A vingança de Thomas More

Bem, novamente, alguns leitores caíram na minha “pegadinha” filosófica: recebi comentários e e-mails querendo a minha cabeça só porque falei mal de Heidegger e Hannah Arendt.

Agora, continuando o meu método de querer ficar cada vez mais impopular, vou fazer algo realmente chocante: elogiarei a Igreja Católica.

Não sei se todos sabem, mas há cerca de duas semanas, o papa Bento XVI fez algo realmente revolucionário, muito mais revolucionário do que todas as ações em conjunto da Teologia da Libertação.

Ele chamou os sacerdotes anglicanos ditos “conservadores” para a Igreja Católica e disse que eles poderiam usufruir dos sacramentos e dos rituais católicos à vontade, além de manterem seus votos matrimoniais com suas respectivas esposas.

Os tais sacerdotes anglicanos estariam insatisfeitos com a Igreja Anglicana porque, nos últimos tempos, ela estaria sendo um tanto “liberal” sobre assuntos como os casamentos homossexuais, políticas sociais e questões culturais, como, por exemplo, a invasão do islamismo radical e o exagero de celebridades que tocam suas canções em funerais e celebrações religiosas, em troca dos tradicionais hinos.

(E talvez o grande mistério dessa situação é descobrir como um sujeito tão inteligente como Rowan Williams, o atual Arcebispo de Canterbury e autor de um dos melhores livros que já li sobre teologia – The Wound of Knowledge, indicado a mim por Bruno Tolentino -, pode ter se transformado em um imbecil completo, vendido às causas politicamente corretas mais infames do nosso tempo)

É claro que os epígonos da teologia – como Hans Küng, por exemplo – já começaram a reclamar. Viram nessa atitude uma forma de “totalitarismo religioso tradicionalista conservador”, seja lá o que for isso.

Obviamente, isso é uma besteira. O que Bento XVI fez foi resolver um problema que já existe há cerca de mais de quinhentos anos – chamado de A Revolução Protestante – que causou, pelo menos, milhares de mártires, tanto no lado dos católicos como dos protestantes, como também dois santos reconhecidos: S. John Fisher e S. Thomas More.

Se o problema foi devidamente resolvido, isso já é outra história. Afinal, uma crise que perpassa e que, de certa forma, criou todo o eixo religioso da modernidade e da pós-modernidade, não terminará da noite para o dia. Mas o fato é que, com a abertura dada por Bento XVI – um papa que se equilibra como pode, às vezes dando uma no ferro, outra na ferradura (veja a polêmica encíclica Caritas in Veritate) – , a comunhão entre os cristãos se fortalece e, lógico, isso só poderia ser feito por alguém que tem a certeza de que é o pai de todos.

Se você quiser saber mais sobre o assunto e seu impacto cultural – um impacto que, certamente, terá conseqüências duradouras (e, esperamos, para melhor) no curso da História simplesmente porque a Igreja olha sob o aspecto da eternidade – leia este fantástico texto de James Bowman.

E que venham as pedras!

5 comentários em “A vingança de Thomas More

  1. Lembrei disso aqui:

    “Venero com todas as minhas forças a Roma de Pedro e de Paulo, banhada pelo sangue dos mártires, centro donde tantos saíram para propagar por todo o mundo a palavra salvadora de Cristo. Ser romano não implica nenhum particularismo, mas ecumenismo autêntico. Representa o desejo de dilatar o coração, de abri-lo a todos com as ânsias redentoras de Cristo, que a todos procura e a todos acolhe, porque a todos amou primeiro.” (Amar a Igreja, 28. S. Josemaría Escrivá)

    Acho que as pedras também virão a mim.

  2. Pois é Martim. Eu também estou muito feliz com essa notícia!

    Mas a ação da Igreja católica vai ainda mais longe.

    Paróquias inteiras do anglicanismo poderão “vir para Roma”, e terão sua própria autoridade (ou seja, um anglicano de Londres que se converter não será diretamente submisso ao atual bispo católico de Londres) e, o que é ainda mais inovador, poderão manter a própria liturgia anglicana, com as alterações mínimas necessárias para o catolicismo.

    O que acontecia antes é que um anglicano, cansado do caos teológico e doutrinal de sua Igreja vinha para a Igreja católica, o que significava começar a freqüentar a paróquia católica de sua região. Ora, mas muitas vezes o padre católico era ainda mais liberal, e a liturgia da igreja católica mais relaxada e cheia de abusos, do que era na paróquia anglicana.

    Com a nova medida, o anglicanismo muda apenas os pontos estritamente essenciais (aceitar a autoridade do papa, os dogmas acerca da Virgem Maria, etc) e mantém todo o resto da prática anglicana. É algo muito inovador e animador, pois permite conversões e preocupa-se em preservar o que há de bom na cultura anglicana.

  3. Na verdade a Igreja que perdeu uma nação por causa de um sacramento apenas está dizendo um slogan que vai ficando popular – Católicos , voltem para casa. Quanto a Sao Thomas Morus é um exemplo de que vale mais a pena ficar com a convicção sincera, mesmo que se morra, mesmo que se tenha de esperar por meio milênio. Parabéns BENEDICTUS XVI. Parabéns ao articulista, excelente artigo.

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