O Poder não é tudo
Data do post: 23 de janeiro de 2012
Quem correr ainda conseguirá assistir Tudo Pelo Poder (Ides of March), thriller político dirigido por George Clooney; e, se tiver oportunidade, acho que deve fazê-lo. O filme merece. Ele mantém, em sua maior parte, o equilíbrio que é, ao menos para mim, o grande gerador de interesse em histórias políticas: o equilíbrio entre o jogo maquiavélico do poder e a luta por ideais à qual a política deveria servir.
Esse equilíbrio incerto é personificado por Stephen Meyers, interpretado por Ryan Gossling, um dos assessores da campanha do pré-candidato Democrata Mike Morris (Clooney) pela vaga na disputa da presidência nas próximas eleições. O que distingue Meyers daqueles à sua volta é que ele tem valores pelos quais luta. O que não faz dele um mal estrategista. Embora novato no jogo político, seu talento é reconhecido inclusive pela campanha adversária. Ao que tudo indica, o próprio Meyers ingressara na profissão um cínico; mas ao conhecer Morris e se inteirar de suas propostas, se “converteu”, sendo agora objeto de gozação de seus colegas e rivais mais experientes.
O ponto menos importante do filme é o conteúdo específico das propostas de Morris. Ele é um candidato Democrata, o que já o coloca no lado esquerdo do debate político americano; e dentro desse campo, ele aparenta ocupar a ala mais radical, posto que suas propostas incluem projetos como eliminar o uso de combustíveis fósseis nos EUA em poucos anos. Eu mesmo discordo diametralmente de tais propostas e de todo esse tipo de posicionamento político; na vida real, portanto, dificilmente veria Morris a representação de algum ideal. Mas no mundo do filme é isso que ele é, e é assim que devemos tomá-lo. Meyers é alguém que acredita naquele ideal de integridade da política, e essa crença faz dele alguém também íntegro, que não está disposto a sujar sua alma para conseguir a vitória.
Como em todo filme desde a década de 60, ele continua, contudo, sendo humano. E um momento de fraqueza, uma coisa minúscula, algo que nem se pode chamar de pecado mas apenas hesitação momentânea de fazer a coisa certa (uma vaidade passageira que é vencida momentos depois) coloca em risco sua carreira de maneira inapelável. Ao mesmo tempo descobre que seu herói , embora culpado das piores sujeiras (curiosamente, delitos pessoais, sem implicação direta para as propostas políticas de Morris, que até onde sabemos podem muito bem ser sinceras; o caráter pessoal tem uma importância maior na política americana do que no resto do mundo), parece seguir em sua trajetória de sucesso.
Morris, seguindo tradição bem estabelecida na política, teve um caso com uma estagiária da campanha, a engravidou e agora tenta abafar o caso com um aborto na surdina. Meyers vê-se dividido entre os valores políticos que ele defende, os valores pessoais (personificados pela figura frágil da estagiária, interpretada pela bela Evan Rachel Wood) que a política ameaça atropelar e a sede de vitória e sucesso pessoal que nunca o abandonaram. É dessa tensão que brotou, ao menos para mim, o grande interesse do filme. A integridade pessoal pode sobreviver aos massacres da falibilidade humana, à sedução do poder e à frieza da máquina política?
O título em inglês é uma referência ao assassinato de César. O conflito moral no centro da trama também termina em mortes, duas delas literais: o feto que Molly carrega é abortado, e ela, abandonada por Morris e por Meyers, comete o suicídio. E é esse suicídio que ocasiona a morte central da trama: a morte da crença na integridade, e portanto da própria integridade que Meyers carregava consigo. O título em português dá uma boa dica de qual dos três valores em conflito (a dignidade individual, os valores da política e o auto-interesse cínico) prevalece. Com Molly sordidamente descartada, e Meyers tendo sido ele próprio cuspido para fora do jogo quando tentava fazer o bem, resta apenas lutar para permanecer no topo. O conflito moral termina e passa-se ao conflito de indivíduos em competição pelo mesmo fim. Entre três assessores de campanha nojentos e dois candidatos hipócritas – numa história ficcional –, todos maquiavélicos ao extremo, que importa se quem levará a melhor será o canalha 1 ou o canalha 2? Talvez esteja falando por mim mesmo, e essas considerações não se apliquem ao resto dos espectadores: mas quando em tela sobra apenas o mais cínico auto-interesse, é o meu interesse que vai embora.
Fora esse declínio (ou melhor, esvaziamento) da tensão moral do terceiro ato (mais curto), quando Meyers abre mão de quaisquer escrúpulos e aposta tudo no jogo de poder, o filme vale a pena. É sempre um prazer ver o jogo político muito bem jogado, e se é verdade que o desfecho é um tanto cínico (moral da história: a integridade não é possível no mundo real; ou ao menos no mundo político), resta um fundo moral: tendo perdido todos os ideais, Meyers se vê sem amigos e sem nada pelo que lutar. Chegou no topo; e daí? Se a virtude não é possível, isso não é motivo de comemoração, mas de luto. O cinismo final traz consigo seu sabor amargo, o que não deixa de ser um mérito.
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Drogas, Loucura e Responsabilidade
Data do post: 20 de janeiro de 2012
O crack da responsabilidade
Nesta nada breve conversação travada pela Dicta&Contradicta nos últimos quatro anos, impõe-se um desafio tácito, que é contrapor o sensacionalismo factual de nossa mídia ordinária com ensaios críticos de fôlego. O objetivo não foi jamais fazer o debate in cathedra, e o sucesso da revista dá provas do espaço que havia para discussões com esse perfil. Análises maiores e mais detalhadas, e, dada a nossa periodicidade, naturalmente menos acaloradas, permitem o distanciamento necessário para uma vista mais ampla da complexidade do mundo, além de garantir as condições necessárias para a verdadeira tarefa do conhecimento humanista: distinguir, sem excluir, os elementos da realidade total, compreendendo-os em toda sua complexidade, isto é, conectando-os a todo o resto.
Na recente discussão sobre a ocupação da cracolândia paulista, alguns temas nos são caros e já estiveram, mesmo que tangencialmente, presentes em nossas páginas. O mais óbvio é sem dúvida aquele mais recente, destaque da última edição, no qual o psiquiatra inglês Anthony Daniels argumenta sobre a responsabilidade do usuário – “responsabilidade” em termos bem claros pois, para o autor, o vício é primeira e claramente resultado de uma escolha pessoal; o viciado não é somente vítima da droga, é antes, vítima de suas próprias escolhas, algoz de si mesmo.
Na Dicta 4 é outro psiquiatra, o professor Oliver Sacks, quem nos expõe uma reflexão intrigante sobre a internação não voluntária. Em As virtudes perdidas do hospício, artigo que a Dicta publicou em primeira mão, o médico mostra como o movimento antimanicomial criou um pequeno flagelo para famílias que se vêem obrigadas a conviver, mesmo incapazes de dar as mínimas condições devidas, com entes amados com distúrbios mentais. A ausência de condições mínimas é a pior condenação a que estas pessoas podem passar, e errar pelas ruas acaba sendo, por vezes, apenas mais um momento de seus tristes calvários.
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Michael Dummett (1925-2011)
Data do post: 19 de janeiro de 2012
Entre os homens de grande fama no século XX está um subconjunto não menos ilustre, mas muito discreto, que nós costumamos chamar de filósofos (embora fiquemos desconfiados quando se antecipam e atribuem a si mesmos esse nome). Alguns deles defenderam teorias grandiosas, capazes de explicar tudo — e por isso inspiraram uma fidelidade quase religiosa e foram, e ainda são, encarados como profetas. Estes são os indiscretos entre os discretos; o que nos leva a um subconjunto menor: o dos filósofos pouco solenes e dados ao trabalho duro. Os dois grupos — o das cigarras mágicas e o das formigas engenheiras — praticamente se ignoram mutuamente.
Mesmo que não me agradem os grupos, penso que Michael Dummett, falecido no último 17 de dezembro aos 86 anos, pertencia ao segundo. Apesar de ser seguramente um dos filósofos mais importantes da segunda metade, ou ao menos do último quarto, do século XX, poucos leitores no Brasil o conheciam. (Uma nota antipática, mas que se aplica a mim mesmo: não os posso culpar por se interessar mais pelas cigarras mágicas. É muito mais divertido ouvir falar de ‘duplos angélicos’, paranóia na pós-modernidade e conspirações do que dissecar a teoria do significado de Frege ou as bases lógicas da metafísica.)
Dummett formou-se em Oxford (em colleges que incluem o Christ Church e o All Souls), tendo lá sido professor da cadeira Wykeham Professor de Lógica até 1992, quando se aposentou; mas também deu aulas em Harvard, Princeton, Berkeley e Stanford. Recebeu o título de Sir em 1999 e vários prêmios por sua obra e sua forte atuação contra a discriminação racial. Devemos a ele a melhor exposição e crítica sobre a obra de Gottlob Frege; e também a sensação de alívio diante do fato de que nem todo filósofo analítico precisa ser formalmente graduado em matemática — já que ele escreveu Frege: Philosophy of Mathematics (1991) e dava baile em muito graduado. Também era um expert em jogos de cartas e na história do Tarot (veja-se o seu A History of Games Played with the Tarot Pack, 2004, em conjunto com John McLeod), e excelente prosador, autor de um Grammar and Style (1993). Era católico praticante — defensor da inteligibilidade da Eucaristia — e nada heterodoxo. O resto está nas biografias.
Na mesma linha que vai de Aristóteles a Wittgenstein, acreditava que a filosofia pode, e deve, se dedicar aos problemas realmente importantes: a natureza do ser, Deus, o livre arbítrio, as ‘leis lógicas’ do pensamento, os limites do conhecimento. Também sustentava que, para se meter no mare magnum da filosofia, o pensador não pode dispensar, sob hipótese alguma, o instrumental — esse inimigo mortal das cigarras mágicas — lógico-matemático, que revolucionou a filosofia no século XX, capaz sobretudo de impedir o cara de brincar de Let’s Jump to Conclusions. E se é verdade que não exigia que todo e qualquer filósofo devesse estar a par de todos os resultados da lógica e das ciências duras, estava persuadido, como diz um amigo, de que “Aristóteles, hoje, estaria grudado nos laboratórios”.
Ele pensava que a filosofia era muito mais difícil do que parecia; e que nesse âmbito muitos filósofos — inclusive os maiores entre eles — erraram, não ao pensar que alguns problemas poderiam ser solucionados, mas que isso pudesse ser feito rapidamente. A filosofia avançou muito pouco, mas avançou. Mas será que um dia poderemos dar ganho de causa, por exemplo, ao realismo ou ao anti-realismo?
Um mapeamento geral das bases da metafísica está em seu livro ‘autoral’ mais importante: The Logical Basis of Metaphysics, que é uma versão expandida das suas William James Lectures, dadas em 1976 em Harvard. Nele, Dummett procura mostrar que a grande tarefa da filosofia é construir adequadamente uma teoria do significado (meaning). Para ele, trata-se da base de todos os problemas filosóficos — porque afinal de contas, embora a realidade possa estar diante de nós independentemente do pensamento, só podemos ‘falar’ dela por meio da linguagem (não necessariamente escrita ou oral). A escolha entre os vários sistemas lógicos depende de uma posição fundamental no terreno da teoria do significado; e daí surgirá uma avaliação do realismo, sua principal preocupação.
Se quiser conhecer a obra do filósofo, o interessado pode começar por este livro.
Num tempo de desistência e de pirotecnia (dois opostos que parecem frutos de uma mesma árvore), Dummett é dos que acreditavam que a filosofia, sim, é a busca por respostas — pela verdade — e nada mais.
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A Lei Rouanet

Nove bilhões de reais, seis ministros e vinte anos depois, a Lei Rouanet se tornou fundamental. Como aponta Henilton Menezes, o Secretário de Fomento e Incentivo à Cultura do MinC, hoje a Lei é responsável pela manutenção de instituições como o Centro Cultural Banco do Brasil, o Museu de Arte de São Paulo e a Fundação Iberê Camargo, publicações como a Bravo, a Cult ou a Revista de História, a restauração de edifícios como o Theatro Municipal e o Convento de Santo Antônio. Através dela são viabilizados o Festival de Gramado, o Festival de Cinema de São Paulo, a Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), o Festival de Teatro de Curitiba e praticamente todo movimento teatral das cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo. Com ela mantém-se o Teatro Oficina, o Grupo Galpão, o grupo “Corpo”, a Cia. de Dança Deborah Colker. A Lei dá uma forcinha nada singela ao Instituto Cultural Itaú, à Academia Brasileira de Letras, ao Rock In Rio, aos carnavais do Rio de Janeiro, de Pernambuco e da Bahia, às festas juninas do Nordeste…
Tudo de uma vez só. É de se pensar o que foi a produção cultural brasileira antes da Lei e a impressão que uma lista como essa nos dá, inevitavelmente, é que antes não havia nada. Muito embora contemos com lembranças melancólicas da atividade operacional da cultura em franco diletantismo, a indústria do cinema em frangalhos, as orquestras sinfônicas miseráveis e de teatros funcionando em guerrilha [link restrito para assinantes do UOL], há hoje, com a lei em vigor, evidentemente algo para lamentar e o mais relevante é que sua penetração na vida cultural cria uma cadeia insólita de artistas que não arriscam ou do sucesso que prescinde de público. E cria a figura curiosa do mecenas que não gasta dinheiro.
Pois é costumeiro, embora inverídico, dizermos por aí que não temos no Brasil a cultura do mecenato. Nossa história conta o contrário, e temos personalidades relevantes no patrocínio das artes no passado recente, em figuras como Paulo Prado, Francisco Matarazzo, Arnaldo Guinle, Octávio Gouveia Bulhões, Osvaldo Riso, João Moreira Salles, Mario Henrique Simonsen, entre outros. Nenhum deles usou a Rouanet. Atualmente poderíamos discorrer uma lista similar com novos nomes, atores significativos que mantém acervos particulares, realizam contribuições regulares ou se lançam em projetos de absoluta relevância cultural e impossível retorno financeiro – e que não estão nem aí para leis de incentivo.
Há uma parcela da crítica cultural que acusa a Lei Rouanet de ter acabado com esta figura quase ingênua do amante que investe em arte – leia-se, artistas. A Lei teria permitido que o investidor seja vilão não do próprio dinheiro, mas do dinheiro público. A Rouanet realizaria essa perversa “democratização” do mecenato, não no sentido em que todos possamos investir em arte mas a de obrigar a todos, querendo ou não, que invistamos em arte. O dinheiro que paga parte da produção das festas juninas, do filme nacional que ninguém vê, e do sucesso da Festa Literária de Paraty é descontado daquele que uma empresa deveria pagar ao governo em forma de imposto de renda; ao invés de dar ao estado, ela direciona ao projeto que lhe convém. Ou seja, ao invés de tornar-se dinheiro público segue sendo dinheiro privado, de uso público (mais ou menos, dependendo do projeto).
Em sua defesa podemos comentar o óbvio: sabemos muito bem da destreza do funcionalismo em investir e podemos imaginar, por inferência, os caminhos que o dinheiro do imposto devido passaria para retornar como investimento em cultura. O pensamento por trás da Rouanet é, portanto, uma forma curiosa de pragmatismo liberal: se temos que pagar impostos altíssimos, e tais impostos são notoriamente mal usados, melhor seria não pagar tais impostos; mas isso seria crime, então, por que não criar um mecanismo que permita ao contribuinte usar diretamente parte do valor do imposto devido? Imagino que se tivéssemos um mecanismo como a Rouanet em outros ambientes que não o cultural, e a empresa ou cada um de nós, ao invés de dar ao governo parte do exorbitante imposto devido, aplicássemos diretamente na escola do bairro, no recapeamento das estradas e ruas… Seria uma solução engenhosa, que criaria outros problemas curiosos, mas certamente não o fortalecimento do funcionalismo.
No entanto, nestes termos específicos, o dilema maior da Rouanet segue sendo exatamente um fato, o de que o mecenas não tira do bolso seu investimento. O imposto é devido, e muito embora possamos fazer críticas severas à alta carga tributária do país e seu mau uso, o fato é que, pelas regras do jogo, aquele dinheiro não deixa de ser dinheiro do governo – ou seja, de todos os contribuintes. A única forma de tornar a Rouanet menos perversa, nestes termos, é diminuindo a carga tributária e, concomitantemente, aperfeiçoando os serviços da estrutura estatal. Alguém vê isso no horizonte?
Não deixa de ser um acaso feliz que tenha sido o meu, o nosso dinheiro a financiar o sucesso do primeiro “Tropa de Elite”, a vinda de Tom Stoppard para a FLIP e a de Peter Brook para o Festival de Porto Alegre, os quentões e salsichões dos arraiais deste Brasilzão de Deus. Não ter desfrutado de tudo daquilo não é realmente um problema; parodio a máxima de Sergei Diaghilev, empresário dos balés russos: afinal, por que perder minha imaginação (e dinheiro) comigo mesmo? Tranquilizo-me pensando que poderia ter servido para coisas piores, como aparentemente servirá em breve, com a aprovação dos games e do gospel como modalidades passíveis de patrocínio… Mas isso é outra história.
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A festa da reflexão irresponsável
Data do post: 17 de janeiro de 2012
Quais são os ingredientes para um debate público de qualidade no Brasil? A reedição das obras de José Guilherme Merquior pela É Realizações é uma boa notícia para quem quer dar uma resposta honesta à questão. Reconhecido por seu trabalho como crítico literário, leitor incomparável de poesia, Merquior desempenhou na vida da inteligência nacional ainda o papel do crítico cultural em sentido mais amplo, essa figura comum nas tradições europeia e americana, como um Walter Benjamin ou um George Steiner. A amplitude dos temas abordados pelo autor é prova mais que suficiente disso, e o leitor poderá conferir por conta própria e com grande prazer à medida que vá lendo seus trabalhos, felizmente de volta ao mercado, agora em edições preparadas pelo professor João Cézar de Castro Rocha, da UERJ.
Merquior acreditava na relevância do artigo de jornal ou revista, no texto de intervenção pontual, dito “atualidade” em outros tempos; sobre o tema, citava, aprovando, Ortega y Gasset, que via nesse tipo de texto “uma forma indispensável do espírito”. Uma lição simples, mas cujos resultados são, ao menos potencialmente, tremendos. Pensada nesses termos, a intervenção pública nos assuntos da hora deixa de ser banal, personalista e inócua, e assume os contornos civilizatórios que por tanto tempo teve em outras terras – na Inglaterra e na França, sobretudo. Se não me equivoco, apenas o intelectual que entra na arena pública tendo aprendido essa lição faz seu trabalho com o senso de responsabilidade moral que a coisa exige.
Com livros como As Ideias e as Formas (1981) voltando a circular mais amplamente, talvez seja possível reconhecer algumas de nossas fraquezas em matéria de vida intelectual, quem sabe mesmo dar-lhes o devido combate. Não me refiro ao eterno “circuito do elogio mútuo”, que impede o atrito autêntico, a crítica em seu sentido mais forte; tampouco à superficialidade e ao baixo-nível que parecem ter triunfado com a mesma força nas bancas de jornais e nas de doutoramento país afora. Refiro-me a traços menos óbvios, mas não por isso menos atuantes em nossos esquemas mentais, e que Merquior, no artigo que dá nome ao livro de 1981 citado acima, mapeou muito bem.
Um desses elementos o autor chamou de “purismo misológico”, uma atitude “intransigentemente hostil à racionalidade da ideia”. Foi em seu Formalismo e Tradição Moderna (1974) que Merquior tentou rastrear essa degenerescência da poética romântica – para usar seus próprios termos – que resultou em nada menos que uma “fúria misológica”, uma variedade muito peculiar de irracionalismo. Mais que anti-intelectualismo, trata-se de um ódio ao conceito: Imagem contra conceito, sintetiza o autor. Um prêmio aos que pensaram em Nietzsche, para quem as ideias são obras de arte… Ao constatar a usurpação da forma pela ideia e escrever-lhe a genealogia, ao atacar a estetização do pensamento, enfim, Merquior parece que falava para nosso tempo:
O irracionalismo ambiente não reclama outra coisa: “insights” em lugar de análises, intuições indemonstráveis, conceitos altamente “artísticos”, em suma: a festa da reflexão irresponsável.
Essa ojeriza ao argumento, à análise (por definição algo lógico e racional), enfim, essa “fúria misológica” de que fala Merquior contaminou as mais elementares condições de possibilidade para um debate esclarecido sobre o que quer que seja, com um agravante em nosso tempo: no lugar de um homem de gênio como Nietzsche, enfrentamos hoje pessoas que sequer são capazes de compreender o que seja um argumento ou uma análise. No atual estado do problema, a investigação de Merquior parece ir longe demais, mas tal impressão se dá somente porque o irracionalismo já triunfou, virando moeda corrente tanto nas redes sociais como nas aulas de pós-graduação das melhores universidades, tanto nas palavras inflamadas dos porta-vozes do multiculturalismo como na prática moralizante dos desiludidos à esquerda e à direita no espectro político.
E esta lição, sim, é antiga: sem razão, não há responsabilidade; e “debate público” sem ambas, razão e responsabilidade, é a festa do pensamento irresponsável – com cada vez menos pensamento, aliás.
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Dicta Entrevistada
Data do post: 16 de janeiro de 2012
Augusto Nunes, que assina um dos blogs de maior sucesso da Revista Veja, publicou a entrevista feita, algumas semanas antes, com o atual presidente do IFE (que é o instituto que publica a Dicta), Marcelo Consentino, e Eduardo Wolf, um dos integrantes do corpo editorial da revista. É uma ótima oportunidade para quem não conhece a revista vir a conhecê-la, e para dar uma ideia aos leitores dos desafios envolvidos em se publicar uma revista cultural de peso no Brasil. Desafios que, longe de nos desestimular, só aumentam nosso empenho! Assistam à entrevista em três partes no site do Augusto Nunes.
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Uma Educação Finlandesa
Data do post: 12 de janeiro de 2012
Não é fácil identificar a causa, ou as causas, de um fenômeno que se dá fora de ambientes controlados. Os melhores médicos creram, por séculos, que a sangria ajudava na cura de seus pacientes quando na verdade ela era nociva. Curas ocorriam, mas ninguém sabia o verdadeiro porquê.
Parece-me que estamos na mesma situação, hoje em dia, com relação à educação. Certas crianças aprendem melhor do que as outras; certos países têm ensino melhor do que outros. Não há grandes mistérios em se medir isso: bastam provas e testes padronizados. O problema está na hora de explicar as diferenças. Intelectuais, professores e políticos todos têm a sua teoria sobre como melhorar o ensino.
Já medir a qualidade do ensino é algo mais simples, embora diferentes métodos possam ser desenvolvidos e diferentes aptidões analisadas. Há provas uniformizadas que dão uma boa ideia do estado da educação de determinado lugar. Um desses exames padronizados e aplicado mundialmente é o PISA. E desde que o PISA começou a ser aplicado, em 2000, um fato chamou a atenção: dentre os países ocidentais, quem ocupava o primeiro lugar, disparado, era a Finlândia. Isso vale até hoje. Embora tenha ficado atrás de Shanghai em todas as provas, a Finlândia continua muito a frente de qualquer outra nação ocidental, inclusive das escandinavas Noruega e Suécia, cuja nota é medíocre em comparação e que sempre servem de parâmetro uns para os outros.
Os exames do PISA são sérios (aqui o artigo da Wikipedia com os rankings do PISA 2009); não se trata de fraude ou manipulação. Palmas, portanto, para a Finlândia. Mas a que, especificamente, se deve esse desempenho inesperado?
O candidato mais óbvio é o Ministério de Educação finlandês, que já vem de fato colhendo esses louros há vários anos. Ele vem recebendo visitas de comissões de vários países para expor e mostrar as conquistas do sistema de ensino finlandês; e vários autores têm tirado suas conclusões sobre o que é que dá à Finlândia esse diferencial. Segundo a recente reportagem do The Atlantic, o segredo da Finlândia é que ela, ao contrário dos EUA, valoriza a igualdade e não a excelência. Não existem escolas privadas; não existe um sistema de cobrança e avaliação das escolas; não se premia as escolas com melhor desempenho. “Accountability is something that is left when responsibility has been subtracted.”
A tese é polêmica. Mas ao invés de considerá-la, quero levantar um outro ponto. Desde 2006 a amostra de países do PISA foi aumentada, incluindo diversos países em desenvolvimento. Um deles foi a Estônia. E desde então ela também passou a ocupar as posições mais altas no PISA dentre as nações ocidentais (nunca tão boas quanto as da Finlândia, mas ainda assim acima de Noruega, Suécia, Alemanha).
Há um fator em comum entre Finlândia e Estônia: as línguas de ambos os países não pertencem ao ramo indo-europeu comum a quase toda a Europa, mas ao ramo fino-úgrico; e são muito parecidas entre si. Poderia a língua explicar o desempenho educacional? A tese ainda parece duvidosa, mas considerem o seguinte: dentro da Finlândia há uma minoria de falantes do sueco. Essa minoria é, em média, mais rica do que a de falantes do finlandês. No entanto, as notas dela no PISA são muito inferiores às deles. A tese do papel da língua na educação finlandesa é exposta neste breve artigo de Taksin Nuoret.
Talvez o melhor para nossa educação seja abandonar de vez o ENEM (que ainda não escolheu se vai priorizar a igualdade ou a excelência) e implementar o ensino universal do finlandês.
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Astrologia Criminal
Data do post: 9 de janeiro de 2012
Uma nota boba, mas que tem implicações interessantes. A polícia de Chatham-Kent, uma unidade administrativa em Ontario, Canadá, publicou os signos do zodíaco de todos aqueles presos no ano de 2011. E deu “vitória” ariana. Em último lugar deu sagitário, que ou seriam os mais pacíficos ou, na opinião de um astrólogo consultado pelo jornal, mais hábeis em escapar das forças de lei e ordem.
Bom, em primeiro lugar note-se que não houve nenhum esforço de calcular se a diferença entre os signos é significante (a amostra, afinal, não é das maiores: 1986 pessoas foram presas na região ao longo do ano). Independentemente disso, a ideia por trás da pesquisa é boa. Se os signos fazem diferença no caráter dos indivíduos, essas diferenças devem se traduzir em ações. Um signo, digamos, mais impetuoso, terá, em média, mais indivíduos que agem impetuosamente do que outro signo, digamos, mais meditativo.
Portanto, é possível testar empiricamente as afirmações da astrologia. Muitos astrólogos vêem com apreensão esses exercícios; o signo solar sozinho não diz muita coisa, diz um dos consultados pelo jornal. Mas por acaso dizem algo, por menor que seja? Se sim, então será possível medir seu efeito nos grandes números.
O grande problema da previsão astrológica acerca do indivíduo é que ela dá apenas tendências e estruturas básicas de comportamento, que podem inclusive ser contrabalanceadas por tendências contrárias ou pela decisão pontual do agente. É, portanto, impossível testá-la no caso particular, posto que as condições da vida humana não são as de um experimento controlado. Mas nas grandes populações as particularidades dos casos individuais se cancelam e prevalecem as tendências.
Dado que a astrologia tem se colocado como ciência, ou seja, não como um saber arcano e esotérico, os astrólogos deveriam ser os primeiros a querer testar suas previsões. As informações das quais ela tira conclusões são, ademais, perfeitamente observáveis e de fácil acesso (o mapa astral de cada um é função da data, hora e local de nascimento; todos eles presentes nos registros públicos de todo cidadão), não há nenhum empecilho a se realizar testes empíricos.
O bom de estudos estatísticos é que eles prescindem de explicar o porquê. Pode parecer uma deficiência, e é de fato quando queremos descobrir a causalidade que liga dois fenômenos correlacionados. Mas para estabelecer se existe correlação é um método muito apropriado. Seriam as características do signo explicadas pelo efeito gravitacional dos planetas e estrelas? Talvez por alguma outra energia natural não conhecida ou pouco estudada? Quem sabe se trata de algo verdadeiramente sobrenatural? Não importa. Para começar a especular sobre isso é preciso antes saber se existe de fato alguma relação observável entre a configuração celeste no momento do nascimento e o caráter do indivíduo que está nascendo. E isso a estatística nos permite avaliar plenamente.
Um estudo como esse da prisão canadense pode ser refinado: considerar apenas os criminosos violentos, por exemplo, e levar em conta não apenas o signo mas o signo junto do ascendente (ou quantas outras sutilezas astrológicas se quiser). É possível também testar as teses particulares que os astrólogos sustentam. Se Marte é um planeta que induz à violência, então é de se esperar que, tudo o mais constante, as pessoas que têm Marte como planeta relevante em seu mapa astral (confesso minha ignorância ao falar do tema) apresentem, em média, mais comportamentos violentos; algo facilmente testável. Testes semelhantes podem ser feitos para vários outros comportamentos e variáveis, como o desempenho profissional.
A grande questão, contudo, permanece: estarão os astrólogos dispostos a encarar os possíveis resultados negativos de estudos desse tipo? Ou reverterão a uma versão não-científica da astrologia, que depende de intuições e leituras pessoais do próprio astrólogo, e cujas previsões acerca do temperamento e caráter do indivíduo são, na prática, impossíveis de se testar? E, por outro lado, se os resultados forem consistentemente positivos, estará a comunidade científica pronta a aceitar mais uma ciência?
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O Nobel que Tolkien não ganhou
Data do post: 6 de janeiro de 2012
As deliberações do comitê do Prêmio Nobel são mantidas em segredo por 50 anos, e só então os arquivos são abertos ao público. Ficamos sabendo quem foram os candidatos nomeados, quem os indicou e alguns comentários que os membros do comitê fizeram sobre ele.
Veio a público agora que, em 1961, Tolkien fora indicado ao prêmio por seu amigo C. S. Lewis. Anders Österling, crítico literário membro do comitê, contudo, julgou que a prosa de Senhor dos Anéis não era da melhor qualidade. Naquele mesmo ano concorriam Graham Greene e Robert Frost, mas o prêmio foi para o iugoslavo Ivo Andrić.
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Perdão: estatal ou pessoal
Data do post: 4 de janeiro de 2012
Ano Novo é tempo de propósitos de melhora pessoal. Melhora pessoal pressupõe que, no ano velho, tivemos falhas, pecados, erros (escolha a opção mais de acordo com sua visão de mundo). Algumas dessas falhas, por infringirem os direitos alheios ou serem perigosas ao bem comum, são criminalizadas.
Todos nós, que vivemos em sociedades moldadas por valores judaico-cristãos, entendemos o valor do perdão. Todo mundo peca. Todo mundo precisa de segundas chances. Por isso, todo mundo merece uma segunda chance de seus semelhantes. Mesmo um criminoso. E que chance ele terá na vida se tiver que expor seu passado criminal a todo empregador potencial? Deveria o Estado, portanto, proibir que empregadores tivessem acesso à ficha criminal de seus candidatos? Uma pergunta válida.
Vejam a resposta ponderada e muito lúcida de Theodore Dalrymple, pseudônimo famoso de nosso contribuidor habitual Anthony Daniels.
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