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Sobre uma superstição

Filed under: Educação,Filosofia,Geral incluído por Julio Lemos
Data do post: 5 de abril de 2012

Ted Honderich, editor do Oxford Companion to Philosophy, diz no prefácio que as superstições e ciências vêm e vão enquanto a filosofia permanece. Isso é verdade? Não sei. Mas ouso dizer que mesmo aquilo que alguns estudantes amadores e profissionais consideram “filosofia” não passa, na verdade, de um amontoado de superstições.

A primeira delas é que a filosofia implica a virtude ou uma vida feliz. E é sobre essa superstição que gostaria de escrever.

Vou partir de um argumento de autoridade. Mais precisamente, para não me acusarem de fazer uso de doutrinas infernais, vou recorrer a um velhinho carola como o Cardeal Newman, alguém que acreditava nas virtudes e na excelência como ideal de vida e vivia de acordo com ele.

Em Idea of a University, sobre o qual escrevi no primeiro número da Dicta&Contradicta, Newman diz que a ‘prática’ da filosofia é inútil para a vida, para a moral e, em última instância, para a felicidade, em especial no Discurso 5 sobre o conhecimento como fim em si mesmo. Sua ideia geral é que se deve estudar a filosofia de modo inteligente, ou seja, sem procurar nada mais que a excelência intelectual (a precisão conceitual, a clareza, o rigor lógico — afinal, Newman não é bobo).

Newman lembra que tem sido uma constante nos séculos os professores de filosofia pensarem que, com seus ensinamentos, tornarão os seus alunos virtuosos. (É verdade que hoje isso é incomum entre estudiosos sérios de filosofia, tendo se tornado mais uma tendência da  auto-ajuda e do esoterismo.) E lembra-nos a descrição de um filósofo ilustre, que ensinava com paixão a sua doutrina transcendental — pensemos em algo como o Pitagorismo –, e dos seus discursos aos alunos:

He discoursed with great energy on the government of the passions. His look was venerable, his action graceful, his pronunciation clear, and his diction elegant. He showed, with great strength of sentiment and variety of illustration, that human nature is degraded and debased, when the lower faculties predominate over the higher. He communicated the various precepts given, from time to time, for the conquest of passion, and displayed the happiness of those who had obtained the important victory, after which man is no longer the slave of fear, nor the fool of hope… He enumerated many examples of heroes immoveable by pain or pleasure, who looked with indifference on those modes or accidents to which the vulgar give the names of good and evil.

E o que aconteceu ao nosso venerável Filósofo? Morreu-lhe prematuramente a filha. Isolado em casa, recebeu a visita de um príncipe seu velho amigo, Rasselas (cf. The Prince of Rasselas, Prince of Abissinia, de Samuel Johnson). Ao vê-lo desconsolado, indagou o príncipe:

Sir, mortality is an event by which a wise man can never be surprised; we know that death is always near, and it should therefore always be expected. Have you, then, forgot the precept which you so powerfully enforced? Consider that external things are naturally variable, but truth and reason are always the same.

Respondeu o Filósofo:

What comfort can truth and reason afford me? Of what effect are they now, but to tell me that my daughter will not be restored?

Seu argumento é tão simples, que compele naturalmente. Lendas socráticas à parte — entre os fracassados na adversidade, Newman cita Cícero, Catão e Sêneca, mas nessa patota incluo Sócrates, o chato-mor, por polêmica –, saber o que é bom em nada influi na prática do bem na adversidade, na “hora do vamo-vê”. A própria premissa da frase anterior já é uma concessão: só uma parte da filosofia, a ética filosófica, estuda a natureza do bem e das virtudes. Talvez possamos incluir a filosofia política. Os demais setores da filosofia não têm nem indiretamente que ver com o bem moral concreto; um filósofo tomista até chega a dizer, corretamente, que a ética estudada pelos filósofos não é sequer a ética prática, mas o que é inteligível e sistematizável na conduta prática (falo na Vernünftigkeit der Praxis de Martin Rhonheimer), e isso tudo sob um ponto de vista meramente especulativo, graças a Deus. Por isso a expressão “ética filosófica” afasta a pretensão de se fazer filosofia do modo tosco, deixando de lado a especulação para inculcar nos ouvintes e leitores critérios morais, condenar comportamentos ou provocar a indignação. Essas são tarefas da ética prática, e não da filosofia — e nada impede que uma pessoa ensine as duas coisas em momentos diferentes, se toma o cuidado de manter sempre as distinções pertinentes (não há coisa pior que vender como filosofia o que é “sabedoria”, com apoio em superstars como Platão e Aristóteles). Minha hipótese, aliás, é que o ensino discreto do rigor lógico exerce, sem querer, melhor influência do ponto de vista ético do que o discurso moral tout court.

Por isso, um filósofo pode entender mais de ética tomista que São Felipe Néri e privadamente agir como um irresponsável; a culpa não será da ética filosófica, mas dele. E é muito comum que o moralismo filosófico ande de mãos dadas com a perversão privada, algo que se pode perceber por meio da ordinária observação dos costumes; e que o ensino da filosofia como “modo de vida” e “ideal de vida feliz” ande de mãos dadas com a incompetência filosófica mais acentuada (porque os alunos se impressionam com argumentos morais e dormem quando são instados a acompanhar um argumento rigoroso). Por isso há todas as combinações possíveis: estultos imorais, gênios virtuosos, acadêmicos imorais, estultos virtuosos etc.

O estudo, como disse Newman, constitui uma arte liberal. Ele só dá frutos se for perseguido como um fim em si mesmo. Aplicações práticas aparecem quando não se cogita delas. O sujeito que ‘descobriu’ os números complexos — historicamente se costuma falar em Cardano (séc. XVI) –, embora fosse também um homem prático, mal imaginava que, séculos depois, esses números aparentemente inocentes teriam aplicação na física e na engenharia elétrica. Corrijam-me se eu estiver errado. Como aprendemos na escola, basta medir a voltagem de um circuito de corrente alternada, reparar que o oscilador mostra números imaginários (uma ‘voltagem imaginária’), e provar com o dedo para saber que o choque é real. (Pior: o próprio Cardano, matemático italiano, chegou às regras sobre probabilidade jogando compulsivamente, como o personagem de Dostoievsky.) A filosofia não é diferente.


Comments (39)

39 Comentários »

  1. Mas estudar por estudar não seria uma traição ao próprio conceito de filosofia, o amor à sabedoria? Se um conhecimento não nos enobrece, não nos impele a ser mais nobres, qual a sua razão de ser então? Onanismo intelectual? Não, obrigado. Um dos maiores metafísicos da realidade é o Diabo e ele continua sendo o Diabo…

    Comment by Osmar Neves — 5 de abril de 2012 @ 4:41 pm

  2. Osmar, esse argumento me parece mais sentimental que qualquer outra coisa. Amor à sabedoria, bem entendido, é exatamente o estudo pelo estudo, sem preocupação com a utilidade dele (‘sabedoria’, aprendizado moral, etc).

    Comment by Julio Lemos — 5 de abril de 2012 @ 6:06 pm

  3. Pensando no comment 2:

    a) Sabedoria = estudo?

    Filosofia = amor à sabedoria = estudo pelo estudo?

    b) A noção “vulgar” de filo-sofia remete, é verdade, a uma episteme pré-moderna, diferente portanto inclusive daquela em que Newman está situado.

    Essa episteme em que Newman está situado é pós-kantiana, e a idéia de filosofia em seu tempo já podia por exemplo evocar – exatamente como para os leitores deste blog – um mundo de alemães classicizantes ou dados à mera especulação (e Kant não tem culpa nisto!). Ou mesmo, para complicar um pouco, evocar esse mundo de escolásticos pós-medievais e eventualmente anti-modernos “avant la lettre”, objeto de caricaturas nas artes (romances, etc) dos séculos XVIII e XIX.

    Contra esse pano de fundo, a anedota do filósofo que perde a filha pode ser lida também como crítica (de um ponto de vista cristão, portanto de um ponto de vista existencial) a uma filosofia entendida como exclusivamente especulativa, ou mero exercício de expansão sentimental, insuficiente para fortalecer na adversidade, vá lá…

    c) Claro que há todas as combinações morais possíveis no arco entre estultícia e erudição. Claro também que pode ser muito saudável em determinados contextos limpar o terreno de discussões estéreis, delimitando a noção de filosofia, inclusive de maneira a excluir sua dimensão antiga/medieval, de amor à sabedoria ou à verdade, com todas as conotações existenciais possíveis (amor,afinal). E não estou sendo irônico ao afirmar isto.

    d) E ao afirmar isto não ignoro, é óbvio, que o “amor à sabedoria” como disciplina acadêmica ou dialógica associava-se a exigências intelectuais muito rigorosas. Ninguém frequenta Aristóteles sem estudar; e o amor necessário às Categorias nem sempre se traduzirá em derramamento de afetos, mesmo quando queremos entender melhor o que seja “paschein”.

    e) Se em outros contextos houver quem queira – na contramão de nossa episteme – trabalhar com a noção antiga de filosofia, pode porém lembrar (digamos com Josef Pieper, um exemplo fácil e muito bom) que a virtude é eventualmente pré-condição para o exercício filosófico, e não vice-versa. E que aproximar-se desse exercício – mesmo em perspectiva de quem não pretende reduzi-lo a meio para obter erudição instrumentalizável – não é realmente nenhuma garantia de virtude adquirida. Tantos de nós sabemos disto por experiência e observação.

    f) Talvez a diferença de perspectiva possa ser apreendida refletindo sobre a palavra “academia”: antigamente (e Newman não excluiria este sentido) um lugar de encontros voltados para a busca também pessoal da verdade (expressão que não podemos mais escrever sem um involuntário toque de ironia); hoje tantas vezes entendida apenas como lugar de discussões que se pretendem puramente racionais ou socialmente emancipatórias.

    f) Mas Julio, vou me permitir a pergunta que não faria a nenhum estulto, a alguém menos inteligente, ou mesmo a quem eu não respeitasse ao ler: caramba, de que maneira Sócrates fracassou na adversidade? De saída excluo a hipótese de que você leia Platão com óculos emprestados do Nietzsche.

    Comment by Ricardo Leal — 6 de abril de 2012 @ 6:07 am

  4. Julio, como um pouco de Lavelle faria bem pra você, meu caro.

    Comment by Guilherme M. — 6 de abril de 2012 @ 11:00 pm

  5. Guilherme, não gostei do que li de Lavelle. Mas citar nomes nunca diz muita coisa, de qualquer forma.

    Comment by Julio Lemos — 7 de abril de 2012 @ 12:12 am

  6. Em tempo: voltei ao Newman, ainda sabendo que no post ele é lembrado apenas em função do argumento “contra a superstição”, digamos.

    E volto à caixa de comments porque talvez ajude o entendimento recordar o uso que Newman faz das expressões “filosofia” e “educação liberal”. Na sua perspectiva, é óbvio que as duas não se confundem.

    Da maneira que posso ler, a educação liberal se dá no espaço desse lazer “gentil” que viabiliza a busca do conhecimento como um fim em si (algo além do que é possível a Catão e aos moralistas compreender).

    E o conhecimento a que se refere Newman é explicitamente conhecimento filosófico, assim entendido por ele: “it is an acquired illumination, it is a habit, a personal possession, and an inward endowment. And this is the reason, why it is more correct, as well as more usual, to speak of a University as a place of education, than of instruction (…)”.

    Para além do charme existencial, essa visita ao Newman talvez ajude a entender melhor a tese do post. Continuo achando, porém, que há o risco de outra confusão conceitual possível, aliás sugerida pelo uso das aspas no próprio comment 2: aquela entre a)saber como sinônimo de conhecimento intelectual, acervo de memória ou mestria nos jogos conceituais e retóricos e b) aquele saber que os antigos – inclusive e de seus ângulos distintos Aristóteles e os judeus helenizados que escreveram o Livro da Sabedoria – entendiam como atributo dos sábios.

    A busca do primeiro poderia estar incluída no pacote da educação liberal, mesmo servindo a sofistas, digamos. O sentido da educação liberal e o sentido do conhecimento residem porém no segundo. Será que vou longe demais se disser que não só para o Newman como também para o JL este sentido é ao mesmo tempo válido por excelência e não instrumental?

    Comment by Ricardo Leal — 7 de abril de 2012 @ 7:24 am


  7. Como aprendemos na escola, basta medir a voltagem de um circuito de corrente alternada, reparar que o oscilador mostra números imaginários (uma ‘voltagem imaginária’), e provar com o dedo para saber que o choque é real.

    que batatada…

    o que acontece com a Dicta?

    antes eu ficava aguardando um novo post, agora só me decepciono…

    antes tínhamos :
    * análises inteligentes (e que não se encontravam em qualquer outro sítio) de bons filmes.
    * filosofia ou indicação de artigos de filosofia

    agora temos:
    * análises chinfrins de filmes (a análise de Shame pela Ieda Marcondes é muito ruim…)
    * esta punhetagem lógico/(pseudo) matemática que dá vontade de desistir deste negócio de ler livros…
    * defesa “racional” da fé cristã

    lá se foi uma das poucas esperanças de termos algo como alta cultura neste país…

    ps.: cigarra-mágica é a mãe.

    Comment by Henrique Santos — 8 de abril de 2012 @ 12:02 pm

  8. Henrique, aguardamos ansiosamente sua revista de alta cultura. E se você tiver algo com que contribuir para a discussão, será certamente bem vindo.

    Comment by Julio Lemos — 8 de abril de 2012 @ 6:57 pm

  9. O artigo se propõe a mostrar que filosofia não implica virtude e felicidade.
    Usa de um argumento declaradamente de autoridade e com intuito de calar ‘moralistas cristãos’. Ou seja, não é argumento nenhum. Isso é filosofia?
    Depois usa de um exemplo fictício de um filósofo diante da filha morta como prova de que a filosofia não traz a virtude, como se isso depusesse contra a filosofia e não contra o inexistente filodoxo. Isso é filosofia?
    E ainda contrapõe isto às “lendas” socráticas, introduzindo um polêmica sem qualquer dado, citação, argumento… Isso é filosofia?
    Confunde o que pretende impugnar com a divisão da filosofia, como se um estudante de etologia não pudesse ser humano. Entra em contradição ao dizer “a culpa não será da ética filosófica, mas dele”.
    Para me convencer bastaria citar um único crápula que tenha tido a estatura de um Sócrates, um Platão, um Lavelle, um Agostinho, um São Tomás, um Leibniz… mas tudo o que pode fazer foi falar de um jogador compulsivo sem filosofia alguma, apenas um achado técnico diretamente ligado a seu vício.
    Isso é filosofia?
    P.S.: sobre estudo pelo estudo – lembrem-se de que podemos estudar uma doutrina totalmente falsa.

    Comment by Felipe Kronéis — 8 de abril de 2012 @ 8:07 pm

  10. Júlio,

    Sejamos sinceros. Tudo que você escreveu aqui depois do post dedicado a Michael Dummett (é bem verdade que não foi muita coisa) apenas demonstra que sua polêmica com o Olavo de Carvalho ainda não foi bem digerida. Curiosamente, o Sidney Silveira também ficou com essa seqüela. Sempre que possível, vocês escrevem algo com o qual supõem estar dando uma estocada no autor de O Imbecil Coletivo. É notável, aliás, a coincidência com que ambos insistem em dizer que foram vencidos apenas pelo cansaço de um debate inútil, em que o adversário era tão-somente um obstinado retórico, mentindo dessa forma acerca das qualidades do oponente ao mesmo tempo em que insinuam, mais por oportunismo malicioso que por ignorância, que retórica é sofisma ou entimema erístico. As pessoas francas e inteligentes que acompanharam essas discussões sabem perfeitamente que você e o Sidney Silveira ficaram expostos ao ridículo, pois ficou claro que vocês não correspondem de forma alguma à imagem de intelectual sério que acreditavam exibir.

    Comment by Paulo — 9 de abril de 2012 @ 10:35 am

  11. Paulo, o próprio Olavo disse que o debate estava encerrado — ele mesmo não quis ir adiante. Eu não acreditava que a discussão daria frutos, porque creio que ele não sabe, ou não quer, debater racionalmente; e minha preocupação, na longa resposta que dei, era justamente com a má influência desse modo de operar e pensar no Brasil. (Isso é irrelevante para a discussão, mas se você perguntou, não vejo mal em responder.) Neste site se escreve e se debate sobre ideias, não pessoas. E o que ouvi de pessoas francas e inteligentes foi justamente o contrário do que você ouviu. Um abraço.

    Comment by Julio Lemos — 9 de abril de 2012 @ 11:38 am

  12. Felipe: sim, o artigo procura mostrar que filosofia não implica virtude e felicidade. Para ilustrá-lo, mostrei um raciocínio de alguém insuspeito (porque é filósofo e considerado um homem virtuoso). A rigor o argumento de autoridade vale quando a sua ‘ratio’ vale. Creio que é o caso.
    O exemplo de Newman é forte e recorrente na prática. Por isso o registrei. À sua pergunta: “Isso é filosofia?”, eu respondo: não é filosofia, a rigor, mas ética prática. A mesma percepção ética (i. e., prudencial) é que ajuda a *ver* que não é suficiente o estudo da ética filosófica — e, para alguns, sequer um auxílio — para a aquisição das virtudes. Isso me parece um tanto óbvio.
    Eu disse ‘lenda’ socrática porque o que sabemos sobre Sócrates não é nada sólido. E isso fica por conta dos filólogos e da sabida opinião comum (nem Xenofonte, nem Platão são 100% confiáveis, e se contradizem).
    Não entro nunca na caixa preta que é a consciência individual dos autores. Não é possível saber se Kant, ou qualquer filósofo de estatura escolhido ao acaso, foi um homem reto. Eu ao menos não me arrisco. E isso é um problema de ‘história das consciências’, disciplina que não existe, por impossibilidade epistemológica. Se você usar a autoridade católica, poderá dizer, por exemplo, que Newman tinha virtudes heróicas — mas esse argumento não obriga ninguém (aliás, ele tem o mesmo status dos outros argumentos baseados em evidências imponderáveis; e isso não implica depreciá-los). Eu prefiro não canonizar ninguém, e nem chamar alguém de crápula gratuitamente.
    Um abraço.

    Comment by Julio Lemos — 9 de abril de 2012 @ 11:55 am

  13. Agora fiquei mais confuso ainda. Se a tese é de que filosofia não implica virtude, de que vale a palavra de um homem virtuoso (ou pior, ‘considerado’ virtuoso)?
    Quanto ao rigor que faz do argumento de autoridade equivalente à ‘ratio’, desconheço.
    Se o que você chama de ética prática fosse tão óbvia matéria, seu artigo seria uma redundância.
    Quanto às testemunhas da vida de Sócrates, não ser 100% confiável (quem é?) é bem diferente de ser totalmente desconfiável. Existe qualquer razão para crer que ele não tomou cicuta de maneira abnegada e nobre? No mínimo seria o caso de suspender o juízo. Quem sabe Platão mentiu em Fédon e na Apologia? Improvável. Platão mentiu em toda sua obra, na qual se lê a sombra do tal fato? Quase impossível.
    E finalmente, virtude se exterioriza, não se basta a se esconder nas ‘consciências’.

    Comment by Felipe Kronéis — 9 de abril de 2012 @ 10:31 pm

  14. Felipe, se filosofia não implica virtude, a “palavra” de um filósofo vale pelos seus argumentos, não por uma relação de confiança que tenha por base a sua pretensa virtude. O tempo em que se dá a filosofia é o tempo lógico, distinto do biográfico (isso está bem explicado em Victor Goldschmidt, “A Religião de Platão”).
    Pois então deixe de desconhecer; é simples. Se um argumento vale independentemente de quem o disse (e essa é a premissa!), então vale a sua razão de modo necessário e suficiente. Se esse mesmo argumento, portanto, for emitido por uma pessoa considerada ‘autorizada’ ou por um mané, pouco importa: a premissa se mantém intocada.
    Sócrates é mais personagem que homem de carne e osso nos diálogos de Platão. Mas concordo que se possa confiar em parte na tradição; só não a ponto de, como muitos pretendem, fazer-se um juízo completo sobre ele como “homem de virtudes”. Eu definitivamente não canonizaria Sócrates, com ou sem cicuta. Aliás, o que ele fez é moralmente condenável, se for interpretado como suicídio (e há quem sustente isso com muitos argumentos, como R. G. Frey em “Did Socrates Commit Suicide?”) ou como simples desistência (e essa opinião é mais comum). Só essa dúvida já permite um questionamento sério. Alguém poderia observar, com razão, que Sócrates não tomou a cicuta forçado; ele a tomou voluntariamente, segundo a tradição. De modo abnegado e nobre? Eu não apostaria nisso; provavelmente ninguém saberá se ele fez isso por vaidade ou pelo motivo que for, embora eu pessoalmente *prefira* pensar que Sócrates era um ‘homem de grande estatura’.
    E nada disso que eu mencionei é objeto da filosofia. Isso é objeto de estudo da história e da filologia, na parte exterior, e daquela disciplina impossível, “história das consciências”, em razão da caixa preta.
    Virtude se exterioriza, mas a dúvida sobre a retidão de um ato permanece intocada para sempre — inclusive para o sujeito que o praticou. Por isso elogiar ou condenar ‘tout court’ é quase sempre um ato temerário.
    Ética prática é algo bastante auto-evidente: é a ética sem a ‘sistematização’ filosófica, os atos morais particulares dos indivíduos. Antes do surgimento da ética como disciplina filosófica — uma reflexão mediada sobre aquilo que é inteligível nas ações livres e sobre os possíveis critérios que as balizam — ainda se podia falar em justiça, prudência, temperança particulares etc (e havia um discurso mais ou menos teórico a respeito, pré-filosófico). E ainda se fala dessas virtudes hoje, no discurso diário. É esse o objeto da filosofia moral, e não o ensinamento prático das virtudes.

    Comment by Julio Lemos — 10 de abril de 2012 @ 1:31 pm

  15. Julio Lemos,
    Já tive simpatia com a chamada Filosofia Analítica. Sendo mais específico, tive simpatia com Frege, Wittgenstein, Carnap e Bunge. Considerava-os como apóstolos da exatidão científica, opostos aos enroladores existencialistas e pós-modernos. Tinha alguma simpatia com Aristóteles e Santo Tomás, mas pensava que tudo o que estes disseram poderia ser medido segundo os critérios da escola Analítica e, então, aprovado ou desaprovado.

    O ponto estacionário dos meus estudos filosóficos foi a leitura de passagens dos “Elementa Philosophiae Aristotelico-Thomisticae” do beneditino Joseph Gredt. Foi através dessa leitura que vi que havia algo de muito maior na tradição filosófica de Sócrates, Platão, Aristóteles, Porfírio, Avicena, Santo Tomás, Cardeal Caetano, João de Santo Tomás etc. que superava, inclusive quanto à exatidão, a tradição Analítica.

    No êxtase dessa descoberta eu vivo até o presente momento, com uma imensidão de coisas a serem estudadas cuja impossibilidade eu presumia. Meu sincero conselho é que o senhor busque o livro mencionado e o estude.

    Um abraço.

    Comment by Augusto — 10 de abril de 2012 @ 8:23 pm

  16. Augusto, li os dois volumes de Gredt que pertenceram a Mário Ferreira dos Santos, em latim, fichei-os e os usei para aulas a amigos. Só te digo uma coisa: neoescolástica decadente. A doutrina de Gredt já nasceu morta e cristalizada, apesar de bela e bem exposta. Aquilo não é Aquino; antes estudar os tomistas analíticos. Abraço.

    Comment by Julio Lemos — 10 de abril de 2012 @ 8:31 pm

  17. Julio Lemos,
    Os textos do Gredt são, em grande parte, transcrições de João de Santo Tomás e do Cardeal Caetano, além de apresentar os textos de Aristóteles e de Santo Tomás em seus idiomas originais. O próprio Mário Ferreira dos Santos (não sei qual é a sua posição a respeito dele) se vale frequentemente de traduções puras e simples dos seus textos. Rotular simplesmente como neoescolástica, equiparando-o, assim, a Maritain, Jollivet e Lahr, é, para mim, um despropósito.

    Comment by Augusto — 10 de abril de 2012 @ 8:44 pm

  18. Augusto II, se quer baixar o nível, este site não é o lugar apropriado. Abraço.

    Comment by Julio Lemos — 10 de abril de 2012 @ 8:52 pm

  19. Augusto, foi o que eu disse. Melhor ler diretamente Tomás de Aquino. Ao menos foi o que julguei melhor fazer. Gredt é ainda inferior a Maritain.

    Comment by Julio Lemos — 10 de abril de 2012 @ 8:55 pm

  20. Julio Lemos,
    Pedão por alguns comentários, devidamente excluídos, que fiz, por pensar que tu te referia a mim no n. 19.

    Ler Gredt não impede a leitura direta de Santo Tomás.

    Em que sentido tu diz que a doutrina exposta por Gredt é neoescolástica decadente? Parece (eu posso estar interpretado além da conta) que tu quer dizer que não é o verdadeiro tomismo. Verdadeiro tomismo, fora de Santo Tomás, pelo que entendo, é, ao menos, Caetano e João de Santo Tomás, entre outros. Muitos trechos dos Elementa são verdadeiras transcrições destes.

    Tu diz que a doutrina nasceu morta e cristalizada. O Mário Ferreira usa traduções, muitas vezes sem indicar, de Gredt. E os usa não como uma tese a ser oposta, mas como palavras subscritas. Um caso é, no início do Tratado de Simbólica, a tradução que faz de um dos primeiros números da Lógica de Gredt, sobre signos (ou sinais), para definir o símbolo. Uma doutrina que dá frutos não pode estar morta e cristalizada.

    Comment by Augusto — 10 de abril de 2012 @ 9:29 pm

  21. 1) O argumento de que uma verdade independe de quem a pronuncia é algo sobre o qual eu posso conversar. Não concordo, nem tenho a sutileza para explicar de pronto o porquê de não concordar sem um estudo mais aprofundado (que talvez começasse por dizer que a verdade está no juízo e não na proposição – distinção entre espírito e letra). Mas o ponto não é esse. O ponto é: por quê você não começou com isso? Por quê começar com o argumento de autoridade de um cardeal? Por quê uma hora dizer que autoridade vale tanto quanto ratio, e depois dizer que ratio vale tudo e quem emite não apita nada?
    2) Aceito tudo o você disse de Sócrates, e confesso que minha pesquisa sobre ele é bem incipiente. A desconfiança é possível. Agora só me diz porque um personagem de um romance, esse sim definitivamente fictício, é um exemplo válido?

    Comment by Felipe Kronéis — 10 de abril de 2012 @ 9:31 pm

  22. Felipe,
    1) Talvez não tenha sido boa estratégia começar com Newman. Eu o fiz para deixar o argumento mais vivo, embora concorde com você: o melhor é argumentar diretamente. Mas veja que o assunto causa alguma polêmica, e ter Newman ao meu lado ajuda a desfazer preconceitos comuns no Brasil.
    2) Não entendi bem a referência à literatura. Mas de qualquer modo os personagens de romance têm muita coisa em comum com a realidade (afinal, eles são fragmentos de pessoas reais).

    Comment by Julio Lemos — 10 de abril de 2012 @ 10:02 pm

  23. Apenas acrescento que defendo fundamentalmente Aristóteles, Santo Tomás e a tradição ligada a estes, e não o próprio Gredt. Os escritos de Gredt têm grande importância pessoal para mim; através deles, como disse, tomei consciência da grande tradição e julgo serem eles o meio pelo qual aqueles vinculados à tradição analítica, de modo geral, podem fazer o mesmo.

    Comment by Augusto — 10 de abril de 2012 @ 10:11 pm

  24. Estudiosos de filosofia: se já atestam o inverso performaticamente que o mitiguem verbalmente… demonstrando o minimo de virtude ao lerem os textos dos outros e permitindo que alguém escreva sobre o que quiser sem que vocês fiquem impondo estas fantasias de sempre.

    Comment by Felipe — 11 de abril de 2012 @ 3:41 pm

  25. Julio,

    Não que isto invalide seu argumento, mas acho que a filosofia antiga, pelo menos, parece estar ligada ao cultivo de virtudes ou aquisição da sabedoria. Nesse sentido, o amor ao saber traz, é verdade, a ideia de estudo desinteressado, não utilitário, mas penso que carrega também a noção de busca da sabedoria. Não consigo imaginar a filosofia antiga sem essa relação com a sabedoria.

    Comment by Marcos Fontoura — 12 de abril de 2012 @ 1:44 am

  26. Marcos, creio que isso é uma questão de história da filosofia. A resposta, talvez, seja diferente para cada escola ou filósofo antigo considerados. Os estóicos, por exemplo, costumavam pontuar alguns de seus ensinamentos com convites a uma vida virtuosa (Zenão, Sêneca, Epiteto), embora para os cristãos, posteriormente, essa “vida virtuosa”, entendida como pagã e voluntarista, fosse no mínimo perigosa. Mas não produziram uma obra considerável quando seguiram essa linha; os méritos estóicos são a noção de vontade, em ética filosófica, e uma extensa investigação lógica (vide Crisipo), só convenientemente apreciada no século XX. O mesmo se aplica, por exemplo, a Platão. A “Apologia” é um diálogo magnífico, mas de pouco proveito filosófico direto. O mesmo quanto às confusas argumentações sobre a imortalidade da alma e certas esquisitices, encontrados em alguns dos diálogos. Para Platão, bastava que um discípulo de Sócrates respondesse a esses argumentos com um mágico “dizes admiravelmente, Sócrates!”. Ao ler essas passagens num grupo de estudos, ficávamos constrangidos: ninguém achava que Sócrates tinha “dito admiravelmente”, mas sim que tinha dito uma barbaridade grotesca, e que a imortalidade da alma estava muito longe de ser provada. Já em “Parmênides”, por exemplo, encontramos uma pesada, e frutuosa, discussão metafísica — momento em que a filosofia, ocupação mais de pessoas inteligentes e questionadoras que de apóstolos da sabedoria e da virtude, vai-se desenhando. O mesmo encontramos nas “Leis”, abstraído o exotismo de muitos trechos.

    Em Aristóteles quase nada existe de exortação extrafilosófica da virtude. Isso de modo algum transforma a filosofia aristotélica em algo moralmente neutro ou venenoso. A discrição que encontramos em Aristóteles provoca o efeito contrário: mantém as virtudes e o discurso diretamente panegírico, retórico e de exortação a uma vida virtuosa no seu lugar (as assembleias de cidadãos, por exemplo). Aristóteles e, creio, todos os grandes filósofos antigos, tinham claro que, quando alguém diz que a substância é x, que as categorias a e b não se confundem, ou que a verdade é apreendida por meio de y, afirmações como “sê justo!” ou “honrar a pátria é belo” ou “não minta ao fazer essa distinção!” ou “você está sendo desonesto!” são irrelevantes. Isso não parece ridiculamente óbvio? Mesmo em ética: a distinção, e. g., entre atos voluntários e atos involuntários é discutida dentro de parâmetros estritamente filosóficos; quem a faz quer apenas torná-la algo estabelecido (para a tomar como premissa de uma argumentação mais alentada), e não tornar alguém melhor diretamente. Se isso ocorre, ou seja, se alguém se beneficia moralmente disso, não existe contradição. Pois não falamos dos efeitos da filosofia na vida moral (que podem ser positivos ou negativos; quero crer que são positivos, mas não posso forçar a barra), mas na filosofia como exortação às virtudes, ou no ensino da filosofia como um convite bem fundamentado à vida feliz, ou no filósofo como essencialmente um exemplo de virtude.

    Parte da ideia de ordem dos assuntos em filosofia é usar de um método que exclua da discussão assuntos irrelevantes; e o grave problema com um ensino de filosofia que o tempo todo se valha de discursos de exortação — e aqui falar de ética em sentido prático é tão inapropriado quanto falar de política ou, pior, de ambos — é constituir uma mudança de assunto e de objeto. A filosofia busca distinguir, esclarecer noções, questionar o que é tido por certo, embora de modo algum deva desejar simplesmente derrubar o senso comum (que costuma ser valioso para o estabelecimento de premissas). Como disse o Joel, isso traz, para a vida, uma pletora de dúvidas e preocupações que, se não forem bem tratadas, acabam por ser até perigosas para a vida moral, diz-se, quando a pessoa não é bem formada. Daí as seleções de autores e o controle de conteúdo nos seminários religiosos, algo contextualmente legítimo. Fazer filosofia implica, ao menos potencialmente, discutir e discutir até tornar o certo duvidoso. Por isso Sócrates foi ridicularizado por Aristófanes; e quase todos os filósofos sempre serão lembrados, não como homens honrados e exemplares (tanto que pouco importa, para quem faz filosofia a sério, se Descartes ou Kant foram “homens honrados” — preocupar-se com isso no interior da atividade filosófica é pura mudança de assunto, e expõe o sujeito a ridículo), mas como chatos preocupados com o sexo dos anjos, embora sejam muito mais que isso, como sabemos. Tanto é que o discurso estritamente moral (prático, de exortação), se algum dia entrou na filosofia, foi legitimamente banido e classificado como não-filosófico. Em grande medida, diz-se que foram os cristãos a esvaziarem a filosofia antiga do seu conteúdo autenticamente moral; porque a moral pagã, se não passa por uma espécie de batismo radicalmente transformador (e essa é a acusação, para alguns, dirigida a Tomás de Aquino, que “cristianizou” Aristóteles), é considerada perigosa nesse meio. Um exemplo disso é a virtude da magnanimidade tal como entendida por Aristóteles, epítome de todas as virtudes do homem maduro — e lembre-se que o spoudaios (trata-se, na verdade, apenas de um adjetivo grego ordinário, sem o significado místico que alguns autores modernos atribuem a ele) não é nem o sophos, nem o philosophos. A magnanimidade do homem maduro tem como núcleo, para Aristóteles, que pretendia espelhar a opinião autorizada, o verbo καταφρονέω: o desprezo, o “pensar pouco de”, o “olhar de cima para baixo” dirigido aos inferiores. Quando escrevi um artigo a respeito, fiquei impressionado com a diferença entre a magnanimidade em sentido aristotélico e a magnanimidade rebatizada pelos teólogos morais católicos; aliás, hoje penso que é como a diferença entre o preto e o branco, o rotundo e o quadrado.

    Uma nota final, mais ou menos relacionada: faz muito sentido que gente vinda do jornalismo e do esoterismo, pace Olavo, confundam as bolas. Mas, como disse um amigo, corrigir fanáticos é tarefa inglória, e nunca pretendi me dedicar a ela.

    Abraços!

    Comment by Julio Lemos — 12 de abril de 2012 @ 10:04 am

  27. Julio Lemos se identificou com os sofistas ao ler os diálogos de Platão, isto agora me parece muito claro.

    O negócio funciona mesmo.

    Comment by Renan — 12 de abril de 2012 @ 11:18 am

  28. Renan, ao dizer que algo te parece claro sem argumentar, você se coloca em posição inferior à de um sofista. Ao ler os diálogos de Platão, meu costume era torcer para o Sócrates, e nunca me simpatizei com tipos como Protágoras e Górgias. Que isso diz? Nada. O único intuito, aí, é desqualificar gratuitamente alguém. Quando tiver algo a dizer, serenamente, sinta-se à vontade. Abraço.

    Comment by Julio Lemos — 12 de abril de 2012 @ 11:38 am

  29. É difícil engolir essa idéia da busca da verdade dissociada das virtudes. Para comeco de conversa, nao é preciso dispor de algumas virtudes como a honestidade intelectual para a prática de um bom filosofar? Ou melhor, a prática de algumas virtudes nao sao condicoes necessárias preliminares ao estudo filosófico? E por que o verdadeiro é preferível ao falso? Nao é um juízo de valor que o define? Nao lhe parece que no início de todo esforco filosófico está um valor moral? Voce argumenta que a prática da filosofia nao torna o filósofo necessariamente virtuoso, mas um homem sem as devidas virtudes pode ser um filósofo?

    Comment by Vinícius de Oliveira — 12 de abril de 2012 @ 3:46 pm

  30. Pelo que possa valer, completamente fora do debate (premissas metodológicas e conceituais distintas), mas em benefício da precisão:

    a) no meu comentário 3, uso a palavra “episteme” não em sentido aristotélico (para contrastá-la com a “doxa”), mas naquele de Foucault, tornado corrente em muitos circuitos: códigos fundamentais na base de determinada cultura, balizamento das experiências e dos modos de pensar e construir conhecimento em determinada cultura (“caveat”: as coisas que exprimo ao fazer uso desta expressão e do conceito a que remete não implicam seguir mais amplamente as palavras de Michel Foucault, bem outras);

    b) entendo razoável apontar algo muito básico: há um modo de saber e de entender o que é saber anterior e bem diferente daquele a que estamos habituados a partir de Hegel e de sua imbricação, digamos assim, entre lógica e história (e a partir das reações várias a essa imbricação). Este saber anterior é muito bem expresso em Aristóteles. Sua “episteme” (conhecimento verdadeiro que contrasta com a “doxa”) culmina em intuição (intuição, repito) intelectual que não somente viabiliza sentido universal e objetivo aos silogismos, mas também se abre à contemplação a partir do “nous” (a intuição é “noesis”).

    Para quem se interessar por esta via, que não é necessariamente gnóstica (por favor!) claro que é melhor voltar ao Estagirita (a “Ética a Nicômaco”, por exemplo, sempre ilumina).

    E por que não recorrer à wikipedia como “hors d´oeuvre”? Incompletos com certeza, mas topei com dois bons verbetes, simples e claros, ao fazer este comentário: sobre “nous” (http://en.wikipedia.org/wiki/Nous) e sobre “episteme” (http://it.wikipedia.org/wiki/Episteme).

    O segundo traz até uma fotografia de Episteme que perdeu a cabeça…

    Comment by Ricardo Leal — 12 de abril de 2012 @ 4:22 pm

  31. Vinícius,

    Embora eu já tenha respondido a essas indagações umas três vezes nos comentários anteriores e no texto, vamos lá.

    1) O objeto da filosofia é a busca pela verdade (e isso vale para os céticos e para os relativistas, sob pena de autocontradição). Portanto qualquer virtude que ajude na busca da verdade é altamente valiosa. Nesse sentido, a sua segunda pergunta deve ser respondida também afirmativamente. A honestidade intelectual é indispensável tanto na ciência quanto na filosofia. Se um objeto tem, à verossimilhança, tal propriedade, devo admitir que esse objeto tem essa propriedade. A ‘admissão’ de verdades é um treino, e portanto envolve um hábito a ser adquirido. Se erro, reconheço; se acerto, insisto até onde as evidências me levam; etc. Por isso, sim, as virtudes intelectuais — paciência, atenção, acuidade, rigor, etc — são condições ‘preliminares’. Mas o filósofo as aprende não estudando filosofia, mas agindo corretamente! Por mais que estude, se não incorporar esses hábitos na prática, não as terá. Por isso a filosofia pouco ajuda na aquisição de virtudes. Saber não é poder agir, e muito menos agir, de determinado modo.

    2) O objeto da filosofia não é ensinar as virtudes em sentido prático. É essa a tese que venho defendendo. Um filósofo deve buscar e ensinar proposições verdadeiras; o problema é que (a) as proposições que ele ensina podem não ser verdadeiras (a premissa é que elas são buscadas, e não necessariamente encontradas) e (b) podem confundir o estudante, fazendo-o questionar aquilo que antes era um auxílio na sua vida moral. Por exemplo, pode deixá-lo inseguro e angustiado. Isso é mais do que recorrente na prática. Mas esse é um problema pessoal a ser enfrentado pelo estudante, e não é dever do filósofo, como se fosse um guru, preocupar-se com esse aspecto. Ao preocupar-se com isso, o filósofo não deixa de ser filósofo, mas não está mais a ensinar filosofia, mas a praticar a direção espiritual ou o que for. Não me oponho a essa prática, se souberem onde pisam; mas ela não é filosófica, penso.

    3) O problema com 2), acima, (a), é que premissas filosóficas não são verificáveis. Alguém pode estar errado sobre um ‘fato’ ou sobre uma concepção e outra pessoa certa a respeito e NUNCA, em toda a história, viremos a saber quem acertou e quem errou. Porque ‘fatos’ filosóficos são sempre duvidosos. Por isso, pretender que um ensinamento ou outro é correto, e tentar inculcá-lo praticamente no estudante não é um exercício filosófico. O conhecimento das virtudes que importa para a vida não é filosófico, mas prático. Guarde essa frase. Um filósofo não doutrina, nem intelectual e muito menos moralmente. Por isso eu penso que — agora para uma nota extremamente contingente — com a influência nefasta do que chamamos ‘o catolicismo de Internet’ um sem número de pessoas começou a canonizar certas práticas anti-filosóficas, porque doutrinárias, como se fossem atividades filosóficas. Isso é um problema sério.

    4) Quanto à última pergunta, não existe uma resposta fácil. Mas vou dizer o óbvio. Um homem com poucas virtudes morais pode fazer boa metafísica e epistemologia mas, na minha opinião, não está autorizado a especular seriamente sobre ética filosófica. E em geral, um homem embotado e de mau gosto não pode se dedicar a uma tarefa intelectual exigente. Em primeiro lugar porque, dada a sua confusão, não tem natural interesse por coisas como a prudência e a solércia e a continência (e isso vale mais para a ética filosófica). Em segundo porque a degradação moral — no sentido popular, mesmo — leva o sujeito a perder demasiado tempo com o que os estóicos chamavam de ‘apelos das paixões inferiores’. Isso é o que me parece mais evidente. Mas isso tudo é tão óbvio que sequer merece ser mencionado. O que me parece mais importante é que o filósofo não seja preguiçoso e que seja intelectualmente honesto (uma virtude ‘corporal’ e uma intelectual). Isso não é questão filosófica, mas de ética prática. Se um filósofo começasse um discurso com as palavras: “Hoje lhes falarei sobre a natureza da coragem”, não teríamos dúvida tratar-se de uma palestra filosófica, até prova em contrário. Se dissesse: “Hoje lhes ensinarei a ser corajosos”, não erraríamos ao desconfiar tratar-se ou de uma palestra de auto-ajuda ou de uma prática num retiro espiritual (em nenhum dos casos ele falará como filósofo; talvez como conselheiro, retórico, político, sacerdote ou guru).

    Abraços.

    Comment by Julio Lemos — 12 de abril de 2012 @ 4:38 pm

  32. Sobre 2) do comentário 22:
    A contradição que eu vejo é: Você desqualifica a narrativa da morte de Sócrates pelo motivo de esta ser possivelmente ‘montada’. Mas aceita a narrativa do filósofo diante da filha morta, mesmo esta tendo sido certamente inventada.

    Comment by Felipe Kronéis — 12 de abril de 2012 @ 5:23 pm

  33. Felipe, a narrativa da morte de Sócrates, como narrativa, não é criticável. Como fato histórico, não é absolutamente certa; e por isso pode ser questionada. A narrativa do filósofo diante da filha morta, como não tem pretensão histórica, não é criticável. Contradição zero. Abraço.

    Comment by Julio Lemos — 12 de abril de 2012 @ 5:33 pm

  34. Concordo plenamente. Mas você quem disse:

    Mas de qualquer modo os personagens de romance têm muita coisa em comum com a realidade (afinal, eles são fragmentos de pessoas reais).

    Comment by Felipe Kronéis — 12 de abril de 2012 @ 5:40 pm

  35. Felipe, certamente. A morte real de Sócrates pode ter mais em comum com outra morte real (suponha “a morte de Euclides”) que com a morte de Sócrates ficcional. Mais detalhadamente. Suponha que em nosso mundo real w Sócrates e Euclides se suicidaram. A narrativa da morte de Sócrates em Platão dá a entender, para a maioria, que Sócrates não se suicidou. Chame esse mundo ficcional, em que Sócrates morre nobremente, de v. Ora, a morte de Sócrates em w assemelha-se mais à morte de Euclides no mesmo w que à morte de Sócrates em v. Ficou claro? A afirmação “personagens de romance têm muita coisa em comum com a realidade” não diz que um determinado personagem de romance espelhe um determinado personagem com o mesmo nome e identidade do mundo real; o comum é que seja bem diferente. Assim, novamente, não há contradição.

    Comment by Julio Lemos — 12 de abril de 2012 @ 5:55 pm

  36. OK, você venceu, batatas fritas.
    Acabo de perceber que deixei enredar exatamente por aquilo que queria combater.
    Vou começar de novo e por aquilo que sei e experimentei, ao invés de ficar tentando pescar (o mar tá pra peixe!) deslizes, lapsos e incoerências:
    Eu me tornei mais virtuoso, ou mais propriamente, menos desvirtuado, por meio da busca da verdade, o que não deve ser confundido com o estudo de doutrinas éticas, como você mesmo disse. Uma vez colocado nesse caminho passei a estudar as doutrinas éticas e a adotá-las antes de tê-las claras na mente, por conta de não ter a pretensão de ser capaz de descobrir ‘por mim’ o que é certo para só depois começar a praticá-lo.
    De forma que acredito que concordamos nos fundamentos dessa conversa, virtude não se ensina teoreticamente mas a escolha da busca da verdade presume uma escolha moral, senão A escolha moral.
    Dito isto, verifico que o artigo foi um ponto de partida ‘misleading’ (perdoe-me, mas não acho equivalente em português).

    Comment by Felipe Kronéis — 13 de abril de 2012 @ 9:22 am

  37. Está ótimo, Felipe. O que me parece perigoso — e é algo que você não fez, pois seguiu argumentos e evidências com paciência, embora ambos possamos estar errados (mas ninguém nos convenceu de que é o caso) — é atribuir apressadamente posições a adversários. Porque fulano defende que a filosofia não tem como objeto o ensino das virtudes, concluem já que ele é materialista, que defende o amoralismo ou uma espécie de ‘filosofia científica’ (uma contradição em termos), ou qualquer série contraditória de posições. Para ganharem um debate, fazem de tudo; e assim rapidamente saem da trilha que juram, emocionados, seguir (a busca pela verdade). E este é o paradoxo da virtude: quanto mais a anunciamos e pregamos, mais rarefeita se faz, e menos aprendem os que estão ao nosso redor.

    Comment by Julio Lemos — 13 de abril de 2012 @ 10:15 am

  38. Boa noite, Prof. Julio Lemos.

    O sr. mencionou em um dos seus comentários sobre a ética prática. Esta não seria a moral? e esta moral seria de ordem religiosa apenas ou não.
    Lembro de um texto de um filósofo (Mário F. dos Santos, estou em dúvida) a qual dizia que a ética é mais especulativa e a moral, prática.
    Teria alguma(ns) obra(s) que poderia me indicar para compreender bem e corretamente a distinção das duas (ética e moral, e se dentro delas alguma divisão, tal como: especulativa e prática e quais as diferenças disso). E se poderia fazer algum juízo de valor sobre elas, já que muitas pessoas universitárias menosprezam a moral e engrandecem a ética.

    Como se vê, estou confusa nesses asuntos.

    Obs.: pretendo trabalhar meu tcc (pedagogia) sobre a formação ética e moral para a juventude, e estou na coleta de uma boa bibliografia. Apesar de como sr. falou, na sua opinião, em não tem como um sujeito de poucas virtudes, especular sobre ética filosófica.
    Imagino a quantidade de teses sobre ética filosófica escrita por pessoas que pouco ou nada a vivenciaram. Espero não entrar para este número.

    Saudações!

    Comment by Magna — 17 de abril de 2012 @ 12:44 am

  39. Olá, Magna. Em primeiro lugar, não sou professor! Os termos “ética” e “moral” não se distinguem a priori. Qualquer autor pode criar essa distinção — e muitos o fizeram — a fim de refletir uma diferença real entre o que é especulativo e o que é prático; ou entre o que é mais racional e o que provém dos costumes aprovados; etc. O fato é que existem dois modos de encarar a realidade moral: um tendo em vista a ação e o outro tendo em vista a especulação filosófica. Esta última não traz virtude. Quando reflito: “Poxa vida, será que não é melhor levar esse dinheiro que encontrei à delegacia?” e em seguida afasto o comodismo e o interesse pessoal e vou até a delegacia, é da vida moral prática que se trata (ou “ética” em sentido prático). Quando reflito: “A justiça é mesmo dar a cada um o que é seu? O que é ‘seu’?”, estou já na esfera da ética filosófica. O filósofo, enquanto filósofo, pratica a segunda atividade. Você pode evidentemente chamar de ética a segunda atividade e de moral a primeira. Mas não há nada nos vocábulos, a não ser uma vaga pretensão etimológica, que justifique essa distinção de dicto. Você diz que acadêmicos costumam menosprezar a ética prática e engrandecer a ética filosófica, mas na realidade eu creio que, em suas vidas privadas, estão o tempo todo preocupados com o que fazer de suas vidas, mesmo que sejam confusos — ou seja, a moral lhes é algo inescapável (se não, basta que aconteça algo claramente injusto a alguém próximo ou a eles mesmos, como um assalto ou uma fraude, ou ainda altos juros bancários). Como acadêmicos, no momento de escrever artigos, não podem, entretanto, fazer pregação. Esse não é o lugar. Quem não o vê padece de grave enfermidade mental. Em seus artigos sobre ética, devem procurar o ‘inteligível’ na ética prática, caracterizar o que é o juízo moral, qual a natureza de certa virtude, o que é a consciência, a liberdade, etc. Se falarem das injustiças que se cometem, estarão mudando de assunto. E é comum que a incompetência intelectual os leve a carregar nas tintas no aspecto moral (pode ser, por exemplo, um clamor contra as ‘injustiças sociais’ ou contra a degeneração moral trazida pela detestável modernidade). Se o seu assunto é a pedagogia, é impossível não se preocupar com a educação. Mas você ainda está a um passo da esfera prática da educação, porque estará lidando com teorias da educação. Pode ser um enfoque sociológico, que costuma estar próximo do pedagógico. Não conheço obras a respeito. Posso indicar, por exemplo, a Ética a Nicômaco de Aristóteles e um artigo que escrevi, Agir com vistas ao bem, para a Dicta 2. Pode não ser grande coisa — e eu mesmo penso que caí em vício que condeno, e já condenava à época — mas talvez te ajude a encontrar referências. Abraço.

    Comment by Julio Lemos — 17 de abril de 2012 @ 1:55 pm

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