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	<title>Comentários sobre: O espírito europeu, segundo Valéry</title>
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	<description>Leituras interessantes e bases para a formação cultural</description>
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		<title>Por: Ricardo Leal</title>
		<link>http://www.dicta.com.br/o-espirito-europeu-segundo-valery/comment-page-1/#comment-269</link>
		<dc:creator>Ricardo Leal</dc:creator>
		<pubDate>Thu, 11 Sep 2008 11:46:51 +0000</pubDate>
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		<description>Indo um pouco além, talvez chovendo no molhado: na coletânea que saiu em inglês como &quot;Truth and Tolerance&quot;, o então Cardeal Ratzinger dedica várias páginas a uma reflexão em torno da &quot;Fides et Ratio&quot;, de JPII. Após uma discussão pertinente ao sentido de &quot;cultura&quot;, ligada à questão das relações entre verdade e método, JR recorda as considerações  freqüentemente empobrecedoras que muitos fazem entre cristianismo e Europa, não apenas no sentido de qualquer excesso de &quot;eurocentrismo&quot;, mas também, em oposição apenas aparente, no sentido de tornar redundante a questão da verdade por meio de uma absolutização de seu lugar em determinada cultura (e o do cristianismo, religião verdadeira, seria então exclusivamente o da cultura européia, o que quer que isso signifique). Ora, grandes culturas, como por exemplo a indiana, a chinesa, a japonesa, etc, têm uma tendência a transcender-se e a dialogar com outras. No caso das que historicamente têm por fundamento o cristianismo, e que estão basicamente naquele espaço que Valéry aponta no texto linkado acima, essa tendência à universalidade também se manifesta. Considerando nelas o enraizamento da Igreja, cujas relações com a história envolvem categorias outras que não apenas socio-culturais (inclusive aquela de &quot;providência&quot;), esse ímpeto dialogal e universalizante se anularia porém caso ela, Igreja, abandonasse &quot;o que ganhou de sua inculturação no mundo do pensamento greco-romano. Rejeitar essa herança seria desmentir o plano providencial de Deus&quot; (FR, 72). E por tabela (mas acho que isto não está na encíclica),  uma Europa que rejeita o caráter formador do cristianismo em sua matriz deixa de ser européia. &quot;Mutatis mutandis&quot;, isto pode valer, é claro, para tradições civilizacionais fora do espaço vincado pelo cristianismo - e por isto mesmo segue-se em FR uma recomendação de cautela, para &quot;não confundir a legítima reivindicação de especificidade e originalidade do pensamento indiano [ou de tradições várias, chinesa, africana, aymará, etc] com a idéia de que uma tradição cultural deve enclausurar-se em sua diferença e afirmar-se pela sua oposição às outras tradições&quot; (FR, 72). Voltando a Valéry e sobretudo a Brague e à FR: &quot;europeu&quot; ou &quot;romano&quot; em sentido forte implica esse apego à própria civilização, mas considerando que se trata de uma civilização informada pela Igreja, implica igualmente uma abertura à transcendência do que é meramente cultural, na palavra revelada e na história da fé. Insistência em afirmar a possibilidade racional de uma verdade que não é relativa, fora do que é mainstream neste começo de século e nestas bandas do sol  poente.</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>Indo um pouco além, talvez chovendo no molhado: na coletânea que saiu em inglês como &#8220;Truth and Tolerance&#8221;, o então Cardeal Ratzinger dedica várias páginas a uma reflexão em torno da &#8220;Fides et Ratio&#8221;, de JPII. Após uma discussão pertinente ao sentido de &#8220;cultura&#8221;, ligada à questão das relações entre verdade e método, JR recorda as considerações  freqüentemente empobrecedoras que muitos fazem entre cristianismo e Europa, não apenas no sentido de qualquer excesso de &#8220;eurocentrismo&#8221;, mas também, em oposição apenas aparente, no sentido de tornar redundante a questão da verdade por meio de uma absolutização de seu lugar em determinada cultura (e o do cristianismo, religião verdadeira, seria então exclusivamente o da cultura européia, o que quer que isso signifique). Ora, grandes culturas, como por exemplo a indiana, a chinesa, a japonesa, etc, têm uma tendência a transcender-se e a dialogar com outras. No caso das que historicamente têm por fundamento o cristianismo, e que estão basicamente naquele espaço que Valéry aponta no texto linkado acima, essa tendência à universalidade também se manifesta. Considerando nelas o enraizamento da Igreja, cujas relações com a história envolvem categorias outras que não apenas socio-culturais (inclusive aquela de &#8220;providência&#8221;), esse ímpeto dialogal e universalizante se anularia porém caso ela, Igreja, abandonasse &#8220;o que ganhou de sua inculturação no mundo do pensamento greco-romano. Rejeitar essa herança seria desmentir o plano providencial de Deus&#8221; (FR, 72). E por tabela (mas acho que isto não está na encíclica),  uma Europa que rejeita o caráter formador do cristianismo em sua matriz deixa de ser européia. &#8220;Mutatis mutandis&#8221;, isto pode valer, é claro, para tradições civilizacionais fora do espaço vincado pelo cristianismo &#8211; e por isto mesmo segue-se em FR uma recomendação de cautela, para &#8220;não confundir a legítima reivindicação de especificidade e originalidade do pensamento indiano [ou de tradições várias, chinesa, africana, aymará, etc] com a idéia de que uma tradição cultural deve enclausurar-se em sua diferença e afirmar-se pela sua oposição às outras tradições&#8221; (FR, 72). Voltando a Valéry e sobretudo a Brague e à FR: &#8220;europeu&#8221; ou &#8220;romano&#8221; em sentido forte implica esse apego à própria civilização, mas considerando que se trata de uma civilização informada pela Igreja, implica igualmente uma abertura à transcendência do que é meramente cultural, na palavra revelada e na história da fé. Insistência em afirmar a possibilidade racional de uma verdade que não é relativa, fora do que é mainstream neste começo de século e nestas bandas do sol  poente.</p>
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		<title>Por: Ricardo Leal</title>
		<link>http://www.dicta.com.br/o-espirito-europeu-segundo-valery/comment-page-1/#comment-266</link>
		<dc:creator>Ricardo Leal</dc:creator>
		<pubDate>Tue, 09 Sep 2008 04:12:17 +0000</pubDate>
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		<description>Em tempo, e antes que chovam pedras: ainda que a meu ver não roube o interesse da entrevista linkada, também acho discutível o trecho a seguir, e particularmente o &quot;compromise on moral laws&quot;; isto precisaria ser contextualizado mediante cotejo com outros escritos do RB. Na melhor das hipóteses ele está apenas dizendo uma palavra de cautela contra farisaísmos agressivos; na pior, relativizando onde não cabe. Quem conhecê-lo melhor que se manifeste: &quot;Some reproach the Church for a weakness in sustaining certain truth contents. What image of the Church do they like?
     BRAGUE: For these people, the Church must “defend certain values”, and not compromise on the moral laws. But do they themselves follow them? Not always … They want an organization with a firm line, with a “number one” well established. In the end, I ask myself if they don’t dream of a Church in the mould of the Communist Party of the Soviet Union.&quot;</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>Em tempo, e antes que chovam pedras: ainda que a meu ver não roube o interesse da entrevista linkada, também acho discutível o trecho a seguir, e particularmente o &#8220;compromise on moral laws&#8221;; isto precisaria ser contextualizado mediante cotejo com outros escritos do RB. Na melhor das hipóteses ele está apenas dizendo uma palavra de cautela contra farisaísmos agressivos; na pior, relativizando onde não cabe. Quem conhecê-lo melhor que se manifeste: &#8220;Some reproach the Church for a weakness in sustaining certain truth contents. What image of the Church do they like?<br />
     BRAGUE: For these people, the Church must “defend certain values”, and not compromise on the moral laws. But do they themselves follow them? Not always … They want an organization with a firm line, with a “number one” well established. In the end, I ask myself if they don’t dream of a Church in the mould of the Communist Party of the Soviet Union.&#8221;</p>
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		<title>Por: Ricardo Leal</title>
		<link>http://www.dicta.com.br/o-espirito-europeu-segundo-valery/comment-page-1/#comment-265</link>
		<dc:creator>Ricardo Leal</dc:creator>
		<pubDate>Tue, 09 Sep 2008 03:48:35 +0000</pubDate>
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		<description>http://www.30giorni.it/us/articolo_stampa.asp?id=5332
Rémi Brague cita esse valioso texto de Valéry em seu livrinho &quot;Europe, la Voie Romaine&quot;. Roma é como um aqueduto que nos faz chegar o que vem de Atenas e de Jerusalém. Aos traços do &quot;europeu&quot; listados por Valéry, RB soma algo como &quot;subsidiariedade&quot;; Roma se percebe devedora da Grécia, de certo modo bárbara com relação aos seus ideais mais altos e civilizada ao buscá-los. Nesse sentido, europeu ou romano é algo que associa a) apego ao que hoje chamaríamos &quot;autenticidade&quot;, mas b) consciência do caráter contingente dessa autenticidade, noção de que outras culturas (&quot;bárbaras&quot;) são &quot;traduzíveis e suscetíveis de ascender ao universal pela linguagem&quot;. B16 elabora esses temas em uma coletânea muito orgânica, &quot;Truth and Tolerance&quot; em inglês. Voltando a Brague, ele recorda que a Europa (ou as Américas, por tabela) deixam de ser européias nesse sentido mais forte quando se fecham à alteridade - e vale recordar que abrir-se a ela é  muito diferente de abandonar sua própria diferença; nada a ver com a decadência do &quot;tout comprendre&quot; denunciado por Nietzsche. Ótima caricatura dessa pseudo-Europa encontra-se na página 7 do Loto Azul, do Hergé, referida por Brague: lá aparece um inglês cretino fazendo apologia de &quot;nossa bela civilização ocidental&quot; enquanto maltrata um chinês. De passagem, Brague nota em Goethe essa nostalgia muito européia, &quot;suscitada pelo sentimento melancólico de uma alienação ou de uma inferioridade com relação a uma fonte&quot;. Fonte que na cultura de massas a partir da segunda metade do século XX parece incomparavelmente mais distante que no romantismo.</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.30giorni.it/us/articolo_stampa.asp?id=5332" rel="nofollow">http://www.30giorni.it/us/articolo_stampa.asp?id=5332</a><br />
Rémi Brague cita esse valioso texto de Valéry em seu livrinho &#8220;Europe, la Voie Romaine&#8221;. Roma é como um aqueduto que nos faz chegar o que vem de Atenas e de Jerusalém. Aos traços do &#8220;europeu&#8221; listados por Valéry, RB soma algo como &#8220;subsidiariedade&#8221;; Roma se percebe devedora da Grécia, de certo modo bárbara com relação aos seus ideais mais altos e civilizada ao buscá-los. Nesse sentido, europeu ou romano é algo que associa a) apego ao que hoje chamaríamos &#8220;autenticidade&#8221;, mas b) consciência do caráter contingente dessa autenticidade, noção de que outras culturas (&#8220;bárbaras&#8221;) são &#8220;traduzíveis e suscetíveis de ascender ao universal pela linguagem&#8221;. B16 elabora esses temas em uma coletânea muito orgânica, &#8220;Truth and Tolerance&#8221; em inglês. Voltando a Brague, ele recorda que a Europa (ou as Américas, por tabela) deixam de ser européias nesse sentido mais forte quando se fecham à alteridade &#8211; e vale recordar que abrir-se a ela é  muito diferente de abandonar sua própria diferença; nada a ver com a decadência do &#8220;tout comprendre&#8221; denunciado por Nietzsche. Ótima caricatura dessa pseudo-Europa encontra-se na página 7 do Loto Azul, do Hergé, referida por Brague: lá aparece um inglês cretino fazendo apologia de &#8220;nossa bela civilização ocidental&#8221; enquanto maltrata um chinês. De passagem, Brague nota em Goethe essa nostalgia muito européia, &#8220;suscitada pelo sentimento melancólico de uma alienação ou de uma inferioridade com relação a uma fonte&#8221;. Fonte que na cultura de massas a partir da segunda metade do século XX parece incomparavelmente mais distante que no romantismo.</p>
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