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Sobre o “terrorismo cristão”

Filed under: Religião,Sociedade incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 27 de julho de 2011

Agora que o consenso dos bem-pensantes já decidiu que Anders Breivik era cristão, neo-liberal e membro do Tea Party, olhemos para o depoimento que ele próprio deixou.

“Se você tem um relacionamento pessoal com Jesus Cristo e Deus, então você é um cristão religioso. Eu e muitos outros como eu não temos necessariamente um relacionamento pessoal com Jesus Cristo e Deus. Acreditamos, contudo, no Cristianismo como uma plataforma cultural, social, moral e de identidade. Isso nos faz cristãos. … A Cristandade européia e a cruz serão o símbolo no qual todo conservador cultural pode se unir em nossa defesa comum. Ele deve servir como o símbolo de união para todos os europeus, sejam eles ateus ou agnósticos.” (pág. 1309 do manifesto)

Ou seja: por admissão própria, Breivik não é um cristão religioso. Bem, o Cristianismo é uma religião. Uma religião que gerou, junto com outras influências, uma cultura e uma civilização a que chamamos de ocidentais. Breivik é “cristão” apenas no sentido de querer preservar essa cultura historicamente ligada ao Cristianismo, mas que não se confunde com ele. Afinal, é possível ser cristão sem ser ocidental: coptas, maronitas e siro-malabares são todos cristãos, mas não são ocidentais. O Cristianismo dessas terras data de antes de existir uma civilização ocidental propriamente dita, à qual sempre correu paralelo. Assim, podemos até dizer que Breivik gosta e adere a um dos frutos do Cristianismo, embora rejeite a árvore (embora mesmo isso seja altamente questionável; pois a ética consequencialista que o criminoso usa para justificar seus atos é justamente uma das coisas que tem servido para destruir o Ocidente).

Mark Juergensmeyer, no Huffington Post, argumenta que, se Breivik não é um terrorista cristão, então Osama Bin Laden não era terrorista islâmico, pois seu foco também era mais político que religioso. Primeiro há que se ver se a relação de Bin Laden com o Islã era meramente cultural e política. Se for o caso, então de fato Bin Laden também não era propriamente um terrorista islâmico. Agora, o mero fato de dar muita importância à política e à história não faz dele, necessariamente, um muçulmano meramente cultural. A adesão sincera a uma religião, principalmente quando essa religião se preocupa com o mundo e com a sociedade, como o Cristianismo e o Islã, não é incompatível com uma forte preocupação política. Bin Laden falava mais de política e história do que de teologia; e daí? Não é preciso ser teólogo para se aderir, profunda e honestamente, a uma religião.

Se Osama era muçulmano, não sei. Sei que Anders Breivik pode até se dizer cristão, e alguns podem até chamá-lo de cristão; só tenhamos em mente que esse “Cristianismo” é, pela própria admissão do terrorista, essencialmente diferente da religião cristã, que condena inequivocamente o massacre de inocentes.


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They all bleed and grieve in the same way

Filed under: Cinema,Sociedade incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post:

O único comentário possível sobre o filho da puta chamado Anders Behring Breivik.

“The unexpressed goal of bringing about transformative chaos becomes the element in which terrorists are most at home. Destruction and self-destruction briefly compensate for some perceived slight or more abstract grievances that cause their hysterical rage. As endless studies of terrorist psychology reveal, they are morally insane, without being clinically psychotic. If that affliction unites most terrorists, then their victims usually have one thing in common, regardless of their social class, politics or religious faith. That is a desire to live unexceptional lives settled amid their families and friends, without some resentful radical loser – who can be a millionaire loser harbouring delusions of victimhood – wishing to destroy and maim them so as to realise a world that almost nobody wants. That unites the victims of terror from Algiers, Baghdad, Cairo, via London, Madrid and New York, to Nairobi, Singapore and Jakarta. They all bleed and grieve in the same way”.

(Michael Burleigh, Blood and Rage: A cultural history of terrorism)


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Você já conseguiu o seu pacote de emergência hoje?

Filed under: Sociedade incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 26 de julho de 2011

Quando era um dissidente político, o ex-presidente tcheco Vaclav Havel afirmava que, ao sair de casa, tinha de levar um “pacote de emergência” com cigarros, roupas de baixo, escova de dente e alguns livros, caso fosse preso sem aviso.

Se algum dia eu precisar de um “pacote de emergência”, entre os livros escolhidos estará “O Poder – História Natural de seu Crescimento”, de Bertrand De Jouvenel.

De Jouvenel foi uma figura polêmica na França de seu tempo. Teve um caso com sua madrasta, ninguém menos que a escritora Colette. Foi acusado de ser fascista. Depois, acusado de ser socialista. Em 1945, escreveu o livro apresentado nesta resenha, enquanto se refugiava da Ocupação alemã em um castelo abandonado com a esposa e os filhos.

“O Poder” mostra as marcas do tempo da sua redação, mas vai além, muito além. Tornou-se também uma profecia dos nossos tempos.

O livro destrói qualquer espécie de ingenuidade que se possa ter a respeito desta palavrinha mágica chamada “Poder”. Graças à cumplicidade dos intelectuais e, claro, dos políticos, o Poder – escrito em maiúscula, como se fosse uma entidade viva, com uma lógica idiossincrática, quiçá misteriosa – cresceu exponencialmente no final do século 19 e início do 20.

Antes ele queria apenas o seu dinheiro (através dos impostos), o seu sangue (através da guerra) e a livre-iniciativa (através da burocracia); agora, quer nada mais nada menos do que a sua alma.

Como bom profeta, De Jouvenel mostra que isso aconteceu sem que ninguém suspeitasse. Na verdade, o argumento mais perturbador é o de que deixamos o Poder invadir nossa vida íntima porque gostamos disso.

Usar o termo “gostar” é um eufemismo. A palavra certa é “idolatrar”. É nesta distinção que De Jouvenel supera, por exemplo, Elias Canetti em “Massa e Poder” e se iguala a Ortega y Gasset em “A Rebelião das Massas”.

Como Ortega, o escritor francês reconhece que o ser humano só se torna pleno quando aceita a sua existência como um constante naufrágio, repleto de incerteza. O Poder inverte as expectativas: dê a sua alma, ele diz, que darei a segurança que você precisa para continuar a sua vidinha com a paz e o conforto que merece.

O homem democrático aceitou o pacto sem reclamações. Entre a dor e o nada, em vez de escolher a primeira, ficou com o segundo, disfarçado de grandes oportunidades e de sonhos jamais realizados.

Parece um vaticínio terrível, e é. Mas De Jouvenel mostra que a solução existe na capacidade do homem escolher e conquistar a sua própria liberdade – e mantê-la sob constante vigilância. O Poder quer permanecer a qualquer custo, independente das ideologias de esquerda e de direita; e o ser humano também, com a diferença de que ele sempre esteve acima de tudo isso.

Afinal, se não fosse por esse bom combate, valeria a pena viver tal história? Ou será que já escolhemos viver com “pacotes de emergência”, um atrás do outro, esperando a prisão sem aviso?


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Screakarama

Filed under: Sociedade incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 25 de julho de 2011

A verdadeira análise de um novo estilo de vida.


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They´ve decided to fight for it

Filed under: Religião incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 22 de julho de 2011

É assim que os ateus e os crentes devem debater pela existência de Deus.


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Verdade ou complacência?

Filed under: Sociedade incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 21 de julho de 2011

Christian Smith, sociólogo da Universidade de Notre Dame (Indiana, EUA), lançou no fim do ano passado um livro sobre uma suposta fraqueza da sociologia contemporânea: o fato dela, na maioria de suas vertentes, não tratar dos seres humanos em toda sua complexidade, mas reduzi-los a moléculas sociais, maximizadores de recompensa, máquinas de reprodução genética, constructos fluidos da linguagem e do discurso, etc; ou seja, visões que o próprio sociólogo rejeita quando vive sua vida normal, se ele tiver um mínimo de sanidade. Aqui, uma entrevista em que Smith explica seu livro.

Simpatizo imensamente com a causa; só tenho minhas dúvidas quanto à relevância da proposta. Em que, exatamente,  a sociologia mudaria caso considerasse o papel do verdadeiro amor na constituição do indivíduo? Há algum resultado interessante que a abordagem “realista crítica” (que é como ele se define) tenha a apresentar que a torne superior às demais? No fundo, acho que minha resistência ao discurso de Smith está em que não me convenço de que o debate metodológico e epistemológico tenha grande importância para o futuro das ciências. Os cientistas seguem trabalhando enquanto os filósofos da ciência discutem em vão o que os primeiro fazem, deixam de fazer ou deveriam fazer. Esse debate é importante para a visão de mundo de cada um; um sociólogo evolucionista que realmente veja sua vida como uma corrida darwinista falha como ser humano. Mas seria isso um bom motivo para recusar os insights que a sociologia evolutiva (que é só um exemplo; poderia falar de outras vertentes)?

A posição de Smith é muito confortável, pois ela apela, de partida, ao senso moral do leitor ou interlocutor. Quem, afinal, defenderia a teoria que reduz o homem a uma ameba à outra que oferece nada menos do que os mistérios da pessoa humana e do amor verdadeiro? Mas e se essa suposta superioridade moral e espiritual se revelar uma mera casca de boas intenções que esconde um vazio de contribuições concretas? Por exemplo: a visão positivista é de que o cientista deve se anular enquanto pessoa para ser o mais objetivo possível. Segundo Smith, isso é um erro, pois “o melhor da ciência baseia-se precisamento no conhecimento humano pessoal, no compromisso pessoal com a verdade, acima, por exemplo, do sucesso na carreira…”. E por acaso algum “positivista” diria que o cientista não deve colocar a verdade acima de tudo? O que Smith chama de frisar o lado pessoal da ciência o positivista chama de anular o lado pessoal, mas ambos falam da mesma coisa. Tomemos ainda sua opinião sobre o individualismo excessivo da sociologia contemporânea, cuja conclusão prática seria a ênfase exagerada no direito negativo de cada um de não sofrer interferências dos demais em sua vida. Dado que, hoje em dia, o Estado interfere em absolutamente todas as áreas da vida humana (com exceção do sexo!), e num grau maior do que em qualquer outra período, fica difícil de engolir tal diagnóstico. Entendo o que inspira tal comentário: a percepção de que as pessoas são muito egoístas, pensam apenas em si mesmas; mas é muito ingênuo crer que o problema resida na opção metodológica dos sociólogos, ou ainda num inexistente liberalismo político que decorreria dela.

Há casos em que só é possível explicar um fenômeno levando em conta a racionalidade humana, e há casos em que o modelo da molécula num sistema hidrodinâmico funciona bem. O que não quer dizer, obviamente, que os indivíduos sejam, em qualquer momento, mera molécula. Ocorre que há situações que, para serem entendidas, não demandam profundas meditações sobre o amor verdadeiro. Simpatizo com a causa de Christian Smith (evitar reducionismos que alimentam falsas visões sobre o ser humano), mas me parece que sua abordagem seja mais importante para o desenvolvimento moral e espiritual dos seres humanos – inclusive dos cientistas – do que para a ciência em si.


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Um elo perdido

Filed under: História incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 19 de julho de 2011
Príncipe Otto da Hungria (1912 - 2011)

O arquiduque Otto von Habsburg, o menino do quadro acima, morreu aos 98 anos neste 04 de julho. Perdemos um elo vivo do passado europeu, alguém que não só viveu mas também participou da vida pública do continente em todas as suas fases no século XX e início do XXI. Seu pai, Karl, foi o último imperador austro-húngaro, abdicando em 1919, e indo com a família para o exílio.

Em 1922 Karl morreu. Otto tinha 10 anos, e no mesmo dia os membros do séquito real que integravam sua residência passaram a chamá-lo de “Vossa Majestade”. Começava assim a vida pública do jovem pretendente ao trono. Às vésperas da Segunda Guerra, Otto, que odiava o governo nazista, protagonizou uma mal-fadada tentativa de recuperar o trono austríaco para impedir a união com a Alemanha, mas foi rechaçado pelo chanceler austríaco que, ironicamente, era monarquista. Passou a guerra fugindo das forças nazistas, até parar nos EUA, a convite do presidente Roosevelt. A ordem social e cultural em que ele nascera, ferida mortalmente na Primeira Guerra, foi definitivamente sepultada na Segunda.

Nos anos 60, se envolveu com a política européia e abriu mão de suas aspirações ao trono para integrar o Parlamento Europeu, tornando-se mais um político no processo de unificação e burocratização geral da Europa. Sua influência, contudo, era positiva, indo sempre no sentido de combater o comunismo, ressaltar as raízes cristãs do continente e preservar a dignidade humana.

Depois de morto, Otto recebeu as honras que lhe foram negadas em vida. Diferentemente de seu pai, que jaz na Ilha da Madeira, recebeu enterro de imperador no dia 16 na Áustria, e seu coração foi levado a um monastério na Hungria.  Na entrada da igreja dos capuchinhos em Viena, que é onde fica a cripta real, repetiu-se um antigo ritual dos Habsburgos. A comitiva que leva o caixão bate na porta da igreja. Um frade do lado de dentro pergunta: “Quem demanda entrada?” O líder da comitiva responde com o nome e títulos do defunto. “Otto da Áustria; antigo Príncipe da Coroa da Áustria-Hungria; Príncipe Real da Hungria e da Boêmia, da Dalmácia, Croácia, Slavônia, Galícia, etc.”. “Não o conhecemos.”, responde o frade, e a porta permanece fechada. Em seguida o morto é apresentado como “Dr. Otto von Habsburg” e a longa lista de seus feitos cívicos e acadêmicos é recitada. “Não o conhecemos”. Por fim, a terceira apresentação: “Otto, um homem, mortal e pecador!”. “Então ele pode entrar”, responde o frade. As portas se abrem e a comitiva fúnebre segue igreja adentro.


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Dicta na Flip 5 – Considerações finais: Por uma Flip menos ordinária

Filed under: Literatura incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 13 de julho de 2011

Por Fabio S. Cardoso

Na quinta-feira, o cineasta e escritor Claude Lanzmann já tinha “mostrado os dentes” na coletiva de imprensa. Antes de começar o encontro, ele, solenemente, perguntou aos jornalistas: “Quem aqui leu meu livro?” Apenas um levantou a mão, ao que o convidado mais polêmico desta nona edição da Flip replicou, em tom de provocação: “Pois só responderei perguntas dele!”. No dia seguinte, durante a mesa “A ética da representação”, o autor de “A lebre da Patagonia” não poupou o mediador, o professor Marcio Selligmann-Silva, não apenas rejeitando algumas perguntas sobre o filme “Shoah” (“vim aqui para falar do meu livro”); como também disparando abertamente contra o fato de Selligmann não perguntar com objetividade. Para piorar, o mediador, sempre que atacado, tentava reagir olimpicamente, batendo palmas para o “gênio indomável” que é Lanzmann.

Toda essa história ganharia nota de pé de página, ou mesmo seria esquecida, não fosse a declaração do curador Manuel da Costa Pinto sobre Lanzmann. Embora esgarçado pela pós-modernidade, o termo “nazista” ainda causa forte repercussão – sobretudo em tempos de correção política. É por esse motivo que, no pós-Flip, o comentário saudoso deu lugar para as especulações sobre o futuro de Manuel da Costa Pinto como curador do evento. E o que seria uma Flip bastante ordinária, tornou-se extraordinária pelos motivos errados. Em tempo: é curioso notar que, no ano em que o homenageado foi um frasista e polemista de grande verve, o evento tenha terminado com uma declaração tão bombástica quanto os petardos verbais de Oswald de Andrade.

De qualquer modo, muito embora o nome do próximo homenageado já tenha sido escolhido (Carlos Drummond de Andrade), alguns desafios se impõem à próxima Flip. A começar pela origem de todos os males desta edição: o papel de mediador. Em um país de bacharéis e doutores tão preparados nas humanidades, era de se esperar que não haveria problema em encontrar gente para ladear nomes como Claude Lanzmann e Antônio Cândido, para citar dois casos exemplares. De fato, não há por que duvidar do talento e da seriedade do trabalho de José Miguel Wisnik e do já citado Marcio Selligmann-Silva. Todavia, ambos falaram mais do que se esperava, e a discussão se tornou por demais enfadonha aos que estavam presentes (aqui, é preciso dizer que o jornalista do Financial Times, Angel Gurria-Quintana, soube conduzir com talento e seriedade suas mesas, assim como Rodrigo Lacerda quando esteve ao lado de João Ubaldo Ribeiro).

Outro dilema correlato se relaciona às mesas: de um lado, existe uma tentativa de dar um viés mais acadêmico e letrado às homenagens – como é o caso de Marcia Camargos e Gonzalo Aguiar, sem mencionar o já citado Antônio Cândido. Acontece que o público parece ficar descolado de boa parte dessas leituras seja porque a análise é por demais específica, seja porque o perfil da audiência está mais próxima do leitor comum, não necessariamente o leitor que compareceria a uma conferência ou a uma reunião de um grupo de estudos. Por outro lado, também é correto afirmar que mesas como a de David Byrne, por mais interessante que seja, parece pertencer à outra dinâmica de discussão – não cabe, essencialmente, num encontro sobre literatura, cujo homenageado é um modernista brasileiro.

 Além disso, depois de nove edições, quais serão os próximos convidados? Em outras palavras, quem ainda não veio até aqui, como é o caso dos sempre desejados Philip Roth ou Cormac McCarthy, é recusa quase certa para os próximos anos (não dão entrevistas porque odiam fazer parte do belle monde literário). A saída: talvez seja preciso reciclar alguns nomes, de maneira a conceber sob outra perspectiva os encontros e os debates. Mas quem? Por parte dos escritores brasileiros, trata-se de algo que já aconteceu: Chico Buarque foi convidado em duas ocasiões, o que nem de longe desagradou ao público – e a geração que surge nas estantes mais descoladas não parece ter o peso da qualidade ou do risco que, por exemplo, um João Ubaldo ousou criar. A pergunta é: Será que isto faz bem à Flip?

A questão é importante exatamente porque, depois das considerações acima, alguém pode imaginar que esta foi uma Flip ruim. Nada disso. Foi, para o bem e para o mal, ordinária. Houve aplauso, riso, lágrimas e, no final, até um pouco de raiva. Como se viu nas mesas de João Ubaldo Ribeiro e James Ellroy (as duas grandes apostas que deram certo na FLIP 2011), escritores com uma obra portentosa, o que o público espera é uma Festa menos previsível e ordinária. Nós, os críticos, que, como bem disse Sergio Rodrigues, temos o dever de usarmos um léxico mais amplo para defender nossos colegas e expressar nossas indignações, esperamos outra: que ela continue sem recorrer às banalidades do vocabulário midiático ou do rancor.

Fabio S. Cardoso é jornalista e professor universitário.


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Dicta na Flip 4 – Quem tem medo de James Ellroy?

Filed under: Literatura incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 10 de julho de 2011

Por Fabio S. Cardoso

Sob o ponto de vista mais “tradicionalista”, soa como heresia o convite a um autor de História em Quadrinhos para uma Festa Literária. Todavia, como a certa altura respondeu Joe Sacco, depois de Art Spiegelman, existe mesmo alguma deferência com relação a esse tipo de produção, a ponto de Joe Sacco ser recebido com honras de escritor e discutir, entre outras coisas, sobre a questão da objetividade jornalística, além de tecer crítica à cobertura da mídia norte-americana. Segundo Joe Sacco, os relatos dos jornais não privilegiam os personagens comuns. “Interesso-me pelos civis, que são sub-representados pelas narrativas em geral”, explicou, para depois acrescentar: “me interesso pelas histórias das pessoas”. Nesse sentido, o autor justificou seu método de ambientação, tomando como referência tanto os relatos de Hunter S. Thompson quanto os textos de George Orwell.

Ao longo da exposição de 20 minutos, bem como durante o período reservado às perguntas do mediador, o jornalista Alexandre Agabiti Fernandez, Joe Sacco não foi incomodado por nenhuma questão difícil e polêmica, logo ele, um autor que, a um só tempo, subverteu os padrões da narrativa jornalística e escreveu a propósito de um conflito geopolítico tomando como referência o lado palestino. Em “Notas em Gaza” e “Palestina”, o leitor tem em mãos um diferente tipo de relato jornalístico. Mas coube ao público a pergunta de um milhão de dólares: “Que tal fazer uma narrativa sobre o conflito tomando o lado de Israel como referência?”. O quadrinista reconheceu: “É uma proposta honesta, mas, quando decidi escrever esses livros, não havia a perspectiva do lado da Palestina nos relatos”. Em seguida, salientou o quanto sua preocupação com a elaboração do conteúdo que vai publicar difere do relato feito no calor da hora, mais imediato. Para além disso, o derradeiro ponto interessante da participação de Joe Sacco foi sua resposta no que concerne a ideia de objetividade. Ele foi taxativo: “Eu não questiono a verdade objetiva, mas questiono a obsessão com a verdade objetiva”.

Curiosamente, na mesa seguinte, que contou com as presenças de Edney Silvestre, Teixeira Coelho e Marcelo Ferroni, a questão da verdade objetiva apareceu novamente. Começou com a leitura de Teixeira Coelho da epígrafe de seu livro, “O Homem que vive”, que contrapõe os princípios de real e ilusão: “Você é minha realidade. Eu sou sua miragem”, escreveu Paul Celan citado na epígrafe. Segundo Coelho, aqui está uma pista, uma chave para o livro. Em sua apresentação, o jornalista e escritor Edney Silvestre leu um trecho de seu novo romance – “A felicidade é fácil” –, que tem como pano de fundo o período histórico do governo Collor, mas toma como mote, como no anterior “Se eu fechasse os olhos agora”, um crime não resolvido – a verdade que não é revelada. Por seu turno, Marcelo Ferroni, após ler trecho de seu “Manual Prático de Guerrilha” (espécie de biografia ficcional do mito Che Guevara), tentou explicar seu método de decomposição da imagem do Che: da idealização para o cotidiano, apontando as fissuras e a falibilidade desse herói. A questão da verdade objetiva apareceu exatamente no uso da ficção como maneira de narrar a história melhor que a História. Teixeira Coelho, retomando a epígrafe de seu livro, afirmou que o mais indicado é colocar a verdade em discussão enquanto Edney Silvestre assumiu a defesa da verdade incontestável, sem prejuízo da verdade criada do ponto de vista ficcional. No auge dessa discussão, Marcelo Ferroni parecia alheio ao debate, muito embora seu livro, já na capa, trabalhe com essa “decomposição da imagem”.

Foi preciso, enfim, algumas réplicas e outras tréplicas para que os autores encontrassem um consenso. Não que estivessem brigando, mas ficou clara a oposição entre Edney Silvestre e Teixeira Coelho, o primeiro não arredando pé de suas convicções (chegou a citar a questão do sigilo eterno dos documentos oficiais), enquanto o segundo tentava se mostrar mais propositivo e conciliador. E quando o mediador, o jornalista Claudiney Ferreira, perguntou sobre o tabu de escrever romances sobre a felicidade, coube a Teixeira Coelho a palavra de armistício, algo como “existe felicidade em escrever romances”.  Edney Silvestre completou: “Existe felicidade em estar na FLIP”. Aparentemente, a paz estava selada, apesar da discussão anterior.

Da mesa de João Ubaldo Ribeiro, para ser bastante direto, a principal notícia não foi sua boa interação com o mediador, o também escritor Rodrigo Lacerda; tampouco foi o fato de Ubaldo ter apresentado a trajetória de seus romances, como “Sargento Getúlio”, “Viva o Povo Brasileiro”, “Diário de um Farol” e “A Casa dos Budas Ditosos”. A noticia foi a revelação de que “Guimarães Rosa não está entre os autores de meu afeto”. Em vez das palmas, houve um “oh” seguido de um silêncio. Ao justificar suas motivações, João Ubaldo buscou exemplos no texto. Contou que ao ler um trecho de “Primeiras Estórias” não se convenceu da abertura de um conto: “‘a viagem fora planejada no feliz’. Eu não leio isto nunca mais”, disse, agora sim arrancando risos da platéia e do mediador. É evidente que a declaração gerou alarido, mas não foi por essa razão que a mesa de Ubaldo foi a mais cativante do dia, conforme a percepção do público. João Ubaldo Ribeiro corre o risco de ser o autor mais bem avaliado nas pesquisas de satisfação do público (sim,leitores, existe tal coisa na FLIP) porque cortou as bolas que foram levantadas pelo mediador. Simples assim. Nesse sentido, a relação prévia entre os escritores deixou João Ubaldo mais à vontade para responder as perguntas à sua maneira, enquanto Rodrigo Lacerda tratava de situar a audiência das datas, eventos e contexto histórico. Em síntese, mais do que comentar estilo ou influências para as gerações a seguir, a palestra serviu para que Ubaldo contasse causos de forma descompromissada (o riso foi escancarado quando declarou que uma ótima forma de inspiração é um cheque da editora contratante), como se estivesse numa de suas crônicas dominicais. De pé, ao final, a platéia mostrou o quanto tinha gostado –  e muito antes disso, jornalistas já haviam manifestado o quão fofo era o convidado…

***

Se restava alguma dúvida quanto à importância de James Ellroy para a FLIP, basta ver a cerimônia especial no momento da sua entrada ao palco. Explica-se: enquanto todos os demais convidados entram juntos com os mediadores, o autor norte-americano apareceu sozinho, depois de ter sido apresentado pelo Arthur Dapieve, num formato que se assemelhava e muito ao plot dos livros de Ellroy. O escritor entrou em cena e, decididamente, interpretou de forma performática o trecho de seu último livro. Mais: ecoando um de seus personagens, declarou: “Estou aqui para que é tudo verdade. Vou contar tudo”. À medida que o público aplaudia, ele pedia, com as mãos, mais palmas. Mais tarde, viria a justificar seu comportamento:  “Eu sou louco pelo poder (…) Se eu fosse um líder religioso, seria Deus”, exagerou. Esse é James Ellroy, e o público se acostumava à sua personalidade propositalmente errática.

Mais uma vez, enquanto os demais autores citaram escritores do século XIX e outros clássicos, Ellroy aproveitou para apresentar sua afeição à obra de Beethoven. Citou, também, Mahler e Lizst, mas foi de Beethoven que restaram as marcas mais significativas, a ponto de declarar: “É o ente criativo, gênio”, disse. Nesse sentido, discordou de Dapieve quando este citou Edward Said e seu livro “Estilo Tardio”, e aqui a conversa caminhou ao largo do fazer literário, a ponto de Arthur Dapieve sugerir: “Vamos para casa, então, ouvir Beethoven” – como não houve reação à provocação, o mediador recuou.

Ao longo de sua fala, era evidente a distância de Ellroy em relação aos demais autores convidados para a FLIP. Enquanto os campeões de vendas desta edição se emocionaram (até sexta-feira, os campeões de venda nas livrarias locais eram Nicolelis e valter hugo mãe), Ellroy parecia pronto para a briga, num discurso que mostrava traços de virulência, ainda que ele não tenha sido necessariamente agressivo. Antes, foi assertivo e verdadeiro no tocante à sua falta de leitura dos clássicos gregos ou russos. E nesse momento aquela leitora tradicional dos cadernos culturais de domingo ficou claramente incomodada na cadeira ao lado: “É um bruto, como pode?”, perguntou. Ela parecia inconformada com o fato de ele se importar tão pouco com o ethos do escritor.

Mas o fato é que, na literatura, o que conta não é o bom comportamento do escritor e sua obra e Ellroy ganha de todos os autores da FLIP se comparados ao escopo de abordagem e à ousadia da técnica, além de ter escrito, pelo menos, três grandes obras-primas: “A Dália Negra”, “O Grande Deserto” e ” Tablóide Americano”. No livro “American Vertigo”, publicado no Brasil em 2006, o pensador francês Bernard Henri-Levy afirma que o único paralelo possível para James Ellroy é o artista plástico Jackson Pollock, porque o escritor representa seu texto da mesma maneira como o pintor representava sua obra. A título de comparação, quando o mediador citou a aproximação com Dostoievski, apontada pela crítica Joyce Carol Oates, o autor aceitou o paralelo, para depois disparar: nunca li esses escritores russos. Podemos ir além: Ellroy coloca o romance policial – então território consagrado de mestres como Dashiell Hammett e Raymond Chandler – no mesmo patamar realizado por Herman Melville e Joseph Conrad em relação ao romance de aventuras. Como resultado de sua performance, o saldo final da palestra não poderia ser outro a não ser a longa fila que se formou para os autógrafos. Afinal de contas, os brutos também amam, não é mesmo?

Fabio S. Cardoso é jornalista e professor universitário.


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Dicta na Flip 3 – Entre o choro e o riso

Filed under: Literatura incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 9 de julho de 2011

Por Fabio S. Cardoso

A escritora argentina Pola Oloixarac estava cotada na nona edição da FLIP como a musa do evento. Jovem, extrovertida e com perfil afeito aos autores de sua geração, Pola chegou à Paraty não somente como autora publicada pelo selo Benvirá (do grupo Saraiva), mas, principalmente, como uma das escritoras selecionadas pela prestigiosa revista Granta (“Os melhores jovens escritores em espanhol”). Tamanha expectativa, no entanto, caiu por terra quando a primeira mesa do dia começou. Ao lado do poeta e romancista português valter hugo mãe, a autora sucumbiu. Em vez de ser a estrela principal, tornou-se coadjuvante e, é preciso registrar, sua apresentação pareceu pouco clara ao público presente.  E aqui uma dúvida se impõe: não se sabe ao certo se o pensamento de Pola Oloixarac é confuso e escorreito ou se a tradução complicou de vez as coisas. Talvez um misto das duas coisas. De todo modo, desde o início a sua fala foi hesitante, mesmo quando foi chamada a ler um trecho de seu livro: começou em português, porque não havia trazido sua cópia para o palco, e depois terminou em espanhol, e ainda assim o público permaneceu sem saber do que se tratava seu projeto literário – ou mesmo se havia tal proposta na perspectiva da autora. O resultado não poderia ser mais desastroso para a quase musa da Festa.

E a apresentação só não foi um desastre completo porque, é necessário reconhecer, valter hugo mãe, autor de “a máquina de fazer espanhóis”, roubou a cena. Tanto na leitura como no discurso, a apresentação foi de um autor consciente de seu papel como escritor. É verdade que, em vários momentos, era notável que tanta fluidez na sua apresentação era decorrente de um processo decorrente de preparação. Seja nas gags, seja nas respostas que mostravam ao público sua afeição para com o Brasil, notou-se um autor preocupado em desempenhar uma performance agradável para a platéia ali presente. À medida que a palestra se desenvolvia, os presentes foram conquistados pelo autor que, entre outras curiosidades, grafa seu nome em letras minúsculas. O arrebatamento final, no entanto, ainda estava por acontecer. E parece que mesmo foi articulado para que fosse assim. Explica-se. Perguntado sobre sua relação com o Brasil, o escritor leu uma carta que externou sua relação sentimental para com os brasileiros e com o país. Desde sua infância, passando pela adolescência, pelas amizades que permanecem e, agora, como escritor que foi reconhecido no país. Para um autor que não gosta de ser referência para suas histórias (“não creio que a minha vida seja interessante para dar um livro”), esse momento foi demasiadamente confessional. Aqui, não é preciso dizer que o público, que já aplaude no automático, gritou “Bravo!” e, de pé, celebrou o escritor. E valter hugo mãe chorou.

A essa altura, ninguém se lembrava direito de Pola Oloixarac, que, para além de perdida na tradução, parecia desconfortável no papel de entertainer que lhe foi concedido. Mesmo a apresentação da temática do seu livro, “As Teorias Selvagens”, soou confuso. Talvez o fato de equilibrar diversos interesses ao mesmo tempo seja determinante para que seu estilo tampouco tenha um norte. Das orquídeas, interesse mais recente, às novas tecnologias, passando, é claro, pela banda de rock. A postura desta convidada da FLIP estava mais para celebridade que se apresenta como escritor do que alguém que de fato é escritor. Quanto a valter hugo mãe, sua apresentação mostrou o quanto ele já está afeito aos códigos das palestras e desses eventos literários. Seu desempenho, a rigor, não foi acidental – mesmo que os jornalistas, de um modo geral, tenham se convencido de que ele foi absolutamente legítimo. No que concerne à literatura e ao estilo, é flagrante a diferença entre os dois: valter hugo mãe consegue articular as referências, de Fernando Pessoa mormente, a ponto de conseguir dimensionar a angústia da influência. Pola Oloixarac tergiversa entre Borges e Cortázar, mas cita um clássico contemporâneo, Roberto Bolaño, para tratar dos autores que lhe fazem a cabeça. Por tudo isso, uma mesa desigual, com a sutil ironia: aqueles que foram para admirar a quase-famosa escritora argentina ficaram a-pai-xo-na-dos pelo autor português. E há quem duvide dos poderes da retórica…

E por falar em retórica, à tarde, foi a vez de Ignácio de Loyola Brandão e Contardo Calligaris, sob mediação do jornalista e músico Cadão Volpato, tratarem das “Ficções da Crônica”, tema da mesa. Ok, é sabido que a crônica tem um jeitão malemolente de ser, mas a fala de ambos precisava ser tão descompromissada? É verdade que de início o tom pareceu que seria grave, com o apoio de ambos os escritores à decisão do autor italiano Antonio Tabucchi de não vir ao evento (no twitter, o jornalista Mauricio Stycer provocou: “Então, por que vieram? Seria mais digno cancelar a mesa”).

O público, no entanto, não teve com que se preocupar com essa “aporrinhação de debate político”, como disse alguém. Logo a conversa descambou pros causos anedóticos em detrimento da discussão sobre o “fazer literário”. Experiente em palestras desse tipo, Ignácio de Loyola pareceu conduzir a conversa para o riso fácil, em especial porque, em tom jocoso, descartou tratar de seu principal romance, “Zero”. Enquanto isso, Contardo Calligaris se esforçava em mostrar que não é apenas mais um cronista, mas também romancista (afinal, é publicado até pela Cia das Letras e esta é sua segunda Flip!). Para tanto, usou suas referências mais sofisticadas, como Stendhal e Joseph Conrad, salientando que gosta de “viver coisas ordinárias de forma extraordinária”. Foi o gancho para falar de seus livros, pela ordem cronológica “O Conto do Amor” e o mais recente “A Mulher de Vermelho e Branco”. A conversa só se tornou pertinente do ponto de vista literário quando ambos foram instados a propósito da relevância da ficção num mundo contemporâneo que parece escolher o real em vez do imaginário. “A memória é uma espécie de construção narrativa”, explicou Calligaris, de maneira que a importância desse tipo de texto permanece, esclareceu o autor. Era o final do debate, que, no geral, foi menos denso do que isso; menos sofisticado do que se imagina numa festa literária como a FLIP, a despeito dos aplausos e risos da audiência ali presente.

“El perro malo e feo

Assim que James Ellroy entrou na sala reservada para as entrevistas coletivas os jornalistas logo se sacudiram. Não que todos conhecessem a fama de verborrágico ou soubessem o que estava por acontecer. Mas é como se houvesse uma impressão no ar de que a notícia estava ali. Grosso modo, entrevistas coletivas seguem um clima modorrento e sem sobressaltos. De um lado, os repórteres cumprem sua pauta de forma litúrgica e burocrática. De outro, os autores e assessores de imprensa torcem para que aquilo ali acabe rápido. Ellroy chegou pouco depois das 13h30, horário combinado, e o diálogo possível que se estabeleceu ali foi surpreendente – mais pelo entrevistado do que pelas perguntas em si. Sim, a notícia estava ali.

Personagem que se impõe pelas características físicas (careca, alto, olhar arguto e gestual teatral), James Ellroy se antecipou às perguntas dos presentes e definiu a si mesmo: “Yo soy el perro malo e feo”. Disse que foi a única frase que aprendeu em Espanhol, mas é possível inferir que aquele ali foi um recado aos jornalistas que ainda desconheciam sua personalidade. Entretanto, quando efetivamente a entrevista começou, o escritor norte-americano se mostrou paciente e prestativo para responder às questões relacionadas à tradução de suas obras em português (“considero as edições do Brasil as mais bem elaboradas, com design especial que tornam o livro mais atraente”);  ou acerca de seu estilo (“Escrevo de forma coloquial e, por muito tempo, trabalhei com a proposta de escrever de maneira concisa, não necessariamente minimalista); ou ainda do gênero de seus livros (“não são romances sobre crimes, mas romances históricos sobre os Estados Unidos”). Até aqui, a entrevista seguia conforme o script esperado para um escritor-padrão da Festa Literária de Paraty. Ocorre, como se verá a seguir, que James Ellroy não é um desses.

Ao ser questionado sobre a adaptação de seus livros para o cinema, por exemplo, ele foi taxativo: “foi interessante pelo dinheiro. Embora não me preocupe com isso, é algo interessante se acontecer novamente – mesmo que seja pouco provável”.  Adiante, ao ser questionado sobre o volume de seus livros (o mais recente quase alcança as mil páginas), ele desancou o edifício da era da informação, acompanhem: “Não leio jornais. Não vejo TV. Nem cinema (…) Parem de ficar no twitter e no facebook. Vão dar uma caminhada, vocês moram num país incrível”. E aqui houve um corte para tratar da visão que o senso comum nos EUA tem acerca do Brasil: “Esquadrão da morte, mulheres nuas, calor insuportável e sem ar condicionado, sexo aleatório… Isso só é verdade no Paraguai, correto?”.  Em seguida, a Dicta quis saber se ele tem consciência o quanto destoa da média dos autores que vêm à FLIP (em geral, escritores cujo comportamento é menos bombástico e mais conciliador, para dizer o mínimo). Ellroy afirmou não conhecer os convidados que vêm à FLIP, a não ser por David Byrne e Claude Lanzmann (que, curiosamente, tem estilo provocador semelhante). Sobre seu perfil, respondeu: “eu vivo no vácuo, vivo na América”.

A propósito das influências literárias e culturais, mais uma vez mostrou o quanto difere da média dos convidados, sempre ávidos em dialogar com outros romancistas e clássicos de outras épocas. “Nunca li Tolstoi e, na verdade, aprendi mais sobre narrativa ouvindo clássicos como Beethoven e Bruckner do que lendo romances. A fluidez narrativa da música, que é universal, é mais clara do que um livro”. A partir daí, sempre à vontade, o escritor discorreu com fluência notável sobre as peças de Beethoven. E destacou: “jazzistas negros do pós-guerra, como Duke Ellington e Miles Davis, estudaram Beethoven. Mesmo ele sendo alemão”, ironizou. Ainda sobre autores, destacou: Raymond Chandler e Dashiell Hammett.

No tocante à relação com a sua (dele) mãe, sobre quem já escreveu em uma de suas obras, o autor provocou: “você precisa ter uma relação traumática com a mãe para conseguir uma boa transa”. Adiante, quase no fim da entrevista, salientou a necessidade de estar à parte do mundo presente. “Eu vivo no passado. Para viver no passado, eu preciso viver numa cidade tranqüila, como Paraty, por exemplo. Vou tentar convencer minha namorada para morarmos aqui”, disse, entre o cômico e o sério. E de repente, num recado aos aspirantes a escritores, rechaçou um clichê: “Todos se consideram escritores agora e, com seus computadores, afirmam: ‘estou com bloqueio’. Bloqueie aqui”, disse, apontando para a região abaixo da cintura, arrancando risos e alguns olhares constrangidos dos que estavam ali.

Às 14h30, a coletiva de imprensa acabou. A impressão era certeira. Só faltou a correção: a notícia chegou à Flip.

Fabio S. Cardoso é jornalista e professor universitário.


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