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O farrapo que se encerra?

Filed under: Literatura,Sociedade incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 31 de janeiro de 2011

(No próximo 4 de fevereiro, serão 14 anos da morte de Paulo Francis. Eis um nome que será necessário fazer um esforço cotidiano para lembrá-lo constantemente; até agora, apesar da lavagem cerebral que a esquerda fez conosco, Francis se saiu bem, mesmo com seus epígonos, mesmo com as biografias que não compreenderam a dimensão trágica de sua vida. De alguma forma, ele permanece em nosso imaginário popular. Mas e o homem – quando saberemos algo de verdade sobre o homem? Esqueçam as lendas, as anedotas. O trabalho de Paulo Francis deve ser visto como um exemplo para o jornalismo brasileiro, um exemplo que, justamente pela sua coragem e pela sua indignação, jamais será respeitado ou sequer entendido.)

Dizem que ofendo as pessoas. É um erro. Trato as pessoas como adultas. Critico-as. É tão incomum isso na nossa imprensa que as pessoas acham que é ofensa. Crítica não é raiva. É crítica. Às vezes é estúpida. O leitor que a julgue. Acho que quem ofende os outros e os leitores é o jornalismo em cima do muro, que não quer contestar coisa alguma. Meu tom às vezes é sarcástico. Pode ser desagradável. Mas é, insisto, uma forma de respeito, ou, até a irritação do amante rejeitado“.

Paulo Francis sobre Paulo Francis

Paulo Francis foi a prova definitiva da maldição que atinge o jornalista brasileiro: o aprisionamento do tempo. Obrigado a ter de comentar os assuntos do momento com a brevidade que o momento exige, Francis vivia numa encruzilhada para alguém com vastas ambições intelectuais. Mesmo para quem não o conhecia pessoalmente, e fizesse uma sutil análise psicológica desta personalidade complicada que foi Franz Paul Heinbron, estava claro que seu alter-ego (pois é o que Paulo Francis sempre foi) era uma fachada para o escritor que lutava para surgir em cada linha, parágrafo e palavra de suas colunas. Leia mais…


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Sexo Literário

Filed under: Literatura incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 30 de janeiro de 2011

O escritor inglês Auberon Waugh (filho do Evelyn), falecido em 2002, legou-nos, além de seus livros, o Bad Sex Awards. Criado em 1993, seu objetivo é botar em evidência passagens especialmente desastradas sobre o ato sexual, como forma de humilhar os autores e, quem sabe, coibir um pouco a proliferação do sexo de mal gosto na literatura. O premiado deste ano comparou o ato sexual com o trabalho de um colecionador de insetos: “”like a lepidopterist mounting a tough-skinned insect with a too blunt pin he screwed himself into her”. Gracioso. Até Tony Blair entrou na corrida recentemente, por uma passagem de suas memórias que é citada no fim do artigo.

A grande questão é se o intuito do prêmio de diminuir a frequência do sexo na literatura tem funcionado. E parece que tem. É difícil atribuir o efeito a uma causa única, mas os juízes do Booker Prize percebem um claro declínio no sexo. O autor Martin Amis chega a defender que, com raríssimas exceções, nunca se deve descrever o ato sexual, pois é algo tão pessoal que não pode ser universalizado e portanto não encontrará eco em nenhum leitor. O que sobra é a pornografia ou o desastre. Será que só é possível descrever bem o sexo ruim?


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São Tomás de Aquino hoje

Filed under: Filosofia,Religião incluído por Renato Moraes
Data do post: 28 de janeiro de 2011
São Tomás de Aquino, Carlo Crivelli

O dia 28 de janeiro é a memória litúrgica de São Tomás de Aquino, provavelmente o mais importante pensador cristão – é difícil dizer isso quando lembramos de Santo Agostinho, mas acredito que o próprio Bispo de Hipona subscreveria hoje a minha afirmação –, com contribuições essenciais em todos os campos da filosofia e da teologia. Tendo morrido em 1274, com menos de cinquenta anos, sua extensa obra continua uma fonte inesgotável de sugestões, surpresas e – o fundamental – verdades.

Sua vida foi bem mais movimentada do que parece à primeira vista, tendo em conta a concepção esquemática e falsa que podemos ter a respeito de um frei mendicante da Baixa Idade Média. Basta lembrar que Tomás foi sequestrado pelos irmãos quando jovem; ministrou aulas na Universidade de Paris em um momento agitado, quando as disputas intelectuais geravam paixões intensas, que quase o fizeram ser agredido por uma turba de alunos de professores rivais; defendeu o ideal de vida mendicante, duramente atacado por sacerdotes seculares em uma polêmica aguda; morreu dirigindo-se a um Concílio que pretendia unificar o cristianismo ocidental e oriental, meta até hoje presente na Igreja.

Devo confessar que não apenas admiro o teólogo italiano como um sábio. Tenho uma enorme simpatia por ele, porque era um homem discreto, alegre, humilde, corajoso, amigo e trabalhador. Contudo, é comum que as pessoas o enxerguem como um intelectual sistemático, árido e demasiado lógico, que deixaria de lado aspectos importantes do ser humano, tais como as emoções e a beleza. Um grande amigo, quando critico o que considero a confusão das suas ideias – que normalmente são bastante boas! –, responde-me que sou um “aristotélico-tomista”, e por isso não o compreendo…

Esse tipo de preconceito está bem afastado da realidade. Contam, por exemplo, que quanto Tomás pregava em Nápoles, no final da sua vida, o povo saía da Igreja chorando e batendo no peito, emocionado pelo que ouvira (é verdade que o napolitano não é propriamente fleumático, o que não tira o mérito do santo, ora essa!). Ademais, nosso santo escreveu o ofício do Corpus Christi e o hino Adoro Te devote, obras de arte consumadas, autêntica poesia dificilmente superável.

Hoje, há alguns ótimos livros sobre o Aquinate lançados no Brasil. Vou indicar uns poucos, que podem servir de introdução segura ao estudo do Doutor Angélico. Em primeiro lugar, as duas obras de Jean-Pierre Torrell, OP, publicadas pelas Edições Loyola: Iniciação a Santo Tomás de Aquino – sua pessoa e obra (2ª ed., 2004) e Santo Tomás de Aquino, mestre espiritual. O dominicano francês condensou nelas o trabalho de uma vida dedicada ao estudo do seu confrade, sendo muito bem sucedido. O primeiro livro é uma biografia no sentido clássico, a melhor até hoje existente sobre o santo; o segundo, uma análise da vida interior de Tomás a partir dos seus escritos, uma autêntica jóia, que merece ser estudada com vagar, degustada como o bom vinho.

Mais simples, sem por isso ser menos profunda, é a biografia escrita por Chesterton, Santo Tomás de Aquino. O escritor inglês é sempre brilhante, e não fugiu à regra ao tratar de seu pensador favorito. Há várias traduções, sendo que costumo utilizar a de Carlos Nougué, ele mesmo um amante do tomismo.

Temos hoje no Brasil bons estudiosos da filosofia e teologia de São Tomás. Em primeiro lugar, preciso reconhecer o trabalho admirável de Paulo Faitanin, professor da UFF, em Niterói. Junto com gente talentosa, como Rodolfo Petrônio, da UniRio, e Daniel Pêcego, da UFRRJ, dá vida ao Instituto Aquinate, cujo site sobre o tomismo é excelente. Publicam com constância e qualidade, com pouquíssima estrutura. Eu gostaria de possuir a disciplina e a seriedade desse pessoal!

Outros professores tomistas são o Carlos Frederico e o Sérgio Salles, ambos da UCP. São influenciados pela linha de Cornelio Fabro, que é uma das mais importantes no tomismo das últimas décadas, e cujos pontos centrais me convencem plenamente. Os dois são jovens, estudiosos e excelentes transmissores de conhecimento, o que permite prever-lhes um futuro brilhante. O mesmo se pode dizer de Omayr José de Moraes, responsável por admiráveis edições dos Comentários de São Tomás sobre o Pai Nosso e a Ave Maria.

Para terminar, gostaria de indicar dois livros não lançados por aqui. O primeiro, The metaphysical thought of Thomas Aquinas (2000), de John Wippel, é para quem tem intimidade com o pensamento tomista, não uma porta para nele adentrar. Acredito que seja o melhor a respeito da metafísica de São Tomás, o núcleo da sua filosofia, e corrige alguns pequenos erros de tomistas anteriores. O outro, Les sources de la morale chrétienne, de Servais-Théodore Pinckaers, OP, representou uma impressionante renovação da ética do ponto de vista do Doutor Comum. Pois é, a volta à fonte é a melhor maneira de se rejuvenescer. Está extraordinariamente bem escrito, um deleite para a inteligência.

Bastantes escritos de São Tomás vieram à luz no Brasil recentemente. A edição da Suma Teológica, da Loyola e da Vozes, é bastante aceitável, apesar de dar a impressão em alguns momentos de ter sido traduzida do francês, não diretamente do latim. Vale a pena esperar para que a Editora Sétimo Selo continue seu serviço de publicar obras inéditas do santo, que começou muito bem.


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Uma perda de tempo?

Filed under: Educação incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 27 de janeiro de 2011

E a Economist, uma das poucas revistas no mundo que ainda não perdeu o padrão de qualidade, apesar de algumas bolas-fora recentes (p.ex: a reportagem sobre o Brasil brasileiro que inflou o ego dos Smierdiakovs da vida), resolveu publicar uma matéria que prova que o doutorado acadêmico é uma perda de tempo.

Como todo bom texto que se ampara em fatos e estatísticas, a tese é provada de forma assustadora e mostra que talvez eles estejam certos. No meu caso, que faço doutorado em uma universidade da qual reclamei a minha vida inteira, não me comoveu nem um pouco.

O motivo é simples: não entrei na vida acadêmica por motivos profissionais – leia-se: ganhar mais dinheiro – e sim porque precisava de mais disciplina na minha vida de estudos. Atualmente, no Brasil, existem duas tendências opostas e igualmente desagradáveis: ou o sujeito resolve ficar fora da universidade e parte para o autodidatismo – com todas as falhas de formação que isso implica – ou o mesmo infeliz resolve ir à universidade para suprir o seu vazio existencial e vira mais um títere nas mãos de ideólogos, epígonos e outros estúpidos, intitulados sabe-se lá como de “professores”.

São dois exemplos de estupidez que não chegam a lugar algum – e o texto da Economist parece defender um terceiro, o da busca pela segurança material e financeira que uma vida de estudos pode proporcionar em uma carreira profissional.

Ora, meus amigos, a vida contemplativa, a bios theoretikos do velho Ari, não tem nada a ver com isso. Uma vida de estudos é feita com muita disciplina, persistência e fortaleza moral. Você precisa realmente estar possuído por um problema que o incomoda como um espinho para que resolva dedicar sua vida a analisá-lo sem misericórdia. E as grandes vantagens de um mestrado e de doutorado são as de confrontar e comparar outras visões de mundo em que se é obrigado a debater sem impor a sua visão aos outros.

Aí vem um outro problema, que atinge tanto o Brasil como o resto do mundo: ninguém mais sabe debater um mísero assunto. Tudo não passa de um arremedo de opinião. Nada mais é apoiado em princípios e sim apenas em rivalidades – que, por sua vez, começam a criar falsos princípios. Mas isso é um outro assunto que deve ser discutido em um outro dia – e não tenho a mínima paciência para fazer isso agora.

Se um doutorado é uma perda de tempo? Negativo, caro leitor. Agora, se você busca somente o sucesso e esqueceu que a roda da fortuna também apronta das suas, não posso fazer mais nada para ajudá-lo. Good night and good luck.


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A máscara da fragilidade

Filed under: Música incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 26 de janeiro de 2011

(No final do ano passado foi publicada no Brasil uma nova biografia de David Bowie, escrita pelo jornalista Marc Spitz. Intitulada simplesmente “Bowie – A Biografia”, é escrita com paixão e constrangimento de um fâ. Depois de duzentas e cinqüenta páginas descrevendo o processo de influência e de formação de um dos maiores músicos pop, logo a biografia cai no lugar comum e prefere se perguntar se Bowie foi ou não foi para a cama com tal e tal pessoa, sem se preocupar com o sexo e também com o fato de que, durante sete anos seguidos, o sujeito produziu, ao menos, oito obras-primas do rock-n´-roll. Uma pena para nós, brasileiros que se contentam com as migalhas decididas pelos editores e pelas editoras que não sabem mais escolher um livro para os leitores que querem saber como e o que faz um gênio.)

“Ele viveu todo o tempo necessário para experimentar muitas vezes cada uma das possibilidades do seu ser; para que fizesse, de si mesmo, diversas idéias diferentes, e para que resgatasse delas, conhecendo-se sempre mais vasto. Conseguiu encontrar-se, perder-se, recuperar-se e reconstruir-se, ser diversamente o Mesmo e o Outro; e observar em si mesmo seu ritmo de mudança e de crescimento. Uma mudança de amplitude quase secular, através da substituição insensível dos gostos, dos desejos, das opiniões, dos poderes do ser leva a imaginar que um homem, vivendo com muita obstinação, experimentaria sucessivamente todas as atrações, todas as repulsas, conheceria talvez todas as virtudes, com toda a certeza, todos os vícios; esgotaria finalmente, a respeito de tudo, o total das afeições contrárias e simétricas que podem ser excitadas”.

Paul Valéry, em um discuro em homenagem ao centenário de Goethe

Todos nós sabemos que David Bowie não é Goethe, mas sabemos que ambos foram os únicos artistas que conseguiram, dentro do seu tempo, captar o Zeitgeist e superá-lo, através de uma síntese entre o experimental e o popular, sem perder a ousadia e, o mais importante, a qualidade. Em seu novo álbum, “Heathen”, Bowie faz uma meditação exemplar sobre a sensação de decadência e morte que se espalhou depois do Terror do 11 de setembro, ao declamar como um poema a letra da canção “Sunday”. “Nothing remains” (Nada permanece), ele diz, enquanto uma seqüência de guitarras e ruídos estranhos surpreende o ouvinte, que tenta fazer como o próprio Bowie canta, “We should crawl under the bracken/ Look for the shafts of light” (Nós devemos engatinhar entre as ruínas, procurando por raios de luz).

Definitivamente, “Sunday” não é uma canção dominical, em que o sol brilha para todos. O domingo de Bowie é de uma incerteza assustadora, em que nada permanece porque, na verdade, “é o começo do nada e nada mudou”, mesmo que momentos depois ele afirme o contrário – que “tudo mudou”. Tudo mudou porque, pela primeira vez, o Nada passou a existir – ou, para ser exato, o Nada passou a ter (algum) sentido. É claro que esta é uma afirmação que pode ter saído da boca de um sofista, mas o fato é que David Bowie faz este questionamento – se o Nada realmente existe? – porque ele quer refletir sobre o que sobrou depois daquela monstruosidade que foi o 11 de setembro e, principalmente, quais foram seus efeitos sobre a cultura em que ele atua.

Suas conclusões não foram as mais felizes – mas foram as mais dignas a que um artista pode chegar. Mas para chegar a elas, Bowie teve que passar por um processo lento e gradativo durante trinta anos, em que ele teve de construir e destruir as máscaras que cobriam sua verdadeira personalidade para mostrar uma outra – aquela que mostra a fragilidade de suas indecisões e reflexões. De certa forma, “Heathen” foi o álbum que David Bowie estava se preparando para fazer desde o início de sua carreira como cantor e compositor, e se uma tragédia como o Terror de 11 de setembro foi um dos fatores responsáveis pelo seu definitivo amadurecimento, isto é um sinal de que não estamos testemunhando não só o fim de uma era, mas também o começo de uma outra. Contudo, para esta ressurreição acontecer de fato e com toda a sua pureza possível, temos de purgar o medo do que nós nos tornamos e lembrar de Deus em todos os nossos julgamentos (“In your fear/ Of what we have become/Take to the fire/ Now we must burn/ All that we are/ Rise together/ Through these clouds/ As on wings (…) All my trials/ Lord will be remembered”). Somente dessa forma podemos dizer se tudo está realmente mudado.

Bowie sempre foi um mestre em duas coisas: canções que retratam personagens desesperados em cenários apocalípticos e uma capacidade infinita de mudar de estilo, seja de música, de atitude, de moda, mas sem perder a unidade que mantém a máscara que esconde o franzino David Robert Jones, nascido em 1947 na cidade de Brixton. Apaixonado por artes plásticas e por música, David Jones trocou o seu nome por David Bowie porque queria um nome tão afiado quanto Mick Jagger, apesar da lenda dizer que ele substituiu o sobrenome pela marca do canivete Bowie, por causa da surra que levou de um amigo pero no mucho da escola, que teria furado o seu olho, inutilizando-o completamente (mentira: o olho ficou paralisado devido a um soco na cara, o que dá a impressão de que Bowie tem olho de vidro, já que a cor de suas íris mudam conforme a luz do ambiente). Leia mais…


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O Inferno de Galileu

Filed under: História incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 22 de janeiro de 2011

Galileu, em sua mocidade, deu uma série de palestras sobre o Inferno de Dante. O objetivo do futuro cientista recém-expulso da faculdade de medicina era mostrar como as descrições infernais do florentino eram fisicamente impossíveis. O trabalho era relevante pois diversos intelectuais consideravam o texto de Dante verdade literal e dedicavam-se a exprimi-lo geometricamente; havia até versões concorrentes.

Uma curiosa nota biográfica sem importância? O físico Mark Peterson argumenta, em seu livro Galileo’s Muse: Renaissance Mathematics and the Arts, que foi aí que a física moderna nasceu. Estava feita a primeira grande ruptura com o passado aristotélico-escolástico que engessara o desenvolvimento da ciência (muitas descobertas de Galileu e até de Newton já tinham precursores na escolástica – é só pensar em Robert Grosseteste, que, no século XIII, já defendia que o arco-íris era causado pela refração da luz em gotículas d’água suspensas no ar – mas estavam ainda por demais emaranhadas a uma concepção do universo largamente equivocada).

O assunto Galileu é sempre marcado por controvérsias e propaganda, e por isso não posso deixar de me pronunciar a respeito. Negar a genialidade do homem é tolice, assim como diminuir suas descobertas científicas (chegando, como fez provocativamente Paul Feyerabend, a dizer que Galileu estava errado e as autoridades eclesiásticas que o condenaram corretas). O homem foi um gênio, mas não foi a personificação da razão honesta contra a superstição violenta como muitos fazem crer. Rejeitou, por exemplo, a teoria (correta) das órbitas elípticas proposta por Kepler pelo simples motivo que o círculo é a figura perfeita e que portanto as órbitas tinham que ser circulares; um tipo de submissão da ciência à metafísica que era exatamente a fonte do erro de seus acusadores. Alguns de seus argumentos em favor do heliocentrismo foram notoriamente fracos (como o das marés, que via no movimento das ondas a prova de que a Terra se movia;  Beda o Venerável, no século VIII, estava mais próximo da realidade ao atribuir a causa das marés à lua). E as causas de seu processo na Inquisição têm tanto a ver com a intolerância de inovações intelectuais da época quanto com sua atitude arrogante e prepotente. Nada disso nega sua genialidade; apenas deixa evidente a tendenciosidade de uma história feita para confirmar preconceitos.


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Denis Dutton (1944-2010)

Filed under: Sociedade incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 21 de janeiro de 2011

Enquanto o mundo se refastelava no Natal e no Ano Novo e o Brasil se preparava para ser governado pelos Smierdiakovs da vida, acontecia um evento muito triste: a morte de Denis Dutton.

Quem?, escuto o vulgo a perguntar. Bem, o esquecimento é sempre uma possibilidade muito concreta no mundinho intelectual, e como é uma das minhas obrigações nesta marmita que é o planeta Terra lembrar-nos de que isso também pode acontecer conosco, faço aqui as vezes de oráculo da memória alheia.

Denis Dutton foi o editor e o criador do Arts and Letters Daily que, se não estiver enganado, é simplesmente o melhor site de clipping de artigos mais interessantes publicados no mundo anglófono, sem distinção ideológica, indo de uma The New Republic até uma The New Criterion no espaço de uma coluna.

A revolução que Dutton causou na mente de muitos intelectuais e, em especial, jornalistas não foi pequena. Ele simplesmente provou, no final da década de 90, que havia vida inteligente na internet. E fez mais: teve a coragem moral de mostrar aos seus leitores que também havia perspicácia em um pensamento que ia na contra corrente da mídia e que hoje damos o nome de conservador (seja lá o que for isso).

No caso do Brasil, o impacto foi grande, mas como sempre a mídia nunca alardeou isso. Já na blogosfera, a reação foi outra. Por exemplo: se não fosse pelo Arts and Letters, jamais saberíamos a existência da Roger Kimball ou de Theodore Dalrymple – que, aliás, escreveram obituários emocionantes sobre o editor. Posso dizer sem hesitação que o site é meu vício matutino: não consigo começar o dia sem saber o que ele publicou. E todos nós sabemos que metade da imprensa cultural brasileira não saberia do que acontece lá fora se não fosse pelos esforços de Dutton – aquele colunista dominical do Estadão que o diga…

De uma forma ou de outra, Dutton mudou nossas vidas – e para melhor. Sua morte precoce, aos 66 anos, e sua passagem extraordinária por aqui, não podem ser esquecidas como o pó que se esconde debaixo do tapete.


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Diamond Dogs

Filed under: Cinema incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 20 de janeiro de 2011

Sim, leitor, agora que volto de férias em pleno reino dos Diamond Dogs e dos Smierdiakovs que governam nosso país recheado de Festival de Besteiras que assolam nossa consciência, vamos ver o que fiz durante este meio e o que interessa ao seu próprio interesse que, geralmente, não é o mesmo que o meu (e thanxs God a isso):

- Quer saber como um terrorista é um estúpido? Então assistam Carlos, o épico disfarçado de mini-série de Olivier Assayas, de seis horas, e que conta minuciosamente a história de O Chacal, um dos maiores filadaputa que já passaram pelo mundo. Interpretado com força por Edgar Ramirez, o filme assusta por mostrar criminosos andando calmamente nas ruas, tomando drinques com policiais que deveriam prendê-lo, farreando sem que ninguém o perturbe. Já vimos este filme antes, não?

- Tudo bem, comecei pesado, correto? Então vamos de Morangos Silvestres, de Ingmar Bergman, que assisti por esses dias. Todos nós somos Victor Sjostrom. Achamos que seremos uma grande coisa quando na verdade descobriremos que seremos medíocres até o talo. O que sobra é a redenção dos pequenos gestos, o milagre dos detalhes que jamais percebemos em nossas vidas.

- No Natal, li as biografias de David Bowie e de Keith Richards. A primeira é de um amadorismo terrível; a segunda é de um tédio que nos deixa irritados. Então a vida destes sujeitos é só isso: drogas, drogas, alguma música, mais drogas, um pouco de sexo atrapalhado, mais drogas? Sim, é só isso. Então desculpa aí que a vida real é mais divertida.

- Para não dizer que cai ontologicamente nas coisas que leio, li também Os irmãos Karamazov, do bom e velho Dostoievski. Em verdade, em verdade vos digo meus amigos: o segredo último da vida se encontra nos Evangelhos, na Divina Comédia e nas páginas finais dos Karamazov.

- E por falar em segredo último da vida, fomos ver o último do Clint Eastwood, Hereafter. Não é um dos seus melhores lances – a cena final parece ter sido imposta por Spielberg. Mas a seqüência de doze minutos com Matt Damon e Bryce Dallas-Howard é a prova de que o homem continua um dos maiores diretores do mundo. Aquilo é de uma dor profunda, de uma tragédia que borbulha silenciosamente, que não há como ficar impassível. Além disso, há comentários engraçados sobre o multiculturalismo na Europa e a mídia atéia na França que observamos com ironia nos lábios.

- E sobre o Belas Artes: fecha logo, por favor. A última vez que fui lá, há cerca de dois anos, respirei ácaros que vinham do carpete e do ar-condicionado. Não era cinema, era um muquifo. E muquifos devem ir para o brejo – que é a mesma coisa que tombamento aqui no Brasil.

- A tragédia da serra carioca e as enchentes em São Paulo só mostram uma coisa que a mídia tenta esconder, mas não consegue: o Estado faliu, meus amigos. Consegue apenas manter uma aparência de vida. Vive às custas da entropia que o come internamente. Recomendo sem problemas aquilo que Thoreau chamava de desobediência civil. É a única forma de colocar as coisas nos eixos.

- E a mídia – especialmente a Folha de São Paulo e a revista piauí – insistem em afirmar que Reinaldo Moraes e seu Pornopopéia é a nova obra-prima volumosa e revolucionária da nova literatura brasileira. Não é. Tentei ler cem páginas de palavrões desordenados e fiquei bocejando. No Brasil, deboche é tratado como genialidade. Não é, nunca foi. Quer saber o que é deboche, leia Mencken e Thackeray. Que eram gênios, por sinal.


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Cine Belas-Artes e o custo oculto da nostalgia

Filed under: Sociedade incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 19 de janeiro de 2011

BelasArtes_EvelsondeFreitasAE306.jpg

O Cine Belas-Artes, um velho cinema de São Paulo, está para fechar. É sempre uma tristeza quando algo com o qual estamos habituados e temos laços sentimentais vai embora. Por isso um grupo de amigos do velho cinema já clama pelo seu tombamento, o que eternizaria o estabelecimento falido. Uma passeata foi organizada; cem pessoas compareceram. Adesão menor que muita gincana de colégio. Mas essas cem (mais milhares cujo amor pela causa só não é menor do que o esforço de assinar petições online) fazem tanto barulho que se cogita seriamente ceder à pressão dos manifestantes. O caso todo é involuntariamente humorístico. Até o diretor do Departamento do Patrimônio Histórico reconhece: “O caso não é nada simples porque envolve um patrimônio cultural, mas também um prédio que, em termos arquitetônicos, não tem especial valor”. Em outras palavras, o caso é simples: um cinema velho e que dá prejuízo vai fechar, mas alguns gatos pingados querem proibir o inevitável por decreto.

No fundo o que está em jogo no “debate” sobre o tombamento do Cine Belas-Artes é isso: tem gente (pouca gente) que quer mantê-lo funcionando mas não quer arcar com os custos. Então fazem barulho até convencer os políticos a meter o dedo, isto é, forçar os outros a pagar. O sociólogo Carlos Alberto Dória é explícito: “Por que os governos não se propuseram a ajudar no pagamento de um aluguel mais alto?”. Pedir que o governo pague um aluguel mais alto significa pedir que toda a população pague para manter um cinema ao qual poucos querem ir. É sintomático da nossa forma de governo: não ganha quem tem razão, e nem necessariamente a opinião da maioria; ganha quem faz mais barulho. Então pode bem acontecer que um punhado de indignados de internet consiga perpetuar um cinema falido sem tirar um Real do bolso. Digo, um Real do bolso deles, pois pode ter certeza que alguém pagará esse pato. Ou o proprietário do terreno vai ter que se conformar com um aluguel baixo por toda a eternidade ou o dinheiro (seja para desapropriar o prédio ou para pagar um aluguel mais alto) virá dos impostos.

Alguém como o sociólogo supra-citado acredita que o Belas-Artes seja um valor absoluto, uma entidade cuja própria existência é necessária para a humanidade e sem a qual a vida não faria sentido, e que portanto justifica enormes sacrifícios (dos outros). “Será que só agora perceberam a importância do Belas Artes?” O que ele deveria ter dito é “Será que só agora perceberam a importância do Belas Artes para mim?” Não é preciso ser um relativista pós-pós-pós-moderno para ver que certas coisas importam para uns e não para outros. Toda a cultura do tombamento ergue-se sobre uma impossível comparação de valorações subjetivas. Como resolver o impasse?

O mercado (ou seja, as transações voluntárias entre pessoas livres) oferece a maneira mais eficiente e mais justa. O dono decide acerca do que é seu. A solução óbvia dentro dessa perspectiva seria que os próprios descontentes, reconhecendo que o cinema não se paga, se oferecessem a pagar uma quantia maior pelo privilégio de freqüentá-lo; talvez fizessem uma vaquinha. Conversando com o dono do estabelecimento poderiam chegar a um valor pelo qual ele topasse renovar o contrato. Caso o valor fosse muito alto, perceberiam que, embora valorizem o cinema, não o valorizam a ponto de sacrificar os recursos que ele necessita para se manter rentável; e nesse caso é bom que ele feche as portas, para que os recursos nele utilizados possam ir a destinações nas quais os desejos da população sejam melhor atendidos. O problema é que não sabemos essas destinações de antemão; muitas delas nem existem ainda, então fica difícil angariar manifestantes para a oposição. O tombamento é popular porque se apresenta como uma medida sem custos. “Você gosta do Belas-Artes? Então eternize-o.” O que se preserva é bem conhecido, e o que nunca surgirá por causa do tombamento ninguém ficará sabendo. Quem disse que o valor sentimental do Belas-Artes supera aquilo do qual abriremos mão? Dado seu baixo sucesso (e é por isso que ele está fechando), não será muito difícil que os recursos (inclusive o espaço físico) encontrem finalidades mais de acordo com os valores da população.

Por que os freqüentadores assíduos não aproveitam seus últimos dias para dar-lhe um terno adeus? O mundo muda. Ele teve uma bela carreira de quase 70 anos, mais do que muitos outros. Tudo nasce, cresce e morre. Algumas coisas duram mais do que outras; as pirâmides de Gizé ainda estão aí (ao contrário das demais maravilhas clássicas); a Hobby Video na qual passei felizes momentos da minha infância já se foi; é a vida. Há muitas coisas novas que surgiram desde então e que só puderam surgir porque recursos foram tirados de empreitadas velhas e deficitárias. Por trás do tombamento há o desejo de tornar eterno uma idiossincrasia histórica que é, por natureza, temporária. É arbitrário cristalizar um estabelecimento querido num anseio vão de preservá-lo para todo o sempre, mesmo contra os desejos expressos (por meio de ações) da população que ele deveria servir. O velho vai embora, surge o novo; às vezes o novo é pior – outras vezes, apesar da nostalgia que insiste em sobre-valorizar passado, é melhor. Transformar tudo em peça de museu impede que novas soluções substituam as antigas. Se nossos antepassados o fizessem, ainda moraríamos sob a taipa.

Não exijam dos outros aquilo que vocês mesmos não estão dispostos a pagar. Se houver demanda, novos cinemas cult surgirão e serão palco de novas e ricas experiências humanas, que gerarão memórias tão valiosas quanto as que hoje em dia temos do Cine Belas-Artes. Se não houver demanda suficiente, então talvez manter cinemas cult funcionando não seja uma boa idéia, e sessões de DVD em casa sejam a melhor pedida. Em ambos os casos, o mundo seguirá seu curso e em poucos anos aquela perda incalculável mal será lembrada. Quem freqüentava o cinema um dia morrerá, e suas memórias e gostos irão junto. Seria injusto impô-los por coerção às gerações futuras. Por valiosíssimo que seja, o Cine Belas-Artes é um legado cujo peso elas não merecem carregar.


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Calígula desenterrado

Filed under: História incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 18 de janeiro de 2011

Finalmente a polícia fiscal se prestou a algo útil. Encontrado por acaso, na Itália, o local provável da tumba do imperador Calígula, famoso por sua insanidade. Um contrabandista tentava carregar uma estátua do imperador em seu caminhão quando foi capturado e obrigado a revelar onde a tinha encontrado.

Antes que você exulte de alegria com uma notícia tão bombástica, contudo, leia com calma as ponderações céticas da clacissista Mary Beard.

O governo italiano começou as escavações imediatamente; em breve saberemos.


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