A travessia final
Data do post: 28 de junho de 2011
“Se enxergá-lo é díficil,
não ver ainda é pior”.
“A Explicação”
Foram quarenta e três anos de espera. Durante este tempo, Bruno Tolentino preparou “O Mundo Como Idéia” como se fosse a pedra angular da sua obra – ou, como ele explica em um dos ensaios introdutórios, “repositório oblíquo, o espelho convexo em que se movia inquisitivamente a sombra conceitual de cada metáfora que eu confiava no papel”. Uma obra e tanto, diga-se de passagem, feita no silêncio, na astúcia e no exílio. Sua estréia em 1963 com “Anulação e Outros Reparos”, foi marcada por uma polêmica besta de que teria sido plágio de um poeta que a História fez questão de deixar no limbo do esquecimento. Mas era ler os primeiros versos do poema-título para saber que Bruno Tolentino não seria um poeta qualquer – muito menos um que se limitava a um mero copy-desk. Havia uma densidade fora do comum na escolha de cada palavra, no trato do ritmo, na precisão de um adjetivo – algo surpreendente para um garoto de apenas 22 anos. A pergunta que se fazia era a seguinte: Até onde este rapaz chegaria?
O fato é que, naquela mesma época, o espírito de Tolentino estava obcecado com o problema que o acompanharia pelo resto de sua vida e que não o deixaria nunca, seja em suas andanças por Oxford ou pela França. Não era algo simples de ser resolvido. Desde cedo, Tolentino percebera que havia um abismo entre o que a poesia representava como a realidade e o que era a própria realidade. Muitos artistas e muitos filósofos caíram na escuridão deste penhasco: como se o medo de algo desconhecido os impulsionasse para este salto suicida, criaram outros mundos, querendo explicar a iniqüidade deste aqui. Era a vertigem do Mal provocando a revolta contra a própria natureza humana.
Em 1964, antevendo a loucura político-ideológica que tomaria conta do país, Tolentino partiu para a Europa, com a ajuda de Giuseppe Ungaretti e de Yves Bonnefoy, para fugir daquela imbecilidade chamada ditadura militar. Contudo, entre 1959 e 1963, o jovem poeta passou pela fase da iluminação assustadora, que seria a revelação de seu futuro projeto poético. Absorto nas leituras de Kierkegaard, Platão, Murilo Mendes, Jorge de Lima, Drummond, Manuel Bandeira e Cecília Meirelles (Tolentino conheceu estes três últimos pessoalmente no Rio de Janeiro no final dos anos 50, com Bandeira atuando como uma espécie de tutor), ficou profundamente fascinado com a poesia de um novo autor que surgia na França – Yves Bonnefoy. Ao ler os versos “Du mouvement et de l´immobilité de Douve”, Tolentino se viu refletido numa alma que tinha as mesmas preocupações estéticas e – se podemos nos antecipar um pouco com esta palavra – morais, mas com seu objeto de análise teórica localizado em um outro campo da arte: a pintura. Se Tolentino ainda se incomodava com os saltos desesperados de Kierkegaard ou a maiêutica socrática do “Fédon”, Bonnefoy tinha a noção do abismo no momento em que analisava um quadro de Uccello ou de Michelangelo. Com a ajuda dos livreiros Andrei Duchaide e Madonna Vanna, donos da Leonardo da Vinci, a mais tradicional livraria do Rio de Janeiro, que abriram uma conta especial para que o jovem Tolentino lesse todos os livros que quisesse, sem se preocupar em pagar na hora, ele entrou em contato com Bonnefoy, escrevendo uma carta para parabenizá-lo sobre os versos de “Douve”. O francês não hesitou em responder a carta de Tolentino, na qual comentava que a sua percepção do abismo entre o mundo e a arte se deu quando notou que a “única coisa que percebemos no Real é a passagem do Tempo”.
Aquilo foi como um estalo. Qual seria a função da arte se ela também seria vencida pela pantera do Tempo – aparentemente sutil, mas agressiva ao extremo quando se tratava de destruir qualquer pretensão de eternidade? Qual seria o sentido daquilo tudo? Foi em busca deste sentido que Tolentino escreveu os primeiros poemas de “Anulação”, marcados por um pessimismo claramente influenciado pelo Montale de “Ossos de Sépia”, mas também com os toques do choque que foi a revelação da “Douve” de Bonnefoy. A trajetória pessoal, repleta de caminhos tortuosos, se mesclaria com a trajetória do seu país, mais tortuosa ainda – o que fez Tolentino buscar o sentido de sua poesia no lugar mais perigoso para encontrá-lo: o exílio.
O sol negro do exílio – como o próprio comentaria nos ensaios de “O Mundo Como Idéia” – foi vivido enquanto o poeta trabalhava como tradutor na Comunidade Econômica Européia e, finalmente, como professor em Oxford, Inglaterra. Trabalhou também como diretor adjunto da Oxford Poetry Now, a editora da universidade que publicava tanto os clássicos como as últimas novidades da poesia inglesa. É neste meio tempo que Tolentino não hesita em publicar, pela mesma coleção, os seus novos poemas, todos escritos em língua inglesa, “About the Hunt” (1978). Ele estava levando o exílio a sério: desisitira completamente de escrever qualquer coisa em sua língua natal. Já havia feito isso sete anos antes de “About the Hunt”, com a publicação de “Le Vrai le Vain”, desta vez com poemas escritos em francês. Não era uma mera amostra de presdigitação lingüistica: o francês e o inglês foram as primeiras línguas que o pequeno Bruno aprendeu antes de saber o próprio português. Leia mais…
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O peso da paternidade
Data do post:
Se vivemos o início de uma implosão populacional no Ocidente, é porque, para muitos casais, ter filhos parece um sacrifício muito grande, algo que não vale a pena; ou uma responsabilidade à qual não se sentem preparados. Quem sabe um, no máximo dois, e só. Há quem, inspirado por ideais, digamos, conservadores, deplore essa situação, e exorte todos à prática do sacrifício: ter filhos é mesmo um fardo, mas é um dever que sejamos menos egoístas e aceitemos uma vida menos feliz para cumprir o “crescei e multiplicai-vos”.
Outro postura é a adotada por Bryan Caplan, professor de economia da George Mason University, exposta em seu livro Selfish Reasons to Have More Kids: ter filhos é uma experiência muito gratificante, e os custos dela têm sido grosseiramente superestimados. Nossos cuidados com os filhos têm pouco ou nenhum efeito na pessoa que eles serão quando adultos, como indicam pesquisas feitas com filhos adotivos e gêmeos idênticos que cresceram separados. A genética fala mais alto que a formação. Portanto, pode relaxar, curtir e deixar vir os bebês.
Aqui, uma entrevista com Caplan feita pelo blog da revista First Things. A tese é polêmica, e pode talvez desagradar à primeira vista, mas não posso deixar de notar que, de fato, as preocupações com o “jeito certo” de se cuidar de um filho chegam hoje à neurose: métodos educacionais, cursos extracurriculares, brinquedos educativos, cuidados alimentares, produtos para bebê (eu, como pai recente, sei por experiência própria a quantidade de produtos “essenciais” que nunca saíram da caixa). Talvez a tese de Caplan seja basicamente o senso comum de gerações passadas: cuide do bebê e da criança, mas sem exageros; ela vai crescer por conta própria; a responsabilidade não é tão opressiva quanto parece. E talvez isso torne a paternidade e a maternidade mais atraentes para muitos.
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110 anos de Robert Bresson
Data do post: 25 de junho de 2011

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De como construir um consenso
Data do post: 22 de junho de 2011

Por Fabio Silvestre Cardoso
Fernando Henrique Cardoso, todos sabem agora, é favorável à descriminalização de todas as drogas. E o ex-presidente da República não apenas tem defendido a causa nas entrevistas e nos debates políticos, mas também é o protagonista do filme “Quebrando o Tabu”, dirigido por Fernando Grostein Andrade. Trata-se de um daqueles filmes que, já de antemão, o espectador sabe qual é a tese central. Ao contrário das peças de ficção, cuja proposta é anunciada ao longo da obra, o documentário ancorado pelo sociólogo octogenário conta com um enredo, a um só tempo, previsível e esperado. Mais do que isso: a fama da fita é anterior à sua exibição, haja vista que nas colunas dos bastidores políticos essa era uma das notícias recorrentes quando o assunto era FHC.
De qualquer modo, a repercussão do filme por ocasião de sua estréia foi grande, para além das burocráticas resenhas reservadas aos documentários. Para se ter uma idéia, no mesmo dia, o jornal “Folha de S.Paulo” e a revista eletrônica “Fantástico”, da TV Globo, destacaram FHC como o protagonista da produção de Fernando Grostein Andrade, meio-irmão de Luciano Huck (um dos produtores associados do filme, diga-se). Noves fora esse blitzkrieg midiático, nota-se que o diretor efetivamente concebe uma fita bastante sofisticada no que concerne ao estilo e à gramática cinematográfica: no lugar das cabeças falando, estáticas, o espectador assiste às animações que vão apresentar como as drogas estão por aí desde que o mundo é mundo. Ao mesmo tempo histórica e “lúdica”, tal referência cumpre a motivação clara de expor fatos consolidados para elaborar o argumento a ser desenvolvido mais adiante. Sim, é certo que o filme quer “quebrar o tabu”, mas para tanto é preciso delimitar de que modo o estigma foi “construído”. A fim de alcançar esse objetivo, nada melhor do que resgatar a figura de um velho inimigo público número 1. Corte para Richard Nixon, o presidente norte-americano que todos amam odiar, com sua mensagem de “guerra às drogas”. Pois foram os políticos norte-americanos (do partido republicano, bem entendido), agora o público sabe, que primeiro declararam guerra às drogas numa cruzada que se mostra ineficiente como apontam as pesquisas que fundamentam o documentário.
Aqui, a contraposição de imagens é eficaz. De um lado, os políticos, com seus ternos castiços e suas mensagens conservadoras (além de Nixon, Ronald Reagan também é identificado como “o inimigo”); de outro, os jovens, cantando o amor livre em Woodstock, pregando a paz e a liberação dos costumes. Entretanto, curiosamente, o documentário não segue essa oposição simplória. Os ilustrados pretendem ser mais ilustrados. Embora afeito ao discurso do público jovem, Fernando Grostein Andrade decide “problematizar” a questão. Recorre, para alcançar esse objetivo, aos especialistas e ao discurso de autoridade. Na verdade, seria mais correto dizer autoridades. Além de FHC, Bill Clinton, Cesar Gavíria, Andrés Pastrana, Drauzio Varella, Gael Garcia Bernal e até mesmo Paulo Coelho estão juntos para defender um tratamento menos drástico e, quem sabe, mais progressista à questão das drogas. O que chama a atenção aqui é que todos esses utilizam as histórias pessoais como salvo conduto para argumentar pró-descriminalização. Bill Clinton, por exemplo, menciona o caso de seu irmão, adicto em cocaína. O doutor “Fantástico” Dráuzio Varella endossa a argumentação, valendo-se dos relatos e depoimentos que ouviu durante sua temporada no Carandiru. Como sua experiência já rendeu um best-seller, suas credenciais agora se revestem pelo suposto conhecimento empírico e demasiadamente humano da questão. E aos que pensam que Gael Garcia Bernal está presente por ser um rapaz latino-americano não poderia estar mais enganado. A certa altura do filme, o ator “sai do armário” e confessa que já teve sua plantação de maconha. A abordagem científica também aparece como que para sustentar o argumento da descriminalização do ponto de vista clínico, muito embora o filme não deixe explícito que a questão não é consenso entre os especialistas.
Outra estratégia utilizada pelo documentarista para justificar o argumento pró-descriminalização é a equação perversa provocada pela indústria do tráfico de drogas. Funciona assim: como o tráfico alimenta o usuário de forma ilegal, o dinheiro obtido auxilia as organizações criminosas a adquirirem armamento pesado que, no limite, é gerador de outros problemas, como é o caso das balas perdidas nas favelas cariocas. De acordo com esse raciocínio, o dinheiro da compra de armas escassearia se não houvesse mais tráfico de drogas. O dado curioso dessa argumentação é que se trata essencialmente da mesma premissa que costura a tese do filme “Tropa de Elite”. Para aqueles que já se esqueceram da fita de José Padilha, vale lembrar que o narrador enfatizava que os usuários de drogas financiavam o tráfico e, por extensão, toda a cadeia de criminalidade. Por esse motivo, tomou surra de toda a intelligentsia brasileira, para quem essa conclusão era radical, superficial e mal-elaborada. Já em “Quebrando o Tabu”, a pensata tornou-se não apenas aceitável, como também foi revestida pelo apreço dos formadores de opinião presentes no filme. E isso se deve, evidentemente, tanto à exposição dos argumentos por essas personalidades quanto pela forma como o diretor traduz, de maneira eficaz, essas idéias com a narrativa cinematográfica. Senão, vejamos: entre o espanto e a indignação, Fernando Henrique Cardoso passeia pelo depósito de armas no Rio de Janeiro. Em um diálogo que poderia ser mesmo pertencer a uma peça publicitária pró- desarmamento (outro tema importante da “corrente do bem”), ele toma conhecimento de que boa parte das armas apreendidas vem de fora do Brasil. E mais: que o crime organizado as consegue graças ao dinheiro do tráfico. Em seguida, o espectador é apresentado a um jovem que foi alvejado por uma bala perdida. A rigor, a solução sugestionada pelo filme é: os problemas com bala perdida seriam sensivelmente menores se, por exemplo, as drogas fossem legalizadas, posto que, com isso, não haveria capital necessário para adquirir armas de onde saem boa parte dos disparos mortais (A propósito disso, o cartaz do filme traz uma bala amarrada a um cigarro de maconha).
Como o próprio título sugere, “Quebrando o Tabu” tenta estabelecer um novo parâmetro para o debate sobre a descriminalização das drogas. As expectativas para a discussão, no entanto, caem por terra, a partir do momento em que o filme toma um lado (de quem defende abertamente a descriminalização) – ainda que busque se esquivar do que seria um discurso apologético do uso das drogas. E é curioso observar que mesmo as experiências que não funcionaram na Europa (caso da Suíça, para ser mais preciso) são articuladas de forma a dar a sensação de que tragédia pior é não debater a questão das drogas. Para Fernando Grostein Andrade, debater significa dar munição àqueles que são favoráveis à tese do filme. Nada disso surpreende quando se observa que essa é a posição de consenso (e, portanto, hegemônica) dos meios de comunicação que tratam desse tema. Se querem quebrar um tabu, mostrem então um formador de opinião que defenda abertamente uma política mais incisiva no combate às drogas. Aí sim o debate realmente pode começar.
Fábio Silvestre Cardoso é jornalista e professor universitário.
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Dicta&Contradicta No. 7 – editorial
Data do post: 20 de junho de 2011
DICTA&CONTRADICTA
Dire la vérité, toute la vérité, rien que la vérité, dire bêtement la vérité bête, ennuyeusement la vérité ennuyeuse, tristement la vérité triste: voilà ce que nous nous sommes proposés. Nous y avons à peu près réussi.[1]
(Charles Péguy, Le Triomphe de la République)
Sete é um número cabalístico. Para os antigos indicava a totalidade, pois era a soma do “mundo” (os quatro ventos, os quatro cantos da terra, os quatro elementos) e da “divindade” (o três, primeiro primo ímpar, representava uma plenitude indivisível). Hoje continua a ter uma multidão de ressonâncias simbólicas, das sete cidades do Piauí aos sete samurais de Kurosawa. E, nessa veia, costumamos ver nos sete anos a chegada da “idade da razão”.
Com este sétimo número a Dicta entra – esperamos – numa certa idade da razão. Nesses quatro anos, deixou de ser a aposta mais ou menos aloucada de um grupo de amigos que gostavam de discussões filosóficas regadas a café para se transformar num empreendimento editorial sólido. Para marcar este passo, como o leitor pode ver, a revista renovou-se na aparência, mas sem mexer uma vírgula no conteúdo: textos de fundo que ajudem a pensar. Todas as mudanças tiveram como meta melhorar a clareza comunicativa de algumas partes – especialmente do índice e da seção de resenhas – e dar mais viveza e agilidade gráfica aos textos.
O leitor terá percebido também outra mudança importante: o selo da Civilização Brasileira na capa, junto ao logo do IFE. Firmamos um acordo com o grupo editorial Record, nada menos que o maior da América Latina. É um exemplo de parceria efetiva: o IFE mantém total autonomia na edição da revista, pois a Civilização Brasileira, num gesto de confiança e magnanimidade, abriu mão de toda a interferência neste processo, emprestando ao mesmo tempo à Dicta seu prestígio e poder de fogo nas áreas de divulgação e distribuição. Ela, por sua vez, passa a contar com uma revista de alta cultura de que ainda não dispunha.
Neste número, em comemoração, por assim dizer, permitimo-nos “exagerar” um pouco. Apresentamos, por exemplo, o “o último poeta da França”, Yves Bonnefoy, numa entrevista exclusiva feita pelo nosso colaborador, o tradutor e crítico inglês Chris Miller, que também assina um artigo sobre Bonnefoy como poeta e ensaísta. Além disso, publicamos traduções inéditas de alguns poemas selecionados da sua obra mais recente, Raturer outre, da mão do tradutor escolhido pelo próprio poeta, o prof. Mario Laranjeira.
A seguir, trazemos um texto inédito do professor da Sorbonne Rémi Brague, que analisa filosoficamente o binômio ateísmo-superstição. Deliberadamente “inatual” – porque “nosso problema mais atual é justamente que nossa sensibilidade está demasiado voltada para as questões atuais, para o aqui e para o agora” –, Brague vai montando nesse artigo um mosaico histórico que ilumina uma multidão de aspectos da modernidade. A título de exemplo, a citação que faz de Rousseau: os “princípios [do ateísmo] não matam os homens, mas os impedem de nascer [...]. A indiferença filosófica se assemelha à tranqüilidade do Estado no despotismo; trata-se da tranqüilidade da morte, que é mais destrutiva do que a própria guerra”. Palavras no mínimo sugestivas num momento em que a natalidade está em queda livre em quase todos os países do Ocidente.
Numa dessas coincidências que na verdade não o são – pois a partir de certo nível todas as áreas do pensamento convergem –, o artigo seguinte, do historiador Michael Burleigh, dialoga com o de Brague e quase que o ilustra. Burleigh traça de um lado o panorama das diversas ideologias atéias que participaram da Segunda Guerra mundial e do modo como pretenderam servir-se da religião, e de outro o de uma moral e uma religião que se prestaram a fazer o papel de ideologias, isto é, superstições.
A seção “Do lado de lá” traz quatro ensaios curtos do cenógrafo, roteirista e polígrafo, ganhador do prêmio Pulitzer e duas vezes indicado ao Oscar David Mamet, dono de um estilo dialógico tão marcante que foi alcunhado de Mamet speak. Este é um dos primeiros benefícios da parceria, pois permite trazer em primeira mão essas seleções do livro Theatre, que será lançado pela Record no segundo semestre de 2011.
Haveria muito mais a dizer, mas precisamos avançar, pois neste editorial pensávamos realizar uma tarefa especialmente importante neste momento de renovação – pois, como sabemos, renovar-se significa acima de tudo voltar às raízes, aos ideais que nos impulsionam. Desde o nosso primeiro editorial, afirmávamos que a revista fora concebida para ser o cartão de visitas do IFE, Instituto de Formação e Educação; é hora, pois, de convidar o leitor a refletir conosco sobre o que pretendemos e sobre como concebemos nossa missão.
Um dos conceitos, ou preconceitos, mais inconscientes e ao mesmo tempo mais arraigados em nossos dias é que a cultura, especialmente a dita alta cultura, é uma espécie de “cerejinha” do bolo social. Muito bem, é bonitinha, confere um toque de acabamento ao conjunto, mas na vida real sabemos muito bem que é perfeitamente dispensável. Não acrescenta nada de essencial. Digamos a verdade: está sobrando.
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Dicta&Contradicta No. 7 – CAPA e índice
Data do post: 17 de junho de 2011

E não é que a revista está de cara nova? Claro, aproveitamos que estaríamos numa casa nova e demos uma reformulada no visual. Tomara que a mudança agrade. Quase enloquecemos nossos designers para deixarem a revista mais legível, mais dinânica e mais bonita sem perder espaço de textos — afinal, só existimos em função deles.
E vamos ao índice, que dá a primeira idéia do que com certeza é uma das melhores Dictas que já fizemos. Espero que vocês concordem…
Índice
Dicta&Contradicta
Principal
O poeta improvável – Uma conversa com Yves Bonnefoy, por Chris Miller
Ateísmo ou superstição – A inatualidade de um problema contemporâneo, por Rémi Brague
A moral em guerra, por Micheal Burleigh
Do lado de lá
Quatro ensaios sobre teatro, por David Mamet
Perfil
Pelos caminhos tortos de Marshall McLuhan, por Leandro Oliveira
Feliz nova dieta
por Julio Lemos
Filosofia
Linguagem degradada e cegueira pública, por Nelson Boeira
Ainda cabe falar de certo e errado?, por Renato José de Moraes
Sociedade
Quando a política do Oriente Médio invade o Campus, por Andrew Roberts
Cesare Battisti – Memórias de um homem condenado, por Anthony Daniels
Literatura
Yves Bonnefoy: para começar um tríptico, por Chris Miller
Sob a fúria de Netuno: Machado e o mar, por Rodrigo Duarte Garcia
J.D. Sallinger: sete regras simples para desaparecer, por Martim Vasques da Cunha
Em busca da catarse perdida, por Pedro Sette-Câmara Leia mais…
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O construtor de labirintos
Data do post: 16 de junho de 2011

“- History, Stephen said, is a nightmare which I´m trying to awake.
- The ways of the creator are not our ways, Mr. Deasy said. All human history moves towards one great goal, the manifestation of God.
- That is God.
– What?, Mr. Deasy asked.
- A shout in the street, Stephen answered, shrugging his shoulders”.
Ulysses (1922)
James Joyce era um obcecado por datas, comemorações e coincidências. Todo ano ele perguntava a si mesmo, a cada 16 de junho que passava: “Será que alguém se lembrará desta data?”. Ao que parece, vão se lembrar desta data pelo próximos trezentos anos, os mesmos trezentos anos que ele gostaria que durassem todos os enigmas de “Ulisses” e “Finnegans Wake”, suas obras máximas.
Mas o que acontece no dia 16 de junho para que James Joyce seja lembrado sempre? Bem, muitas coisas acontecem nesse dia, entre elas o “Bloomsday”, o dia em que se passa a história de Leopold Bloom, Stephen Dedalus e Molly Bloom, os personagens principais do livro que foi criado para destruir todos os livros, o livro que todos querem ler, mas não conseguem, o livro impossível de ser compreendido – “Ulisses”.
Claro que havia um motivo pessoal para Joyce fazer isso. Por baixo da arquitetura detalhista, do rigor quase maníaco, do virtuosismo estilístico, da ambição do projeto, “Ulisses” é, na verdade, uma carta de amor à sua esposa, Nora Barnacle. Como um bom irlandês, temperou seu amor com um pouco de traição, um pouco de sanduíche de mortadela, muita cerveja cremosa e, principalmente, muita audácia pela única coisa que dava sentido à trajetória tumultuada de Joyce: a literatura.
Na mitologia joyciana, o dia 16 de junho de 1904 é o dia em que Nora Barnacle, a mulher que iria acompanhar Joyce pelo resto de sua vida, fez do jovem James Augustine Joyce, de 22 anos, “um homem de verdade”, segundo o próprio em suas cartas intensamente melodramáticas, algo estranho para um sujeito que tinha o poder de imitar qualquer estilo literário na língua inglesa e possuia uma visão de mundo bem grotesca e bem ao gosto dos irlandeses, carregada de humor esdruxúlo e de um profundo carinho pelo ser humano. Mas ser melodramático também fazia da personalidade complicada de Joyce, quase no limite da esquizofrenia e que conseguiu ficar una graças à palavra que o guiava nos subterrâneos da mente que tentava captar em seus livros. Melodrama é também um bom termo para classificar o romance entre Joyce e Nora, repleto de lances imaginários de adultério entre ninfetas e amigos, um romance em que, apesar de Nora não entender uma linha dos livros do marido, o obrigava a escrever todo o dia, principalmente quando Joyce estava encharcado de vinho Chianti e era encontrado bêbado nas ruas de Trieste ou Paris, nas portas de bares e bistrôs.
Logo, o dia 16 de junho de 1904 tinha um sentido especial para Joyce e, ao escrever o seu grande romance sobre “a totalidade da vida”, inspirado na “Odisséia” de Homero, nada mais natural situar seus três personagens em busca de uma razão para viver, senão no dia em que seu criador encontrou a sua razão para viver. Em “Ulisses”, um dia é comprimido em mil páginas de monólogos interiores, blasfêmias, momentos sublimes, piadas infames, reflexões sobre a morte, bêbados, poetas, jornalistas, prostitutas diabólicas, ateus santos, passado, presente e futuro se tornando uma grande síntese na mente de um escritor que conseguiu reconstituir sua cidade natal – Dublin – com tamanha exatidão, que ela poderia ser reconstituída graças aos seus livros, caso fosse queimada num incêndio.
Mas, antes de “Ulisses”, existiram outros livros, outros personagens e um outro James Joyce. Nascido em 2 de fevereiro de 1882, no dia da Marmota, filho do fanfarrão e amargurado Jonh Joyce e da devota e doce May Murray, Joyce sempre foi o garoto-prodígio, estudioso, lido em literatura européia, formado na rigorosa escola jesuíta de Clongowes Wood College, onde era obrigado a saber Aristóteles e Santo Tomás de Aquino de trás para frente e de frente para trás (o que de fato ele sabia), além de orar constantemente por Cristo e a Virgem Maria, uma formação que, mesmo depois de seu rompimento com a Igreja, sempre deixou marcas na suas obras, mesmo nas paródias mais agressivas.
Muitos acusam Joyce de ser um “herege” por causa de sua recusa de viver de acordo com os preceitos da Igreja Católica na qual foi educado, além das hilárias blasfêmias que pôs em “Retrato do Artista Quando Jovem”, “Ulisses” e “Finnegans Wake”. Quem o chama assim, perdeu qualquer gosto pela vida. Sua aparente heresia era, na verdade, um soco na cara das instituições, mas Joyce nunca deixou de acreditar no poder do Espírito, na força transcendente do ser humano e, mais importante, na existência de um Deus que unisse os homens na existência. Era um sujeito que, apesar da “incrível tendência ao alcoolismo, rabugice e auto-comiseração” (como ele se descreveu numa consulta a Jung), odiava qualquer tipo de violência, tinha um medo terrível de cachorros e trovões e podia ser, ao mesmo tempo, um notório misantropo e um fabuloso caridoso, como se comprova quando, por exemplo, Samuel Beckett foi esfaqueado pelas costas em Paris, na época em que abandonou sua filha Lucia no meio de um relacionamento amoroso, e Joyce pagou as despesas do hospital, mesmo à beira da falência.
A heresia de Joyce foi a única forma de rebelião possível numa Irlanda aprisionada culturalmente e politicamente pela bota inglesa. Apesar de ter um Yeats, um Bernard Shaw, um Jonathan Swift, um J.M.Synge, a Irlanda era, nos anos 10 e 20, pior do que qualquer cidade do interior do Brasil. Ela era, como o próprio Joyce escreveu em um de seus artigos juvenis para um jornal dublinense, “a porca que come os filhos sem dar nenhum aviso”. Somente depois do reconhecimento de Joyce com “Ulisses” e a reviravolta que Yeats fez com sua obra poética, depois do encontro com Ezra Pound, foi que a Irlanda começou a ser vista com outros olhos. Até então, ela era um país traumatizado pela traição de Charles Parnell, as guerrilhas de Michael Collins e um tal de Renascimento Cultural Irlandês que nunca interessou às ambições do jovem Joyce. Para ele, a literatura deveria ser algo tratado com seriedade, como uma missão, como a única arma em que, dentro de suas limitações, poderia “forjar a consciência incriada da minha raça”.
Entretanto, para James Joyce criar a sua própria Irlanda, ele teria que entrar no reino do exílio. Um irlandês não é um irlandês se não vive em constante exílio – uma máxima que todo ser humano deveria memorizar como um lema moral. É aqui que James Joyce, o arrogante imberbe, se transforma em James Joyce, o escritor de livros complicados que ninguém lê. Esta é uma das lendas mais fajutas da história. Joyce não é um escritor hermético, se o leitor encarar seus livros como uma aventura – exaustiva, complicada, cheia de obstáculos – em que o final demora muito para se chegar, mas é frutífero como poucos. Como qualquer escritor que se preze, Joyce conta uma história, e muito bem por sinal, e a prova está no conto “The Dead” e no seu primeiro romance, “Retrato do Artista Quando Jovem”.
“The Dead” (Os Mortos) é, na humilde opinião deste articulista, o maior conto do século XX, talvez em competição apenas com “As Irmãs Vane”, de Vladimir Nabokov. Apesar do título, não é um conto mórbido ou de terror, mas uma meditação sobre como os mortos interagem no mundo dos vivos, um dos temas que mais preocuparam Joyce na sua vida. Última história de uma coletânea chamada “Dublinenses”, em que Joyce tinha a intenção de fazer um “painel moral de Dublin, mostrando a paralisia da Irlanda”, “The Dead” é o estalo de Vieira na carreira do escritor e fundamental para compreender as obras seguintes. Os outros contos no livro são bons ou excelentes, mas nenhum consegue atingir a genialidade desta parábola em que Gabriel Conroy tem consciência de sua mortalidade ao descobrir que sua esposa, Gretta, teve uma paixão trágica com um homem já morto e que morreu por causa dela, Michael Furey.
O estalo de Vieira aconteceu porque Joyce viveu um daqueles fatos que sempre aconteciam com “homens de gênio”: as coincidências. Um dia, quando foi visitar os pais de Nora em Galway, Joyce descobriu que ela tivera um caso com um moço chamado Michael Fiery. Obcecado com o tema da traição (lembrem-se que ele era um irlandês ao extremo…), Joyce disse a desaforos a Nora bem no meio de uma visita em um cemitério e ficou perambulando pelos túmulos, até que viu algo insólito: a tumba de Michael Fiery e, ao lado, uma outra tumba, em que se podia ler… James Joyce. Obviamente era um homônomo, mas o fato chocou Joyce de tal forma que ele teve de purgar seus sentimentos em relação à traição de Nora com um morto, justamente com “The Dead”.
Além de “Dublinenses”, Joyce brincou de poeta em “Chamber Music”, imitou Ibsen (um de seus ídolos) na peça “Exiles” e ficou escrevendo um romance monumental chamado “Stephen Hero”, que seria sobre seu alter-ego, um jovem arrogante, metido a poeta e escritor e que dizia umas boutades chamado Stephen Dedalus. Apesar de ter reescrito completamente o seu projeto, transformando-o em “Retrato do Artista Quando Jovem”, “Stephen Hero” foi importante porque ele explicita as intenções estéticas de Joyce: tornar o mito numa paródia respeitosa e respeitável, mantendo sua natureza e sua unidade, mas desdobrando-o em técnicas literárias modernas, como o fluxo de consciência e a variação nos pontos-de-vista, e inserindo em ambos uma síntese arriscada de realismo e simbolismo, síntese em que Edmund Wilson descobriria o ponto de ligação de Joyce com modernistas como Eliot, Proust e Yeats.
“Retrato do Artista Quando Jovem” mostra Joyce descobrindo os seus poderes literários, como a de iniciar o livro do ponto-de-vista de uma criança, captando os meandros da formação de uma consciência enquanto o estilo fica cada vez mais simbólico, denso e profundo. É o romance-de-formação de Stephen Dedalus, o construtor de labirintos com as palavras que lhe deram, o escritor que foge para Paris da mesma forma que Joyce fez quando jovem, voltando para ver sua mãe morrer de câncer, encontrando Nora Barnacle em Dublin, para então se decidir de vez pelo exílio definitivo, pela pobreza esperada e pela literatura da eternidade, a única literatura que vale a pena neste mundo corrompido. Dedalus foge por uns tempos de Dublin, depois de muitas agruras psicológicas e religiosas, aliviadas por uma visão quase santa de uma menina à beira da praia, a mesma praia onde Leopold Bloom encontrará Gerty McDowell na memorável epifania em Sandycove que acontece no dia 16 de junho de 1904.
“Epifania” é a palavra-chave para se entender a obra de James Joyce. Ele havia descoberto “essas estranhas manifestações de divindade no cotidiano” durante a juventude, e escrevera uma série de anotações que guardou pelo restante dos anos. Reelaborando-as com suas próprias memórias e as da sua família – num método muito parecido com o de Marcel Proust -, Joyce criava a trama de seus romances em cima dessas epifanias, quase todas inspiradas num afiado simbolismo religioso.
“Ulisses” não foge da regra. Na verdade, é uma continuação de “Retrato do Artista Quando Jovem”, em que Stephen Dedalus volta para Dublin para assisitir a morte da mãe e, num único dia, se depara com Leopold Bloom, judeu cornudo que passa por uma crise existencial, graças à traição de sua esposa, Molly Bloom, com o garanhão Blazes Boylan.
Mas o leitor não deve ficar afoito: esta não é a verdadeira história de “Ulisses”. A verdadeira história que Joyce quer contar, é a de três pessoas – o Ulisses, a Penélope e o Telêmaco da era moderna – que estão em busca de um sentido para suas vidas, querendo encontrar aquilo que Joyce chamou ter “a totalidade do indivíduo”. Numa linguagem jungiana, “Ulisses” fala sobre o processo de individuação destas três pessoas enquanto suas consciências refletem um mundo fragmentado, dualista, mas que, misteriosamente, se conecta numa estranha unidade.
Como Joyce consegue unir esses fragmentos que escoram contra todas as ruínas? Um dos grandes mistérios do mundo europeu é saber porque Joyce e Jung, que tinham tantas coisas em comum em suas respectivas obras, nunca se entenderam. Ambos eram preocupados com o modo como a mente humana se desenvolvia, como ela chegava a uma certa unidade de pensamento e, principalmente, como ela determinava a personalidade de um indivíduo em frente ao “grito na rua” que seria Deus. Dizem que Jung havia sabotado a pensão que uma milionária estava dando a Joyce, sempre apertado em problemas financeiros, falando para ela que “este irlandês não passava de um vagabundo bêbado”. Quando a filha de Joyce, Lucia, estava com claros sintomas de esquizofrenia, Jung foi o primeiro a analisá-la e logo despachou um diagnóstico, afirmando que “tanto o pai como a filha estão no mesmo oceano: só que ele está nadando e ela está afundando”. Além disso, Jung escreveu um ensaio sobre “Ulisses” repleto de incompreensões e que não conseguiu captar um tema que obececava os dois: a sincronicidade.
Joyce era um fanático por coincidências. Ele já havia recheado de paralelismos e simetrias os contos de “Dublinenses”, jogado com referências sutis de tempo e espaço na mente do pequeno Stephen Dedalus em “Retrato do Artista Quando Jovem” e agora, com “Ulisses”, estava decidido a fazer um compêndio de sincronicidades, fênomeno de acontecimentos que se relacionam sem nenhuma causa aparente, mas que possuem uma íntima e evidente ligação. Assim, ao mesmo tempo que Stephen pensa em como deveria ser o rosto de Shakespeare, Leopold Bloom vê o rosto do bardo no seu amigo Martin Cunningham, enquanto Molly Bloom lembra de uma frase de “Romeu e Julieta” e Buck Mulligan reflete sobre a teoria de Stephen em que “Hamlet é o pai e o filho de Shakespeare”.
As técnicas que Joyce usou para construir sua catedral, em que cada parte tem uma função específica, captam a consciência dos personagens em monólogos interiores que, muitas vezes, abandonam a pontuação, como acontece no final, quando Molly Bloom tem um monólogo patético de mais quarenta páginas, a homenagem paródica de Joyce a seu xará, Sigmund Freud (ambos os sobrenomes tem o mesmo significado nas línguas de cada um: “alegria”). No meio desse aparente caos, existe espaço para uma investigação amorosa do ser humano se deparando com seus limites, medos e ansiedades, e tentando vencê-las dentro de suas possibilidades dublinenses.
“Silêncio, exílio e astúcia” – este era o mote de vida de Stephen para a sua vida de escritor, e Joyce usou-o como um lema de guerra. Durante sete anos de árdua perseverança, “Ulisses” foi escrito e reescrito em mais de três países – Trieste, Zurique e Paris -, sob o fantasma da Primeira Guerra, e Joyce estenderia esse prazo para dezesseis anos ao escrever o seu último livro, “Finnegans Wake”. A astúcia de Joyce foi a de criar tantos enigmas que, além de deixar os críticos ocupados pelos próximos trezentos anos, lançou os leitores a uma aventura que poucos ousam enfrentar – a aventura da linguagem em que, depois de ter captado o que acontece com o ser humano à luz do dia, agora deveria perscrutar o que deveria no breu da noite. Se “Ulisses” era um labirinto onde havia poucas saídas, “Finnegans Wake” seria o labirinto que Dedálo adoraria criar, pois a saída seria a entrada e a entrada seria uma saída, e assim por diante, até desembocar no eterno – na verdade, um eufemismo para um labirinto mais complicado, onde o leitor e o escritor são tragados juntos e sem aviso.
Joyce afirmava que o leitor ideal para seu livros seria aquele que tinha a insônia ideal. Esta cumplicidade – que só pode ser alcançada no exílio da literatura – é fundamental para entender porque Joyce não é um mero fóssil. Uma das razões pelas quais “Ulisses” e “Finnegans Wake” são evitados pelo everyman é que os acadêmicos e os professores de literatura fizeram questão de complicá-los ainda mais, com análises que não chegaram a lugar nenhuma e deram a mesma impressão à obra de um homem que queria chegar em algum lugar. Como Joyce ainda é lembrado nos seus Bloomdays, conclui-se que existem neste mundo vários leitores que perderam, com prazer, muitas noites de sono. E “Finnegans Wake” é o registro do sonho que acontece nessas noites.
O velório ou despertar de Finnegans pode ser a história de Humphrey Earwicker, a história do general Finn McCool, a história de Anna Livia Plurabelle, a história dos irmãos Sham e Shem – ou então todas essas histórias contadas numa enxurrada de trocadilhos que, de tão complicados, criaram uma nova língua que só o seu criador poderia traduzir a contento. A história do Mundo agora é uma piada noturna, e a realidade não passa de uma grandiloqüente alucinação. Joyce expande os limites da palavra e da linguagem ao máximo: se em “Ulisses” ele implodia a estrutura tradicional do romance, em “Finnegans” ele explode de vez, para tudo voltar ao começo, como se a literatura precisasse desta ressurreição para recuperar seus princípios.
“Finnegans Wake” podia ser um livro incompreensível para muitos, mas foi, na verdade, o testamento de um homem que terminou sua vida com o espírito cansado, talvez pela doença degenerativa que atingira sua filha Lucia, talvez pela aproximação da Segunda Guerra Mundial, talvez pela cegueira progressiva que atacava seus olhos. Contudo, nunca se abateu. Sua obra é marcada pela perseverança, pela vontade de deixar uma marca neste mundo depois de sua partida – algo que todo o escritor deveria aprender. Se existisse um patrono para a literatura impossível, deveria ser São James Joyce. Tudo bem, que muitos se irritariam ao ouvir isso e o próprio Joyce se reviraria na tumba em Zurique, mas hoje quando um leitor perspicaz lê os romances de Philip Roth, Thomas Pynchon, Don De Lillo, William Gaddis, Ian McEwan, ou o brasileiro Guimarães Rosa, o argentino Julio Cortázar, o colombiano Gabriel Garcia Márquez e o português Antonio Lobo Antunes, todos têm o dedinho do Dédalo de Dublin. Joyce é uma influência tão sufocante e libertadora, que quem quer fazer literatura de verdade deveria lê-lo, só para saber como se explodem e constroem as palavras com habilidade de artesão. Na aventura da linguagem, a morte é apenas o coroamento para a definitiva construção destes labirintos que contam nossas vidas – e só James Joyce poderia nos dar essa lição.
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A Arte da Ficção
O escritor ANTONIO FERNANDO BORGES, um grande amigo da Dicta, vai ministrar um workshop sobre “A Arte da Ficção”: serão encontros semanais, durante três meses, a um preço irresistível.
Quem mora no Rio não pode perder a oportunidade desta convivência direta com nosso professor. Recebi dele inúmeros conselhos valiosos para escrever melhor, e impressiona-me como ele sabe ir ao ponto para aprimorar o estilo e dar graça ao texto.
Os interessados devem entrar em contato pelo email: afborges@uol.com.br
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In silence is easy to be born again
Data do post: 12 de junho de 2011
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Dicta&Contradicta 7 – Lançamento
Data do post: 8 de junho de 2011

Aí está. Quem estiver em São Paulo no dia 20, segunda-feira, não poderá perder esse conversa, que promete ser muito boa. O Roberto foi o primeiro entrevistado da Dicta e agora volta a São Paulo para discutirmos um tema que assombra todos os que querem fazer alguma coisa boa na cultura.
Mas, além da conversa, não vamos esquecer que é para um lançamento que estaremos. E, dessa vez, um lançamento muito especial. A partir de agora, a Dicta&Contradicta passa a fazer parte da Editoria Civilização Brasileira. Essa é uma parceria de que muito nos orgulhamos e, dentre tantas outras coisas, mostra que a Dicta está virando gente grande: já é parceira do maior grupo editorial da América Latina!
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