A parábola da solitária

Mario Vargas Llosa sempre gosta de citar a famosa parábola da solitária quando discorre sobre a vocação da escrita. Segundo ele, o escritor não pode se acomodar nunca, sempre deve ficar à frente do seu tempo e, para isto, deve tratar o seu ofício da mesma forma que as moças nos século XVIII e XIX faziam para emagrecer e se encaixarem em seus espartilhos: ingeriam uma solitária e deixavam-na dentro do estômago, como se fosse um pequeno feto que se alimenta de qualquer coisa que a pessoa engolia, tanto para abastecer a si mesma como também ao seu pequeno hóspede.

A vocação de escritor é exatamente isso: o daimon da literatura lhe come por dentro – e não há outra coisa a se fazer exceto se render aos seus caprichos e incertezas.

Tenho estes pensamentos por um motivo: ontem vibrei de emoção ao descobrir que a Paris Review finalmente disponibilizou na internet todas (sim, repito, todas) as suas clássicas entrevistas, da década de 50 em diante, com os grandes escritores da literatura moderna e contemporânea.

A grandeza destas entrevistas é que elas são um vislumbre do processo criativo da escrita como poucas vezes foi feito no jornalismo cultural. Não é à toa que se tornaram um exemplo do que deve ser feito – e, para nós da Dicta, são a nossa meta de qualidade quando fazemos entrevistas como a de Ferreira Gullar e a de Roberto Minczuk.

Entre os nomes mais alentados por este que vos escreve, temos Geoffrey Hill, Yves Bonnefoy, David Mitchell, Javier Mariás, William Faulkner, Graham Greene, entre outros que, se você tem respeito pelo o que a solitária da arte faz contigo, sem dúvida ficará deliciado com o que descobrirá.

4 comentários em “A parábola da solitária

  1. Ninguém nunca agradece, mas se não fosse posts como esse talvez pessoas como eu jamais encontrariam tais diamentes, então muito agradecida por dividir!

  2. Cara Pri:

    Sou eu quem agradeço por ter feito isso. Nos dias de hoje, é raro alguém ser grato por aquilo que fazemos.

    Obrigado,

    Martim

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