Sinal de virtude
As duas imagens que tenho do militante são o socialista e o islamista. O que une a ambos? Uma coisa é o quererem implantar sistemas sociais não muito desejáveis para um homem racional, embora bem diferentes entre si (a não ser, é claro, naqueles que unem marxismo à umma). Mais do que nos fins, há uma igualdade que diz respeito aos meios: para fazer a revolução, implantar a ditadura do proletariado ou o califado universal, tudo vale. Vale matar inocentes (que, claro, por não estarem conosco, já não são tão inocentes assim), vale roubar, vale mentir. Pela causa posso cuspir na causa e jurar nada ter com ela.
Nem todos os movimentos dessas duas correntes têm essa característica. Mas ela foi e é prevalente o bastante para marcá-las. O mesmo já foi o caso até com o Catolicismo em certos lugares, mais especificamente na Inglaterra no início de era moderna (onde eles eram, verdade seja dita, brutalmente reprimidos; padres eram imediatamente condenados à morte). Alguns católicos, liderados por Guy Fawkes, tentaram explodir o Parlamento com todos os parlamentares dentro (a idéia ingênua de mandar uma carta para um parlamentar católico alertando-o do fato pôs tudo a perder, felizmente), indo inclusive contra os pedidos dos jesuítas disfarçados que ministravam em segredo pelo país. O problema é que mesmo entre os jesuítas circulavam diferentes versões da doutrina da equivocação e da reserva mental, o que ajudou na construção da caricatura do jesuíta sorrateiro, esguio, do qual é impossível extrair uma resposta que não seja dúbia. Houve muita propaganda falsa de protestantes e do governo inglês, mas os católicos no mínimo ofereceram material para tal campanha. Lições foram aprendidas.
Avancem a fita para os dias de hoje. Nos EUA, apesar da opinião pública radicalmente dividade, vigoram leis de aborto dentre as mais liberais do mundo; pode-se abortar por qualquer motivo e até bem tarde na gestação. Se o aborto falhar e o bebê nascer vivo, pode-se deixá-lo morrer. O movimento contrário ao aborto tem ganhado força. Gente que era pro-choice hoje é pro-life. Entre eles estão Bernard Nathanson, ex-médico abortista que, após ver imagens de ultrassom dos fetos que ajudava a matar, mudou de posição e passou sua vida fazendo campanha contra a prática, e até a Roe do Roe Vs. Wade, o processo que liberou o aborto, tornou-se ativista pro-life e converteu-se ao Catolicismo.
O movimento pro-life é difuso, abrangendo todas as classes e religiões (tendo inclusive partidários ateus), mas grande parte da força dele vem dos católicos americanos, que encabeçam diversas iniciativas. Uma delas, a Live Action, fez seus membros se apresentarem a clínicas de aborto da Planned Parenthood como prostitutas menores de idade acompanhadas de seu gigolô, que pede auxílio para testar e realizar abortos em suas “funcionárias”. O auxílio dado a eles prova que as clínicas da PP dão suporte a atividades ilegais e nada fazem para impedi-las; tudo devidamente filmado com câmeras escondidas.
Tática interessante, mas… seria ela moral? Afinal de contas, o que os membros do Live Action fazem é mentir, não é? Pode-se mentir por uma boa causa? Diferentes figuras do cenário católico americano deram suas opiniões. Peter Kreeft considera o ato obviamente correto. Mark Shea discorda.
É um caso difícil. Por um lado, não dá para negar que os membros da Live Action mentiram. Por outro, se concluirmos que sua ação é imoral, então todo o jornalismo investigativo e mais, toda infiltração policial em gangues de criminosos, tática consagrada da polícia, são igualmente imorais. Ademais, parece que há casos em que mentir é justificável, como o velho e conhecido “nazista à porta, judeus no sótão”. Alguns diriam que daí não se trata de mentira, mas apenas de um falsilóquio; na minha opinião, uma mal-sucedida tentativa de mudar definições para sumir com o problema.
O intuicionismo moral do Peter Kreeft não me convence; o argumento de autoridade do Mark Shea também não – embora ele faça uma distinção que me parece relevante: no caso do nazista na porta, é o inimigo que intima a responder-lhe; no caso da Live Action, são os próprios agentes que tomam a iniciativa de dar informações falsas para enganar o adversário. Ainda assim, aceitando sua posição, teríamos que concluir que o jornalismo investigativo e a infiltração policial em gangues criminosas são sempre imorais? Há uma diferença entre mentir e interpretar um papel falso (num contexto em que isso sirva para enganar o interlocutor)? Para mim a prova da honestidade de um movimento ou militância está na capacidade de fazer esse tipo de auto-questionamento. Ao invés de transformar a causa anti-aborto num ideal que a tudo santifica, colocam também ela dentro de uma estrutura moral.
Excesso de auto-questionamento é um vício destrutivo à própria causa; ausência dele é inescrupulosidade; na medida certa, um brilhante sinal de virtude.
Comments (28)
28 Comentários »
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Muito bom texto, justamente porque não tenta dar uma solução fácil para o problema. É por isso que a Prudência é considerada a rainha das virrtudes! Abraço.
Comentário by Helder Melo — 28 de fevereiro de 2011 @ 6:21 pm
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Joel e Helder,
Já está ficando chato esse negócio de sempre concordar com vocês, mas o diabo é que concordo mesmo. O artigo está excelente. Anos atrás, quando era professor de direito, abordei a questão da mentira sob ângulo jurídico e adotei sua mesma posição.
Parabéns pela isenção e sabedoria na análise de problema tão complexo, mas cuidado procês não serem chamados de “petralhas disfarçados”!Comentário by virgilio campos — 28 de fevereiro de 2011 @ 7:55 pm
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Joel,
Mas, afinal, você considera errado o que fizeram os anti-abortistas e correto o jornalismo investigativo? É isso ou entendi errado?
Comentário by Wagner — 28 de fevereiro de 2011 @ 9:44 pm
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Ótimo texto, difícil discordar…
Classifico, com certa rapidez, como um caso de hierarquia de valores. A vida acima da verdade…
Isso responde também à distinção de Mark Shea. A defesa dos valores absolutos pode chegar ao ataque.
As vidas que, quem sabe, serão presevadas, agradecerão.
Não sei se estou sendo muito simplista e sem auto-questionamentos… mas enfim, se eu tivesse que tomar semelhante decisão, essas seriam minhas premissas.
Comentário by André Ricardo — 28 de fevereiro de 2011 @ 9:51 pm
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Sim, André, sua argumentação é forte. Joel a levantou também. Então não é lícito mentir para criminosos? E quando o crime é “lícito” pelas leis da pólis?
Comentário by Helder Melo — 28 de fevereiro de 2011 @ 11:11 pm
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Mas que salada sr. Joel Pinheiro.
Comentário by Luis Machado — 1 de março de 2011 @ 10:36 am
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Não tenho opinião formada, Wagner. Meu instinto seria dizer que o policial que se infiltra numa gangue, como parte de uma operação orquestrada pela polícia, não faz nada de errado. E daí, por conseguinte, a encenação da Live Action também não teria problema. Mas não o afirmo com certeza.
Comentário by Joel Pinheiro — 1 de março de 2011 @ 11:14 am
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Caro André Ricardo, acredito que nenhum cristão endosse, em princípio, a hierarquia de valores na qual “a vida está acima da verdade”. O exemplo dos mártires, pelo menos, não consiste senão em testemunhar o oposto disso. Sobre a questão principal, o problema para mim acaba sendo mais simples porque, ao contrário do Joel, aceito a solução do falsilóquio como plenamente persuasiva.
Comentário by João — 1 de março de 2011 @ 1:20 pm
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Haja discernimento. Sobre os limites, exigências e possibilidades da reserva mental e do que é conscientemente ambiguo, vale e muito assistir ao filme que emplacou o Oscar em 1966:
http://www.imdb.com/video/screenplay/vi4276487193/
Quanto ao jesuíta, além de sorrateiro e esguio será também esquivo, esgueirando-se aqui e ali para honrar (ou não) a Companhia.
Comentário by Ricardo Leal — 1 de março de 2011 @ 1:53 pm
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Acho que vale considerar a questão da vida e da morte aí. Digamos, coloquem-se no lugar do policial que acredita estar salvando vidas em sua empreitada disfarçada — é uma idéia simples aqui, sem retoques e complicações. Vale mentir para salvar uma vida, ou várias vidas, que você considera inocente? Eu acredito que sim.
Eu realmente acredito que a questão recai sobre o que fulano pensa sobre aborto. A perda de uma vida inocente não vale pelo menos, sei lá, mil pessoas personificando gigolôs e prostitutas menores de idade? Eu acho que vale mais, bem mais, incalculavelmente mais.
Comentário by João Carlos — 1 de março de 2011 @ 4:53 pm
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Comparar anti-abortistas com jornalismo investigativo e infiltração policial?! Verdade acima da vida?!
Às vezes o pessoal aqui entre numas discussões bem surreais… eu nunca sei se estão falando a sério mesmo.
Comentário by Isidoro — 1 de março de 2011 @ 6:47 pm
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Isidoro, sua posição ficará mais forte se você der argumentos para confrontar as posições das quais discorda ao invés de apenas usar um “?!” para desqualificá-las de saída.
Comentário by Joel Pinheiro — 1 de março de 2011 @ 8:26 pm
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Isidoro, hierarquia de valores não é nada surreal. É importante entendê-la para tomar decisões nos conflitos diários de cada pessoa.
João. Brilhante colocação. Tento solucionar da seguinte forma: Eles arriscaram, por amor (maior dom), perder a vida terrena para que muitos outros pudessem conhecer a verdade e, através dela, ter vida eterna. Ou seja, a vida saiu ganhando.
Helder. É justamente isso que quis dizer. O cara citado pelo Joel falou que a situação é bem diferente do “nazistas na porta, judeus no sótão”. Bem, se é diferente, é porque essa é de defesa contra o mal (nazistas), enquanto aquela é para atacar o mal (aborto). Por isso, é admissível.
Ok?
Comentário by André Ricardo — 1 de março de 2011 @ 8:30 pm
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João, e o caso da Live Action parece-lhe um falsilóquio?
Como determinar a diferença entre mentira e falsilóquio? Parece-me que essa doutrina foi inventada ad hoc para que fosse possível sustentar, ao mesmo tempo, que toda mentira é errada e que certas mentiras são corretas, e portanto receberam um novo nome para deixarem de ser mentiras, adicionando alguns novos componentes extrínsecos ao conceito da mentira (ex: o direito do interlocutor de saber a verdade).
João Carlos: mas essa sua resposta me parece padecer do mesmo consequencialismo que permite qualquer ato em função de uma boa causa.
Comentário by Joel Pinheiro — 1 de março de 2011 @ 8:30 pm
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1.Esse argumento usado pelo Isidoro (“?!”) é o mais profundo que tenho visto ultimamente ser usado pelas hostes relativistas. Isto é, ancoram-se no “politicamente correto” e naquilo que é a “opinião pública”.
Comentário by Wagner — 1 de março de 2011 @ 9:34 pm
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Gente! Que conversa maluca é essa? Será que voltei no tempo e fui parar na Bizâncio do século IV? Mentir, todo mundo mente. Bicho mente: se camufla, finge ser quem não é, imita som alheio, distrai atenção fingindo ir prum lado e não indo ou indo pro lado contrário, etc. Eu tinha um cão que ficava dormitando no jardim, mas quando sentia eu vindo por trás pra dar o flagra ficava em pé ligeiro e latia pra rua feito doido pra mostrar serviço! Me desculpem por contar “causos”, mas é pra contrabalançar a chatice do hiperintelectualismo e hipermoralismo de amigos que chegam até a citar os mártires cristãos como exemplo, como se fosse devido a eles o triunfo do cristianismo. Não foi: grande parte do exército de Constantino era de cristãos, mas eles, como qualquer outro soldado pagão, queimavam incenso à estátua do “divino” imperador que só se converteu no fim da vida! Os soldados cristãos mentiam ou não mentiam? Mas foi mentindo que levaram Constantino ao triunfo e ao triunfo do Cristianismo! A mentira valeu ou não valeu?
Comentário by virgilio campos — 2 de março de 2011 @ 12:15 am
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Uma diferença digna de nota entre mártires (que se recusaram a mentir) e os infiltrados da live action é o assunto sobre o qual mentem.
O mártir via-se entre morrer ou mentir sobre aquilo que há de mais elevado e valioso nele; negar aquilo que ele mais valoriza. O sujeito com o guarda nazista à porta nega apenas um fato contingente distante da essência de quem ele é.
Mentir sobre valores é mais sério do que sobre fatos contingentes do mundo externo. Em alguns casos, esse segundo parece ser certo. O primeiro, a meu ver, nunca é.
Comentário by Joel Pinheiro — 2 de março de 2011 @ 12:28 am
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Nossa, como vocês gostam de rotular quem não concorda com o pensamento de vocês usando frases feitas, hein? “Politicamento correto”, seguidor da “opinião pública”, “hostes relativistas”… Sejam mais originais.
A MINHA opinião é que vocês me parecem um tanto quanto “descolados” da realidade, da vida como ela é. Ficam tentando pautar seus comportamentos por opiniões filosófico-religiosas de alguns autores, teorizando demais. O buraco é beeem mais embaixo, minha gente.
Ou vocês acham que jornalistas investigativos e policiais infiltrados ficam fazendo essas considerações todas antes de exercer suas funções?
Na vida real há mais coisas com o que se preocupar além da “verdade” ou “mentira” teorizadad por gente que nunca pegou no trampo de verdade.Comentário by Isidoro — 2 de março de 2011 @ 12:36 am
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Joel, se lembrarmos o que acontecerá com aqueles que negarem a Verdade, sabemos que ainda é a vida que está em jogo…
Isidoro, vc reclama que tentamos pautar nosso comportamento por “opiniões” filosófico-religiosas.
Qual critério é melhor então para pautar comportamentos?Vejo que além do relativismo, vc padece do vulgar pragmatismo. Os policiais que padecem desse mal são justamente os que se corrompem.
Comentário by André Ricardo — 2 de março de 2011 @ 1:23 am
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André Ricardo,
Qual critério é melhor? Para viver no maravilhoso mundo do pensamento platônico, eu diria que as opiniões filosófico-religiosas são as melhores mesmo. Mas para (sobre)viver no mundão de meu Deus, o bom, velho e “vulgar” pragmatismo ainda é a melhor opção. Pelo menos para quem continuar vivo.
Como bem disse o Virgílio, parece que vocês vivem na Bizâncio do século IV.Comentário by Isidoro — 2 de março de 2011 @ 8:24 am
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Putz grila Isidoro… acho que vou ter que desenhar:
Uma vez, uma pessoa muito próxima a mim, teve o seguinte conflito no ambiente de trabalho:
Numa reuniao com o superior, repetiu o comentário que alguém tinha feito sobre determinada atividade. Para essa pessoa que me é próxima, tal comentário nao tinha nada demais. Entretanto, o superior enfureceu-se com o comentário e exigiu que essa pessoa próxima a mim denunciasse o infeliz, sob pena de demissao. A pessoa chorou muito, mas nao denunciou, nao delatou. Outros colegas, compadecidos, acabaram falando quem era.
Essa pessoa me deu orgulho, pois preferiu sofrer a demissao a ser uma delatora. Isso é hierarquia de valores.
Parece facil, nao é? Mas veja:
No meu trabalho, passei pela seguinte situacao:
Uma pessoa estava cometendo um erro, sem saber, e que iria prejudicar a ela, o chefe e todo o setor. Como nao tinha oportunidade de falar com ela diretamente e tinha que resolver o erro urgentemente, relatei o erro ao nosso superior.
Juro, fiz isso pensando no bem dela e de todos, mas me arrependi. Com o meu pragmatismo, passei como delator. Gerando um desnecessario conflito no meu ambiente de trabalho.
Ou seja, nao observei a hierarquia de valores, tentei ser paternalista e pragmatico.
Claro, óbvio e evidentemente, que sao situacoes proporcionalmente menos graves e complexas que a apresentada pelo Joel. Mas me diga: Se tais conflitos aconteceram na minha vida, quem sou eu pra dizer que nunca me depararei com conflitos mais complexos, em que será necessario conhecer valores religiosos e filosoficos?
Em tempo: As vidas que se perdem em milhares de abortos nao sao reais pra vc? Sao platonicas também?
Comentário by André Ricardo — 2 de março de 2011 @ 2:30 pm
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Amigo André Ricardo,
Fico alegre de não ser eu o único que conta “causos” aqui na Dicta. Os teus “causos” são bacanas mas neles a boa ética foi aplicada a dilemas pequenos; quero ver é a aplicação dela naqueles dilemas onde prisão, tortura e a própria vida estão em jogo! Como diz o matuto na minha terra, “é nessa hora que o cabra mija fino”!
Amigo Joel, pela 1ª vez vou discordar de você. Então os soldados cristãos de Constantino fizeram mal em “adorá-lo”? Deviam ter se mantido “firmes na fé” e se entregado ao martírio permitindo que Maxêncio, primeiro, e Licínio, depois, vencessem? Com éticas rígidas como essas fica difícil lutar o bom combate e fazer triunfar o que é realmente importante.Comentário by virgilio campos — 2 de março de 2011 @ 3:47 pm
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Olha, Virgílio, no meu entender sim. A consequência dos atos (como por exemplo a conversão do mundo inteiro) não são mais importantes do que se manter a própria integridade. Tem que ver o grau de “mentira” que esses soldados eram obrigados a cometer. Negar o que há de mais elevado em si, seu valor mais alto, é mau. Imagine o estado desses homens, tendo que viver se submetendo àquilo que eles consideravam a coisa mais abjeta possível: adorar um outro homem como se fosse Deus. Rebaixar-se a isso é uma verdadeira blasfêmia contra Deus e com a própria alma.
Claro, as circunstâncias atenuam; não digo que nenhum desses soldados fosse mau; digo que o ato era, apesar de compreensível, mau. Mas claro, teve consequências boas. Até aí, a traição de Judas foi o ato com a melhor consequência da história: a redenção do mundo, e nem por isso foi admirável. Lembro-me, em linhas gerais, de uma fala de Cristo: “É preciso que essas coisas aconteçam; mas AI daquele por quem o Filho do Homem for entregue…”.
Comentário by Joel Pinheiro — 2 de março de 2011 @ 9:57 pm
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Virgílio, concordo que são “causos” pequenos. Pequenos e que envolvem valores.
Talvez para esses pequenos casos a decisão seja mais fácil por causa da educação de berço.
Provavelmente para casos mais complexos é necessário uma família muito supimpa ou uma rígida formação filosófica e religiosa.
Só narrei esses casos pra mostrar pro Isidoro como é importante, pro dia-a-dia mesmo, saber hierarquizar valores.Ah, acho que é até uma felicidade a minha vidinha ser tão simples a ponto de não ter muitos casos complexos a narrar.
Comentário by André Ricardo — 3 de março de 2011 @ 9:12 pm
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Amigos Joel e André Ricardo,
Vejam o seguinte “causo”: por volta de 1940, a católica familia Ratzinger é informada que seu filho adolescente, destinado ao sacerdócio católico, deve se juntar a “Hitlerjung” e viver como um jovem nazista, o que de fato ocorre. Em 1944, ela é informada que o seu filho já rapaz deve se juntar à “Wermacht” e lutar com valentia pelo “Fürher” e o “3º Reich”. Tal como na “Hitlerjung”, o jovem Ratzinger cumpre o seu dever na “Wermacht” sem oposição sua ou da sua devota família. Todos até tiram com orgulho retratos onde ele aparece envergando os seus lustrosos uniformes do mal.
Pergunto: os Ratzinger, tal como milhões de outras famílias alemães católicas, deveriam aceitar servir a Satã ou recusar e irem para campos de extermínio? Vejam que nem ao menos havia a justificativa de honrarem Satã por uma boa causa, como no caso dos soldados cristãos de Constantino. Ponham os pés no chão e parem com exercícios intelectuais sobre pretensos dilemas éticos que não levam a nada.Comentário by virgilio campos — 4 de março de 2011 @ 12:55 pm
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Como já falei Virgílio, acho bom minha vidinha ser tão simples a ponto de não ter de enfrentar grandes dilemas. Isso, contudo, não me impede de refletir sobre como eu agiria caso ela desse uma reviravolta e me pusesse diante desses dilemas.
Não quero botar um dedo acusador sobre a família Ratzinger, mas eu preferiria a morte a servir a nazistas, fascistas, comunistas, etc.
Já quanto ao meu filho… bem, acho que só uma pessoa sacrificou seu filho por uma causa… ou seja: Faria de tudo para que ele vivesse. Teria pesar com a perseguição de judeus, mas meu filho seria mais importante.
Não tenho certeza se, no calor da situação, minhas emoções seguiriam a razão e me permitiriam tomar tais decisões. Mas, repito, isso não me impede de conjecturar.
Pode mandar mais outro.Comentário by André Ricardo — 5 de março de 2011 @ 9:56 pm
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Pronto André Ricardo; você chegou onde eu queria: “só uma pessoa sacrificou seu filho por uma causa…”! Lembra do filme “A Escolha de Sofia”? Apesar de achá-lo extraordinário nunca mais tive coragem de assistir de novo; choro só de lembrar a Sofia diante da câmara de gás sendo poupada, mas tendo de dar um dos filhos pro sacrifício pra salvar o outro, que morre depois. Ela sobrevive, mas pira e acaba suicidando-se! Aquilo é que foi dilema ético e humano do mais alto calibre! O resto é exercício intelectual! Grande abraço.
Comentário by virgilio campos — 7 de março de 2011 @ 12:12 am
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O problema com esse questionamento não é, definitivamente, que haja algum problema com “discutir critérios para pautar comportamentos”.
É achar que é necessário entrar em discussões dessa natureza para resolver coisas banais.
Em suma, quem perde tempo se perguntando se a atividade investigativa é ou não imoral por conta de que o investigador “mente”, é um grande caçador de pelo em ovo.
Tem problemas um tanto mais urgentes necessitando de neurônios aí.
Comentário by Anônimo — 10 de março de 2011 @ 2:18 pm




