Sinal de virtude
As duas imagens que tenho do militante são o socialista e o islamista. O que une a ambos? Uma coisa é o quererem implantar sistemas sociais não muito desejáveis para um homem racional, embora bem diferentes entre si (a não ser, é claro, naqueles que unem marxismo à umma). Mais do que nos fins, há uma igualdade que diz respeito aos meios: para fazer a revolução, implantar a ditadura do proletariado ou o califado universal, tudo vale. Vale matar inocentes (que, claro, por não estarem conosco, já não são tão inocentes assim), vale roubar, vale mentir. Pela causa posso cuspir na causa e jurar nada ter com ela.
Nem todos os movimentos dessas duas correntes têm essa característica. Mas ela foi e é prevalente o bastante para marcá-las. O mesmo já foi o caso até com o Catolicismo em certos lugares, mais especificamente na Inglaterra no início de era moderna (onde eles eram, verdade seja dita, brutalmente reprimidos; padres eram imediatamente condenados à morte). Alguns católicos, liderados por Guy Fawkes, tentaram explodir o Parlamento com todos os parlamentares dentro (a idéia ingênua de mandar uma carta para um parlamentar católico alertando-o do fato pôs tudo a perder, felizmente), indo inclusive contra os pedidos dos jesuítas disfarçados que ministravam em segredo pelo país. O problema é que mesmo entre os jesuítas circulavam diferentes versões da doutrina da equivocação e da reserva mental, o que ajudou na construção da caricatura do jesuíta sorrateiro, esguio, do qual é impossível extrair uma resposta que não seja dúbia. Houve muita propaganda falsa de protestantes e do governo inglês, mas os católicos no mínimo ofereceram material para tal campanha. Lições foram aprendidas.
Avancem a fita para os dias de hoje. Nos EUA, apesar da opinião pública radicalmente dividade, vigoram leis de aborto dentre as mais liberais do mundo; pode-se abortar por qualquer motivo e até bem tarde na gestação. Se o aborto falhar e o bebê nascer vivo, pode-se deixá-lo morrer. O movimento contrário ao aborto tem ganhado força. Gente que era pro-choice hoje é pro-life. Entre eles estão Bernard Nathanson, ex-médico abortista que, após ver imagens de ultrassom dos fetos que ajudava a matar, mudou de posição e passou sua vida fazendo campanha contra a prática, e até a Roe do Roe Vs. Wade, o processo que liberou o aborto, tornou-se ativista pro-life e converteu-se ao Catolicismo.
O movimento pro-life é difuso, abrangendo todas as classes e religiões (tendo inclusive partidários ateus), mas grande parte da força dele vem dos católicos americanos, que encabeçam diversas iniciativas. Uma delas, a Live Action, fez seus membros se apresentarem a clínicas de aborto da Planned Parenthood como prostitutas menores de idade acompanhadas de seu gigolô, que pede auxílio para testar e realizar abortos em suas “funcionárias”. O auxílio dado a eles prova que as clínicas da PP dão suporte a atividades ilegais e nada fazem para impedi-las; tudo devidamente filmado com câmeras escondidas.
Tática interessante, mas… seria ela moral? Afinal de contas, o que os membros do Live Action fazem é mentir, não é? Pode-se mentir por uma boa causa? Diferentes figuras do cenário católico americano deram suas opiniões. Peter Kreeft considera o ato obviamente correto. Mark Shea discorda.
É um caso difícil. Por um lado, não dá para negar que os membros da Live Action mentiram. Por outro, se concluirmos que sua ação é imoral, então todo o jornalismo investigativo e mais, toda infiltração policial em gangues de criminosos, tática consagrada da polícia, são igualmente imorais. Ademais, parece que há casos em que mentir é justificável, como o velho e conhecido “nazista à porta, judeus no sótão”. Alguns diriam que daí não se trata de mentira, mas apenas de um falsilóquio; na minha opinião, uma mal-sucedida tentativa de mudar definições para sumir com o problema.
O intuicionismo moral do Peter Kreeft não me convence; o argumento de autoridade do Mark Shea também não – embora ele faça uma distinção que me parece relevante: no caso do nazista na porta, é o inimigo que intima a responder-lhe; no caso da Live Action, são os próprios agentes que tomam a iniciativa de dar informações falsas para enganar o adversário. Ainda assim, aceitando sua posição, teríamos que concluir que o jornalismo investigativo e a infiltração policial em gangues criminosas são sempre imorais? Há uma diferença entre mentir e interpretar um papel falso (num contexto em que isso sirva para enganar o interlocutor)? Para mim a prova da honestidade de um movimento ou militância está na capacidade de fazer esse tipo de auto-questionamento. Ao invés de transformar a causa anti-aborto num ideal que a tudo santifica, colocam também ela dentro de uma estrutura moral.
Excesso de auto-questionamento é um vício destrutivo à própria causa; ausência dele é inescrupulosidade; na medida certa, um brilhante sinal de virtude.
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Nós somos Lara Logan
Data do post: 25 de fevereiro de 2011

Estava demorando, não é mesmo? Aposto que vocês gostariam de saber o que eu, este radical da direita, este sujeito reacionário em seus princípios, este católico de meia tigela que odeia os carolas e tira sarro dos ateus sem que eles percebam, pensa a respeito deste evento que a mídia quer chamar de “revolução de jasmim”, “crise no mundo árabe”, seja lá o que fôr, mas que, na verdade, só pode ser chamada de “o-momento-em-que-a-Irmandade-Muçulmana-tomou-conta-do-Oriente-Médio-e-todo-mundo-arregou”.
Quem estuda um pouco sobre os movimentos revolucionários sabe que eles giram em torno de dois princípios: não admitem drop-outs e nada acontece por acaso. Há sempre uma idéia fixa que guia seus militantes, que pode ser algo aparentemente abstrato, mas que mostra um norte a ser construído – a procura pela felicidade da Revolução Americana, uma revolução que, como diria Hannah Arendt, era perfeitamente desejável – ou um objetivo a ser destruído, um inimigo que une as pessoas por um clima de ressentimento, independente das polarizações ideológicas – foi o que aconteceu com a família do czar na Revolução Russa e que agora acontece nada mais nada menos com Israel na tal “revolução de jasmim”.
Já antecipo os Demétrios Magnolis da vida me chamarem de “exagerado” ou “extremista”, mas nada me tira da cabeça que tudo isso acontece no mundo árabe por duas razões: o desejo pela destruição de Israel e pelo enfraquecimento dos EUA, que, por sua vez, já fizeram metade do serviço sujo graças à ajuda de Barack Obama. Ou, se vocês quiserem que eu escreva com todas as letras, a desintegração daquilo que conhecemos como o Ocidente.
Mas nada disso tocará os corações duros de nossos leitores liberais e comedidos se não tivermos um exemplo individual. Então vamos à história de Lara Logan, a bela moça da foto acima. Qualquer um que leia um jornal já conhece o fato: Logan, correspondente de guerra da CBS News, em especial do programa 60 minutes, foi agredida e currada por um grupo de egípcios que estavam justo no momento da comemoração da Praça Tahir, quando o ditador Mubarak anunciou que sairia de seu governo que já durava mais de trinta anos.
O detalhe é que, uma semana antes, Lara Logan e alguns outros integrantes de sua equipe foram presos pela polícia estatal de Mubarak. Foram interrogados e levaram alguns sopapos porque acreditaram que eram “agentes israelenses”. Contudo, não houve sevícia ou qualquer espécie de ataque sexual.
Eis a tal “revolução de jasmim”: entre o fogo e a frigideira, não sabemos o que é pior – se ser currado ou espancado. De qualquer forma, houve violência, o que não é nada agradável quando acontece conosco. Mas há um detalhe: a gradação mórbida do ato violento. Não se sabe se os estupradores faziam ou não parte do grupo de Mubarak ou do grupo de oposição que resolveu “comemorar” o feliz evento; contudo, é esta gradação súbita, é este detalhe macabro que nos espanta e nos faz perguntar: Até que ponto nossa visão ocidental não ocultaria a nossa ingenuidade e a nossa falta de malícia ao percebermos o Mal?
Jean Bodin, um sujeito que sabia das coisas na Renascença francesa, afirmava que o primeiro sintoma de uma doença na sociedade ocorre quando esta decide menosprezar a existência do Mal. Não seria este o nosso caso? Não seríamos todos Lara Logan? Isto é: fascinados pela democracia, vamos ao campo de batalha, defendemos nossos princípios civilizatórios contra uma suposta bárbarie e descobrimos então que nós somos os responsáveis pela invasão da auto-destruição cuja origem está dentro de nós.
Mas uma curra no mundo islâmico é algo previsível, se formos pensar bem. Afinal, todos nós sabemos como as mulheres são tratadas lá – sem falar nos cristãos e nos judeus. Realmente, não há back-outs. Muito menos recuos. A “revolução de jasmim” é fundada no estrume da Irmandade Muçulmana que, usando táticas ocultistas, que não dependem de twitters e facebooks (uma destas ilusões construídas pelo marketing da mídia), sabem se inflitrar como poucas organizações no mundo, seja no exército egípcio, na oposição líbia ou no estabilishment americano (e se você acha que baixou o espírito conspiratório em mim leia este relatório assustador sobre a Irmandade, produzido pela Hudson Institution).
O que não se espera é a curra do Ocidente em relação aos seus. Foi o que aconteceu com a pobre Lara Logan. Ao voltar para casa, o que acontece? Seus pares de imprensa afirmaram que a curra foi uma fatalidade, comum aos correspondentes de guerra, que fazem de tudo para ter uma boa história. Afirmaram que o fato não tem nada a ver com a cultura islâmica e sim com sexo e poder. Enfim, quase colocaram a culpa na vítima, afirmando que, se ela não estivesse fazendo o seu trabalho, não teria sido currada.
Existe o estrume da Irmandade Muçulmana e o estrume da grande mídia ocidental. Não sabemos o que é o pior. Mas quando escuto, por exemplo, um Demétrio Magnoli, este desinformante profissional que não se livrou de sua visão trotskista do mundo, comparar a tal “revolução de jasmim” com a “revolução de veludo” que ocorreu no Leste Europeu em 1989, sei que querem me chamar de “otário”. Não há jasmim, muito menos veludo, nem sequer vaselina. Estamos sendo currados todos os dias – e, ao contrário do que Lara Logan deve ter sentido naquele momento terrível, estamos gostando. Se o Islã vencer esta guerra civilizacional, sem dúvida apontarei o dedo para a minha pessoa e direi sem hesitar: eu fui o culpado.
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Os grãos
Data do post: 23 de fevereiro de 2011
Em uma anotação feita em seu diário (publicado em parte pela revista piauí neste mês de fevereiro), o escritor americano John Cheever, uma alma que se deleitava no seu próprio tormento, define precisamente como começa aquele bichinho manhoso chamado auto-destruição:
1952_Quando a autodestruição brota no coração, parece ser menor do que um grão de areia. É uma dor de cabeça, uma leve indigestão, um dedo inflamado; mas você perde o trem das 8h20 e chega atrasado à reunião sobre a dívida do cartão de crédito. O velho amigo com quem você se encontra para almoçar esgota a sua paciência sem mais nem menos e num esforço para ser agradável você toma três drinques, mas a essa altura o dia já perdeu a forma, o propósito e o significado. Na esperança de lhe devolver algum sentido e beleza, você bebe demais nos coquetéis e fala demais, dá em cima da mulher de alguém e termina fazendo algo idiota e obsceno, e pela manhã você quer estar morto. Mas quando tenta reconstituir o caminho que o conduziu a esse abismo, tudo que você encontra é um grão de areia.
Em outras palavras: ela começa quando menos se espera. E quando falamos que isso ocorre quando menos esperamos, quando está em posição de tocaia, ficamos tentados a chamá-la por outro nome, talvez mais sofisticado, palatável até para os nossos padrões de esnobismo cultural – como desejo ontológico, desejo mimético, desejo triangular – ou então para nomes mais prosaicos, reconhecíveis em qualquer expressão cotidiana – inveja, ódio, ressentimento. Contudo, uma expressão qualquer não consegue substituir a verdadeira relação que o tal grão de areia começa a contaminar na sua alma, uma relação que não pode ser articulada porque, afinal, temos medo de aceitá-la em nossas vidas: o fato de que nunca queremos ser o que realmente somos porque o que queremos ser é sempre ser o outro.
Atualmente, esta é a via-crúcis brasileira – ainda mais dolorosa já que não queremos perceber que estamos nela há algum tempo. E como uma obra de arte que se preza por esse nome é obrigada a expressar não só o desconhecimento em que vivemos, mas também uma espécie de diagnóstico e, quiçá, uma espécie de catarse, é de bom grado anunciar que, recentemente, temos dois livros que atingem esta intenção: As almas que se quebram no chão, de Karleno Bocarro, e Os sinais impossíveis, de Vinicius Castro.
Os leitores da Dicta já conhecem o primeiro livro. Teci lôas e considerações sobre o romance de Karleno, que acompanhei em seu processo de gestação. Contudo, tudo isso foi em um momento que tinha de analisar o romance como um editor faria. Agora fiz a leitura mais arriscada de todas: a de um leitor comum, que tem o livro impresso, físico, em mãos e começa a apreciá-lo como um pobre mortal. Este é o teste definitivo de qualquer romance que preste.
Se passou no teste? Nas primeiras cinqüenta páginas, achei que algo de estranho tinha acontecido: não parecia ser o livro que eu tinha lido antes. Havia agora um terceiro narrador que não sabia a razão de sua existência na trama. Havia algumas gralhas de linguagem que me fazia acreditar que talvez o autor tentava imitar Charles Bukowski com demasiada auto-consciência. O livro capengava logo no início, algo perigoso para um romance de trezentas e cinquenta páginas e com uma ambição considerável.
Mas algo mudou quando entrou em cena Bocas, o personagem a lá “homem do subterrâneo” criado por Karleno. E aí sim me reencontrei com o livro que tinha lido antes: a história de um grupo de estudantes brasileiros em Berlim, justo no momento da queda do muro – e, em especial, a relação triangular que há entre o personagem principal, Marco Dilthey, um niilista com pretensões literárias, Barad, e sua namorada alemã, Andrea. Porém, com a entrada de Bocas, o que era antes um triângulo tornou-se um quarteto – e então As almas que se quebram no chão começa a voar como poucos romances brasileiros fizeram recentemente.
Já Os sinais impossíveis não sofre do problema de um início capenga. É um romance perfeito em termos técnicos e de carpintaria literária. Vinicius Castro sabe contar uma história – e, o melhor, sabe construir cenas com a precisão de um ourives. O melhor exemplo é a cena inicial: a personagem principal, Luísa, está entediada em uma festa. Resolve ir embora. Caminha pelas ruas de Brasília, uma cidade que exala uma artificialidade abominável. Pensa sobre a vida. Sobre a família, os pais, o irmão. Quando chega em casa, a vida lhe dá um tapa na cara e há uma surpresa terrível no outro lado da porta. É uma das cenas mais dilacerantes já escritas na literatura brasileira atual.
A partir daí, o romance se volta para João, que namorará com Luisa em um relacionamento motivado mais pela expectativa do que ela pode ser em sua imaginação do que propriamente pelo o que ela é na realidade. E, entre um afago e outro, uma festa e outra, Castro mostra que conhece a tradição pela qual quer ser compreendido: a prosa minuciosa das percepções de David Foster Wallace e de Don DeLillo, a descrição interior dos personagens que mimetiza os termos preciosistas (em alguns momentos, preciosistas até demais) da poesia de Wallace Stevens e uma melancolia brasileira que nos dá a impressão de ler um romance que poderia muito bem ser uma mistura dos filmes de Michelangelo Antonioni com as canções do Legião Urbana.
O fato é que ambos os romances discorrem sobre este grão de areia chamado auto-destruição com uma força moral e, o mais importante, estética que nos impressiona assim que conseguimos entender o que está em jogo. E o que está em jogo é nada mais nada menos nós mesmos, seja em Brasília, seja em Berlim. Afinal, um brasileiro é também um ser humano, não é mesmo? Ou seja: todos nós temos aquela capacidade de escolher entre o caminho para cima e o caminho para baixo – e parece que decidimos por este último há algum tempo (e, o pior, estamos gostando muito dele).
Karleno Bocarro e Vinicius Castro decidiram enfrentar o caminho para baixo com aqueles instrumentos que Hamlet, outro sujeito que gostava de se agarrar no seu grão de areia, desprezava solenemente: palavras, palavras, palavras. Entretanto, a diferença entre um e outro é a capacidade de deixar o leitor irritado com sua própria situação de apatia. Seus próprios personagens se deixam viver em uma entropia de sentimentos, em uma casca de vida que, se depender deles, jamais permitirá que a lava da imprevisibilidade exploda de uma vez por todas. É claro que, por exemplo, não se pode negar o amor de João por Luisa no livro de Castro, algo muito diferente do desejo irracional que um Marco sente por todas as alemãs que quer levar para a cama e não consegue; mas quem disse que o tal do amor não pode ser também o mesmo grão de areia sobre o qual Cheever escreveu?
As almas e Os sinais impossíveis mostram uma juventude que resolveu uma “aparência de vida”: tudo funciona, tudo está consolidado, a economia é uma maravilha, ninguém passa mais fome, não há mais guerras, tudo é paz e amor, mas… – mas a vida se petrificou de tal forma que não conseguimos mais saber quando começou a nossa desgraça.
Porque, como apontam Karleno e Vinicius, a desgraça começou dentro de nós mesmos – e só esta importa. O resto é balela que ficará borbulhando no silêncio mal articulado das palavras não ditas. Os dois romances são, cada um a seu modo, tratados de como o desejo ontológico nos corrompe e depois corrompe toda uma sociedade. Às vezes, a salvação está lá – e, por coincidência, os livros a apresentam pelo mesmo nome: Luisa – mas seus personagens não a aceitam simplesmente porque não conseguem percebê-la que está debaixo de seus narizes. E é neste ponto que As almas se torna um livro superior a Os sinais: ele leva o drama da redenção às últimas conseqüências e, mesmo com seu final sombrio, com um personagem que acaba selando o pacto mefistofélico, o autor não perde em vista a perspectiva que a vida não é uma história narrada por um idiota, cheia de som e fúria, e, ao mesmo tempo, mostra que este último pode ser o próprio leitor – e só se este quiser com todas as suas forças. Como contraponto, é provável que, no futuro, Vinicius Castro tenha de provar para si mesmo e para o leitor em seus próximos romances que ele não ficou fascinado com o barulho que a “pressão da existência” (expressão que Wallace Stevens adorava usar) lhe deu como benção e como maldição.
Apesar da nossa prosperidade econômica, resolvemos fazer, há muito tempo, a opção preferencial pelo desastre. Estes dois livros mostram que existem dois jovens autores capazes de analisar o país onde vivem com honestidade e sem nenhuma misericórdia. A entropia nos come por dentro, rapazes, e somos os responsáveis por ela. E se for para viver agarrado em grãos, recuso o de areia e prefiro o de mostarda, muito mais visível e muito mais saboroso.
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Sobre a capacidade potencial de se falar sobre coisas
Data do post: 21 de fevereiro de 2011
Escrever ou falar bem é dizer o que se quer sem dar margem a mal-entendidos. Isso significa ser específico. Se a comunicação hoje em dia é vaga e faz recurso a sons inarticulados, gestos e caretas ao invés de palavras, e essas de forma genérica e rodeadas de vícios de linguagem, isso é evidência de que nossa comunicação está empobrecida. E o que se pode concluir acerca do pensamento que depende das palavras? Leiam o instrutivo, embora preocupante, artigo publicado no City Journal.
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“Eu escrevo para o Leo Strauss…”
Data do post: 19 de fevereiro de 2011
CRÍTICA AUTOBIOGRAFIA
Hitchens costura memórias com honestidade brutal
Em estilo que ecoa Orwell e Bellow, jornalista expõe contradições de sua carreira
MARTIM VASQUES DA CUNHA
ESPECIAL PARA A FOLHA
Enquanto divulgava “Hitch-22″, seu livro de memórias, Christopher Hitchens foi diagnosticado com câncer no esôfago.
“Quando isso acontece conosco, as pessoas se perguntam: por que eu?”, escreveu em sua coluna na revista “Vanity Fair”. “Apenas me perguntei: por que não?” Afinal, por que não? Em “Hitch-22″, Christopher (ele odeia ser chamado de Chris) mostra as contradições dos seus (até agora) sessenta e um anos de existência.
Com uma prosa que une a precisão de George Orwell e o virtuosismo de Saul Bellow (suas maiores influências), lemos com dentes trincados sobre o suicídio da mãe, a educação de contestador socialista, a herança judaica oculta por quase 30 anos e o momento em que Margaret Thatcher o chamou de “menino safado”.
Estão lá também as amizades com Salman Rushdie e Martin Amis -com quem, aliás, foi a um puteiro em uma visita desastrada. Tudo, é claro, em nome da arte e da língua inglesa.
Mas, de todas essas histórias, nada nos prepara para a de Mark Daily, um norte-americano de 19 anos, esquerdista, contra qualquer espécie de combate bélico e que, um belo dia, decide se alistar na Guerra do Iraque.
O motivo? Convenceu-se dos argumentos apresentados nos artigos de Hitchens, que, no melhor estilo “Ardil 22″ (o clássico de Joseph Heller emprestado para batizar essas memórias), antes era um jornalista que havia defendido Saddam Hussein e agora queria vê-lo fora do poder a qualquer custo.
A coragem de mudar de opinião é nada se comparável à de encarar os pais de um jovem por cuja morte você pode ter sido o responsável.
CRISTIANISMO
E é neste episódio pungente que Hitchens mostra a sua maior virtude: uma brutal honestidade, obrigatória para quem enfrenta os radicais da direita e da esquerda, incapazes de perceber que a vida só nos faz a seguinte pergunta: “E por que não?”.
É essa mesma honestidade que também nos faz pensar se, na verdade, Hitch (como ele gosta de ser chamado) não passa de um cristão “malgré lui”.
É claro que a ideia o faria espumar de indignação, graças à propaganda que o próprio pratica sobre o seu ateísmo militante. Mas, ao mesmo tempo, é intrigante imaginar que, para quem encarou a realidade no seu lado luminoso e sombrio, e acumulou tantas contradições, esse fato seria o mais perturbador de sua existência -justamente quando enfrenta uma terrível doença. E por que não? Afinal, não é para isto que os contestadores existem: para mostrar que a vida não é um armazém de secos e molhados?
MARTIM VASQUES DA CUNHA é editor da revista “Dicta&Contradicta” e doutorando pela USP
HITCH-22
AUTOR Christopher Hitchens
EDITORA Nova Fronteira
TRADUÇÃO Alexandre Martins
QUANTO R$ 69,90 (560 págs.)
AVALIAÇÃO ótimo
(Resenha publicada na Folha de São Paulo de 19 de fevereiro de 2011, no caderno Ilustrada.)
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Google Art
Data do post: 18 de fevereiro de 2011
Mais um benefício da revolução que é a Internet. O Google tem agora um site que permite acessar o acervo de grandes museus ao redor do mundo com imagens de alta resolução. Não exatamente substitui uma visita aos originais, mas ao menos dá um gostinho. Foi-se a era dos caros catálogos de museu?
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O demônio pasteurizado
Data do post: 17 de fevereiro de 2011
Dizem que me preocupo demais com demônios. Como recentemente escrevi dois textos que relacionavam a literatura brasileira atual com exorcismo, engraçadinhos acharam que, em breve, eu iria começar a falar dos gibis do Alan Moore – um autor que, aliás, estimo muito. Também reclamaram de que eu não saberia explicar onde se encontrava na geração atual a tal temática de favelado – pois parece que estes novos autores fogem da periferia como o diabo foge da cruz (desculpem-me pelo trocadilho).
A minha intenção em escrever estes textos sobre a literatura brasileira atual é a de apresentar um panorama, não um sistema. Ainda assim, é necessário trazer à tona alguns pontos, talvez como uma espécie de critério para que depois ninguém venha a reclamar que coloquei demônios demais e literatura de menos.
O fato é que demonismo, literatura e a favela têm muita coisa em comum. Talvez tenham razão ao afirmarem que, na literatura brasileira que entrou em voga – repleta de jovens descolados e que sabem mais sobre estilo do que sobre substância - a favela não é mais um símbolo preponderante. Contudo, se o símbolo sumiu, a mentalidade permanece – e eis o perigo disso tudo. De qualquer forma, a literatura permanece dentro de um horizonte provinciano, por mais que pareça cosmopolita, com suas referências trendy e as citações cinematográficas.
Este provincianismo mostra que o autor é incapaz de extrair de si a loucura exigida pela literatura. Quando falo de demônios, falo exatamente disso: loucura, meus amigos, loucura – aquilo que Henry James, já na fase old pretender, afirmava ser the madness of art. Mas um aviso: não se trata de uma loucura qualquer, como a que nos fazem acreditar que será curada em hospícios e sanatórios. É uma insanidade que deve ser disciplinada, controlada, para que os tais demônios que as pessoas têm tanto medo de chamá-las não se apossam não só do escritor como também do seu estilo, da sua arte – enfim, para que não a transforme em futilidade.
Porque, de todas as mentalidades de favelado, a mais perigosa é a de ser futil – ou, se quisermos usar termos mais sofisticados e suaves, a do esteticismo. Kierkegaard definia três estilos de vida que alguém poderia experimentar: o estético, o ético e o religioso. A literatura brasileira, salvo raras exceções, não conseguiu passar do primeiro estágio. É algo ruim? Não, se quiser permanecer provinciano – uma característica que não precisa ser exclusivamente brasileira. Mas se o escritor tiver alguma ambição, então temos problemas – pois quanto mais alto se sobe, mais rápido pode-se cair.
Quem relacionou o problema do esteticismo com a da realidade brasileira foi o ensaísta e pensador Mario Vieira de Mello. Em seu Desenvolvimento e Cultura, ele argumenta com toda a razão que nunca tivemos idéias próprias, que sempre as copiamos e adaptamos conforme nossas necessidades. Já prevejo o leitor sabichão me alertar que este mesmo raciocínio se encontra também em Raízes do Brasil, de Sergio Buarque de Holanda; mas, agora, com uma diferença: Sergio afirmava que tal cópia levava ao esgarçamento das instituições e à falta de respeito a res publica. Vieira de Mello vai além: é a própria cultura que sai prejudicada, incapaz de se desenvolver de forma autônoma porque se prende às estruturas de poder e não consegue mais perceber a diferença entre a liberdade exterior e a liberdade interior.
Se fizermos uma analogia – o que é sempre perigoso pois analogias são saltos no escuro que podem nos levar para o outro lado ou direto para o abismo, já nos ensinava Indiana Jones e a última cruzada – a preocupação da literatura brasileira atual com as referências da moda e com um estilo mais apurado é um sintoma de liberdade exterior, mas nota-se também como os jovens escritores não estão preocupados com os demônios que são obstáculos para alcançarem a liberdade interior. Esta última não é um direito dado pela natureza; é algo a ser conquistado, domado. Portanto, quando falam sobre seus próprios demônios, o medo os leva a pasteurizá-los – a estetizá-los como se fossem joguinhos de criança, impedindo de vê-los como um problema que nunca terá solução.
Vejam bem: apesar do termo religioso, quando uso a palavra “demônio”, não quero fazer uma relação a lá “veja-como-a-nossa-literatura-é-uma-merda-porque-perdemos-o-contato-com-o-Nosso-Senhor”. É claro que isso é um problema – mas deixamos isso para os apologetas e os téologos (que, por sua vez, pouco entendem de literatura). O que importa é perceber como uma literatura se torna estéril porque vive o desconhecimento de que o desejo ontológico, o de querer ser uma coisa que nunca foi, nunca é e nunca será, é uma lei que nos come por dentro e que nos causa mais armadilhas interiores do que pensamos. Não podemos ter medo de falar em “demônios” porque nós somos justamente o que não queremos nomear. Para usar um termo dostoievskiano, nós somos os possessos – eu, você e todos que não aceitam que um exorcismo bem feito e sem futilidade é tudo o que precisamos. And good luck with that.
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Tropa de Elite – Lançamento Dicta No. 6
Data do post: 15 de fevereiro de 2011
Outro dia estava olhando as estatísticas deste site e um dos dados que mais me animaram (e a todos no IFE) foi constatar que mais de 75% das visitas que ele recebe são de fora da cidade de São Paulo. Bairrismo nunca foi nosso refúgio e é por isso que desta vez fizemos questão de gravar nosso lançamento. A primeira parte está aí em cima, a playlist completa aqui.
Espero que gostem!
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Ciclo de Cursos – Cultura Sem Limites
Data do post:
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A derrota da morte
Data do post: 14 de fevereiro de 2011

“Pela primeira vez na história musical, a música interroga-se a si própria sobre as razões de sua existência e sobre sua natureza… é uma música do conhecimento, com a mesma consciência trágica como Freud, Kafka, Musil”.
Hans Werner Henze
“Sou três vezes sem casa: um nativo da Boêmia na Áustria; um austríaco entre os alemães; um judeu através do mundo todo”.
Gustav Mahler
As sinfonias de Gustav Mahler exigem do ouvinte algo quase impossível nos dias de hoje: uma audição espiritual. Claro que isso já é evidente quando escutamos Bach, Mozart e Beethoven, mas Mahler representa uma exigência maior, não só porque utiliza-se dos procedimentos da paródia e do kitsch em sua obra (característica própria da modernidade), e sim porque ele abusa de toda uma tradição melódica e orquestral, chegando ao ponto de transformar a música em uma narrativa incomum – no caso, a narrativa de um espírito que luta, é derrotado, renasce, luta mais uma vez, até a morte calma e silenciosa. Pierre Boulez captou bem esse aspecto de romancista de Mahler, ao afirmar que sua música “descreve quase literalmente o mito da fênix”. “A visão e a técnica de Mahler possuem a dimensão épica da narrativa”, escreve Boulez, com sua habitual perspicácia. “Ele é como um romancista no metódo e no uso do material. Continuava a chamar suas peças de sinfonias; conservava a nomenclatura dos movimentos (adagio, scherzo, finale), embora seu número e ordem variassem de obra para obra. A intrusão ocasional de elementos vocais em diversos pontos da sinfonia e o emprego de efeitos teatrais, como a instalação de instrumentos fora do palco, foram duas das inovações de Mahler que destroem a noção de gêneros musicais distintos. Só o romancista trabalha de forma suficientemente elástica para fazer tais jogos com seus materiais”.
Esta implosão do gênero sinfônico e do ciclo de canções que Mahler fez é comparável, por exemplo, à revolução cromática de “A Paixão Segundo São Mateus”, de Bach, ou a Nona de Beethoven, em que o adágio (pelo menos na versão gravada por Sir Georg Solti) insinua ao ouvinte abismos metafísicos sequer imaginados. Mas há um método nesta loucura: a música de Mahler é também o sinal de um fim de um mundo, e o próprio Mahler – por ser um judeu exigente como maestro, e um compositor virtuoso com domínio total de suas ferramentas – se considerava como o exilado exemplar, o homem que, castigado por Deus a ser um banido na Terra, tinha sua obra como âncora para dar sentido à vida, paradoxalmente, ao mundo que o rejeitara.
Não é à toa que a personalidade de Mahler, marcada por tantas rejeições, perdas e lutas, terminaria numa auto-confiança gigantesca. “Meu tempo há de chegar!”, ele berrou uma vez, quase no final de sua vida. Era uma frase de efeito, e, como toda frase de efeito, só vale o momento em que foi dito, pois a obra de Mahler ultrapassa o meramente temporal. Não é o sucesso de uma época, a melodia da moda – é um som que inquieta, acalma, exalta, entristece. A música de Gustav Mahler provoca as mais exaltadas reações porque ninguém pode compreendê-la sem entender e sentir o que é o exílio, o que é a esperança, o que é a perda e o que é a vitória que se faz sobre esta perda. Enfim, quem não comprende Mahler, não compreende a vida em toda a sua intensidade e profundidade. A maior prova disso está na Sinfonia N°2, conhecida como Ressurreição, uma verdadeira jornada do espírito em busca da vida eterna, na esperança de derrotar sua maior inimiga: a morte.
Mahler era judeu, mas tinha uma atração estética incansável pela liturgia cristã, em especial a católica. Foi graças a ela – e ao poeta alemão Klopstock – que resolveu o problema estrutural que o atormentava durante a elaboração de sua segunda sinfonia. O ano era 1894, e Mahler estava na missa em homenagem ao maestro Hans von Bülow, que morrera no Cairo. Ambos haviam se desentendido por causa de uma obra de Mahler – a Totenfeier, que seria depois a abertura da segunda sinfonia. A admiração de Bülow por Mahler era apenas na sua figura de maestro, não como compositor. Atormentado pela amizade perdida, e obcecado pela sua nova obra, Mahler teve seu insight justamente na missa do falecido amigo, como explicou em uma carta no dia 17 de fevereiro de 1897:
“Procurei de fato em toda a literatura mundial, inclusive na Bíblia, para encontrar a palavra redentora… Foi então que Bülow morreu e assisti a um ofício comemorativo. O estado de espírito em que estava ali, pensando no defunto, correspondia exatamente ao da obra, que me preocupava permanentemente. Nesse momento preciso, o coro entoou o coral de Klopstock, ‘Ressurreiçao’! Fui fulminado como por um raio, tudo se tornara límpido, evidente. O criador vive à espera desse raio: é sua ‘Anunciação’. Só me restava transpor para a música aquela experiência. No entanto, se eu já não trouxesse essa obra dentro de mim, como teria podido vivê-la?”.
Sem dúvida, Mahler não só levava dentro de si a sua segunda sinfonia, como também as oito restantes que criaria nos cinquenta anos de vida, junto com três ciclos de canções. Nascido em 7 de julho de 1860, Gustav Mahler era um judeu na Boêmia, filho de Bernard Mahler e Marie Hermann, uma família marcada pela tragédia de ter seis filhos mortos prematuramente. Gustav já era um prodígio musical quando garoto, e seu pai tratou de incentivá-lo na carreira de maestro, inscrevendo-o no Gynasium de Praga, onde foi severamente maltratado: seus sapatos e suas roupas lhe foram tirados e outros de pior qualidade lhe foram entregues para usar, e sua alimentação beirava o regime de fome. “Aceitei tudo isso como coisa natural”, disse Mahler à sua futura esposa, Alma. Essa constante resignação frente à condição de exilado parece fazer parte de sua mystique, mas ela permeia sua obras do início ao fim. De fato, é o que marca, por exemplo, a sua primeira sinfonia, a Titã, aparentemente inspirada no romance de Jean Paul (fato nunca confirmado por Mahler). Se o ouvinte perceber que a música mahleriana é a biografia de um herói titânico que luta sem parar contra as forças do destino e, principalmente, busca vencer a morte pelo meio mais digno e dolorido possível, a unidade em suas sinfonias se apresenta como algo quase cristalino. O próprio Mahler fazia questão de ver este aspecto nas cartas que enviava aos amigos para explicar a segunda sinfonia, para ele uma continuação da Titã:
“Chamei o primeiro movimento de ‘Totenfeier’ (Dança da Morte). Se faz questão de saber por quê, trata-se do herói da minha Sinfonia em ré [a Titã] que levo ao túmulo… Paralelamente, coloca-se a questão central: Por que você viveu? Por que você sofreu? Tudo não é, afinal de contas, apenas uma enorme e trágica piada? Precisamos resolver essa questão de um modo ou de outro, para podermos continuar a viver, ou mesmo morrer! Quem já percebeu essa questão, mesmo que uma só vez, está em condições de responder a ela: dou essa resposta no último movimento…O segundo movimento, uma lembrança! Um raio de sol na vida desse herói… A vida torna a nos animar; pode acontecer que, em sua vã agitação, ela nos cause horror; é o caso, num salão de baile bem iluminado, das silhuetas móveis e dançantes que, ocultos na noite, observamos de longe sem ouvir a música! A vida aparece, então sem objeto, repugnante! Assim é o terceiro movimento! O que se segue, o senhor conhece”.
Mesmo com sua escrita hiperbólica - igual à sua orquestração bombástica e cheia de súbitos pontos de exclamação – , Mahler revela em sua obra uma intenção que só Beethoven queria de maneira tão autoconsciente: unir música e filosofia, tornando a sinfonia uma espécie de melodia do pensamento, explorando todas as suas fraturas, ambigüidades e suspiros de última hora. Esta desigualdade que a música tenta exprimir nos movimentos internos de uma alma, é exprimida através dos cinco movimentos da sinfonia No 2, cada uma com uma escala diferente:
1. Allegro moderato em dó menor (ex-Totenfeier);
2. Andante moderato em lá bemol;
3. Scherzo em dó menor, baseado nos Wunderhorn Lieder que Mahler havia composto nos tempos de estudante;
4.Urlicht (Luz original) em ré bemol, para contralto e orquestra, também inspirados nos Wunderhorn Lieder;
5.Finale, Ressurreição, terminando em mi bemol menor, para solistas, orquestra e coro.
Somados os cinco movimentos, são mais de 75 minutos de música densa, compacta e redentora. Mahler exige até demais do ouvinte: ninguém é obrigado ao ouvir a jornada de um espírito que, após a morte, busca sua renovação na vida eterna. Mas depois de escutar os primeiros compassos da Totenfeier, somos agarrados pelo pescoço e temos de ir com este herói até o fim, um fim que, por incrível que pareça, será um triunfo completo. A salvação da alma é algo que preocupa Mahler e, para ele, é um assunto essencial para a arte que todo o artista digno deveria se preocupar. Não é à toa que a segunda sinfonia está intimamente ligada à oitava sinfonia, também conhecida Sinfonia dos Mil, em que o seu final é o som da redenção em todo o seu esplendor. Mas se, na oitava, o que está em jogo é a alma de um Fausto em seu confronto com a Morte e o demônio, na segunda Mahler quer sentir o poder de ressuscitar depois que a luta o consome por inteiro. “Um grande exemplo para todas as pessoas criativas é Jacó”, afirmava ele em várias entrevistas para explicar sua obra, tão incompreendida aos seus contemporâneos, “que luta com Deus até que Ele o abençoe. Deus tampouco quer conceder-me Sua benção. Somente através das terríveis batalhas que tenho de travar para criar a minha música recebo finalmente a Sua benção”.
Nesse sentido, a música de Mahler é a testemunha (e o resultado) de um embate entre Deus e o homem, que tenta saborear um pouco da Graça que lhe é renegada o tempo todo. O resto da vida de Gustav Mahler tratou de demonstrar tal fatalidade com todas as letras: um casamento tumultuado (com direito a atendimento personalizado de Freud que, explicou, explicou, mas nunca resolveu o problema do casal, colocando toda a culpa em Mahler, como se ele fosse um maníaco compulsivo por perfeição – o que não era nenhuma novidade), a morte de uma filha, Marie, e a descoberta de uma doença rara no coração, que o mataria num sanatório em 1910. Num desses fenômenos de sincronicidade que nem Jung explica, Mahler antecipou as três tragédias que marcariam o fim de sua vida na sexta sinfonia, apelidada de “Trágica”, por ter um dos finais mais sombrios da música orquestral – três bumbos macabros que marcam a derrota do herói mahleriano.
Ainda assim, ele volta – de novo! Na sétima sinfonia e depois na oitava, Mahler reencontra aquilo que já sentira na segunda sinfonia – a emoção indecifrável de vencer a morte com a alma dilacerada, mas intacta. Dessa vez, contudo, é um Mahler diferente, pois a morte suspira em sua boca. A vitória definitiva da redenção da alma com seu Veni Creator Spiritus!, mostra um homem com total domínio de seus meios artísticos, um homem que dominou a sua arte frente ao Deus que o tentava. A partir de agora, o que era exílio se transforma em adeus, e o que era esperança se torna a eternidade – duas realidades que se amalgamam na Das Lied Von Der Erde (A Canção da Terra), o ciclo de canções que nem Schubert sonhou fazer; na nona sinfonia, em que a eternidade é conquistada a ferro e fogo, e a décima, inacabada, mas com um adágio tão desesperador, tão mortífero, que não resta nada mais a fazer senão aceitar o fim tal como ele é.
Contudo, é provável que o coração de Mahler estivesse no final de Ressurreição, com seu coro silencioso que sobe aos poucos até a orquestra tomar conta com suas notas épicas, o órgão ocupar as frestas da melodia para não deixar a harmonia fugir de sua intenção redentora, e então, um súbito silêncio, como se a derrota fosse a única verdade absoluta, ecoando os versos de Klopstock – “Oh! acredita, meu coração… não nasceste em vão, não sofreste em vão…”. Mas é apenas um curto repouso antes da ressurreição definitiva – marcada por um espantoso soco orquestral em mi bemol no melhor estilo de Mahler: majestoso, apoteótico, a orquestra e o coro captando as alturas que só a luta e a guerra da vida do espírito nos dão de presente.
Pois, para Mahler, isso era a Graça de Deus: a arte em sua plenitude máxima, com toda a dignidade do sofrimento que lhe foi imposta para confirmar tal obra. Um verdadeiro artista nunca foge da dor: ele a trata como uma boa companheira. A Morte só é vencida depois que o homem a respeita por seus meios pouco comuns, em que ele se verga a um poder maior, um poder que ele sabe existir, mas não pode compreender. Este saber não compreendido é o mistério da Ressurreição, algo que, na verdade, realizamos todo o dia, após acordar e ver o primeiro raio de luz. O horror continua a nos perseguir, mas quem disse que ele é eterno? Para muitas pessoas, as sombras podem até ser confortáveis. Para outras que escolheram o desafio de fazer de cada dia uma nova Páscoa, a Ressurreição é a chaga que arde no peito, que faz o sangue ser expelido a cada minuto, mas é a que mantém o espírito afiado, preparado para a morte que não mata, aquela que, através da nossa aparente derrota, está o único triunfo.
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