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	<title>Comentários sobre: Discutindo mentiras</title>
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	<description>Leituras interessantes e bases para a formação cultural</description>
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		<title>Por: Joel Pinheiro</title>
		<link>http://www.dicta.com.br/discutindo-mentiras/comment-page-1/#comment-1733</link>
		<dc:creator>Joel Pinheiro</dc:creator>
		<pubDate>Mon, 13 Jul 2009 01:20:45 +0000</pubDate>
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		<description>Bom, estive fora por uma semana, e só voltei agora. Não vou recomeçar debate já esfriado, apenas delinear algumas respostas que eu daria.

Júlio, obrigado pelos comentários. Concordo que a prudência seja sempre importante; contudo, dizer que &quot;é preciso prudência para resolver&quot; não ajuda a resolver a questão, porque esse mesmo comentário pode ser feito à toda e qualquer questão moral. A pergunta é: existe alguma situação em que seja correto dizer o contrário do que se acredita ser a verdade com a intenção de convencer o interlocutor disso?

Em Tomás de Aquino não encontro uma definição de mentira que inclua o direito do outro a saber a verdade. Encontro, isso sim, passagens em que ele define a mentira da maneira tradicional e de senso comum, que é manifestar externamente o contrário daquilo que se acredita, com a intenção de enganar a outra pessoa.
E ele é bem explícito em dizer que não se pode mentir nem mesmo para evitar um homicídio. Concede o direito de ocultar a verdade, mas nunca de manifestar algo que se sabe falso.

Em todo caso, não se trata de procurar autoridades para defender esta ou aquela posição, mas sim de entender como o problema era tratado. O direito da outra pessoa de saber a verdade é relevante? Parece razoável dizer que sim.

Concordo que a moral não é um &quot;sistema&quot;; não ficou claro para mim o que na minha posição você ataca ao dizer isso. Até onde posso ver, tratamos a questão de forma similar, apesar de discordar em algumas definições.

Felipe Coelho: A distinção feita por você parece válida (não por ela ter vindo de um manual de moral, mas por ser, em seus próprios méritos, relevante): em alguns casos, uma afirmaçào pode ser levada em mais de um sentido, e espera-se que o interlocutor a quem se quer enganar interprete-a no sentido contrário do que pensamos.

Algumas expressões, pelo uso, acabam adquirindo sentidos mais amplos. &quot;Ela não está&quot;, de fato, é uma fórmula que, no uso comum, já significa &quot;ela não pode atender&quot;. Agora, no caso do oficial nazista esse certamente não é o caso. A situação é bem clara de que a resposta só pode ter um sentido.

Outra questão: o direito do oficial de saber se há um judeu na casa depende da finalidade que ele quer dar a esse conhecimento? E se ele perguntasse apenas para fazer um censo populacional, seria ainda assim moralmente correto responder &quot;não&quot; para ele?

Bom, isso fica para outras discussões.</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>Bom, estive fora por uma semana, e só voltei agora. Não vou recomeçar debate já esfriado, apenas delinear algumas respostas que eu daria.</p>
<p>Júlio, obrigado pelos comentários. Concordo que a prudência seja sempre importante; contudo, dizer que &#8220;é preciso prudência para resolver&#8221; não ajuda a resolver a questão, porque esse mesmo comentário pode ser feito à toda e qualquer questão moral. A pergunta é: existe alguma situação em que seja correto dizer o contrário do que se acredita ser a verdade com a intenção de convencer o interlocutor disso?</p>
<p>Em Tomás de Aquino não encontro uma definição de mentira que inclua o direito do outro a saber a verdade. Encontro, isso sim, passagens em que ele define a mentira da maneira tradicional e de senso comum, que é manifestar externamente o contrário daquilo que se acredita, com a intenção de enganar a outra pessoa.<br />
E ele é bem explícito em dizer que não se pode mentir nem mesmo para evitar um homicídio. Concede o direito de ocultar a verdade, mas nunca de manifestar algo que se sabe falso.</p>
<p>Em todo caso, não se trata de procurar autoridades para defender esta ou aquela posição, mas sim de entender como o problema era tratado. O direito da outra pessoa de saber a verdade é relevante? Parece razoável dizer que sim.</p>
<p>Concordo que a moral não é um &#8220;sistema&#8221;; não ficou claro para mim o que na minha posição você ataca ao dizer isso. Até onde posso ver, tratamos a questão de forma similar, apesar de discordar em algumas definições.</p>
<p>Felipe Coelho: A distinção feita por você parece válida (não por ela ter vindo de um manual de moral, mas por ser, em seus próprios méritos, relevante): em alguns casos, uma afirmaçào pode ser levada em mais de um sentido, e espera-se que o interlocutor a quem se quer enganar interprete-a no sentido contrário do que pensamos.</p>
<p>Algumas expressões, pelo uso, acabam adquirindo sentidos mais amplos. &#8220;Ela não está&#8221;, de fato, é uma fórmula que, no uso comum, já significa &#8220;ela não pode atender&#8221;. Agora, no caso do oficial nazista esse certamente não é o caso. A situação é bem clara de que a resposta só pode ter um sentido.</p>
<p>Outra questão: o direito do oficial de saber se há um judeu na casa depende da finalidade que ele quer dar a esse conhecimento? E se ele perguntasse apenas para fazer um censo populacional, seria ainda assim moralmente correto responder &#8220;não&#8221; para ele?</p>
<p>Bom, isso fica para outras discussões.</p>
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	<item>
		<title>Por: Felipe Coelho</title>
		<link>http://www.dicta.com.br/discutindo-mentiras/comment-page-1/#comment-1692</link>
		<dc:creator>Felipe Coelho</dc:creator>
		<pubDate>Thu, 09 Jul 2009 21:42:00 +0000</pubDate>
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		<description>Prezados amigos, Ave Maria Puríssima!

Chego meio atrasado ao debate, mas não posso deixar de notar que bastaria abrir um bom manual de moral para ter a resposta, tintim-por-tintim.

Por exemplo, Frei Royo Marin OP, tomista, na clássica Teología Moral para Seglares (B.A.C.), explica que a restrição mental pode equivaler ou não à mentira, dependendo de se é restrição mental estrita ou lata. O Wagner lembrou bem da pertinência da restrição mental, mas faltou acrescentar essa distinção.

Toda mentira é imoral, por menor que seja, do contrário os fins justificariam os meios, o que é evidentemente inaceitável. 

Exemplo clássico: se (por absurdo) contando uma mentirinha oficiosa se conseguisse tirar todas as almas do inferno e do purgatório, ainda assim não se a poderia dizer. Parece duro para quem não se atém com frieza aos princípios, mas é assim: jamais se pode ofender Deus, portanto jamais se pode mentir.

O exemplo do mau jesuíta é igual a uma mentira pura e simples, portanto imoral. Por quê? Porque não havia como quem perguntou nem sequer imaginar aquilo que o mau jesuíta acrescentou, só no pensamento, ao que efetivamente disse. Logo, esse tipo de restrição mental é uma mentira.

Já o exemplo da resposta ao telefone é uma restrição mental lícita e está errado dizer que seja mentira, como se faz no início do artigo: &quot;Não, minha mulher não está... (e em pensamento:) para atender o telefone&quot;. Pois quem liga prevê que a pessoa com que deseja falar possa estar ocupada e sem poder atender.

Sempre que é possível, pelo contexto, imaginar a verdade, ainda que o primeiro e mais imediato sentido do que é dito induza a pensar o contrário, nesse caso não há mentira propriamente dita, mas aquele tipo de restrição mental que, em certos casos, é lícita e até mesmo obrigatória.

O mesmo se aplica à resposta ao nazista, ou, para citar o exemplo clássico, à resposta do sacerdote sobre se sabe algo que ele ouviu no sacramento da penitência: um rotundo &quot;Não&quot;, isto é, &quot;Não, não sei... para lhe dizer&quot; (aliás, neste caso, ele praticamente não sabe nem para dizer a si mesmo, por assim dizer).

Pois se quem pergunta não tem o direito de perguntar, então prevê que possivelmente não obterá a resposta adequada; logo, não há mentira. (Sobre isso o Julio Lemos já tratou suficientemente).

No caso de Esaú e Jacó, o fato de Deus ter aprovado a bênção já dada não significa que tenha aprovado a mentirinha por meio da qual foi obtida, nem tampouco me parece claro que a Sagrada Escritura a aprove. Os Santos Padres parecem discordantes no que toca a essa questão, mas jamais me aprofundei e, como eles só têm autoridade vinculante quando em consenso etc., isso não me tira o sono.

Enfim, com certeza teria sido mais claro apenas citar quem explica isso melhor (por exemplo a obra referida no início), mas espero que esse improviso tenha dado para entender.

Abraços,
Em JMJ,
Felipe Coelho</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>Prezados amigos, Ave Maria Puríssima!</p>
<p>Chego meio atrasado ao debate, mas não posso deixar de notar que bastaria abrir um bom manual de moral para ter a resposta, tintim-por-tintim.</p>
<p>Por exemplo, Frei Royo Marin OP, tomista, na clássica Teología Moral para Seglares (B.A.C.), explica que a restrição mental pode equivaler ou não à mentira, dependendo de se é restrição mental estrita ou lata. O Wagner lembrou bem da pertinência da restrição mental, mas faltou acrescentar essa distinção.</p>
<p>Toda mentira é imoral, por menor que seja, do contrário os fins justificariam os meios, o que é evidentemente inaceitável. </p>
<p>Exemplo clássico: se (por absurdo) contando uma mentirinha oficiosa se conseguisse tirar todas as almas do inferno e do purgatório, ainda assim não se a poderia dizer. Parece duro para quem não se atém com frieza aos princípios, mas é assim: jamais se pode ofender Deus, portanto jamais se pode mentir.</p>
<p>O exemplo do mau jesuíta é igual a uma mentira pura e simples, portanto imoral. Por quê? Porque não havia como quem perguntou nem sequer imaginar aquilo que o mau jesuíta acrescentou, só no pensamento, ao que efetivamente disse. Logo, esse tipo de restrição mental é uma mentira.</p>
<p>Já o exemplo da resposta ao telefone é uma restrição mental lícita e está errado dizer que seja mentira, como se faz no início do artigo: &#8220;Não, minha mulher não está&#8230; (e em pensamento:) para atender o telefone&#8221;. Pois quem liga prevê que a pessoa com que deseja falar possa estar ocupada e sem poder atender.</p>
<p>Sempre que é possível, pelo contexto, imaginar a verdade, ainda que o primeiro e mais imediato sentido do que é dito induza a pensar o contrário, nesse caso não há mentira propriamente dita, mas aquele tipo de restrição mental que, em certos casos, é lícita e até mesmo obrigatória.</p>
<p>O mesmo se aplica à resposta ao nazista, ou, para citar o exemplo clássico, à resposta do sacerdote sobre se sabe algo que ele ouviu no sacramento da penitência: um rotundo &#8220;Não&#8221;, isto é, &#8220;Não, não sei&#8230; para lhe dizer&#8221; (aliás, neste caso, ele praticamente não sabe nem para dizer a si mesmo, por assim dizer).</p>
<p>Pois se quem pergunta não tem o direito de perguntar, então prevê que possivelmente não obterá a resposta adequada; logo, não há mentira. (Sobre isso o Julio Lemos já tratou suficientemente).</p>
<p>No caso de Esaú e Jacó, o fato de Deus ter aprovado a bênção já dada não significa que tenha aprovado a mentirinha por meio da qual foi obtida, nem tampouco me parece claro que a Sagrada Escritura a aprove. Os Santos Padres parecem discordantes no que toca a essa questão, mas jamais me aprofundei e, como eles só têm autoridade vinculante quando em consenso etc., isso não me tira o sono.</p>
<p>Enfim, com certeza teria sido mais claro apenas citar quem explica isso melhor (por exemplo a obra referida no início), mas espero que esse improviso tenha dado para entender.</p>
<p>Abraços,<br />
Em JMJ,<br />
Felipe Coelho</p>
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	</item>
	<item>
		<title>Por: Ricardo Leal</title>
		<link>http://www.dicta.com.br/discutindo-mentiras/comment-page-1/#comment-1650</link>
		<dc:creator>Ricardo Leal</dc:creator>
		<pubDate>Sat, 04 Jul 2009 13:02:56 +0000</pubDate>
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		<description>Entendo muito bem colocados os comentários 11 e 12. Talvez ajude ainda lembrar que, do ponto de vista cristão, a virtude da prudência associa-se necessariamente a um discernimento que transcende o plano da subjetividade:   http://www.catholiceducation.org/articles/religion/re0919.htm</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>Entendo muito bem colocados os comentários 11 e 12. Talvez ajude ainda lembrar que, do ponto de vista cristão, a virtude da prudência associa-se necessariamente a um discernimento que transcende o plano da subjetividade:   <a href="http://www.catholiceducation.org/articles/religion/re0919.htm" rel="nofollow">http://www.catholiceducation.org/articles/religion/re0919.htm</a></p>
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	</item>
	<item>
		<title>Por: Julio Lemos</title>
		<link>http://www.dicta.com.br/discutindo-mentiras/comment-page-1/#comment-1649</link>
		<dc:creator>Julio Lemos</dc:creator>
		<pubDate>Sat, 04 Jul 2009 08:36:31 +0000</pubDate>
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		<description>Talvez essas palavras de Eric Stoutz ajudem a entender a mudança na segunda versão do CIC:

&quot;Some differences of interest did concern content. The wording explaining the nature of a lie was changed. The first edition, number 2483 defines lying as &quot;to speak or act against the truth in order to lead into error someone who has the right to know the truth.&quot; This last clause &quot;who has the right to know the truth&quot; was deleted from the revised Catechism because it was more confusing than helpful for a number of the faithful. 

Properly understood there is no doubt that the older formula is valid. The notion of &quot;lying&quot; can never be considered apart from the issue of the kind of truth being sought, the party who is seeking the truth, and whether they are really entitled to it (the classic case of Nazi&#039;s demanding to know whether there are Jews in the house).&quot;

De qualquer modo, concordo totalmente com você quando diz que uma noção mais flexível é sempre perigosa. De modo que Ratzinger não foi bobo ao aceitar a sugestão e mudar o texto. 

Mais flexibilidade na definição, mais sutileza exigida: mais sutileza, mais lassidão, ao menos para a maioria...

Parecem haver duas escolas sutilmente diferentes, embora envolvam justamente o problema da prudência e da maturidade no que diz respeito à decisão moral. Por isso não devemos encarar a moral como um sistema. A questão nunca termina se não reconhecemos esse ponto.</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>Talvez essas palavras de Eric Stoutz ajudem a entender a mudança na segunda versão do CIC:</p>
<p>&#8220;Some differences of interest did concern content. The wording explaining the nature of a lie was changed. The first edition, number 2483 defines lying as &#8220;to speak or act against the truth in order to lead into error someone who has the right to know the truth.&#8221; This last clause &#8220;who has the right to know the truth&#8221; was deleted from the revised Catechism because it was more confusing than helpful for a number of the faithful. </p>
<p>Properly understood there is no doubt that the older formula is valid. The notion of &#8220;lying&#8221; can never be considered apart from the issue of the kind of truth being sought, the party who is seeking the truth, and whether they are really entitled to it (the classic case of Nazi&#8217;s demanding to know whether there are Jews in the house).&#8221;</p>
<p>De qualquer modo, concordo totalmente com você quando diz que uma noção mais flexível é sempre perigosa. De modo que Ratzinger não foi bobo ao aceitar a sugestão e mudar o texto. </p>
<p>Mais flexibilidade na definição, mais sutileza exigida: mais sutileza, mais lassidão, ao menos para a maioria&#8230;</p>
<p>Parecem haver duas escolas sutilmente diferentes, embora envolvam justamente o problema da prudência e da maturidade no que diz respeito à decisão moral. Por isso não devemos encarar a moral como um sistema. A questão nunca termina se não reconhecemos esse ponto.</p>
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	</item>
	<item>
		<title>Por: Julio Lemos</title>
		<link>http://www.dicta.com.br/discutindo-mentiras/comment-page-1/#comment-1648</link>
		<dc:creator>Julio Lemos</dc:creator>
		<pubDate>Sat, 04 Jul 2009 08:19:13 +0000</pubDate>
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		<description>A definição do Catecismo, em sua primeira versão, é a seguinte: 2483. &quot;Mentir é falar ou agir contra a verdade com o objetivo de enganar alguém *que tem o direito de saber a verdade*&quot;. 

Há alguns anos, creio eu, a última parte foi retirada na nova versão, provavelmente em razão de uma sutileza teológica (de modo algum para alterar a doutrina clássica). O fato dela constar na primeira edição é uma prova de que não consiste num erro tout court. Acredito que seja para evitar julgamentos precipitados, do tipo &quot;ah, ele não tem o direito de saber&quot;, quando a rigor o tem.

O direito de saber a verdade não só é um ponto clássico na discussão, como é a doutrina oficial em teologia moral.

Para que seja uma mentira, é preciso que (i) o fato seja objetivamente falso, (ii) seja dito com o objetivo de enganar e (iii) seja cometido contra quem tenha o direito de saber a verdade. Se uma só dessas condições não estiver presente, não se trata de uma mentira, sequer venial.

No caso do nazista, o fato é objetivamente falso, tem como objetivo salvar a vida de um judeu e, por fim, é dito a um criminoso que não tem sequer o mínimo direito de saber a verdade.

E justamente, Joel: &quot;o que um prudente faria&quot; implica um caso concreto; a minha referência à prudência tira à discussão o seu caráter puramente sistêmico.

A doutrina de Aquino não discute casos práticos, mas os seus princípios são totalmente válidos. Cabe em cada caso, em que nos envolvamos direta ou indiretamente, decidir. Se for uma mentira, então é uma mentira. Não é possível ir além disso em termos ideais e &quot;sistêmicos&quot;, e Aquino sabia disso.

Pode-se, por exemplo, usar um passaporte falso em caso de guerra, em certas circunstâncias, a fim de salvar a própria e a vida de outros. Não tem como objetivo enganar as autoridades, aliás ilegitimamente constituídas, do Estado de exceção, e etc.</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>A definição do Catecismo, em sua primeira versão, é a seguinte: 2483. &#8220;Mentir é falar ou agir contra a verdade com o objetivo de enganar alguém *que tem o direito de saber a verdade*&#8221;. </p>
<p>Há alguns anos, creio eu, a última parte foi retirada na nova versão, provavelmente em razão de uma sutileza teológica (de modo algum para alterar a doutrina clássica). O fato dela constar na primeira edição é uma prova de que não consiste num erro tout court. Acredito que seja para evitar julgamentos precipitados, do tipo &#8220;ah, ele não tem o direito de saber&#8221;, quando a rigor o tem.</p>
<p>O direito de saber a verdade não só é um ponto clássico na discussão, como é a doutrina oficial em teologia moral.</p>
<p>Para que seja uma mentira, é preciso que (i) o fato seja objetivamente falso, (ii) seja dito com o objetivo de enganar e (iii) seja cometido contra quem tenha o direito de saber a verdade. Se uma só dessas condições não estiver presente, não se trata de uma mentira, sequer venial.</p>
<p>No caso do nazista, o fato é objetivamente falso, tem como objetivo salvar a vida de um judeu e, por fim, é dito a um criminoso que não tem sequer o mínimo direito de saber a verdade.</p>
<p>E justamente, Joel: &#8220;o que um prudente faria&#8221; implica um caso concreto; a minha referência à prudência tira à discussão o seu caráter puramente sistêmico.</p>
<p>A doutrina de Aquino não discute casos práticos, mas os seus princípios são totalmente válidos. Cabe em cada caso, em que nos envolvamos direta ou indiretamente, decidir. Se for uma mentira, então é uma mentira. Não é possível ir além disso em termos ideais e &#8220;sistêmicos&#8221;, e Aquino sabia disso.</p>
<p>Pode-se, por exemplo, usar um passaporte falso em caso de guerra, em certas circunstâncias, a fim de salvar a própria e a vida de outros. Não tem como objetivo enganar as autoridades, aliás ilegitimamente constituídas, do Estado de exceção, e etc.</p>
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	</item>
	<item>
		<title>Por: Ricardo Leal</title>
		<link>http://www.dicta.com.br/discutindo-mentiras/comment-page-1/#comment-1646</link>
		<dc:creator>Ricardo Leal</dc:creator>
		<pubDate>Sat, 04 Jul 2009 04:58:53 +0000</pubDate>
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		<description>a) Outro, Fileleno: o episódio da passagem da herança de Isaac a Jacó em Gn, 27. Embaraçoso para muitos leitores, o ardil na realidade evitou que o terceiro patriarca fosse o Esaú amigo das lentilhas. O Salmo 134 (135), 4, aponta Deus mesmo por trás da escolha de &quot;Jacó, seu servidor&quot;. b) &quot;A moral não é um sistema. O que diz, na prática, o que é melhor é a prudência. &quot; A afirmação do Lemos é rigorosamente aristotélica. Está lá na Ética a Nicômaco; wikipedia to the rescue: “Virtue (arete) then is a settled disposition of the mind determining the choice of actions and emotions, consisting essentially in the observance of the mean relative to us, this being determined by principle, that is, as the prudent man would determine it.” (Book II, Ch. 6).  c)  Na mesma linha, muitos lembrarão, vg, de São Josémaria fingindo-se de louco durante a perseguição na Espanha dos anos 30. d)  Sei de muita gente séria, entretanto, que se lembra de Santo Tomás como na alusão de  JP. O assunto rende.</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>a) Outro, Fileleno: o episódio da passagem da herança de Isaac a Jacó em Gn, 27. Embaraçoso para muitos leitores, o ardil na realidade evitou que o terceiro patriarca fosse o Esaú amigo das lentilhas. O Salmo 134 (135), 4, aponta Deus mesmo por trás da escolha de &#8220;Jacó, seu servidor&#8221;. b) &#8220;A moral não é um sistema. O que diz, na prática, o que é melhor é a prudência. &#8221; A afirmação do Lemos é rigorosamente aristotélica. Está lá na Ética a Nicômaco; wikipedia to the rescue: “Virtue (arete) then is a settled disposition of the mind determining the choice of actions and emotions, consisting essentially in the observance of the mean relative to us, this being determined by principle, that is, as the prudent man would determine it.” (Book II, Ch. 6).  c)  Na mesma linha, muitos lembrarão, vg, de São Josémaria fingindo-se de louco durante a perseguição na Espanha dos anos 30. d)  Sei de muita gente séria, entretanto, que se lembra de Santo Tomás como na alusão de  JP. O assunto rende.</p>
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	</item>
	<item>
		<title>Por: Fileleno</title>
		<link>http://www.dicta.com.br/discutindo-mentiras/comment-page-1/#comment-1640</link>
		<dc:creator>Fileleno</dc:creator>
		<pubDate>Fri, 03 Jul 2009 22:52:25 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://www.dicta.com.br/?p=571#comment-1640</guid>
		<description>Um pequeno trecho bíblico que sempre merece ser lembrado nessas discussões: Êxodo 1:15-21.</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>Um pequeno trecho bíblico que sempre merece ser lembrado nessas discussões: Êxodo 1:15-21.</p>
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	</item>
	<item>
		<title>Por: Joel Pinheiro</title>
		<link>http://www.dicta.com.br/discutindo-mentiras/comment-page-1/#comment-1637</link>
		<dc:creator>Joel Pinheiro</dc:creator>
		<pubDate>Fri, 03 Jul 2009 21:09:12 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://www.dicta.com.br/?p=571#comment-1637</guid>
		<description>Vou aproveitar para resgatar a honra dos jesuítas: muitos deles não aceitavam a restrição mental. Ela era um tema de debate dentro da ordem, e nunca foi algo ampla ou facilmente aceito.

O fato é que pegou muito mal para eles, especialmente na Inglaterra, onde o lado contrário apressava-se em exagerar ou inventar delitos e imoralidades em propagandas anti-católicas de baixo nível. Por muito tempo, o Catolicismo era (mal) interpretado como uma religião na qual os fins justificam os meios: para defender a Igreja, seria permitido mentir e até assassinar.</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>Vou aproveitar para resgatar a honra dos jesuítas: muitos deles não aceitavam a restrição mental. Ela era um tema de debate dentro da ordem, e nunca foi algo ampla ou facilmente aceito.</p>
<p>O fato é que pegou muito mal para eles, especialmente na Inglaterra, onde o lado contrário apressava-se em exagerar ou inventar delitos e imoralidades em propagandas anti-católicas de baixo nível. Por muito tempo, o Catolicismo era (mal) interpretado como uma religião na qual os fins justificam os meios: para defender a Igreja, seria permitido mentir e até assassinar.</p>
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	</item>
	<item>
		<title>Por: Wagner</title>
		<link>http://www.dicta.com.br/discutindo-mentiras/comment-page-1/#comment-1636</link>
		<dc:creator>Wagner</dc:creator>
		<pubDate>Fri, 03 Jul 2009 19:52:31 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://www.dicta.com.br/?p=571#comment-1636</guid>
		<description>Joel,

Não conhecia o exemplo dos jesuítas na Inglaterra, mas é a esse conceito que me referia sim.</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>Joel,</p>
<p>Não conhecia o exemplo dos jesuítas na Inglaterra, mas é a esse conceito que me referia sim.</p>
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	</item>
	<item>
		<title>Por: Joel Pinheiro</title>
		<link>http://www.dicta.com.br/discutindo-mentiras/comment-page-1/#comment-1635</link>
		<dc:creator>Joel Pinheiro</dc:creator>
		<pubDate>Fri, 03 Jul 2009 19:36:27 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://www.dicta.com.br/?p=571#comment-1635</guid>
		<description>Wagner:
Bom, a saída do &quot;mal menor&quot; é consequencialismo, é a comparação de diferentes valores. Um grande problema dele é que são coisas impossíveis de se comparar: o que é mais importante: dizer a verdade ou a vida de um inocente? O que é pior: um inocente morrer ou uma mentira grande?

Não gosto nada da idéia da restrição mental. Será que estamos falando da mesma coisa? Por restrição mental entendo algo do tipo que alguns jesuítas supostamente faziam na Inglaterra ao serem perseguidos: um interrogador perguntava: &quot;Você é padre?&quot;, ao que o padre jesuíta respondia em voz alta: &quot;Não sou sacerdote...&quot; e completava apenas mentalmente: &quot;... de Apolo em Delfos&quot;.

É isso que você chama de restrição mental? Se sim, acho uma distinção descabida. Se for lícito fazer essa restrição mental, então é lícito mentir também (tudo o mais constante, claro).

Se se aceita a distinção como moralmente relevante, então a ética se reduz a um jogo de cláusulas mentais e malabarismos de linguagem, sendo que o que está sendo feito é, em todos os sentidos relevantes, a mesma coisa. Em ambos os casos fala-se algo contrário ao que se acredita, com a intenção de enganar quem ouve, para se evitar um fim mau.

Não estou dizendo que a mentira nunca seja lícita. Estou dizendo que, se a restrição mental for, então a mentira também tem que ser (nos mesmos casos).</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>Wagner:<br />
Bom, a saída do &#8220;mal menor&#8221; é consequencialismo, é a comparação de diferentes valores. Um grande problema dele é que são coisas impossíveis de se comparar: o que é mais importante: dizer a verdade ou a vida de um inocente? O que é pior: um inocente morrer ou uma mentira grande?</p>
<p>Não gosto nada da idéia da restrição mental. Será que estamos falando da mesma coisa? Por restrição mental entendo algo do tipo que alguns jesuítas supostamente faziam na Inglaterra ao serem perseguidos: um interrogador perguntava: &#8220;Você é padre?&#8221;, ao que o padre jesuíta respondia em voz alta: &#8220;Não sou sacerdote&#8230;&#8221; e completava apenas mentalmente: &#8220;&#8230; de Apolo em Delfos&#8221;.</p>
<p>É isso que você chama de restrição mental? Se sim, acho uma distinção descabida. Se for lícito fazer essa restrição mental, então é lícito mentir também (tudo o mais constante, claro).</p>
<p>Se se aceita a distinção como moralmente relevante, então a ética se reduz a um jogo de cláusulas mentais e malabarismos de linguagem, sendo que o que está sendo feito é, em todos os sentidos relevantes, a mesma coisa. Em ambos os casos fala-se algo contrário ao que se acredita, com a intenção de enganar quem ouve, para se evitar um fim mau.</p>
<p>Não estou dizendo que a mentira nunca seja lícita. Estou dizendo que, se a restrição mental for, então a mentira também tem que ser (nos mesmos casos).</p>
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