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Dicta na Flip 2 – Em busca do debate perdido

Filed under: Literatura incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 8 de julho de 2011

Por Fabio S. Cardoso

A primeira mesa do dia foi fraca. Atenção, nada de errado com os convidados – a inglesa Carol Ann Duffy, poeta laureada, e o brasileiro Paulo Henriques Britto, poeta premiado. Sob a mediação de Liz Calder, a presidente da Flip, os poetas leram seus respectivos textos, fizeram troça de si mesmos, arrancando algum riso do público e a simpatia da audiência, mas, a rigor, não houve nada além disso. Em outras palavras, em que pese a importância dos convidados, como estes jogaram by the book a sensação é de que não tinham mais nada a dizer do que ler os seus textos e responderem de forma previsível às questões que se seguiram. Uma delas, feita por Liz Calder, mostra o nível do debate: “Como professores e poetas, vocês acham possível ensinar poesia a alguém?” E o curioso é que, até mesmo nessa resposta, o comportamento dos palestrantes foi (excessivamente?) exemplar: enquanto Carol Ann Duffy discorreu sobre a importância de ensinar a ler os textos certos, Paulo Henriques Britto destacou a possibilidade de mostrar quais são os mecanismos da poesia aos interessados, o que não é garantia, enfatizou, que alguém irá se tornar um bom poeta em seguida. Nesse ritmo, uma hora depois (parecia bem mais), o debate estava encerrado.

Logo depois do almoço, o jornalista Marcos Augusto Gonçalves foi o mediador da mesa que contou com a presença da jornalista e escritora Márcia Camargos e do crítico e professor titular da Universidade de Buenos Aires, Gonzalo Aguilar. Se no dia anterior a discussão sobre Oswald de Andrade tinha ficado entre o brejeiro e o proto-conceitual, tanto a escritora brasileira quanto o acadêmico argentino conseguiram demarcar a importância do ponto de vista literário do modernista brasileiro. Dito de outra maneira, enquanto Márcia Camargos resgatou biograficamente a importância de Oswald de Andrade (de forma bem clara e didática, diga-se), Gonzalo Aguilar “problematizou” a visão do autor do manifesto antropófago. Tudo muito bem pontuado, e a palestra funcionando, mas resta um problema: a impressão, cada vez mais crescente, de que, a não ser pelos estudiosos, não há leitor comum de Oswald de Andrade. A visita à história do modernismo, movimento cultural que se assume como hegemônico na História da Cultura brasileira no século XX, evidencia que pouco se conhece efetivamente dos textos de Oswald. E a Flip se mostra numa tentativa inglória de apresentar ao público essa obra-prima que poucos leram, e esse gênio que se divide entre o polemista verborrágico e o teórico que poucos compreenderam.

Lá pela terceira mesa, sem qualquer grande expectativa, Caryl Phillips e Kamila Shemsia fizeram o debate dos autores au-delà do cânone ocidental. O que isso quer dizer? No caso de Caryl Phillips, trata-se da perspectiva do autor em trânsito (que, em tese, toma como referência o ponto de vista do colonizado). Já em Kamila Shemsia, isso significa articular referências que estão nos estertores de uma hecatome nuclear – na verdade, o mote para o romance que acaba de publicar no Brasil, “Sombras queimadas”. Atenciosos e educados, ambos os autores enfatizaram a importância do evento no cenário internacional, destacando o quanto ansiavam por serem convidados (e aqui alguém poderá dizer que essa necessidade é coisa de subdesenvolvido, mas não cuidemos dessas máscaras). O que se destacou nesse encontro foi o fato de que ambos os autores tomarem como norte de seu discurso a questão do não-pertencimento.  De forma bem humorada, Phillips salientou o quanto se sentiu pertencente à classe trabalhadora quando foi estudar em Oxford. Por sua vez, Kamila Shemsia confessou que, em sua visão, o artista precisa se sentir afastado do lugar onde está. É uma ideia bastante conveniente para um autor estrangeiro, da mesma forma como a crítica aos Estados Unidos, ao final da palestra, pareceu um lugar-comum desnecessário.

“O Humano além do Humano” era a última mesa do dia. Coincidência ou não, havia a sensação de que era a mesa mais esperada. De um lado, o neurocientista Miguel Nicolelis, autor do elogiado “Muito Além do nosso eu”  e pesquisador responsável pela busca da interface cérebro-máquina. De outro lado, Luiz Felipe Pondé, filósofo e autor, entre outros, dos livros “Crítica e Profecia : a Filosofia da Religião em Dostoiévski” e “Do pensamento no deserto”. Sob a mediação da jornalista Laura Greenhalgh, os dois promoveram um debate aparentemente elegante e sofisticado.  O “aparentemente”, no entanto, sugere que houve uma fricção nas duas falas que foi absolutamente perceptível, ainda que não em estado patente. Trocando em miúdos, a discordância entre o cientista e o filósofo era de ordem elementar e, ainda assim, o “confronto bélico” não aconteceu. Em vez disso, houve uma guerra fria entre a perspectiva otimista e pragmática de Nicolelis (um rematado palmeirense) e o ceticismo provocador e crítico de Pondé (outro rematado palmeirense). E não pára por aí: ao longo de sua meticulosamente estudada apresentação, Nicolelis, com recursos audiovisuais e explicação didática, deu uma aula com respostas sobre o que pode ser o humano, um futuro em que a interface cérebro-máquina pode resultar na recuperação de um garoto tetraplégico – que, conforme ambição do cientista, pode dar o pontapé inicial na Copa do Mundo de 2014 no Brasil. Ao expor essa utopia, Nicolelis (de voz embargada, quase às lágrimas) literalmente ganhou o público, que evidentemente já estava predisposto a ser conquistado por sua proposta. Pondé, por seu turno, fez uma exposição que remontou à filosofia para mostrar que não é a solução final que tornará nossa existência mais plena ou completa. E sublinhou: o que torna humano o ser humano é o sofrimento. Eis o cerne da questão: como cético que é, Pondé sutilmente questionou a perspectiva de Nicolelis. Este, a não ser por uma ironia lançada no fim, não quis polemizar. Com mais potencial para um debate devastador, um dos argüidores simplesmente não aceitou o convite. Quem perdeu com essa conciliação, ainda que forçada, foi o público.

Fabio S. Cardoso é jornalista e professor universitário.


Comments (3)

3 Comentários »

  1. Parece haver uma indisposição gratuita. Se for para fazer cobertura com essa má vontade, é melhor não fazer nenhuma. A impressão que dá é que estão lá dispostos a não gostar de nada!
    A cobertura do Sérgio Rodrigues, do TodoProsa, tem tratado de maneira menos rabugenta as mesas do evento.

    Comentário by Anônimo — 8 de julho de 2011 @ 12:05 pm

  2. Oswald de Andrade é um “gênio”? Autor de uma “obra-prima”? Que época!

    Comentário by Cardo — 8 de julho de 2011 @ 4:52 pm

  3. Miguel Nicolelis não aceitou o convite a um debate mais polêmico por um simples motivo: ele sabia que o Pondé só estava desfiando suas velhas abobrinhas de “oh, como a vida é trágica e o ser humano é um ser condenado”, que, aliás, parece ser a única coisa que ele consegue falar em um debate. Sinceramente? Fiquei com vergonha alheia do Pondé. Ele está cada dia mais repetitivo e monótono.

    Comentário by Tadeo Isidoro — 10 de julho de 2011 @ 2:25 pm

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