verdadeira identidade. Contudo, o que está em jogo não é a sua autoria ou uma discussão sobre sua legitimidade como “experiência” passível de incoerência, como supõem alguns pesquisadores intoxicados pelos sentimentos de “progresso” e “modernidade”. Há neste texto uma substância mais profunda e que talvez nos ajude a entender um pouco da nossa atual situação; esta substância, que se preserva do século XIV até os nossos tempos, se revela na própria estrutura do escrito e deve ser analisada lentamente pois não se trata de uma ata documental ou dogmática, mas sim de uma descrição da experiência mística, em que o monge tenta relatar a alguém o que é esta experiência e como ela pode ser usufruída.

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David Cameron finalmente virou macho…

Filed under: Sociedade incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 13 de dezembro de 2011

… e resolveu enfrentar a loucura da tirania fiscal que a dupla Merkozy quer impor ao resto da Europa.

Querem saber mais sobre isso? Então leiam o blog de Daniel Hannah, no Telegraph, que explica direitinho o que está em jogo na União Européia:

What have they got against the City? Some Eurocrats dislike capitalism in principle. Others regard London as a lawless entrepot that has grown rich from the sweat of ‘proper’ workers elsewhere. Some simply don’t like the British. Still others resent the way in which their highest earners are paying taxes to our Exchequer rather than their own treasuries. Nicolas Sarkozy, who launched his presidential campaign among the large French community in Kensington, was recently overheard gloating that, if the UK had to raise its taxes much further, ‘we might get our young people back’.

I can count 47 pieces of legislation on financial services currently clanking their way through the EU machinery – not counting the recently-adopted ‘six pack’, and not counting flagrantly anti-British measures that have already been passed, such as the AIFM Directive.

What can we do about it? Since the EU plainly intends to be unhelpful, if not downright vindictive, we shall need to find unilateral ways to protect our interests. And when I say ‘our interests’, I mean those of the nation as a whole, not those of a handful of bank executives. As I never tire of arguing, there is a world of difference between being pro-market and being pro-business. The trouble with the EU’s agenda on financial regulation is not that it is anti-business – on the contrary, some of the mega-corporations welcome it, knowing that they can assume the compliance costs more easily than their smaller competitors – but that it is damaging to our national prosperity.

The financial services sector is one of the few in which Britain leads the world. Its impact is felt well beyond London. My South East England constituency benefits enormously from the wealth generated by London: hundreds of thousands of my constituents owe their jobs directly or indirectly to the City. The industry also employs 100,000 people in Birmingham and 150,000 people in Scotland. It generates nearly 12 per cent of the government’s total tax take, and 3 per cent of our export revenue. It is as important to us as heavy industry is to Germany or agriculture to France. They, of course, would not countenance accepting EU rules that damaged those sectors.


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Dicta&Contradicta 8 – Lançamento – É hoje!!!!!!

Filed under: Geral incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 12 de dezembro de 2011

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Read not the Times. Read the eternities.

(Henry David Thoreau)

Dicta&Contradicta, a única revista do país que realmente se contradiz, resolveu invadir a praia do outro lado e, em um lance improvável, fará o lançamento de seu oitavo número – apelidada por alguns de a Azzurra, apelidada por outros a da “boquinha da garrafa” – na Mercearia São Pedro, localizado na anti-eufônica Rua Rodésia, 34, ambientado na velha Vila Madalena, no dia 12 de dezembro, a partir das 19h30 até o último arroz de festa. Venha bebemorar conosco, como diria Jamelão Joyce, e descubra a patota “inteliquitual” que, entre um copo de cerveja e um bife frito, sabe como ler os nossos tempos, as nossas eternidades, a Folha de São Paulo, a Summa Theologica, a Harper´s Bazaar, os números antigos de Ele&Ela, e, claro, o New York Times.


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Dicta&Contradicta 8 – Editorial

Filed under: Geral incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 8 de dezembro de 2011

Read not the Times. Read the eternities.

(Henry David Thoreau)

Não é preciso ser professor para ensinar. O diálogo, e mesmo o debate, franco, honesto e profundo, é um meio de aprendizado. E portanto todo mundo que dialoga, que coloca suas ideias de maneira aberta e apaixonada, além de aprender, ensina. É nesse sentido que buscamos ensinar. E quem ensina obviamente quer ensinar a verdade. Pois se o objetivo de um interlocutor é convencer os outros do que ele considera falso, ele não ensina, mas engana. E se não há distinção entre verdadeiro e falso, mas apenas pontos de vista igualmente válidos, para quê ensinar? Cada um que fique feliz e contente com sua opinião. Se alguém discute, argumenta ou dialoga, e o faz honestamente, esse mesmo ato já manifesta sua crença em algo como objetivamente verdadeiro, e na verdade como algo bom e digno de ser disseminado.

Só que a verdade tem níveis, e é preciso fazer escolhas. Uma coisa são os eventos do dia a dia, a variação do dólar, o “mundo real”, o efêmero; enfim, tudo o que se lê nos jornais; aquelas informações essenciais para se viver e transitar neste mundo. Contudo, se em nenhum momento levantarmos a cabeça para ver além delas, teremos vivido a vida “não examinada” da pesada sentença de Sócrates.

Indo mais fundo, podemos tentar organizar esses fatos cotidianos, selecionando os mais importantes, e tentar desvendar os processos históricos por detrás deles: as ideias e os valores em jogo nos grandes movimentos das sociedades. O que não é fácil, como nos mostra o filósofo Olivier Boulnois. Numa conferência inédita (“O que há de novo na Idade Média?”), ele argumenta, com boas evidências, que um dos lugares-comuns mais repetidos sobre nossa história, o da ruptura entre Idade Média e Renascimento, é na verdade uma simplificação espúria. Será que alguma tese histórica, que não seja trivial, se sustentaria no confronto com os fatos minuciosamente examinados?

Para além da dificílima verdade histórica, que busca captar o efeito (ou a falta dele) das ideias e dos valores na existência humana, está a discussão sobre quais ideias e quais valores merecem nossa adesão. E aí chegamos propriamente nas big questions. O que é verdadeiro? O que é bom? O que é belo? A forma mais convencional de se tratar essas questões, forma da qual nós mesmo usamos e abusamos, é com longos tratados argumentativos. Podemos percorrer a história procurando exemplos claros de certos valores, ou avaliando a consequência das ideias. E daí temos o festival de “ideias que levaram ao nazismo” (alguém ainda tem de fazer uma lista de todas elas), que o editor-chefe invariavelmente corta fora sem dó. A realidade oferece muito poucos testes de ideias, e olhando apenas para ela não dá para tirar nenhuma conclusão acerca do sentido do mundo ou da existência. Quem o faz é porque traz, de outras fontes, estruturas narrativas nas quais os fatos serão encaixados, mas as quais eles nunca poderão refutar.

Felizmente, há um outro caminho para as grandes questões, sem o inconveniente da argumentação ou do teste: a arte. O universo criado pela arte é proporcional a nossas capacidades; afinal de contas, ele nasce delas. E se no mundo real tateamos uma imensa escuridão munidos do palito de fósforo de nossa razão, na obra de arte temos uma salinha bem iluminada esperando nossa visita.

A arte não se importa primariamente com a realidade dos fatos. Claro, uma história pode ser “baseada em fatos reais”, mas não é isso que fará dela uma boa história. A verdade que importa para ela é a do nível mais profundo: a dos valores e das posições existenciais mais básicas. E para se expressar bem nesse plano, as histórias e imagens fictícias, cujos elementos são todos pensados para transmitir uma mesma mensagem, são mais eficazes do que os eventos reais, cujos elementos heterogêneos não apontam para nenhuma direção facilmente identificável e nem denunciam uma origem comum. É sobre essa relação entre arte e realidade que versa o artigo de Nicolau Cavalcanti em nossa seção de filosofia.

Alguém se lembra do editorial passado, seis meses atrás? Prometíamos que, neste número, falaríamos algo sobre como pretendemos ensinar. É este, se assim podemos falar, o tema desta edição: como a ficção, a imagem, o símbolo, enfim, o falso, são, muitas vezes, melhores educadores do que o fato, o literal, o verdadeiro. Pois a arte não parte de premissas verdadeiras nem chega por raciocínio válido a uma conclusão também verdadeira. Sua lógica é outra: ela não argumenta; ela mostra. Ao invés do silogismo, ela emprega o símbolo. A realidade está aí independentemente de nós. Não é o ato humano de interpretação que cria o passado histórico. Muito pelo contrário: toda interpretação, para ser aceitável, tem de se pautar pelos fatos e pelos dados que a observação imparcial descobre. “Ciência ideológica” não é ciência. Ao mesmo tempo, a realidade costuma ser complexa o bastante para que muitas diferentes interpretações, contraditórias entre si, sejam possíveis para um mesmo fato ou período.

Existem símbolos no mundo real? A realidade está aqui para que a leiamos como um livro? Pergunta bastante incerta; o conhecimento da humanidade já foi muito mal-direcionado por causa dessa crença nos fatos e nos seres como símbolos de realidades espirituais. Por outro lado, também não se pode descartar essa possibilidade, ainda mais em face da nossa tendência espontânea de procurar significados. Uma coisa, porém, é certa: a arte tem símbolos. Eles foram colocados lá conscientemente pelo autor. Este é, por sinal, o tema do artigo mais longo da história de nossa humilde revista, escrito por Henrique Elfes. Sua proposta original era analisar a obra de um certo escritor; mas para fazê-lo resolveu esboçar um pequenino preâmbulo sobre a simbologia literária, que cresceu e cresceu até se tornar o tema e chutar o tal do escritor para escanteio – ou para uma próxima edição. E seu artigo deu mais um salto inesperado ao tratar da realidade última para a qual os símbolos apontam: a do espírito.

O que veio bem a calhar já que neste nosso oitavo número inauguramos a seção de teologia. O quê?! Teologia? Seria uma revista cultural o lugar apropriado para aulas de catequese? Permitam-nos explicar a nova adição. Parece-nos que há dois motivos para a existência de uma seção de teologia. Em primeiro lugar, as grandes questões da existência humana acabam invariavelmente tocando o problema da transcendência, da ordem e do sentido do mundo; a filosofia já trata disso, mas sempre, se for boa filosofia, usando a razão para chegar a diferentes respostas ou perguntas. A teologia, embora também use a razão, traz consigo um elemento novo: a fé, ou seja, crenças cuja origem está, de acordo com aqueles que nelas creem, em alguma revelação ou fonte sobrenatural. É impossível escapar de uma questão seguinte: se aceitamos usar, junto da razão, dados e crenças vindos da fé, qual fé escolheremos ou privilegiaremos?

Nosso objetivo é ser plural, no bom sentido do termo. Não no sentido de dizer que todas as “fés” são iguais, o que equivaleria a reduzi-las todas a preferências subjetivas (que é o exato oposto do que todas elas ensinam), mas sim no de dar espaço para que diversas perspectivas teológicas diferentes (cristãs, judias, islâmicas, budistas etc.) mostrem o que têm a dizer e a interrogar do leitor.

O segundo motivo que justifica, a nosso ver, uma seção de teologia, é o fato de que os valores e ideais sobre os quais se fundam nossa civilização têm uma origem teológica, e mais especificamente cristã. Conhecer a teologia do cristianismo, com suas crenças, suas tensões e seus achados, é também conhecer muito do que deu origem ao nosso mundo. Por isso mesmo, nosso artigo inaugural, escrito por Marcelo Consentino, é inspirado na obra de Hans Urs Von Balthasar, teólogo católico suíço de meados do século passado, cuja importância no pensamento da Igreja Católica é inversamente proporcional ao conhecimento de sua obra no Brasil. A imagem que Balthasar tinha do mundo contemporâneo, no qual pedaços do “coração” da Igreja foram preservados ao mesmo tempo em que as sociedades se afastavam de sua instituição e mesmo de sua fé, encaixa-se perfeitamente nessa importância histórica que a teologia tem, ou deveria ter, mesmo para quem não tem fé.

Para fazer a ponte entre teologia e filosofia, entre fé e razão, publicamos neste número um perfil de Søren Kierkegaard, escrito por
Álvaro Valls, maior autoridade brasileira no filósofo luterano dinamarquês. Para complementar o perfil, publicamos em primeira mão trechos da tradução inédita que Valls vem fazendo da obra de Kierkegaard.

Ainda nessa chave teológica cristã, mas com uma visão diferente, vinda do cristianismo ortodoxo russo, Renato Moraes investiga, na obra de Dostoievski, as diferentes faces do ateísmo que tanto preocupava o escritor, e que trariam, segundo ele, a ruína da humanidade.

E numa chave ateológica, terrena, Joel Pinheiro expõe a realidade e a visão exaltada do homem (ou de certo tipo de homem) criadas por Sergio Leone. Resta saber até que ponto essa visão é ou não realista (e voltamos à relação entre arte e realidade), coisa que não cabe ao artista responder. Seu propósito, afinal, não é argumentar, mas mostrar. O que a arte faz é manipular e nos mostrar diferentes visões do mundo e do homem, e permitir que o leitor ou espectador experimente um mundo guiado por aqueles valores, e, fazendo um exercício de correspondência com a sua própria experiência da realidade, decida se o que a obra lhe mostra ressoa ou não em sua alma. A realidade é sempre o fim, mas nem sempre o meio.

Como sempre, é nosso dever agradecer àqueles sem os quais este número da Dicta não seria possível. Queremos dar especial destaque à Febratel pelo apoio a nossa empreitada cultural e a João Lazzarotto, irmão do saudoso Poty, por nos ceder gentilmente as brasileiríssimas ilustrações que embelezam nossas páginas.

O IFE passa por mudanças profundas. Depois de uma mandato de três anos e meio, Guilherme Malzoni Rabello deixa a presidência do Instituto. Seria eufemismo dizer que sem sua liderança o barco sequer teria saído do estaleiro; ou melhor, sequer teria sido construído. Em seu lugar assume o timão Marcelo Consentino. Passar a presidência de um engenheiro a um teólogo… é dessa dialética terra-céu que tiramos nosso vigor. Seja como for, a Dicta segue em frente, banhando-se na glória de autointitular-se “a melhor revista de ensaios do Brasil” (prática consagrada pelos nossos concorrentes). Relevem a evidente ficção desse título e meditem a questão profunda que se coloca: o que ele revela sobre a cultura nacional?


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Sangue imperdoável

Filed under: Cinema incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 7 de dezembro de 2011

“Os imperdoáveis” (1992), de Clint Eastwood, é um dos filmes mais subversivos já feitos. Quando usamos a palavra “subversivo”, não significa que tal pessoa é um “esquerdista”, como o pensamento corrente pode sugerir. A hegemonia da esquerda é tamanha que qualquer um que demonstre respeito pelos valores tradicionais do indivíduo se torna um subversivo. Portanto,Clint Eastwood, homenageado de uma retrospectiva de sua filmografia que começa esta semana no CCBB de São Paulo, preenche a todos os requisitos. Mesmo em seu trabalho como ator, nos filmes de Sergio Leone e Don Siegel, ele é o sujeito solitário que vai contra a corrente da multidão, manda tudo para as favas e decide enfrentar o mantenedor de inúteis que é o Estado, com as regras básicas de sobrevivência: coragem, um pouco de astúcia e muitas armas.

Com o passar do tempo, e conforme seus filmes solidificavam sua carreira como diretor, Clint Eastwood se tornou uma espécie de titã manco. Sua importância era inegável para a história do cinema, mas o que ele tinha a dizer? Não seria ele um fascista que defendia a justiça feita com as próprias mãos? Um apologista da violência, misógino que, por ter sido prefeito da cidade de Carmel, era um propagandista da classe dominante?

Todas as perguntas – feitas, obviamente, pelos críticos esquerdistas – foram demolidas em “Os Imperdoáveis”, o filme que deu a Eastwood quatro Oscars e a consagração da maturidade. Era, na verdade, uma película atípica: um western escrito por David Webb Peoples (o mesmo roteirista de “Blade Runner” e “Herói por Acidente”), de ritmo lento e que, aparentemente, contava a mesma história que Eastwood sempre contou – a do pistoleiro misterioso que chega numa cidadezinha do Oeste para uma recompensa e, depois de muitos tiroteios, acaba com a desordem existente no lugar.

Mas é claro que o filme não era isso. “Os Imperdoáveis” era uma espécie de síntese de tudo que Eastwood havia feito no cinema, desde o início, como ator até os notáveis “O Cavaleiro Solitário” (1984) e “Bird” (1988), em que ele se mostrava mais que um bom diretor que tratava de contar apenas uma boa história. A evolução de sua filmografia mostra que ele adquiriu uma segurança impressionante, tanto no estilo como em sua execução, e que, pouco a pouco, mesmo com seus escorregões (a saber, “Meia-Noite no Jardim do Bem e do Mal”), se torna o diretor do discernimento moral.

Este é apenas o princípio do verdadeiro tema de “Os Imperdoáveis”: o fascínio da violência e como ela está presente na nossa vida, no nosso dia-a-dia. Só por este detalhe, percebe-se que não será um western ordinário. As imagens também denunciam isso. O primeiro plano é de um crepúsculo longo, em que vemos uma casa e um homem cavando uma cova, embaixo de uma árvore. Logo no início, temos um tom de melancolia, do outono de um Oeste que não é o mesmo que John Ford filmava há quarenta anos. Não veremos mais a ascensão de um país, mas sim o princípio do seu ocaso.

O homem que cava a cova é William Munny, do Missouri, que saberemos depois que foi um matador cruel, e tirou vidas de mulheres e crianças. No entanto, só sabemos que ele está enterrando sua mulher, Claudia, que morreu de varíola e deixou dois filhos pequenos para criar. Enquanto isso, na cidade de Big Whisky, no estado de Wyoming, acontece uma tragédia num bordel. Dois vaqueiros mutilam o rosto de uma prostituta, só porque “ela disse que o pinto de um deles era pequenininho”, afirma uma delas. O xerife local, Little Bill (uma interpretação brilhante de Gene Hackman, que lhe valeu um dos poucos Oscars justos da Academia) intervém na situação. “Enforque-os”, diz Sally, a líder das prostitutas. Little Bill olha para os dois vaqueiros amarrados, pede um chicote para seus ajudantes, mas depois pensa melhor ao ouvir do dono do bordel que a prostituta “danificada” tinha um contrato de propriedade. “Você quer fazer uma troca?”, pergunta o xerife ao dono do saloon. Propõe-se então a entrega de seis pôneis dos vaqueiros pelo rosto mutilado da prostituta – já que, segundo as palavras do dono do saloon, “ninguém mais vai ter a coragem de trepar com ela”. Quando um dos assistentes chega com o chicote, Little Bill ri e somente diz: “Acho que não será necessário”.

As prostitutas ficam revoltadas. “Não é porque eles montam em nós como cavalos que vamos deixar eles nos marcarem como cavalos”, afirma Sally. Elas economizam dinheiro para pagar U$$ 1.000 para quem matar os dois vaqueiros. A notícia se espalha e chega aos ouvidos de William Munny através de Kid, um jovem pistoleiro que lhe convida para ser seu parceiro na encomenda. Munny recusa: “Minha mulher me endireitou. Eu era um homem mesquinho e cruel. O whisky me obrigava a fazer estas coisas. Agora não as faço mais. Sou um homem diferente”. Tão diferente que tem de viver de criar porcos doentes numa casinha, com seus dois filhos, onde o vento uiva entre as paredes (Eastwood faz questão de chafurdar seu personagem no estrume). Decide ir atrás da encomenda, “para recomeçar uma nova vida com meus garotos”. Junto com ele está seu antigo parceiro, o negro Ned (Morgan Freeman), que também vai mais pela amizade com Munny, do que propriamente pelo prazer da matança de outros tempos. Mas é o próprio Ned que diz ao ouvir da boca de Munny o que os dois vaqueiros fizeram com a prostituta: “Acho que eles merecem um castigo”. “Retalharam uma mulher, Ned”, conta Munny, “cortaram seu rosto, seus olhos, seu nariz – cortaram até mesmo as tetas dela”. (Quando Kid conta a mesma história para Munny, usa as mesmas palavras, trocando apenas “mulher” por “puta”).

A descrição detalhista do primeiro terço do filme se deve ao fato de que Eastwood joga, entre olhares e diálogos, o germe que dá origem à violência. A violência não surge através de uma cólera intempestiva ou de um problema social. Ela começa com a falta de discernimento moral em que o sujeito não sabe mais julgar corretamente uma conseqüência proporcional de um ato. É o que dá início ao ciclo sangrento do filme e – por que não? – à violência que ronda nosso cotidiano. Como “Os Imperdoáveis” é, no fundo, uma reflexão de como a civilização se mantém através do sangue dos inocentes e dos não-inocentes, fica claro que Eastwood teve de ir ao seu começo. O erro começa com as prostitutas – “Enforque-os, Little Bill” -, continua com o xerife, passa pelo dono do saloon, ultrapassa o Kid (“Cortaram uma puta”) e só se inverte com os dois ex-matadores, William e Ned (“Cortaram uma mulher”). Nem mesmo a própria vítima – chamada sugestivamente de Delilah – quer o banho de sangue que as prostitutas desejam. Quando um dos vaqueiros, arrependido, oferece um de seus melhores pôneis a Delilah, ela permanece em silencio, com o olhar carregado de perdão reprimido, mas não pode expressá-lo porque o grupo a obriga seguir outras ordens – a da vingança total.

Fica claro que a confusão não existiria se não fosse a atuação ineficaz de Little Bill. É por meio do personagem do xerife que “Os Imperdoáveis” mostra que é também um filme político, em que a moral do indivíduo se opõe à moral do Estado. No caso, Little Bill é exemplo perfeito da psicologia do Estado, pois não sabe sequer aceitar as suas limitações, ao ver que a casa construída por ele próprio não tem um único ângulo reto. Este é o típico comportamento de um burocrata: ele pensa que pode fazer tudo, inclusive, denegrir uma pessoa com a simples intenção de manter a ordem.

É o que Little Bill faz continuamente. O episódio com English Bob é exemplar. Pistoleiro inglês e monarquista empedernido, Bob (o soberbo Richard Harris, o melhor bêbado do planeta) chega em Big Whisky em pleno Dia da Independência elogiando a Rainha da Inglaterra. Obviamente, ele está na cidade por causa da recompensa de mil dólares. Little Bill sabe disso pois já foi avisado que a notícia chegou até no Texas. Hackman mostra com muita sutileza como o xerife se sente afrontado com a presença de Bob. Bill manda colocar na entrada da cidade uma placa avisando que é proibido o porte de armas de qualquer espécie (alguém não está tendo uma curiosa sensação de déja-vu?). A sensação de que o Estado se sente fraco quando um grupo de indivíduos (no caso, as prostitutas) procura por uma alternativa ao ver que as leis não asseguram seus direitos, transparece nos olhos de Little Bill ao saber que English Bob está nos seus domínios.

Acompanhado por seus assistentes – um gordo boçal, dois medrosos e um maneta -, Little Bill desarma English Bob e um parceiro deste, o escritor Beauchamp. Desarma é a palavra errada: Little Bill humilha Bob, chutando-o como um cachorro, na frente de toda a cidade. Tudo bem que o inglês é um pistoleiro, igual a qualquer bandido (aliás, fica implícito que, antes de ser xerife, Little Bill foi também um matador), mas a forma como o Estado se impõe sobre o deliquente, com sua violência excessiva, não demonstra nenhum respeito por seu poder, e sim um medo terrível de perder o poder. Poder, Estado e violência são conceitos que pode parecerem sinônimos, mas isso leva a uma série de equívocos. O Poder pode usar a violência como um instrumento de manter a sua natureza secreta; contudo, a violência não é o Poder, e muito menos é uma forma de garantir a força de repressão do Estado. Quanto mais totalitário um governo, mais fraco ele está. Apesar de ser uma cena em que Little Bill se mostra implacável, Eastwood também mostra a sua fraqueza. O Estado está podre por dentro, e não quer reconhecer tal fato. A violência, neste caso, mostra apenas a sua desintegração.

Para sair deste beco sem saída, entra o personagem do escritor Beauchamp, que romantiza a vida de English Bob. É aqui que o filme entra também num terreno perigoso e se sai muito bem: o da desmistificação através do fascínio que a violência provoca nos homens. Tanto Beauchamp como o jovem pistoleiro Kid representam essa condição que seduz, seja um homem da classe-média ou um bandido da favela: a ilusão de que a violência é um poder ímpar. Beauchamp acaba se tornando o biógrafo de Little Bill, que o aceita para justamente criar sua própria lenda, já que ele sente que o fim, de alguma forma, está próximo (em um de seus diálogos, o xerife explica que seu sonho “é ficar na varanda, fumando um bom cachimbo e vendo o pôr-do-sol” – a utopia do bom burocrata).

O fim está na figura de William Munny, mas nem o próprio sabe disso. A única coisa que ele quer é pegar sua parte dos mil dólares. O fantasma de Claudia o persegue e Kid o irrita o tempo todo sobre seu passado: “Foi você quem matou tal pessoa?”. “Quantas pessoas você já matou, garoto?”, pergunta Ned. “Cinco”, ele responde. No dia seguinte, Munny e Ned descobrem que Kid é míope e que não pode ver nada além de cinqüenta metros. O jovem pistoleiro se sente, na melhor expressão que somente os freudianos poderiam criar, “emasculado” de sua função. O rapaz quer matar para provar a si mesmo que é um homem, que detém todo o poder do mundo. Nesse sentido, ele é o duplo de Beauchamp que, na companhia de Little Bill, também sente o indistinguível prazer de ter o poder em tirar uma vida humana.

Little Bill faz este jogo com Beauchamp ao entregar-lhe sua arma e pedir-lhe que atire nele. O olhar do escritor brilha ao tomar a arma: o Poder está em suas mãos, e ele está com alguém poderoso em suas mãos. Triste engano: Bill joga com Beauchamp para mostrar que o Estado se alimenta deste mesmo fascínio, e usa junto com bandidos, como English Bob, para manter a sua ordem aparente – “Sorte sua que não pegou a arma pois eu o teria matado”, afirma calmamente o xerife.

Ele continuará com esta mesma atitude ao encontrar pela primeira vez com William Munny, quando este chega em Big Whisky. Repete os mesmos métodos repressivos – pois o Estado se conforma com sua falta de criatividade – e, Munny, atormentado por uma febre terrível (havia cavalgado sobre a chuva dois dias antes, sem tomar nenhum gole de uísque – essencial nesses momentos), agüenta as pancadas. Ned e Kid – que estavam tirando adiantamentos com as prostitutas – conseguem fugir e levam Munny para uma cabana, enquanto este treme de frio e tem delírios. William sonha com Claudia e as vítimas de quem tirou a vida no passado – além de ter uma visita, segundo o próprio, do Anjo da Morte. “Ele tinha olhos de serpente”, sussurra, ” e me encontrou no rio de luz. E lá também estava Claudia, a face cheia de vermes”. A febre de William Munny é a descida na escuridão da alma humana, no qual a ressureição da vida pode ser seu resultado – mesmo que os meios sejam um tanto ambíguos, como sempre acontece com estes assuntos do espírito.

O personagem de Clint Eastwood é o gênero western encarnado, e o próprio ator-diretor não hesita em desmistificá-lo, para remontar o mito sob outros olhos – muito mais contemporâneos, mas sem perder o contato com a tradição. Ao se recuperar da febre, Munny se depara com Delilah, que cuida de seu rosto e lhe oferece comida. Os dois têm uma conversa, em que Delilah se insinua para Munny, perguntando se ele também não quer um “adiantamento como os outros rapazes”. Munny recusa; a prostituta fala que ele não dormiria com ela, já que compreende que ninguém mais a deseja por causa de suas cicatrizes. “Não é isso”, explica William, “se fosse para dormir com alguém, eu dormira com você, mesmo com suas cicatrizes. Mas não faço isso em respeito à minha mulher”. Ao dizer isso, Munny restaura o valor individual daquela mulher, tratada como cavalo pelos homens, pelo Estado e até mesmo por suas amigas – que a usam somente para um pretexto de revolta.

Pouco a pouco, o espectador percebe que o único nesta história que tem algum discernimento moral é o anti-herói, um homem velho, amargurado, perseguido por um passado macabro que, faça o que quiser, o transforma num mito. Finalmente, Munny, Ned e Kid entram em ação, e conseguem matar um dos vaqueiros numa emboscada, com um tiro na barriga. O infeliz grita: “Vou morrer! Alguém me dá um gole d´agua! Vou morrer!”. Nem mesmo seus companheiros realizam seu último desejo, com medo de levar uma bala. “Dêem um gole d´água, maldição!”, grita Munny. É também nesta cena que Ned desiste da recompensa, pois percebeu que não consegue mais matar ninguém. Ele resolve voltar para casa, com seu rifle Spencer, mas acaba sendo capturado pelos assistentes de Little Bill.

Ao mesmo tempo, Munny e Kid matam o segundo vaqueiro – no caso, quem faz isso é Kid, que mata o homem enquanto ele fazia suas necessidades no banheiro, com dois tiros no peito e outro no rosto. Eles conseguem escapar, e o que se segue é uma das cenas mais sublimes da história do cinema. Munny e Kid estão debaixo de uma árvore, esperando pela prostituta que lhes entregará o dinheiro, as nuvens se formando para uma tempestade. Kid está surpreendentemente assustado. “Matei um homem, matei um homem”, ele balbucia. Aí vem a surpresa: “Ele foi o primeiro homem que matei” (o rosto de pedra de Eastwood ao ouvir essa revelação é de uma falta de surpresa impagável). Munny apenas responde: “Matar um homem é uma coisa infernal. Você tira tudo o que ele tem e tira tudo o que poderia ter”. Como se tentasse ficar conformado com seu ato infernal, Kid fala: “Talvez fosse a sina deles”. Mas a resposta de Munny é uma lição de sabedoria: “É a sina de todos nós”.

A sina de todos nós é a morte, sem dúvida, mas a morte violenta é uma exceção, pelo menos em um mundo ideal, onde o sangue não é a regra geral e o perdão uma forma de solucionar os problemas entre os homens. A violência somente ocorre quando a desordem do Estado atingiu tal limite, que quem acaba pagando o preço é o indivíduo. E como o indivíduo não consegue resolver a desordem do Estado usando os mecanismos deste último, só existem duas coisas que podem reverter o processo: um milagre ou a legítima defesa. Ambos acontecem quando o discernimento moral não existe mais na consciência humana – e é aqui que se aproxima o dia da ira.

A ausência de julgamento justo é marcada pela morte de Ned por Little Bill. A prostituta que entrega o dinheiro a Munny fala que “Ned foi espancado até a morte e, no final, ele falou que você era William Munny, do Missouri, que havia matado mulheres e crianças, que explodiu a ferrovia e roubou vários bancos”. Kid olha para Munny espantado: realmente ele estava na presença de uma lenda-viva. “Ned não matou ninguém”, fala o pistoleiro enquanto, surpresa das supresas, bebe goles silenciosos de uísque, decidindo que está na hora de voltar a ser aquilo que tentou evitar há muito tempo.

A tempestade começa, e William Munny se transforma no Anjo Vingador em pessoa e o duelo final deste western atípico será um Dies Irae, em que a ordem moral se impõe pela ira extrema. O corpo de Ned está em um caixão, na frente do saloon, e lê-se pendurada uma placa: “É isso o que acontece com os assassinos”. Little Bill dá bebidas em nome da casa para aqueles que caçarão os outros dois fugitivos. De repente, surge um rifle e uma pergunta: “Quem é o dono dessa espelunca?”. Um tiroteio começa, um verdadeiro massacre em que Little Bill morre junto com seus assistentes e o dono do saloon. “Eu não mereço morrer dessa forma”, estas são as últimas palavras do xerife (Notar que o Estado sempre acredita que agiu da maneira mais justa possível). O pistoleiro apenas resmunga: “Merecer não tem nada a ver com isso”. Munny sai no meio da chuva, avisando que “quem retalhar qualquer mulher ou matar qualquer inocente, eu vou matar essa pessoa, acabar com a família dele e seus amigos”. A ordem moral foi restituída, mas o equilíbrio foi imposto através da violência, sem nenhum respeito ao perdão.

O que “Os Imperdoáveis” mostra com um realismo agudo é que, num mundo onde a violência é a regra de ouro, não existe espaço para o perdão. Por isso, o seu título original – “Unforgiven” (Imperdoável). O mesmo pode se aplicar no Brasil dos nossos tempos, em que o indivíduo se deixa dominar por um Estado mais incompetente que Little Bill e se ilude no modo de manter ou criar uma segurança precária. A violência desintegra o Estado, mas este se aproveita da bandidagem para renovar constantemente seu poder, impedindo o cidadão do direito da legítima defesa e de uma educação criteriosa de como usar as armas de fogo. O resultado disso é o terrorismo, criado pelo próprio Estado, para manter a sua ineficiência, tudo supostamente em nome da segurança e da ordem.

Sem uma oposição organizada, contra a bandidagem do crime organizado e a bandidagem do Estado, a oposição individual, vendo que o perdão é inútil em um mundo onde o derramamento de sangue não importa mais, parte para a própria violência como o único meio de resolver os problemas. A previsão dessa situação – que assola o Brasil de uma maneira muito peculiar – só pode dar em guerra civil. Com o Estado inoperante e o indivíduo sem nenhuma noção de discernimento moral, o fim é um círculo vicioso de violência que gera violência, sem espaço para paz ou qualquer espécie de tranqüilidade.

A grandeza de “Os Imperdoáveis” está na maneira como Clint Eastwood percebe a ambigüidade deste mundo. William Munny impõe o discernimento moral do modo mais cruel possível, mas o único disponível para aquele mundo. O Anjo Vingador fez parte do mesmo vício que tenta extirpar. Infelizmente, estamos cada vez mais distantes de encontrar algum perdão no espírito humano. Mas talvez a lição implícita da obra de Eastwood seja a de que, para evitar a violência e encontrar alguma pureza, será necessário ter o discernamento moral de ver o ser humano tal como ele é, com suas virtudes e defeitos, e não como uma raça de cavalo ou uma estatística na história coletiva. Somente assim, o próprio indivíduo terá noção que sua consciência é um dom e não um meio para o Estado manter a natureza secreta do Poder, e que a violência, mesmo com um propósito justo, é o pior dos meios para se alcançar qualquer fim.


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