IFE - Instituto de Formação e Educação
RSS

Compre o Livro

Les lettres libres ?

Filed under: Literatura incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 3 de agosto de 2010

E o mundo das letras está em polvorosa.

Os motivos são vários: agora, temos a FLIP, que, por mais que me critiquem, continuo a achar que é uma amostra de esquizofrenia literária (e pelo menos tenho o Marcelo Mirisola ao meu lado neste tópico…), e, desde ontem, finalmente o Prêmio São Paulo de Literatura resolveu premiar um autor que trilhava um caminho solitário e pouco reconhecido – Raimundo Carrero.

Mas na semana passada, seja no Brasil ou no mundo, quem deu o que falar foi o agente Andrew Wylie, apelidado carinhosamente entre seus pares de “O Chacal”.

Wylie tem, em sua carteira de clientes, escritores como Philip Roth, Martin Amis e o espólio de Vladimir Nabokov - enfim, la créme de la créme da língua inglesa. E resolveu fazer o seguinte: criou um selo editorial chamado Odyssey que disponiblizará, sem o intermédio de qualquer editora, à Amazon (via Kindle) os textos de seus clientes, sejam os inéditos ou os já publicados.

Isso foi o que Wylie fez lá fora. Agora, vamos ao que ele fez aqui dentro.

Wylie é um dos intermediários do acordo Penguin-Companhia das Letras que, se der tudo certo, será o responsável por uma revolução (ou um impasse, dependendo de quem olha o evento) peculiar no mercado editorial brasileiro. Foi ele quem apresentou Luiz Schwarcz, da editora brasileira, a John Makinson, da editora inglesa, de acordo com as informações divulgadas pela Folha de São Paulo no dia 24 de julho deste ano (a matéria é só para assinantes).

É uma joint venture que deve abrir os olhos dos publishers. Mais uma vez, a Companhia das Letras muda o eixo do mercado. Podemos reclamar da escolha de seu catálogo – em especial, na área de Humanidades, excessivamente uspiana -, mas não se pode negar que a editora de Luiz Schwarcz estabeleceu um padrão muito alto para a qualidade estética e artística de um livro no Brasil.

A união com a Penguin repete a qualidade- e também segue os padrões internacionais das clássicas publicações inglesas.

E talvez esta seja a principal pedra no sapato.

Se formos iniciar uma série de perguntas a lá Don Draper, a primeira que faço ao leitor é a seguinte: Por que compramos livros da Penguin?

Porque são baratos. Porque são fáceis de transportar. Porque são bem-cuidados. Porque se um deles estragar não terei pena e comprarei um outro exemplar. Enfim, uma infinidade de causas.

Que se resumem a uma só: porque são leves.

Ora, os livros da Penguin-Companhia, por algum motivo que só a gráfica Suzano conhece, são pesados. Não posso levá-los na mochila todos de uma vez. E se eu dobrar um pouco mais a lombada – e devo lembrá-los que o mundo se dividide entre aqueles que quebram os livros na lombada e aqueles que não quebram a lombada, como diria Nelson Ascher -, chorarei sem misericórdia. Além disso, me dá a sensação de ser um fetiche, algo que a Penguin sempre evitou ser (é uma das editoras mais práticas do mundo), mas que é a marca registrada da Companhia das Letras (depois imitada pela Cosac Naify e outras).

Contudo, temos de analisar os livros pelo o que são – o seu conteúdo.

A primeira leva da coleção é seguinte: O princípe, de Maquiavel, com uma nova tradução (a cargo de Maurício Dias Santana, que fez um belo trabalho com o romance Às cegas, de Claudio Magris) e um prefácio de Fernando Henrique Cardoso; Joaquim Nabuco Essencial, uma coletânea de textos do grande estadista brasileiro organizada por Evaldo Cabral de Mello; Pelos olhos de Maisie, a obra-prima de Henry James que, anos depois, Ian McEwan resolveu reescrever sob o nome de Reparação, em uma tradução revista de Paulo Henriques Britto; e O Brasil Holandês, que é anunciada como uma coletânea de textos históricos deste período sobre o qual poucos sabem, mas que na verdade trata-se de um livro primoroso escrito por Evaldo Cabral de Mello.

A nova tradução de O princípe é um exemplo do grande erro da Companhia das Letras: o excessivo apreço pelas coisas da USP. O detalhe mais evidente é o fato de que cada capítulo é anunciado em latim, com sua respectiva tradução em uma nota de rodapé. Um beletrismo que não chega a lugar nenhum. Sobre o prefácio de Fernando Henrique, só se pode dizer uma coisa: é o mais do mesmo, com sua ladainha pseudo-weberiana, e aquela retórica social-democrática que, depois do seu sequestro pelo PT, só engana intelectual brasileiro.

Já a coletânea sobre Joaquim Nabuco só peca por algo que o próprio organizador admite logo na introdução: não dá importância à conversão religiosa que Nabuco teve na meia-idade e que foi responsável por um dos seus livros mais bonitos – Foi Volue (Minha Fé). Ou seja, tiraram a única coisa essencial em um livro que tem no título a intenção de ser o essencial de seu autor. De resto, estão lá as melhores passagens de O abolicionismo, Balmaceda, Um estadista no império e de seus discursos parlamentares.

Os melhores livros da coleção são Pelos olhos de Maisie e O Brasil Colonial. O primeiro volta com uma reedição bem cuidada e com uma introdução de Christopher Ricks, além de acrescentar o ensaio de Henry James sobre a confecção do romance, publicado como um dos prefácios da famosa edição de New York de suas obras. Já o segundo é um primor de reconstituição histórica e uma delícia de leitura, com Evaldo Cabral de Mello sendo o nosso Virgílio pela lendária época de Maurício de Nassau.

Bem, o leitor se perguntará, o que há de tão importante nisso tudo? Não seria mais um caso de much ado about nothing?

Um ledo engano, caro amigo: a “revolução” que a joint venture Penguin-Companhia provoca no mercado editorial atinge aquilo que é mais importante em qualquer relação custo-benefício – o preço.

Um dos termos do acordo entre as duas editoras é que o preço de qualquer livro que seja publicado dentro da coleção não pode ultrapassar o valor de R$ 35,00.

No início, com seis ou sete livros, isso pode parecer uma exceção. Quando chegarem a cem livros, a diferença começará a ser notada.

No Brasil, o livro custa caro porque custa caro produzi-lo. E o aumento deste custo se deve ao fato de que não temos um mercado editorial propriamente dito. O centro estratégico se localiza nas chamadas grandes editoras: Record, Companhia e Ediouro. As outras, como Cosac, Nova Fronteira, Rocco, Objetiva, são consideradas de médio porte. E existem as independentes, que lutam para sobreviver no bom e velho esquema de guerrilha (o nosso querido IFE é um exemplo disso).

Em nenhum destes setores existe a cultura do livro de fácil divulgação, conhecido na língua inglesa como paperback. Os chamados livros de bolso começaram há pouco tempo, mas seus preços não são convidativos. Portanto, o que o acordo Penguin-Companhia faz é ver qual é a possibilidade de libertar o mercado editorial de uma série de preceitos errados – como, por exemplo, o de que o brasileiro não lê e o de que intelectual paulistano sabe tudo - e, junto com o preço, aumentar o seu catálogo de obras e autores.

E aqui está o xis da questão – e o dilema apresentado por esta revolução: o catálogo da Penguin tem, entre outros, os poemas completos de John Milton, John Donne, John Dryden, George Herbert, Geoffrey Hill, John Keats e Robert Browning – isso só para ficar em autores que tiveram apenas fragmentos de suas obras publicadas no Brasil.

Existe alguém no Brasil capaz de traduzir e editar com rigor todos esses autores? Refazendo a pergunta: Será que as editoras buscam os profissionais certos para tal empreitada?

Receio que não. Anos e anos de doutrinação gramsciana, corrupção concretina e epigonismo filosófico impediram de criar uma elite literária que saiba escolher os próprios livros que querem ler. E quando isso está incrustrado de tal forma na cultura de um país, não há preço que resolva o problema. Porque, afinal de contas, para a literatura de uma nação ser considerada livre, devemos saber, antes de tudo, que a liberdade é uma coisa a ser conquistada e não simplesmente comprada.


Comments (11)

11 Comentários »

  1. [...] This post was mentioned on Twitter by Tarciso N. Barros and Literaturas, Dicta&Contradicta. Dicta&Contradicta said: Novo post no blog: Les lettres libres ? http://www.dicta.com.br/les-lettres-libres/ [...]

    Pingback by Tweets that mention Les lettres libres ? | Dicta & Contradicta -- Topsy.com — 3 de agosto de 2010 @ 8:19 am

  2. Não lembro se eram baratos ou não, mas antigamente a ediouro editava muitos livros de bolso. Também não sei a razão do fim dessas edições.

    Comment by Antonio Araujo — 3 de agosto de 2010 @ 11:49 am

  3. Há ainda outra questão. Os livros se restrigirão somente aos “clássicos”, pois esta é a proposta da Penguin Classics. Nada contra, muito pelo contrário, afinal estes são clássicos por algum motivo e, discordando ou não é necessário lê-los para compreender o porque de durarem tanto. Agora, e os livros novos? Ainda continuarão sob o estigma do preço altíssimo? Creio que sim e isso é muito triste ainda… infelizmente…

    Comment by Daniel Feltrin — 3 de agosto de 2010 @ 1:23 pm

  4. Pô, Martim, eu acho que há gente muito capacitada na praça, sem dúvida nenhuma; O Paulo Henriques Britto, que v. citou, p. ex.; o Pedro Sette; e por aí vai. Vamos olhar pro lado bom das coisas! V. tá na USP, não tá? Então: o padrão uspiano não é tão ruim assim… Abração. E.

    Comment by Érico Nogueira — 3 de agosto de 2010 @ 2:35 pm

  5. Martim, cantei esta toada para o Dionísio já nos meus primeiros dias de Cultura pois eu conhecia o trabalho do designer Jan Tschichold, responsável pelo padrão de utilidade e de qualidade que a Penguin tem hoje, e continuado ainda que com um toque do styling americano pelo David Pearson, mantendo porém a mesma dignidade e praticidade de sempre (a série Great Loves é uma obra prima). São poucas e preciosas decisões de produção gráfica e de tipografia mas que fazem toda a diferença. O preço depende do volume, o volume depende de quanto o editor quer arriscar. O problema é que os editores não sabem o que é bom design, o que é muito diferente de fetiches tipográficos de luxo, e no mais, os editores são medrosos. Design é utilidade, é ser bom para com leitor, a começar pelo preço. Mas dificilmente o editor no Brasil ouve as recomendações de um bom designer. E parte do público, a classe mérdia que não é toda a classe média mas é que tem mais influência, compra livro para a estante e não para a leitura. O pior de tudo é que estão usando a Futura na capa. O Tschichold deve estar se revirando no túmulo.

    Comment by José Luis — 3 de agosto de 2010 @ 7:40 pm

  6. Excelente comentário o do José Luís, acima!

    *

    Mas aguardem por mais na área editorial.

    A É Realizações vai publicar uma grande leva (em tamanho e qualidade) de livros:

    - A.D. Sertillanges, “A Vida Intelectual”
    - Bernard Lonergan, “Insight…”
    - Georges Bernanos, “Sob o Sol de Satã”
    - Thomas Sowell, “Intellectuals and Society” e “A Conflict of Visions”
    - Eric Voegelin, “História das Idéias Políticas” (todos!)
    - Xavier Zubiri, “Natureza, História, Deus” e “Trilogia sobre a Inteligência Senciente”
    - Gertrude Himmelfarb, “The Roads to Modernity: The British, French, and American Enlightenments”
    - Gilberto Freyre, sete novos livros (ver Facebook da É)

    Mentira? Não. Confiram no Twitter deles, aqui http://twitter.com/erealizacoes

    Comment by João Toniolo — 3 de agosto de 2010 @ 10:56 pm

  7. Bom, é esperar que no longo termo (e espero que não tão longo assim) a iniciativa (que tem a chancela da Penguin, não esqueçamos disso) renda bons frutos, afinal, como vc mesmo disse mvc, depois de uns 100 títulos publicados é que poderemos medir a penetração destes clássicos no publico leitor deste país varonil.

    E naturalmente, creio, haverá uma busca por novos tradutores, intérpretes, etc…para dar conta da publicação de tantos títulos, afinal, não é algo que vai parar com dez ou vinte livros.

    Comment by Dionisius — 3 de agosto de 2010 @ 11:16 pm

  8. OFF-TOPIC

    Como foi debatido em um post do próprio Martim há algumas semanas, mando o link do último texto do Hitchens na VF sobre a experiência dele com o diagnóstico do câncer:

    http://www.vanityfair.com/culture/features/2010/09/hitchens-201009

    Digam o que quiserem, podem até detestar o homem, mas que ele escreve bem, ah!, isso é inegável.

    Comment by Jorge — 4 de agosto de 2010 @ 1:41 pm

  9. Martim, os seus problemas com lombadas dos paperbacks acabaram, basta que os editores adotem a Otabinding:

    http://www.hyphenpress.co.uk/journal/2007/05/02/bookbinding_survey

    A Global bem que tentou mas falhou ao insistir nos livrões de luxo.

    Abraço!

    Comment by José Luis Bomfim — 4 de agosto de 2010 @ 7:33 pm

  10. Estou esperando uma avaliação de vocês sobre a FLIP e a presença de FHC para “homenagear” Gilberto Freire:

    http://colunas.g1.com.br/maquinadeescrever/2010/08/04/860/comment-page-0/#comment-5127

    http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/fhc-diz-que-nao-pode-comentar-opinioes-de-dilma-porque-ex-ministra-nao-fala/

    Comment by Osmar Neves — 5 de agosto de 2010 @ 7:25 am

  11. [...] agosto 6, 2010 in cultura Martim Vasques da Cunha escreve sobre o acordo Penguin-Companhia das Letras. [...]

    Pingback by editoriais, literárias e lingüísticas « — 6 de agosto de 2010 @ 7:56 am

Deixe um comentário

*
To prove you're a person (not a spam script), type the security word shown in the picture. Click on the picture to hear an audio file of the word.
Click to hear an audio file of the anti-spam word