Escravos das paixões
Data do post: 30 de abril de 2011
CRÍTICA
Amis ignora natureza humana, que Arendt tenta mudar
MARTIM VASQUES DA CUNHA
ESPECIAL PARA A FOLHA
“Você não pode mudar a natureza humana”, afirmam ao russo Boris Lermontov, personagem de “Os Sapatinhos Vermelhos” (1948), filme da dupla Powell e Pressburger. “É verdade”, ele diz.
“Mas posso fazer algo melhor: ignorá-la.” Alterar ou ignorar o ser humano? Essa é a questão secreta que une “Sobre a Revolução”, de Hannah Arendt (1906-1975), e “A Viúva Grávida”, de Martin Amis, 61.
O primeiro é um clássico da filosofia política que, após 30 anos da publicação original, se mostra mais interessante pelas imprecisões do que pelos raciocínios que deveria demonstrar.
O segundo, lançado em 2010, mostra um escritor no domínio da forma romanesca e sem medo de tocar o dedo na ferida de quem acha que a revolução é um bom negócio.
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A Má Educação
Data do post: 29 de abril de 2011
Sam Blumenfeld olha para o legado já centenário de idéias socialistas utópicas na cultura americana, especialmente o papel que tiveram na formação do método educacional de John Dewey (que escolheu para encabeçar sua lista de livros mais importantes Das Kapital e o romance Looking Backward, cujo autor imaginava os EUA socialistas no ano 2000).
O método educacional de John Dewey visa a eliminar o individualismo e o pensamento individual, focando, ao contrário, na socialização dos alunos. Seu grande alvo, portanto, era aquela disciplina que mais dava ferramentas para o pensamento individual: as letras (a própria importância comumente dada à literatura era, para ele, “uma perversão”). Daí veio a principal contribuição de Dewey ao sistema de ensino americano: o método de alfabetização da “palavra inteira”. Ao invés de ensinar às crianças as letras e seus sons, para com elas formar palavras, mostra-se as palavras inteiras para que elas, empiricamente, associem cada palavra a seu “desenho” correspondente; no fundo, cada palavra é tratada como se fosse um ideograma. Um século depois, os indivíduos “socializados” de John Dewey têm sérias lacunas de alfabetização.
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Um Bom Resgate?
Há uma semana publicamos aqui no site o artigo do Eduardo Wolf sobre a análise crítica que Roberto Schwarz faz de Machado de Assis. Publicamos agora, para fomentar o debate, uma crítica à crítica de Wolf, escrita por Pedro Gonzaga.
Um bom resgate?
Por Pedro Gonzaga
Qual a melhor maneira de retribuir ao Wolf a dedicatória que me fez em seu ensaio “O Seqüestro de Machado de Assis”, publicado na última Dicta&Contradicta? Levar a sério seu esforço intelectual e criticá-lo, se for o caso, com a mesma seriedade. Um bom debate deve, creio eu (e deve crer o Wolf também), permitir que esclarecimentos adicionais a uma determinada tese sejam apresentados quando necessário. Penso que esse seja o caso de alguns passos do argumento de seu artigo sobre Um mestre na periferia do capitalismo: ou não funcionam corretamente, ou necessitam de maiores explicações para que funcionem.
Com isso em mente, espero contribuir para os debates que este site vem promovendo levantando três elementos que considero ao menos potencialmente problemáticos no referido artigo: um mais geral, outros dois que descem a detalhes mais específicos. Os leitores da revista, por certo, podem trazer os seus questionamentos.
A primeira questão que gostaria de propor, de caráter mais geral, diz respeito ao que considero senão o foco da crítica de Wolf a Roberto Schwarz, no mínimo o argumento que é mais ressaltado em seu texto, qual seja, a acusação de que tanto na motivação quanto no procedimento, a análise de Schwarz é ideologicamente viciada. “O seqüestro de Machado de Assis” se organiza em torno dessa denúncia principal, e, até onde posso
julgar, realiza uma análise textual forte e sólida do trabalho de Schwarz, de tal modo que parece demonstrar que assim o seja. Contudo, não é de todo um despropósito questionar o autor do ensaio: qual exercício crítico não o é? Dizendo de outro modo, estaria o autor do ensaio sugerindo que apenas ele – ou ele e alguns mais – não se movem no terreno da ideologia? Não estou aqui sugerindo uma posição pós-moderna, que tende a ver em toda e qualquer manifestação humana a marca da ideologia e, moto-contínuo, desmerecendo-as todas; mesmo assim, é razoável afirmar que a argumentação de Wolf não dá conta da difícil e truncada relação que sempre existe entre qualquer esforço intelectual (seja da obra literária, seja da análise dos críticos) e as construções ideológicas que por vezes operam até mesmo de maneira inconsciente em todos nós.
A segunda e a terceira objeções referem-se a passagens mais específicas de sua análise e são semelhantes. Na seção 2 de seu ensaio, intitulada “As quatro faltas do crítico”, mais especificamente na sub-seção 2.1 (“A falta lógico-expositiva: ideologia e circularidade”), Wolf contesta a análise de Roberto Schwarz segundo a qual a prosa das Memórias Póstumas reproduzem de maneira estilizada os dilemas da vida social brasileira da época, e o faz contra-argumentando que caberia a Schwarz explicar porque encontramos os mesmos resultados estilísticos nos contos de Machado, em suas crônicas, ou mesmo nos romances narrados em 3ª pessoa, como Quincas Borba e Memorial de Aires. Ora, não caberia aqui objetar que é central para o argumento de Roberto Schwarz, em primeiro lugar, a tese de que é nos romances – e não nas demais formas narrativas – que sua tese faz alvo? E mais: a tese do autor de Ao vencedor as batatas não está focada nos narradores em 1ª pessoa, sendo portanto indevido o passo de Wolf de recorrer aos contos, crônicas e narradores em 3ª pessoa? Isso para não dizer que caberia a Wolf mostrar que os resultados estilísticos são, de fato, os mesmos, nas demais obras referidas.
Por fim, um último questionamento. Na mesma seção mencionada acima, ao criticar a tese de Schwarz de que a erudição e até mesmo a prosa de Brás Cubas é uma maneira velada de criticar a impostura intelectual das elites, Wolf recorre às próprias leituras de Machado, às admirações intelectuais e artísticas do homem Machado de Assis. De que modo estaria o autor do artigo autorizado a passar de uma consideração das obras de Machado para uma análise do homem Machado? Afinal, a tese de Schwarz parece se ater ao primeiro caso, e não ao segundo – certa ou errada.
Tais objeções, se pertinentes, deixam o ataque de Wolf à análise de Roberto Schwarz sensivelmente debilitado, comprometendo o que seria o seu “resgate”. Seja como for, a simples oportunidade de que esse debate seja feito já é, por si, um mérito.
Pedro Gonzaga é tradutor e escritor, autor de Cidade Fechada (Editora Leitura XXI) e Dois Andares: Acima! (Editora Novo Século).
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Curso – O demônio da vocação: o Fausto de Goethe
Data do post: 25 de abril de 2011
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O Stalin das nossas paixões
Data do post: 23 de abril de 2011
CRÍTICA ROMANCE
Nova tradução guarda estilo malicioso de Vladimir Nabokov
Em “Lolita” (1955), autor russo faz uso da sensualidade para retratar a crueldade humana nos EUA dos anos 50
MARTIM VASQUES DA CUNHA
ESPECIAL PARA A FOLHA
Vamos despi-la dos clichês, querida Lolita. Todos sabem das suas histórias: a do padrasto que a estuprava todas as noites, a de sua morte cruel enquanto estava prestes a dar à luz. O que os outros não sabem é sobre a sua verdadeira natureza.
Por isso ainda sentem fascínio sobre a sua história e personalidade. Talvez o seu criador, Vladimir Nabokov (1899-1977), não tenha calculado seu alcance duradouro. Mas, sem dúvida, pretendia que o efeito fosse equivalente ao de Humbert Humbert quando a viu no jardim da casa de sua mãe.
Humbert ficaria ofendido se o chamassem de “pedófilo”. “Não sou nada disso”, exclamaria perante o tribunal do politicamente correto, “sofro de ninfolepsia”. Uma palavra bonita não esconde o lado perverso.
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O seqüestro de Machado de Assis
Data do post: 19 de abril de 2011
Um Mestre na Periferia do Capitalismo vinte anos depois [1]
[publicado em D&C n. 6]
Por Eduardo Wolf
Eu, pela minha parte, não tinha parecer. Não era por indiferença; é que me custava achar uma opinião. Alguém me disse que isto vinha de que certas pessoas tinham duas e três, e que naturalmente esta injusta acumulação trazia a miséria de muitos; pelo que, era preciso fazer uma grande revolução econômica, etc. Compreendi que era um socialista que me falava, e mandei-o à fava (Machado de Assis, Bons Dias!, 11 de Maio de 1888).
Moon reducía la historia universal a un sórdido conflicto económico. Afirmaba que la revolución está predestinada a triunfar. Yo le dije que a un gentleman sólopueden interesarle causas perdidas… (Jorge Luis Borges, La forma de la espada).
Há vinte anos, o sociólogo e crítico literário Roberto Schwarz publicava seu estudo sobre Machado de Assis, Um mestre na periferia do capitalismo, consumando um processo a que chamarei de “seqüestro” de nosso maior escritor. Àquela época, o crítico já despontava como figura de referência na vida literária do país e a recepção do livro contou com estardalhaço muito além do comum para uma obra de crítica literária, em particular em país de escasso público leitor como o nosso. Duas décadas depois, o fato de que até o momento em que escrevo nenhum suplemento literário tenha se dedicado ao tema e de que nenhum evento tenha ocorrido para marcar a efeméride pode dar a impressão de que o livro está superado, de que seu autor e suas análises não estão mais na pauta do dia. Nada mais longe da realidade. O que temos é, pelo contrário, a naturalização da leitura que Roberto Schwarz faz de Machado de Assis: o estado natural das coisas é tomar a leitura sociológica desse crítico como a leitura de Machado.
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Debates – parte II
Data do post:
Prosseguimos com a seção Debates. Publicamos a seguir o artigo O seqüestro de Machado de Assis, de Eduardo Wolf (Dicta&Contradicta n. 6), que encontrou boa repercussão. E não é para menos — os contemplados são Machado de Assis e Roberto Schwarz: o primeiro é provavelmente nosso maior romancista, e o segundo uma das mais pronunciadas vozes da crítica literária e sociológica machadiana.
E o melhor: o crítico Schwarz finalmente enfrenta… a crítica.
A disponibilização integral antecipada servirá para introduzir discussões sobre o texto e seus temas, que virão na seqüência, em curto espaço.
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O Manhattan Connection de quem fala a verdade
Data do post: 18 de abril de 2011
Enquanto o Caio Blinder – o eterno bom menino que fazia contraponto às ousadias de Paulo Francis – tem de se explicar o tempo todo sobre o fato de ter chamado a rainha da Jordânia de “piranha”, existem três sujeitos que resolveram fazer o Manhattan Connection de quem fala a verdade e não tem medo de xingar quem deve ser xingado.
“Num faz cabimento” é um podcast anárquico elaborado por Dionisius Valença – colaborador da Dicta&Contradicta -, João Paulo Bueno e Diego Blanco. Já existe há quase um ano e, se algum produtor resolver fazer algo melhor que o CQC, eu não hesitaria em indicar estes três senhores (sim, são senhores apesar da idade, cada um mais rabugento do que Walter Matthau ou Jack Nicholson em As good as it gets) para superar a turma de Tas no futuro.
Você, ouvinte delicado, pode se ofender com algumas inconsistências – como, por exemplo, o momento em que um dos apresentadores cita Jô Soares como padrão de crítica literária -, mas o fato que deve ser louvado é o desafio proposto pelo programa: sair da pauta do rame-rame, pensar fora da caixinha e, sobretudo, cumprir o famoso ditto dos Founding Fathers que dispara a indignação justa de todos nós: don´t tread on me.
No programa desta semana, eles entrevistaram Karleno Bocarro, o autor de As almas que se quebram no chão, aquele romance que não irá para a lista de finalistas do Portugal Telecom porque nenhum jurado sabe mais encontrar um grande livro quando o vê embaixo dos seus narizes.
Só mesmo os nossos anarquistas da Zona Leste paulista para fazer Karleno, um tímido resoluto, falar pelos cotovelos e dar uma aula sobre como foi viver em Berlim Oriental em uma época histórica que ainda ecoa entre nós.
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Uma droga de poder
Data do post: 15 de abril de 2011

Em uma longa entrevista à revista Guernica, David Simon, o homem que nos deu The Wire e Treme, mostra como é a sua visão de mundo. Muitos pensarão que se trata de mais um esquerdista (e é verdade), mas não se pode deixar de pensar que ele fala uma grande verdade ao expor o seguinte raciocínio:
Bill Moyers: Are you cynical?
David Simon: I am very cynical about institutions and their willingness to address themselves to reform. I am not cynical when it comes to individuals and people. And I think the reason The Wire is watchable, even tolerable, to viewers is that it has great affection for individuals. It’s not misanthropic in any way. It has great affection for those people, particularly when they stand up on their hind legs and say, “I will not lie anymore. I am actually going to fight for what I perceive to be some shard of truth.”
You know, over time, people are going to look at The Wire and think, “This was not quite as cynical as we thought it was. This was actually a little bit more journalistic than that. They were being blunt. But it was less mean than we thought it was.” I think, in Baltimore, the initial response to seeing some of this on the air was, “These guys are not fair and they’re mean. And they’re just out to savage us.” But it was a love letter to Baltimore.
Este cinismo sobre as instituições políticas faria muito bem ao nosso Brasil brasileiro. Ao ler a entrevista de Simon, não pude deixar de pensar sobre o seguinte trecho de O Poder, livro obrigatório de Bertrand De Jouvenel que finalmente foi publicado por aqui através da Peixoto Neto (que, por sua vez, lançou mais três livros importantes: Radicais nas Universidades, de Roger Kimball, Parcialidade, de Bernard Goldberg, e O terrorismo intelectual, de Jean Sevilla):
A tendência [atual] é a destruição de todo o comando em proveito apenas do comando estatal. É a plena liberdade de cada um em relação a todas as autoridades familiares e sociais, paga por uma completa submissão ao Estado. É a perfeita igualdade de todos os cidadãos entre si, ao preço de seu igual aniquilamento diante do poder estatal, seu senhor absoluto. É o desaparecimento de toda força que não venha do Estado, a negação de toda a superioridade que não seja consagrada pelo Estado. É, em uma palavra, a atomização social, a ruptura de todos os laços particulares entre os homens, mantidos juntos apenas por sua comum servidão para com o Estado. É, ao mesmo tempo, e por uma convergência fatal, o extremo individualismo e o extremo socialismo.
O livro de De Jouvenel foi escrito na década de 40; a obra de David Simon foi feita na primeira década de 2000.
Sinal que vivemos tempos muito interessantes.
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Curso – Afinal, quem faz os filmes?
Data do post: 14 de abril de 2011
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