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Compre o Livro

A metafísica de botequim de Tom Waits

Filed under: Música incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 30 de novembro de 2011
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“Don’t you know there ain’t no devil, there’s just God when he’s drunk?”
Tom Waits, “Heartattack and Vine”

Nem Immanuel Kant, nem Kierkergaard, e muito menos Jean-Paul Sartre e Martin Heiddeger conseguiram ganhar de Thomas Alan Waits no quesito de “metafísica de botequim”. Perdoem-me os puristas e os tradicionalistas, mas qualquer frase de “Heartattack and Vine” ou de “Foreign Affairs” valem mais do que qualquer linha de “Ser e Tempo”, “O Ser e o Nada”, “O Desespero Humano” e até os “Fundamentos para uma Metafísica dos Costumes”, de Kant. Somente conseguem ser páreo para Waits, Aristóteles e Santo Tomás, e talvez estes últimos só perderiam porque Waits venceria os dois, na hora de verter uma boa garrafa de uísque.

Parece brincadeira, mas o fato é que Tom Waits, com sua voz rascante, instrumentação desafinada e letras sem nenhum nexo aparente, é um sujeito que nos leva a refletir sobre que raios estamos fazendo aqui, neste mundo repleto de imbecilidades e desgraça, pergunta pertinente a qualquer metafísica que se preze. Se, para um Aristóteles todo homem busca conhecer e, para um Santo Tomás, todo homem deve unir a razão e a fé, para Tom Waits, todo homem fica feliz com um copo de bourbon, uma mulher com cabelos oxigenados e uma lata de feijões nos momentos em que a solidão bate fundo. É um alvo baixo, devemos confessar, mas quem disse que não é verdade? Às vezes, o ser humano deixa a baixeza se disseminar nas suas atitudes. Mas isso não significa que Tom Waits seja um artista de quinta categoria, com objetivos de décima. Ele retrata um mundo muito particular, um mundo em que perder é sempre uma constante e, por isso mesmo, o Diabo apronta as suas. No entanto, como bem descreve a epígrafe deste texto, o Diabo não existe – foi Deus mesmo quem aprontou toda essa bagunça, quando estava curtindo uma bela birita. Leia mais…


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Consciências Negras

Filed under: Literatura incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 28 de novembro de 2011
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Zelda Odumbe nasceu em Kisumu, Quênia e nunca conheceu seu pai biológico. Por imposição do padastro, que desejava uma enteada pura, teve o clitóris removido aos sete anos de idade. No ano seguinte à circuncisão contraiu poliomielite, o que a deixou paralítica. Sua primeira relação sexual foi com um tio materno que, tendo contraído o HIV, achou que relações com uma virgem o curariam. O mesmo tio, e um vizinho amigo da família, abusaram dela repetidas vezes conforme chegava à puberdade. Escapou da casa materna aos 15, com ajuda do irmão caminhoneiro que a levou escondida, e a deixou aos cuidados da Congregação das Irmãs Missionárias do Precioso Sangue, com as quais passou a morar e estudar, no colégio das freiras em Riruta, arredores de Nairóbi. Aos 17 anos descobriu-se homossexual com uma noviça com quem dividia o quarto. Com ajuda das freiras, emigrou para os EUA aos 21, tendo conseguido uma bolsa para estudar em Harvard.

Era ansiosamente aguardada por todo o corpo docente e grande parte das entidades estudantis. Zelda era uma celebridade antes mesmo de por os pés em solo americano. Discutia-se a ordem das palestras que ela realizaria, os rumos de sua graduação e até um possível PhD.  Na chegada ao aeroporto foi recebida por uma comitiva de líderes estudantis e professores, dentre os quais a mítica Vazulla Nyolg, PhD, chefe do departamento de estudos da Mulher, Gênero e Sexualidade. Ao entrarem na van, a Professora Nyolg mal se continha de emoção; falava ininterruptamente contando à recém-chegada todos os podres da horrorosa sociedade americana, procurando avidamente por qualquer sinal de que estivesse causando boa impressão. Sua nova protegida, afinal de contas, não só era mulher, negra e africana, o que já seria bom mas nada de extraordinário, como também homossexual, sobrevivente de estupro, genitália mutilada, soropositiva e, para coroar, deficiente física. Tudo numa pessoa só. A Professora Nyolg, depois de muito buscar, finalmente encontrara o Santo Graal das minorias.

Zelda não era de muita conversa. A Professora Nyolg, embora ansiasse por relatos íntimos, pessoais, aos quais só ela teria acesso, não se importou muito, pois o silêncio da pupila complementava seu gosto pela fala. E a menina era boa ouvinte; com o tempo e com a confiança adquirida haveria de se libertar da repressão patriarcal que lhe impusera o silêncio como dever feminino; opressão talvez até mais grave do que a sofrida pelas mulheres de Massachusetts. Alojada no melhor apartamento disponível, Zelda e a professora se despediram. Um tanto reservada no contato com os colegas, passou seus primeiros dias de Harvard sem nenhum evento digno de nota.

O primeiro sinal de que nem tudo ia às mil maravilhas veio na hora de escolher as matérias a cursar. Zelda optou pela Literatura Renascentista Inglesa. A Professora Nyolg sugeriu que talvez, querida, os Estudos Literários Africanos a interessassem mais. “Só porque sou africana devo mirar tão baixo?” foi a resposta. Ela poderia ser lida como uma crítica aos professores do departamento, americanos e europeus privilegiados, portanto incapazes de penetrar no coração do lirismo africano. A professora, no entanto, acostumada a encontrar camadas secretas inesperadas em qualquer discurso, pressentia que o sentido era outro. Seja como fosse, era certo que a recém-chegada teria um longo processo de conscientização pela frente: criada e violentada na cultura patriarcal africana, que em última análise fora imposta pelo colonialismo europeu do século XIX, tinha na mente muitas ervas daninhas ideológicas a se extirpar; mas o terreno era inegavelmente fértil.

No primeiro fim-de-semana, na primeira (e única) festa de república a qual foi, Zelda sentava numa roda com seus colegas quando surgiu o tema dos direitos dos animais. Uma menina particularmente engajada opinou que a dieta vegana não só é mais ética, como também mais saudável e até saborosa.

Zelda ficou indignada.

“Impossível!”

“O que foi, Zelda?” Leia mais…


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A consciência é uma peste

Filed under: Música incluído por Martim Vasques da Cunha
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Há vinte anos era lançado “Achtung Baby!”, o álbum que a cada dia que passa convenço-me cada vez mais que é o melhor do U2.

Tudo bem, havia “The Joshua Tree” e haveria “Zooropa” e “No Line on the Horizon”, mas entre um álbum e outro a banda sempre entrou no perigo de ser mais uma como tantas outras, com a ajuda de Bono, o arroz de festas mais chato do planeta.

Ainda assim, a cada audição “Achtung Baby” ganha camadas de som e de significado que os outros álbuns não conseguem superar.

Por que será? Será que a causa é o fato do disco ter se tornado uma espécie de trilha sonora de uma época, tão emblemática que, por exemplo, Jonathan Franzen em seu “Freedom” faz questão de citá-lo em uma de suas cenas cruciais?

Pode haver outras – e talvez a principal é que se trata simplesmente de excelente música, tocada com profissionalismo e composta com um carinho raros de se encontrar atualmente.

Era uma época boa de se viver e ninguém sabia disso – exatamente como agora.


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Mostre-me o lugar

Filed under: Música incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 24 de novembro de 2011

O mundo não está tão perdido quando se sabe que Leonard Cohen lançará um novo álbum de inéditas:

Quem não chorar com a canção abaixo não será considerado um ser humano:

Show me the place, help me roll away the stone
Show me the place, I can’t move this thing alone
Show me the place where the word became a man
Show me the place where the suffering began



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“O inverno se aproxima”

Filed under: Sociedade incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 23 de novembro de 2011

Alguém se lembra quando chamavam a Primavera Árabe de “a vitória da democracia” há alguns meses?

Pois bem, agora perceberam que seu nome verdadeiro é “Inverno Islâmico“:

Shock is acceptable if one is surprised by something completely unexpected.

This is something that does not apply in any way, shape, or form to some Arab and non-Arab writers, media figures, and [political] analysts, who are today expressing their shock and disappointment with regards to the course that the so-called Arab Spring has taken. Today, those who supported the Egyptian revolution are in a state of shock with regards to the domination of the political arena by religious parties and currents.

This is something that has expanded beyond the Egyptian scene. Indeed what we are seeing is a political Islamist tsunami occupying the scene and displacing the “civil” youth. In Libya, we find [religious] fundamentalists of all backgrounds, from those who have taken up arms, to those who are making speeches and giving sermons, inside the country and abroad, not to mention figures like Ali al-Salabi.

E enquanto isso, Theodore Dalrymple já profetiza de que, mesmo com a morte de déspotas como Kadafi ou a deposição de tiranetes como Mubarak, em breve teremos uma onda de ditaduras pelo mundo, seja no Oriente Médio, seja na Europa:

There is, perhaps, no perfect solution to the problem of what to do with a fallen despot. To allow him to live in peaceful, and usually very prosperous, retirement seems unjust to the victims of his despotism, and is likely to embitter them. He will seem to them almost to have been rewarded for his deeds, for a prosperous retirement is the wish of any, rarely fulfilled. To treat him as a scapegoat, as if he alone were responsible for his despotism and he had no accomplices, is to create an abscess of hypocrisy and historical untruth that sooner or later will have to be opened, or will burst spontaneously. To punish not only the despot but all who co-operated with or benefited from his rule is to risk endless social conflict and violent reaction.

It might be thought that this a problem of an age that is now past; that after the Arab Spring, we are entering an age of universal democracy. I think this is the case no more than it was ever the case that history was at an end. Astonishing though it may seem, there were rumours in Europe of a possible coup in Greece as a solution to the impasse there. When disorder becomes great enough, men (as Goethe said) long for the man on the white horse, for we love order at least as much as we love liberty, for the former is a precondition of the exercise of the latter, and of much else besides. Europe, the Yugoslavia de nos jours, is becoming ungovernable, thanks to its governors. Another age of the man on the white horse might be dawning.


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Duas perguntas sobre a nova tradução de “Guerra e Paz”, de Leon Tolstói

Filed under: Literatura incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 22 de novembro de 2011

Se Guerra e paz é tido muitas vezes como um livro imenso e intransponível (a edição da Cosac Naify tem 2536 páginas), a recompensa de lê-lo é diretamente proporcional a essa fama. A infinidade de personagens e as digressões filosóficas são decisivas para o livro ser o que é – o estilo absolutamente livre de Tolstói ao escrevê-lo, sua resistência aos padrões literários de sua época, a preocupação em dizer aquilo que tem a dizer sem seguir nenhum um estilo que não o dele próprio.

Tolstói pesquisou obsessivamente e usa esse material para retratar a campanha de Napoleão na Rússia. Mas o livro não pretende ser uma crônica histórica. O centro da narrativa está na reflexão sobre a verdadeira força que parece mover os povos, sobre o que fez, afinal, milhões de pessoas praticarem, umas contra as outras, “uma quantidade tão inumerável de crimes, embustes, traições, roubos, fraudes, falsificações de dinheiro, pilhagens, incêndios e assassinatos, como não se encontra nos autos de todos os tribunais do mundo em séculos inteiros”.

Tolstói não hesita em direcionar uma crítica vigorosa aos historiadores de então, que no seu entender resumiam os acontecimentos nas ações de algumas figuras poderosas, e cita com ironia uma série de ordens e dispositivos militares para provar que os documentos oficiais e as ações daqueles que estão no topo da escala do poder são incapazes de explicar ou mesmo de definir os rumos da história.

Toda a construção dessa teoria, baseada num raciocínio e num poder de argumentação invejável já é por si só impressionante. Mas Guerra e paz é ainda mais do que isso: ao lado de Napoleão (retratado como um gorducho presunçoso), de Kutúzov, o comandante em chefe do exército russo, e de outros personagens reais, se movem centenas de vidas fictícias. E são essas figuras, imaginadas por Tolstói, como Natacha, Andrei, Pierre e Mária, que fazem com que Guerra e paz seja tão transbordante de vida. Duvido que o leitor, depois de conhecê-los, queira sair dali, daquele mundo tomado por batalhas, conselhos militares, ambições heroicas, entusiasmos patrióticos, bailes, caçadas, banquetes, paixões de juventude, questionamentos filosóficos, amores e decepções. A própria maneira de narrar escolhida por Tolstói, que flutua entre os pontos de vista de seus personagens (e se estende por um período de quinze anos), permitiu que ele retratasse um imenso espectro de paixões e de situações de vida, e que as figuras que as protagonizam nos parecessem tão próximas. O livro parece abrigar o mundo, a vida inteira está ali, e talvez por isso Guerra e paz seja diferente de absolutamente tudo que você já tenha lido.

Ao ler o texto acima, duas perguntas surgem:

1) Por que ultimamente o editor (no caso, a editora) da obra publicada escreve um texto mil vezes mais interessante do que qualquer um que foi publicado por um resenhista ou um crítico literário da grande imprensa?

2) Por que a Cosac Naify resolveu cobrar quase duzentos reais por dois livros encadernados em uma capa de veludo azul que irritará as mãos de quem quer realmente ler a obra e não apenas colocar na estante como elemento de decoração?

Eis alguns mistérios de nosso mercado editorial brasileiro.


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O Deus de George

Filed under: Música incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 21 de novembro de 2011

Nem sempre Krishna dá a serenidade que você precisa:

Well into his forties he kept swinging between the poles of his double life as only a true Manichean can, a rock star buried in a pile of cocaine one minute and a sadhu renunciant fingering his beads the next. But by his fifties he had abandoned the pretensions of stardom altogether. He had married a formidable but endlessly forgiving woman. (“People sometimes say to me, ‘What’s the secret of a long marriage?’ ” Olivia says in the movie. “And I’m like, ‘You don’t get divorced!’ ”) He became a devoted father and accomplished gardener.

“I don’t listen to much of today’s music,” he said. “Most of it leaves me shell-shocked.” He immersed himself in the standards of the American songbook. “I would rather listen to ‘Lady Be Good’ by Grappelli [and Django Reinhardt] right now than almost anything,” he wrote in a brief autobiography. Hoagy Carmichael became a hero. His last albums each contained at least one old pop standard: Cole Porter’s “True Love,” Harold Arlen’s “Between the Devil and the Deep Blue Sea,” Carmichael’s “Hong Kong Blues.”

When the cancer finally carried him off, his family’s formal statement insisted that he had never feared his own death, and even welcomed it, so sure was his faith in an afterlife and in God. The claim is repeated emphatically in the documentary. But this has the feel of a white lie—another bit of Beatle mythmaking. His last months were, in truth, a frantic scramble around Europe and North America in search of experimental cures that might keep his spirit housed in his body a few months longer. None of them worked.


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A autoconsciência do terror

Filed under: Literatura incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 18 de novembro de 2011

Don DeLillo

Em primeiro lugar, vamos ler o que Martin Amis, o enfant terrible da literatura inglesa, disse do novo livro de Don DeLillo – um volume de contos chamado The Angel Esmeralda, algo supreendente para um escritor que só se dedicou às narrativas longas, muitas vezes longuíssimas (caso de Submundo):

When we say that we love a writer’s work, we are always stretching the truth: what we really mean is that we love about half of it. Sometimes rather more than half, sometimes rather less. The vast presence of Joyce relies pretty well entirely on “Ulysses,” with a little help from “Dubliners.” You could jettison Kafka’s three attempts at full-length fiction (unfinished by him, and unfinished by us) without muffling the impact of his seismic originality. George Eliot gave us one readable book, which turned out to be the central Anglophone novel. Every page of Dickens contains a paragraph to warm to and a paragraph to veer back from. Coleridge wrote a total of two major poems (and collaborated on a third). Milton consists of “Paradise Lost.” Even my favorite writer, William Shakespeare, who usually eludes all mortal limitations, succumbs to this law. Run your eye down the contents page and feel the slackness of your urge to reread the comedies (“As You Like It” is not as we like it); and who would voluntarily curl up with “King John” or “Henry VI, Part III”?

 
***
Depois, vamos ler o que Antonio Xerxenesky, que revela ser um crítico mais interessante do que a sua ficção, escreveu sobre as relações subterrâneas que existem entre David Foster Wallace e a finada banda LCD Soundsystem:

São dois artistas, enfim, que merecem ser lidos e ouvidos, não apenas porque captaram o zeitgeist, mas porque possuem coração, porque mantiveram seus sentimentos, apesar de tudo que conspira contra isso, apesar da ironia sobrepujante e da horrorosa autoconsciência. Parece uma opinião brega, e talvez seja. Foster Wallace disse, no ensaio E Unibus Pluram, que os próximos rebeldes literários serão antirrebeldes: os que arriscarão ser tachados de melodramáticos e sentimentaloides. James Murphy não apenas repete isso, mas também executa algo similar em “Dance yrself clean”, canção que abre o seu disco de despedida do mundo da música, na qual aumenta o volume e pede para o ouvinte se lavar dançando, como se a dança fosse uma espécie de exorcismo que pudesse nos salvar de tudo, inclusive de nós mesmos.

Tudo bem, o primeiro trecho não fala diretamente da obra de DeLillo e sim das impressões introdutórias de Amis, este mestre da digressão, sobre o que ele ama e o que não ama no corpus de qualquer escritor. Na verdade, só copiei o trecho acima para que o leitor tenha interesse de ler o texto inteiro e, de brinde, saiba o que é uma verdadeira resenha.

Se lermos os dois textos com atenção, ambos discorrem sobre um tema que o próprio Foster Wallace – outro mestre da digressão – tinha plena noção: as conexões que existem entre a percepção exagerada do que seria (ou poderia ser) a realidade e o terror que surge disso. Segundo Amis, um escritor que sempre quis fazer o que DeLillo já fazia há tempo, o autor de Submundo e Homem em Queda, romances que, respectivamente, anteciparam e meditaram sobre os eventos da primeira década de 2000 (em especial, o terrorismo e o 11 de setembro), se tornou um profeta que soube expressar em uma linguagem cuidadosamente elaborada os dilemas da consciência estilhaçada dos nossos tempos.

Para Xerxenesky, DFW – que será tema de um ensaio fantástico de Júlio Lemos na próxima Dicta&Contradicta – eleva esta linguagem aos píncaros da insanidade – com a diferença de que há uma busca pela transcendência que, se compararmos os casos, DeLillo é muito mais bem sucedido do que o seu jovem contemporâneo (com quem, alías, trocou uma extensa correspondência).

A meu ver, esta autoconsciência do terror – marca registrada não só dos romances de DeLillo, DFW e Martin Amis, como também está presente em As benevolentes, de Jonanthan Littell, Às cegas, de Cláudio Magris e, em menor grau, Liberdade, de Jonathan Franzen – é uma encruzilhada que pode intoxicar a visão do escritor e envenená-lo com o mal que queria diagnosticar.

Por um lado, obriga-o a ver a realidade como é, em toda a sua terrível ambigüidade; por outro lado, pode fazer o escritor sucumbir à sua pressão e fazer a opção preferencial pelo desastre que é o niilismo.

David Foster Wallace ficou nessa encruzilhada e deu no que deu: depressão e suicídio. DeLillo já é um senhor de idade que decidiu se tornar o Beckett provecto da literatura americana, com seus livros esparsos, enigmáticos e quase impenetráveis.

Mas as questões que esses dois críticos e esses dois romancistas lançam são aquelas que todo escritor deve fazer antes de empunhar a caneta e começar a escrever qualquer linha.

E o que o LCD Soundsystem tem a ver com tudo isso?

Bem, não sei, mas antes de tudo ouçam essa canção e tenham um bom final de semana.


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Ninguém está a salvo

Filed under: Artes plásticas incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 17 de novembro de 2011

Nem mesmo Frank Miller, o sujeito que nos deu O Cavaleiro das Trevas e Os 300 de Esparta, principalmente depois das seguintes declarações sobre o movimento “Ocupem Wall Street”:

Everybody’s been too damn polite about this nonsense:

The “Occupy” movement, whether displaying itself on Wall Street or in the streets of Oakland (which has, with unspeakable cowardice, embraced it) is anything but an exercise of our blessed First Amendment. “Occupy” is nothing but a pack of louts, thieves, and rapists, an unruly mob, fed by Woodstock-era nostalgia and putrid false righteousness. These clowns can do nothing but harm America.

“Occupy” is nothing short of a clumsy, poorly-expressed attempt at anarchy, to the extent that the “movement” – HAH! Some “movement”, except if the word “bowel” is attached – is anything more than an ugly fashion statement by a bunch of iPhone, iPad wielding spoiled brats who should stop getting in the way of working people and find jobs for themselves.

This is no popular uprising. This is garbage. And goodness knows they’re spewing their garbage – both politically and physically – every which way they can find.

Wake up, pond scum. America is at war against a ruthless enemy.

Maybe, between bouts of self-pity and all the other tasty tidbits of narcissism you’ve been served up in your sheltered, comfy little worlds, you’ve heard terms like al-Qaeda and Islamicism.

And this enemy of mine — not of yours, apparently – must be getting a dark chuckle, if not an outright horselaugh – out of your vain, childish, self-destructive spectacle.

In the name of decency, go home to your parents, you losers. Go back to your mommas’ basements and play with your Lords Of Warcraft.

Or better yet, enlist for the real thing. Maybe our military could whip some of you into shape.

They might not let you babies keep your iPhones, though. Try to soldier on.

Schmucks.

FM

E não é que ele está falando a verdade que todos sabem, mas têm medo de dizer?

Pois bem: só por causa dessa declaração, Frank Miller foi escorraçado pela maioria dos seus pares e boa parte da grande mídia americana tenta renegá-lo, jogando-o na vala do esquecimento.

Conseguirão?

Pouco provável: Miller é um dos poucos em seu meio que pode ser chamado de “titã” e, por isso mesmo, tem a capacidade de expressar suas opiniões de forma independente, sem se importar com o politicamente correto que impera nos meios artísticos ocidentais.

O problema é outro: como contra-argumento, os opositores de Miller usam a imagem acima como contestação de seus argumentos, indignados, como se o homem que escreveu a cena acima não pudesse compreender o que está realmente em jogo em um movimento que supostamente seria contra o poder estabelecido.

Isso sim é o jogo sujo: tentam forçar uma ideologia em algo que jamais teve essa intenção, manipulando suas verdadeiras aspirações.

A cena mostra que, de fato, há uma coerência entre o Miller de vinte anos atrás e o Miller de agora. Ambos sempre foram contra o poder – a missão primordial de qualquer artista que se preze, em qualquer meio que atue.

E o “Ocupem Wall Street”, assim como qualquer movimento político que tenha mais de quatro pessoas organizadas, é justamente um elogio do poder.

Foi isto que Miller compreendeu como poucos e que agora a grande mídia tenta abafar.

Ainda assim, ah de quem for contra o rebanho! Será posto no ostracismo e chegará ao ponto de sequer ser convidado nem para a quermesse da igreja do bairro.

Como diria W.H. Auden:

Fight back, then, with such courage as you have

And every unchilvarous dodge you know of,

Clear in your conscience on this:

Their cause, if they had one, is nothing to them now;

They hate for hate´s sake


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Lançamento – Estudos Neo Kantianos, de Mario Ariel González Porta

Filed under: Filosofia incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 16 de novembro de 2011

Nesses tempos em que perguntamos o que sobrou da universidade e o que sobrou do ensino pedagógico – enfim, nesses tempos em que queremos saber o que aconteceu com o ensino socrático da Filosofia – , eis que surge um livro que mostra que a esperança ainda não morreu. Hoje, este livro é “Estudos Neokantianos”, de Mario Ariel González Porta, um dos poucos sujeitos que consegue mostrar que há um prazer na leitura de Kant e um dos poucos que consegue destrinchar Ernst Cassirer sem parecer mais complicado do que já é.

Enfim, todas as razões para comprar o livro acima, conhecer seu autor e estudar um assunto que sequer foi pouco explorado nas cátedras nacionais.


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