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Especial 11 de setembro parte final – A Babel do Rancor

Filed under: Filosofia,Literatura incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 11 de setembro de 2011

1.

Próximo

E difícil de abarcar está Deus.

Mas onde existe o perigo também

A salvação é pródiga.

Friedrich Hölderlin, Patmos.

De todos os 11 de setembro que devem ser lembrados, não podemos nos esquecer daquele que aconteceu em 1805, quando a família e os amigos de Friedrich Hölderlin deixaram-no nas mãos do Dr. Ferdinand Autenrieth, responsável pela clínica para os mentalmente instáveis em Tübingen, cujo peculiar método de cura era colocar a face do paciente em uma máscara para que este fosse impedido de gritar.

Hölderlin era então um jovem poeta, autor de algumas odes, alguns hinos, um romance epistolar (Hyperion), uma tragédia inacabada (A morte de Empédocles) e se preparava para escrever os hinos tardios que lhe dariam a posteridade tão almejada, entre eles Patmos, em que se colocava no lugar de ninguém menos que São João Evangelista, ao apóstolo que, exilado na ilha grega do mesmo nome, teve a visão daquilo que hoje chamamos de apocalipse, a revelação das últimas coisas.

Entre 1800 e 1805, ele alternava estados de perfeita lucidez com outros de uma instabilidade psíquica que ninguém conseguia compreender. Ao voltar a pé de uma viagem que fez à França em 1802, ficou fascinado pelas ruínas gregas que havia encontrado pelo caminho. Seus amigos em Stuttgart ficaram chocados com sua aparência quando ele finalmente retornou. “Estava pálido como um cadáver, muito magro, tinha os olhos encovados e com expressão bravia, cabelo e barba compridos e vestia como um pedinte”, disse Friedrich Mattheson, um de seus colegas mais próximos. No mesmo ano, soube que sua então amante, Susette Gontard, havia morrido de uma moléstia incurável e fulminante.

Os 231 dias que passou na clínica de Tübingen não melhoraram o seu estado – aliás, ao que parece, só contribuíram para agravá-lo. Se não fosse por Ernst Zimmer, um modesto marceneiro que tinha lido Hyperion na sua juventude e que resolveu acolhê-lo numa torre contígua à sua casa, Hölderlin teria sido abandonado sem remorsos. Era um caso sem solução. Os médicos afirmavam que não duraria muito tempo.

Viveu por mais 36 anos, isolado na torre de Zimmler, recebendo poucos visitantes, em absoluto silêncio, escrevendo e reescrevendo alguns projetos de hinos que jamais seriam concluídos. Ninguém da sua família o visitou, muito menos seus amigos mais famosos, como Hegel e Schelling, com quem convivera no seminário em Tübingen durante a juventude em que presenciou, como uma testemunha privilegiada, o nascimento daquilo que seria o idealismo alemão.

Um ano após a internação de Hölderlin, Georg Friedrich Hegel dava os últimos retoques na sua Fenomenologia do Espírito e, ao saber da invasão das tropas napoleônicas em Iena, viu Napoleão passar na frente de sua janela e disse a um amigo: “Eu vi o espírito do mundo passando pela minha cidade a cavalo”.

O Imperador francês – como queria ser reconhecido pela Europa toda – havia dominado a Prússia e a Áustria com facilidade. Até 1815, o continente tinha sido vítima de uma expansão militar poucas vezes vista, só comparável o que aconteceria cento e vinte anos depois quando a Alemanha nazista revidou (também com facilidade) com a Ocupação francesa durante a Segunda Guerra Mundial.

E, enquanto isso, Hölderlin ficava quietinho na sua torre e Hegel elaborava um novo sistema filosófico que simplesmente resolvia todos os problemas da própria Filosofia. O mundo entrava numa espiral descendente que parecia não ter fim.

2.

For the perverse unreason has its own logical process.

Joseph Conrad, The Secret Agent

 

Se Hegel tinha visto o “espírito do mundo” trotando a cavalo na frente da sua casa e Hölderlin tentava alcançar o mesmo apesar da distância imposta pela sua suposta loucura, o que os nova-iorquinos – e o resto do planeta – viram quando as Torres Gêmeas desabaram no dia 11 de setembro de 2001 foi um spiritus mundi que até então tinha resolvido ficar oculto e, ao se revelar daquela maneira, impediu a possibilidade de que alguém emitisse sequer um grito, tal como a máscara que paralisava os rostos dos pacientes na clínica de Tübingen em 1805.

Este spiritus mundi lançou sua sombra pelos próximos dez anos sob a forma de três conseqüências:

- Apesar de termos testemunhado um dos eventos mais aterrorizantes já ocorridos, avisando-nos claramente de que há um Mal que atua neste mundo, preferimos o que carinhosamente apelidei de “a opção da avestruz”: encolhemos a cabeça, a enterramos bem no fundo do solo e nos negamos a ver que a maldade está nos detalhes e nos nossos corações, causando assim uma doença que se alastra pela sociedade ocidental e que poucos conseguirão diagnosticá-la quando ela surgir em sua verdadeira face;

- A recusa ao ver o Mal também paralisou qualquer espécie de reação correta e justa que se possa meditar a seu respeito. Se por um lado reagir contra o Terror pode levar a ações consideradas extremas (ex: qualquer espécie de guerra, este monstro que invade a consciência dos pacifistas), por outro lado o quietismo que imperou nos meios considerados progressistas (disfarçado de “tolerância” e “pluralismo”) impede que se aja como qualquer ser humano racional faria diante de tal situação (ou seja, a tão boa e tão esquecida legítima defesa). Tal dilema só leva à uma única manifestação: a da apatia, que atinge o indivíduo, e a da entropia, que corrói a sociedade política;

- Contudo, a apatia e a entropia não duram para sempre. Existem dois caminhos quando surge o momento da ação: ou temos aquilo que Albert Camus chamava de a revolta justa, em que a pessoa reage diante de um mal insuportável e que precisa parar de existir de qualquer forma – e esta reação é feita com a perfeita consonância entre os meios e os fins; ou temos o puritanismo protegido pela ética do rancor e do ressentimento, comportamento característico de quem vê o mundo pelos filtros de qualquer espécie de ideologia política, seja de direita ou de esquerda.

Foi este mesmo rancor que motivou os terroristas que destruíram as Torres. Para eles, o próprio World Trade Center era um símbolo do atrito entre o Ocidente e o Islã. É um erro de julgamento típico de quem vê o mundo pela perspectiva apocalíptica. Se alguém quiser encontrar um sentido para a destruição daquela tão engenhosa construção arquitetônica, deve voltar para o episódio da Torre de Babel, narrado no livro do Gênesis. Ali, havia apenas a velha e boa hubris, a rebelião que o homem ocidental sempre fez contra a ordem do ser desde que adquiriu este pecadillo chamado consciência.

O ataque ao WTC foi a prova de que ainda era possível se pensar em executar uma atrocidade nos mínimos detalhes, pelo menos desde que o Ocidente resolveu esquecer de que houve algo chamado Shoah. Era uma nova variação do Mal Lógico: a construção minuciosa de uma ação irracional que, para citar Joseph Conrad, possui um processo de racionalização que poucos ousam compreender. Por uma ironia trágica, o alvo desta ação era também o outro lado da moeda: a ciência exata da arquitetura e da engenharia, filhotes do cientificismo e do positivismo, os fenômenos que mostram apenas os fatos e nada mais, sendo destruídos pelo mistério poderosíssimo de um espírito que não hesita ser questionado.

Se alguém chegar a esta conclusão perturbadora, não pode esquecer ir para o próximo passo: o de que o Ocidente e o Islã não são tão diferentes como pensamos. Ambos sofrem do mesmo dilema: a corrupção de seus princípios mais duradouros. O Ocidente não acredita mais na ordem do ser que o fundou; o Islã acredita nela até demais, mas, ao mesmo tempo, deixou-se infectar pelas ideologias progressistas ocidentais – tais como o marxismo e o desconstrutivismo – e isso acentuou ainda mais a sua característica apocalíptica, provocando o que um scholar como Richard Landes chamaria de jihad global. Agora, os terroristas não atacam para impor a sharia em alguns lugares; eles querem sua imposição no mundo todo, de preferência usando como meio a criação de uma comunidade fundada no terror e no sofrimento, uma comunhão de vítimas que sofrem em função de um projeto muito maior, a da libertação da raça humana dos grilhões da escravidão espiritual.

O resultado disso tudo é que vivemos hoje em um mundo de violência aleatória – e ela não precisa ser explícita, com explosões, guerras e tiros, mas permeia cada partícula do relacionamento humano, em especial o modo como o homem lida com aquilo que lhe é mais precioso: a sua relação com a Palavra. Como numa lógica de alucinação, percebemos que a queda daquelas duas torres nos levou a uma confusão de valores, a uma Babel do rancor. Ninguém sabe mais como denominar algo, como analisar corretamente algum evento. Tudo começou a ser visto como se estivéssemos em uma névoa da ignorância, com a diferença que não teremos um tabernáculo no final desta peregrinação.

Em seu magistral A origem da linguagem, Eugen Rosenstock-Huessy explica detalhadamente as quatro doenças que podem atacar o nosso envolvimento com a Palavra: a guerra, a revolução, a crise e a desintegração. Em um resumo breve, podemos definir cada doença da seguinte forma: a primeira ocorre quando não se escuta o que o inimigo diz; a segunda acontece quando não se diz ao amigo o que fazer ; a terceira se demonstra pela gritaria inarticulada que impera na sociedade; e a quarta é representada pela repetição hipócrita de termos e conceitos que ninguém mais entende a que se referem no mundo concreto.

Na época de Rosenstock-Huessy essas doenças foram delimitadas (meados da década de 30 do século passado) como se fizessem parte de uma queda ontológica do ser, como se um estado sucedesse o outro e assim por diante. Hoje isso não é mais possível: as quatro doenças da linguagem vivem simultaneamente na nossa sociedade, impedindo-nos de identificá-la e rematá-la com uma profilaxia adequada. Naquele mesmo período, outro alemão, Hermann Broch, escrevia em 1934 de que a humanidade se apoderou de um desprezo peculiar pelas palavras. Ninguém mais conseguia conversar decentemente com o outro ao seu lado. Qualquer espécie de debate racional era impossibilitado pelo fato de que um tentava dominar o seu semelhante impondo a sua visão-de-mundo. A palavra servia como meio do poder do forte sobre o fraco e nada mais.

Entre Rosenstock-Huessy e Broch, é provável que o último seja um autor mais atual para os nossos tempos pós-11 de setembro. Perdemos a capacidade de persuasão, de convencermos o próximo de que ele pode estar errado e este perdeu a capacidade de nos convencer que podemos também estar errados. Broch afirmava que a recuperação da Palavra, a que o autor do Gênesis e o apóstolo autor do Evangelho de São João compreendiam com a mesma exatidão, apesar da distância de dois mil anos, só poderia acontecer com o retorno de um mito que restaurasse a ordem do sagrado, a ordem do ser que nos fizesse ver os limites e as extensões da nossa responsabilidade. Contudo, ele reiterava que poucos entenderiam sobre o que falava tal mito; é provável que, justamente por causa da crosta de incompreensão que desceu sobre a consciência humana, o mito só poderia ser decifrado não por meio da Palavra e sim por meio do Seu silêncio.

E aqui voltamos ao recolhimento de Friedrich Hölderlin. Para René Girard, em seu Achever Clausewitz (livro responsável por aglutinar muitas das idéias expostas nesse texto e que foi traduzido recentemente – e de forma impecável – por Pedro Sette-Câmara), a aparente loucura do poeta alemão não era loucura em hipótese nenhuma. Era uma forma de manter a sanidade espiritual em um mundo que se preparava para a loucura apocalíptica sobre a qual estamos sendo jogados como os antigos cristãos no Coliseu romano. O silêncio de Hölderlin é o silêncio da Palavra diante da ambigüidade terrível do mundo; ao mesmo tempo,segundo o pensador francês, é neste mesmo silêncio que se encontra a nossa salvação. Eis aí um raciocínio perigoso que pode nos levar ao quietismo moral tão duramente criticado por Michael Oakeshott em seu The politics of faith and the politics of skepticism.

Não por acaso, foi a análise deste mesmo silêncio que salvou a carreira de Martin Heidegger, o filósofo brilhante que se enamorou com o regime hitlerista. Girard argumenta que o alemão não entendeu nada a respeito desta retirada do mundo. Da nossa parte, somos obrigados a colocar tudo em suspensão, uma vez que a cautela de quem já vive no apocalipse nos leva a esta atitude.

3.

Like Aristotle down a well,

I´ve no conception where the hell

things come from, but I do know Evil´s

to be fought, not figured out.

Who says the Self is history

is suffering pinkeye. Let me

suggest they line up, A to Z,

and fuck themselves like democrats.

Joseph Brodsky, Speech over spilled Milk.

Por sua vez, o poeta russo Joseph Brodsky, que viveu uma outra forma de silêncio – o dos Gulags e do exílio exterior – propunha uma reação diferente. Conforme conta em seu ensaio Um discurso inaugural, proferido a uma classe de recém-formados da Faculdade de Princeton a partir do famoso ensinamento cristão de dar ao inimigo a outra face, a pessoa que recebe a violência dessa forma deve sempre se lembrar que o versículo continua da seguinte forma: “Mas se alguém te ferir na tua face direita, oferece-lhe também a outra (…) e ao que quer demandar-te em juízo, e tirar-te a tua túnica, larga-lhe também a capa. E se qualquer te obrigar a ir carregado mil passos, vai com ele ainda mais outros dois mil”. Ou seja, somente quando fizer tudo isso, então a vítima pode reagir porque enfim chegou a um limite.

O 11 de setembro foi este limite. Depois deste dia, não podemos ficar mais em silêncio, como também não podemos partir para a ousadia de Brodsky retratada no poema acima. Temos de encontrar um ponto de equilíbrio, algo próximo de uma prudência aristotélica que nos ensine a ter a sensibilidade adequada para reconhecer e enfrentar o Mal pelos meios que julgamos ser justos. Mas até mesmo tal prudência parece ser algo utópico. Nesses dez anos, continuamos a oferecer a outra face ao inimigo – e relutamos em descobrir que o inimigo não é apenas o muçulmano que quer impor a sua sharia, mas principalmente nós mesmos, os ocidentais que não querem mergulhar na escuridão dos nossos corações. A primeira prova de que estamos completamente contaminados é a nossa incapacidade de ver as trevas dentro da luz e vice-versa.

Só a partir deste ponto, deste limite que ninguém mais consegue exprimir em palavras adequadas, que podemos solucionar os problemas que julgamos necessários para repararmos a sociedade. E então virá a resposta inusitada que, como Brodsky fala, nos fará vencer o inimigo sem cairmos nos perigos da sua malícia. Porque, infelizmente, neste mundo ocidental obcecado pela democracia e no mundo islâmico onde todos são iguais diante de Allah, ainda temos medo de descobrir que a única coisa que nos iguala e nos une é a nossa infinita capacidade de destruir o nosso semelhante – e nada mais. Enquanto isso, a Palavra tentará permanecer, entre escombros e sussurros, mesmo que seja a custa do silêncio criado pelo rancor de todos nós.


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Especial 11 de setembro parte 5 – Dez anos depois

Filed under: Sociedade incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 10 de setembro de 2011

Por Nelson Ascher

Meu 11 de setembro ocorreu pouco após a hora do almoço, pois eu estava então na França. Tão logo se patenteou que não se tratava de um acidente, creio que a primeira impressão avassaladora –e não só minha— foi a de enormidade, ainda mais porque, naquelas primeiras horas, o número que se esperava de vítimas fatais andava pela casa das dezenas de milhares. Que a cifra tenha ficado significativamente abaixo disso, nem sequer ultrapassando o marco de 3.000, foi uma espécie de anticlímax quase feliz, que, sem reduzir a enormidade em questão, admitia um pensamento consolador: “eles não conseguiram tudo o que queriam”.

Para mim foi, de início, difícil metabolizar o acontecido, e confesso que cheguei a pensar que aquilo era extremo demais até para os extremistas muçulmanos, que nem eles sonhariam em despertar a ira concentrada e determinada dos americanos e do Ocidente. (Como se vê, eis algo aí que eu superestimei.) Por isso, tentei passar mentalmente em revista que grupos –os quais me pareciam mais desvairados porque eu os conhecia menos– teriam sido capazes de perpetrar o malfeito: tâmiles do Sri Lanka, Sikhs do Punjáb?

O Ministério Internacional da Informação, formado coletivamente pela imprensa e mídia ocidentais, cuidou de sepultar no buraco da memória um episódio relativamente menor, mas não menos relevante, daqueles dias. Muçulmanos do mundo inteiro, especialmente em cidades árabes, saíram às ruas para comemorar o massacre de possíveis dezenas de milhares de civis inocentes. Logo naquele primeiro dia, a TV ainda exibiu a imagem de palestinos festejando, buzinando, cantando e distribuindo doces e balas (os confeitos, não os projéteis) nas ruas da Cisjordânia. Convém lembrar que, se existe a causa palestina e se os palestinos vivem, curiosamente, melhor do que a maioria de seus vizinhos árabes, isso se deve à generosidade do contribuinte americano, justamente aquele que eles mais parecem detestar, ou seja, não existe imunidade para nenhuma boa ação. Em todo caso, aquelas cenas degradantes de comemoração desapareceram das telas e dos comentários em um ou dois dias, para nunca mais retornar. O medo do efeito que poderiam causar, no entanto, foi o bastante para que Iásser Arafat –também ele chocado como alguém que tivesse visto seu próprio cadáver— doasse às vítimas americanas seu próprio sangue diante das câmeras do mundo.

E talvez tenha sido este pequeno episódio que se mostrou um dos mais importantes, pois foi com ele que se deflagrou a batalha ideológica e midiática em meio à qual vivemos até hoje. No que é que consiste ela? Em relativizar, reduzir e dissipar a verdade que emergiu claramente dez anos atrás, a saber, a de que existe uma luta entre a civilização e a barbárie, entre a liberdade e o terror, entre o princípio da vida e o impulso genocida, e, especialmente, que a forma que este impulso assume hoje em dia é a de uma aliança entre o fascismo islâmico e a maior parte da esquerda e/ou da intelectualidade ocidental. Enfatizo em particular o caráter genocida daqueles atentados, pois se há algo a respeito do que eles não deixaram sombra de dúvida é , não apenas que sua intenção era maximizar a quantidade de cadáveres, mas também que o único limite que lhes foi imposto era o dos meios, já que, se dispusessem de artefatos nucleares, os perpetradores os teriam detonado, nem que fosse na Índia, no Gabão ou até na Arábia Saudita.

A aliança entre a esquerda ocidental e o extremismo islâmico pode parecer estranha para quem vê na primeira uma herdeira mais ou menos bastarda do Iluminismo, mas não surpreende a quem já tenha percebido que ambos nascem de uma raiz comum, o milenarismo apocalíptico, e que, num nível apenas aparentemente mais trivial, ambos são encarnações do desejo de interferir na vida alheia, supervisioná-la e fazer todo mundo viver segundo certos preceitos doutrinária, ideológica ou politicamente corretos. Nem à toa, portanto, que todas as tendências desencontradas que manifestavam desejos vontades, a começar pelas ambientalistas, caíram, na hora da grande divisão de águas, do lado dos genocidas.

Os últimos dez anos parecem, sob certos aspectos, uma vitória justamente desses últimos, nem que isso tenha se dado por meio de um complicado efeito dominó que ninguém poderia ter previsto: por exemplo, a campanha maciça contra a Guerra do Iraque e o governo Bush levou ao poder o mais ideologicamente esquerdistas dos presidentes americanos, Barack Hussein Obama, e este, por seu turno, em parte criando um vácuo de poder no mundo, tornou possível a presente primavera do fundamentalismo islâmico nos países árabes, algo cujas conseqüências podem se revelar assustadoras. Há sinais, porém, de que se trata de uma vitória pírrica, alcançada graças ao sacrifício das últimas reservas de credibilidade de que a esquerda e seus aliados dispunham. Seja como for, só uma coisa é segura: os próximos anos continuarão sendo muito interessantes.

Nelson Ascher é poeta, tradutor e colaborador da revista Veja.


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Especial 11 de setembro parte 6 – A origem do mal

Filed under: Religião incluído por Joel Pinheiro
Data do post:

Crédito da foto: Scott Eaton

O atentado às Torres Gêmeas marcou indelevelmente a memória de quem viveu aquele dia. Cada um lembra onde estava quando soube que o WTC tinha sido atacado. Havia um clima de ansiedade e perda de sustentação; tudo estava em aberto. O trabalho e as aulas pararam. Eu estava no primeiro ano do ensino médio, e voltava para casa mais cedo. Muitos colegas foram ao anfiteatro da escola assistir os noticiários. Não vi, mas fiquei sabendo que se comemorou naquele anfiteatro quando o segundo avião bateu, o que não me surpreende: todos ali eram muito conscientizados.

Aplaudir o ato, ou ver nele qualquer semblante de justiça, é quase obsceno. Creio desnecessário argumentar longamente sobre isso. No fundo até os terroristas o sabiam. Marwan al-Shehhi, um deles, respondera certa vez quando lhe perguntaram por que ele nunca sorria: “Como você pode sorrir quando há pessoas morrendo na Palestina?” Por admissão própria, ele via a morte violenta de pessoas como má. Ao decidir cometer os atentados, os jovens fundamentalistas aceitaram ser um canal, um meio de realização, desse mal. Aceitando-se a lógica consequencialista dos terroristas (que é também aceita por importantes filósofos ocidentais) tudo é potencialmente permitido.

Quando especialistas indagam pelas causas de uma atrocidade como essa, as motivações políticas e religiosas tomam o primeiro plano, mas um importante componente filosófico desses crimes, a ideia de que os fins justificam os meios (lembram-se do que Anders Breivik disse sobre seu crime? “Atroz, mas necessário”), é sempre deixada de lado. Talvez porque nossa cultura já a tenha internalizado de tal forma que ela nem figure mais como uma posição filosófica, e pareça antes um elemento imutável da condição humana. Não se concebe mais a possibilidade daquela inflexibilidade que preferia ver o mundo desmoronar nas mãos dos bárbaros e infiéis do que pecar.

Enfim, aceito sem sombra de dúvida que os terroristas eram maus. Nego, contudo, que a maldade explique seus atos. Uma saudável reação aos determinismos psicológicos, neurológicos, sociológicos tem insistido em que a ação criminosa é uma decisão livre e consciente. E até aí não vejo problema, que só surge quando, dessa razoabilidade inicial, dá-se um passo a mais e afirma-se que, portanto, não se pode falar em nenhuma causa além da livre decisão pessoal, posto que qualquer outra coisa tolheria a autonomia, e assim a responsabilidade moral, do agente. Mas qual o preço de se aderir a essa visão de que o ato mau é uma livre escolha alheia a qualquer causalidade? A maldade se torna ininteligível, uma força que vem não se sabe de onde e sem explicações ou propósito.

Explico-me: em toda ação o agente persegue algo que considera bom. Se não considerasse que o fim de seu ato é bom, não quereria agir. O movimento que não tem causas finais é na melhor das hipóteses um reflexo mecânico, algo que nem chega a configurar uma ação propriamente humana. Portanto buscamos algo que consideramos bons. E não somos nós que decidimos o que consideramos bom. Ao deliberar, escolhemos meios para alcançar um fim que, para essa ação, tem o caráter de um dado imutável. É possível questioná-lo, e compará-lo a outros fins que também são atraentes; essa comparação, todavia, necessariamente se dá à luz de algum fim maior, para os quais esses em consideração são apenas meios. Se não for assim, se a comparação entre os possíveis fins de nossos atos não tiver um critério à luz do qual ser resolvida, então a escolha de um desses fins é um evento fortuito, aleatório do ponto de vista do agente (embora tenha suas causas, vá lá, microfísicas).

Na prática, isso se traduz, por exemplo, em que nenhum homem tem a capacidade ver a dor, a morte, a inimizade, a ignorância como bons em si mesmos. Não está em nosso poder deixar de querer o bem e nem decidir sobre o que é o bem que queremos. Está em nosso poder, contudo, querer o bem de maneira errada, por exemplo subordinando bem maior a um menor, evadindo a consideração racional que mostraria o quanto essa escolha nos distancia daquilo que verdadeiramente procuramos. Isso é o mal. O mal não é uma inclinação contrária a nossa inclinação natural (no sentido de que não a escolhemos), mas sua corrupção. O mal parasita o bem, e toda existência que ele tem é, na verdade, a existência do bem parcialmente mutilado.  Mesmo o aparente desejo do mal pelo mal, o desejo de transgredir a moralidade pelo mero fato de ser proibido, tem algum bem que o anima: a admiração dos colegas, a afirmação da própria autonomia e poder, etc.

Assim, não basta saber que o terrorista “era mau” e dar-se por satisfeito da mesma maneira que se soubéssemos que “era louco” (caso em que não mais esperaríamos alguma explicação plausível, ou mesmo inteligível, para seu ato). Precisamos conhecer de onde veio sua maldade; qual era o bem que foi corrompido. Esse é um exercício que será sempre politicamente incorreto, e não tem como não sê-lo. Pois ao nos perguntar sobre as causas de um ato mau, perguntamos, entre outras coisas, pelas crenças e valores que levam a tal distorção do caráter (ou, ainda, que atraem àqueles cujo caráter já é distorcido), e que são elas também, por consequência, más.

No caso do 11 de setembro, sabemos bem a origem intelectual do crime: o Islã de tipo sunita fundamentalista. Para eles, todas as respostas para a existência humana, tanto individual quanto social, estão perfeitamente dadas pelo Corão e pelas falas documentadas de Maomé. Tudo o que passa disso é, na melhor das hipóteses, distração. É preciso dizer o que isso representa para a ciência? Para a arte? Para a filosofia? Se quem pensa assim ficasse contente com sua escolha de vida, até tentando convencer aos demais por seu exemplo e argumentos, e convivendo em paz com eles, não haveria grandes problemas. O problema é que essa versão do Islã inclui a prescrição sobre como a sociedade deve se organizar, e essa prescrição não é exatamente uma carta de direitos individuais. Uma sociedade na qual mulheres não podem mostrar o rosto em público ou conviver com homens não-aparentados, na qual quem não é muçulmano (e da mesma exata variante) é reprimido de várias maneiras, e na qual o muçulmano que decide deixar sua fé recebe a pena de morte. Mesmo com tudo isso, poderia ser que, apesar da proposta política monstruosa, essa ideologia religiosa fosse consistente e respeitasse os próprios mandamentos, não os violando quando fosse conveniente. Contudo, nem aí encontramos consolo: pois para essa visão de mundo não existe certo e errado cognoscíveis racionalmente. Toda a ética deriva do capricho arbitrário de Deus, que pode inclusive dar a ela quantas exceções e auto-contradições ele quiser. Portanto, muito embora Deus condene o homicídio, se for pela causa de destruir os inimigos da fé, tudo bem.

É possível ter um mínimo de decência e sanidade e não ver nisso algo tenebroso? Como fingir que todas as crenças são iguais, que todas as culturas são boas, se há crenças e culturas que pregam isso?

Mas esse é só o primeiro passo da minha proposta de reflexão: identificar o que há de errado nas concepções dos terroristas, que é praticamente tudo. O segundo é, lembrando novamente que o mau tem causas, perguntar-se acerca do que causa uma crença como essa; ou mais especificamente, o que leva alguém a aderir a essa visão de mundo? Trata-se de um estado de revolta profundo. Não revolta contra a “modernidade” (o que é isso, afinal?), mas contra a razão: contra a capacidade do ser humano de conhecer, agir, convencer e criar, a ser substituída pela imposição da fé cega e da obediência muda, o preço a ser pago para se alcançar alguma paz de espírito em meio ao caos, miséria e injustiça que assolam a existência.

E como não se revoltar contra o mundo ao crescer nas condições de pobreza e, o que é pior, falta de perspectivas e a mediocridade existencial nas quais crescem tantos jovens muçulmanos, seja nos países originais de suas famílias ou nas nações europeias para as quais seus pais imigraram? Sua situação é ruim e o sentimento de revolta contra um estado de coisas aviltante é justo. Só que a causa de sua miséria não é o Ocidente, não são os EUA e nem Israel.

A existência de uma nação na qual impere a razão e os direitos individuais, que é o que os EUA ainda simbolizam (na prática, o são parcialmente) é incompatível com a ideologia islâmica fundamentalista, que sempre os odiará. Mas por que essa ideologia encontra adeptos? É tudo manipulação e mentira dos líderes da militância fundamentalista, ou será que os EUA e Israel dão alguns bons motivos para a revolta que se dirige contra eles?

Se o individualismo e a razão são os responsáveis pela morte dos parentes de um rapaz numa operação do exército americano, ou pela violência expansionista do Estado de Israel, a negação desses valores deve ser uma coisa boa. Preservar o mito de que o mal é inexplicável, ou de que não tenha causas boas, serve à ilusão de que não há nada que os EUA e Israel possam fazer para reduzir o ânimo fundamentalista contra eles. Mas os atos do governo americano no Oriente Médio fornecem largo incentivo para que mais jovens muçulmanos se interessem pelo ideário fundamentalista.

Dar as causas de um ato é muito diferente de atribuir responsabilidade. Quem sai na rua ostentando celular e relógio caros e é roubado não é, de forma nenhuma, culpado pelo crime. Mas é impossível de negar que suas ações incentivaram o crime. Da mesma forma, afirmar que a política desastrada dos EUA no Oriente Médio incentive o ânimo fundamentalista anti-americano não é afirmar que os americanos e israelenses, ou mesmo seus governos, sejam culpados do terrorismo. Além disso, é claro que o caso de Israel é o mais complicado, pois ela luta, ao contrário dos EUA, por sua existência, que deve ser assegurada (e não há dúvidas de que, apesar do uso excessivo da violência, Israel tem a superioridade civilizacional, cultural e moral da região). Ainda assim, não dá para deixar de pensar que, se o governo fosse menos expansivo, atrairia para si muito menos ódio (que é partilhado por quase todos no mundo árabe, mesmo não-muçulmanos).

Desde o 11 de setembro os EUA vêm travando uma longa guerra ao terror e intensificando sua presença no mundo muçulmano. No desmantelamento da Al Qaeda essa operação tem sido bem-sucedida. Mas e no que diz respeito ao fanatismo e ao fundamentalismo islâmico que alimentam o tipo de pensamento dos quais a Al Qaeda é um caso particular? Ainda é cedo para dar um veredito, mas o fundamentalismo parece crescer, especialmente entre os jovens (inclusive entre os jovens imigrantes, menos integrados à cultura europeia que seus pais). Talvez estejamos assistindo os últimos suspiros de um tipo de ideologia que não tem como sobreviver em meio ao mar de informação incensurável que é a Internet. Ou talvez o crescimento e articulação de um novo adversário do Ocidente para as próximas gerações. Seja qual for o caso, a presença do exército americano tem sido sempre um motivo para aumentar o ressentimento das populações locais por seu “salvador” indesejado. Foi assim no Afeganistão, no Iraque (e lembrem-se que na entrada em Bagdá os americanos foram efusivamente saudados pelo povo), e continua sendo.

As revoluções no mundo árabe são um momento crítico. Paralelo ao apreço pela democracia (que pode servir tanto para garantir direitos individuais como para violá-los com o aval da maioria) está o fortalecimento do fundamentalismo sunita (que não é equivalente a terrorismo mas está a um passo dele). Se elas seguirão o caminho de abertura e sanidade com que aparentemente começaram, ou se serão cooptadas pela militância islamista, só o tempo dirá. O mal sempre procurará pretextos para odiar o bem; o melhor que o bem pode fazer é não dar motivos. O terrorismo muçulmano que destruiu o WTC e a “conscientização” marxista que se alegrou ao vê-las cair (ramos de uma mesma árvore intelectual) usam meios nefastos para um fim terrível; mas se originam, em parte, de uma revolta justa contra um mal real.

[CONTINUA AMANHÃ]


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Especial 11 de setembro parte 3 – O ressentimento e a memória

Filed under: Literatura incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 9 de setembro de 2011

Por Karleno Bocarro

Goethe não compartilhou do entusiasmo com que Herder, Wieland, Klopstock e Schiller acolheram a Revolução Francesa. Acusado de conservador e inimigo da liberdade, defendeu, trinta e cinco anos mais tarde, para o amigo Eckermann, a sua posição: comoviam-lhe as vítimas do terror revolucionário, indignava-lhe o recurso à violência como solução aos problemas humanos. Além disso, os possíveis benefícios da Revolução não eram, na época, conclusivos. Para Goethe, os eventos humanos mudam de forma a cada 50 anos; o que é perfeito em 1800 pode encontrar-se, em 1850, em decomposição.

A cidade de Nova York recompõe-se rapidamente. Logo a Freedom Tower estará no local do principal alvo dos atentados de 11 de setembro, as Torres Gêmeas. A normalidade retorna, o mundo segue adiante, e os atentados terroristas não nos chocam mais. O evento histórico que inicia o nosso século parece precisar de datas comemorativas para ser relembrado. A literatura busca respostas: deixou-nos ele alguma lição, ou a sua interpretação encontra-se presa a concepções ressentidas de pensamento?

Para a escritora paquistanesa Kamila Shamsie, e o seu colega caribenho Caryl Phillips, falta na literatura, em especial a norte-americana, um grande romance que vá além dos eventos do 11 de setembro e discuta a prisão de Guantánamo, a guerra contra o terror, “sobre como aquilo tudo pode acontecer e se tornar algo dominante no governo dos Estados Unidos sem uma reação do povo” [sic]. Palavras que confirmam a filosofia de Richard Rorty. Para Rorty, as medidas do governo Bush contra o terror trariam a morte de instituições democráticas e o conformismo à população. Mas talvez precisemos, nós, os escritores, conceder um tempo maior (os 50 anos imaginados por Goethe?) aos nossos colegas norte-americanos para o romance que Shamsie e Philips tanto lhes cobram. Entre aqueles, porém, que ficam no 11 de setembro há sim excelentes romances, tanto europeus, como norte-americanos (infelizmente nenhum paquistanês ou caribenho): Sábado, de Ian McEwan, Die Habenichtse, de Katharina Hacker, Extremamente Alto & Incrivelmente Perto, de Jonathan Safran Foer, Terrorista, de John Updike, e O Homem em Queda, de Don DeLillo.

No ensaio, In the Ruins of the Future, publicado três meses após o 11 de setembro, DeLillo fala do mundo como uma narrativa que finda no pó e na destruição. Ao escritor cabe inventar uma contra-narrativa, a qual virá à tona como uma espécie de cura às dores abertas pelos erros da época. O escritor quer entender o 11 de setembro e suas consequências. Ainda é cedo? Além de nos faltar o tempo, a compreensão, como a cura, requer paciência. DeLillo, porém, adverte: nossas ideias, assim como o idioma, não podem separar-se do mundo que as provoca. É grande o risco de distorcermos a realidade. O escritor, segundo DeLillo, deve iniciar suas reflexões em meio a ruínas (das torres); ele imagina a ordem inicial aos ataques – o momento em que o Mal dá o primeiro sopro –, desespera-se com a exigência do tema, pois antes mesmo da Política, da História e da Filosofia há o espanto original: justifica-se a perversão terrorista?, e assume um compromisso com as vítimas. Pessoas caem das torres, algumas de mãos dadas… Esse compromisso com o sofrimento não é brincadeira de idiotas! A literatura faz então a contra-narrativa, une corpo e alma; indica que mesmo no caos convulsivo do aço e do concreto há espaços para a beleza humana, expressa nos gestos de sacrifício e esperança.

DeLillo precisou de mais seis anos para escrever um dos melhores romance sobre o 11 de Setembro, Homem em Queda. Seis anos de muito trabalho: esperar, escrever, corrigir, pensar… A tarefa nunca é fácil. No mesmo ensaio, DeLillo nos fala do terrorista: a vantagem que ele possui é uma força monstruosa. O terrorista conhece apenas uma ação; reduz o mundo a um só plano, o da destruição.

Ambiento o meu romance, As Almas que se Quebram no Chão, antes dos ataques de 11 de Setembro. A história, contudo, cobre o primeiro ataque ao World Trade Center, o de 26 de Fevereiro de 1993. Marco, o protagonista, uma personagem de caráter duvidoso, encontra-se no aeroporto de Berlim quando lê a manchete do atentado no El País, e comenta: “Castigo merecido! O que querem os americanos com torres gigantes rasgando o céu?’. Na mesma linha de raciocínio, Noam Chomsky, o grande linguista, numa série de entrevistas – publicada no Brasil com o título “11 de Setembro” – atribuiu aos Estados Unidos, com sua política externa intervencionista, a responsabilidade pelos atentados às Torres Gêmeas.

Para Marco, assim como para Chomsky, a preocupação não é com a dor e o pânico das vítima. Em relação à opinião dos escritores Shamsie e Philps, próximas a um anti-americanismo comum no meio intelectual, podemos responder com um conceito de Samuel P. Huntington, o “choque de civilizações”. As ideias encontram-se hoje contaminadas por um forte sentimento anti-ocidental e são seletivas com qual sofrimento devem identificar-se.

Talvez o mundo pouco tenha mudado desde os atentados de 11 de setembro. A violência e a estupidez permanecem. Mas nos consola a presença, na literatura, de escritores como Don DeLillo que nos ajuda a lembrar de suas vítimas.

Karleno Bocarro é escritor, autor de “As almas que se quebram no chão” (É Realizações, 2010) e de “O Advento” (no prelo).


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Especial 11 de setembro Parte 4 – Uma nova música para os nossos tempos difíceis

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Por Leandro Oliveira

No dia 17 de setembro de 2001, ao ser perguntado sobre os eventos da semana, Karlheinz Stockhausen comenta em uma conferência em Hamburgo:

“Trata-se da maior obra de arte imaginável em todo o cosmos!” E segue: “Mentes que realizam em um ato aquilo que não poderíamos sequer sonhar em música, pessoas ensaiando como loucos por dez anos, preparando-se fanaticamente para um concerto, e então morrendo – imagine o que aconteceu lá… Eram pessoas que estavam tão focadas naquela única performance, quando então 5.000 outras pessoas são enviados no mesmo momento para outra vida. Eu não poderia ter feito isso… Por comparação nós compositores somos nada. Artistas algumas vezes tentam ir para além dos limites do que é factível ou concebível, e então podemos acordar e abrirmo-nos para o outro mundo.”

Perguntado se, no caso, não deveria prevalecer a distinção entre o que é crime e o que é arte ele responde:

“É um crime apenas por que as pessoas não concordam. Elas não foram ao ‘concerto’. Isso é claro. E não foram avisadas que iriam morrer [draufgehen]. O que aconteceu lá espiritualmente, esse salto para fora do que é seguro, para fora do ordinário, fora da vida, isso acontece algumas poucas vezes, raramente em arte.”

Não eram as palavras de um artista-profeta, um transcendentalista a advogar uma arte como revelação, um meio para o desenvolvimento espiritual. Eram palavras que expressavam uma visão de arte e música inaugurada pelas vanguardas do século XX.  E nesta visão de arte, que é uma visão de mundo, Stockhausen e seus acólitos se excediam neste tipo de totalitarismo destrutivo de sua própria “imaginação”, colocando como o mais alto valor da arte a ousadia, resumidas no slogan “l’audace, toujours de l’audace”. Buscando o eterno contraste com o convencionalismo acusam a timidez de todos os contemporâneos que não caíram de joelhos a seus pés e à doutrina que recomendavam.

Embora não soubesse, Stockhausen estava já falando de outro mundo. O que morre definitivamente no dia 11 de setembro de 2001 é sua “nova música”, inaugurada teoricamente pelo aiatolá Pierre Boulez na famosa fatwa de 1952:

“Qual a conclusão? O inesperado: afirmamos, por nossa vez, que todo músico que não sentiu – não dizemos compreendeu, mas sentiu – a necessidade da linguagem dodecafônica é INÚTIL. Porque toda a sua obra se situa aquém das necessidades de sua época.”

Boulez fala, entre outros, para Stravinsky, que naquele mesmo ano se volta ao serialismo. E o que o compositor quer é muito mais do que a liberdade pessoal (e a subvenção estatal): é a normatização da idéia de que a arte tem uma história distinta daquela da Cultura; acreditando que esta história (talvez com H maiúsculo) impõe obrigações inexoráveis para com os artistas sérios, ele, Artista (definitivamente com A maiúsculo) se torna prosélito de sua maneira particular de ver a arte como a necessidade para a Cultura. Em resumo, vê a si e sua obra como o ponto culminante de toda a produção até ele.

Ambos são apenas desdobramento do hegelianismo, para alguns; seu efeito é, para forçar a mão, demoníaco na maior parte das vezes. Le Corbusier parte do mesmo “sistema mental” para defender suas aberrações urbanísticas; Godard tem uma atitude equivalente para suas aberrações cinematográficas. E o que há tanto no arquiteto quanto no cineasta e estes compositores é menos “estetismo”, “formalismo” ou coisa que o valha: na verdade, é o cultivo à egolatria e à indiferença daquilo que passa a sua volta, uma estética de criança mimada, vazia de apelo não somente para o público mas para a maior parte dos artistas seus contemporâneos.

É interessante como tais “profetas” confundam reincidentemente a vida humana com os meios materiais que lhes estão dispostos para suas criações; não deixam de tornar os ouvintes meros objetos de seus devaneios, os seres humanos a fantasia da mente do criador (aqui com “c” minúsculo, indubitavelmente).

Digo que tal música morre definitivamente no dia 11 de setembro de 2001 não por deixar de ser praticada ou defendida – é praticada e defendida até demais nas universidades brasileiras -, mas porque ali, uma semana depois do evento, nas palavras de Stockhausen mostrou toda sua desumanidade monstruosa.

Em 2003, John Adams recebeu o Pulitzer Prize por “On The Transmigration of Souls”. Ela é resultado de encomenda realizada pela Filarmônica de Nova Iorque em memória às vitimas do 11 de Setembro. Nas palavras do compositor

My desire in writing this piece is to achieve in musical terms the same sort of feeling one gets upon entering one of those old, majestic cathedrals in France or Italy. When you walk into the Chartres Cathedral, for example, you experience an immediate sense of something otherworldly. You feel you are in the presence of many souls, generations upon generations of them, and you sense their collected energy as if they were all congregated or clustered in that one spot. And even though you might be with a group of people, or the cathedreal itself filled with other churchgoers or tourists, you feel very much alone with your thoughts and you find them focussed in a most extraordinary and spiritual way (…)

I want to avoid words like “requiem” or “memorial” when describing this piece because they too easily suggest conventions that this piece doesn’t share. If pressed, I’d probably call the piece a “memory space”. It’s a place where you can go and be alone with your thoughts and emotions. The link to a particular historical event–in this case to 9/11–is there if you want to contemplate it. But I hope that the piece will summon human experience that goes beyond this particular event. “Transmigration” means “the movement from one place to another” or “the transition from one state of being to another.” It could apply to populations of people, to migrations of species, to changes of chemical compositon, or to the passage of cells through a membrane. But in this case I mean it to imply the movement of the soul from one state to another. And I don’t just mean the transition from living to dead, but also the change that takes place within the souls of those that stay behind, of those who suffer pain and loss and then themselves come away from that experience transformed.

Muito antes de Stockhausen vir com sua piadinha de mau-gosto, uma música já vinha sendo cultivada – na América por John Adams, Philip Glass, Steve Reich, no leste europeu por Sofia Gubaidulina, Henrick Gorecki ou Arvo Pärt – plena de consonância com as necessidades de sua época e respectivas comunidades. Música não necessariamente nova, não necessariamente para um novo Homem; apenas música para os nossos difíceis tempos.

Leandro Oliveira é professor de história da cultura, é anfitrião do “Falando de Música” e do curso de apreciação musical do projeto “Itinerante” da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo.

[CONTINUA AMANHÃ]


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Especial 11 de setembro parte 1 – O legado americano

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Data do post: 8 de setembro de 2011

Por Bruno Garschagen

Como podes ser contra o 11 de Setembro? Os Estados Unidos sempre foram os agentes de algumas das piores infâmias da história mundial. Detonaram guerras próprias, estimularam e financiaram guerras alheias. Quem não se lembra do Vietnã? Quem não se lembra da ajuda aos insurgentes do Irã? E quem não se recorda do financiamento aos terroristas Afegãos para combater a União Soviética? E como podemos esquecer a atuação da CIA nos países da América Latina, cuja politica sempre foi monitorada e agitada subterraneamente pelo governo americano? E o nefasto e injustificável embargo contra Cuba? Santo Deus.

Os ataques contra as Torres Gêmeas, a representação duplamente fálica do pior tipo de capitalismo, foram uma reação natural e justificada pela opressão que a cultura e o governo americano exerce há décadas no mundo, não apenas contra os países muçulmanos. O modo de vida americano é um insulto não somente ao Islão, mas às diversas sociedades Ocidentais oprimidas e vulgarizadas pelo consumismo kitsch e pelo refugos culturais embalados e convertidos em bem-sucedidos produtos de exportação.

O que os Estados Unidos deram ao mundo, cavalheiros, senão a corrupção de valores e a ruína moral? Será que devemos perdoar os americanos só por terem criado um país assentado na ideia da liberdade individual e na busca da felicidade? Só porque promoveram sua Independência sob os fundamentos da tradição inglesa que a Coroa Britânica pretendeu solapar? Apenas porque os Estados Unidos foram fundamentais para vencer a Segunda Guerra e derrotar os regimes totalitários da Europa continental e da Ásia?

***

Dizem que o 11 de Setembro mudou os Estados Unidos. É um erro. Um erro baseado no deslocamento da política externa americana num ambicioso projeto de combate ao terrorismo global. O Partido Republicano, que tradicionalmente tende ao isolacionismo para cuidar de assuntos domésticos, viu o ex-presidente George W. Bush conduzir o país numa batalha para além de suas fronteiras contra inimigos sem rosto, território ou sede. Um inimigo dotado de organização descentralizada com células operando em várias partes do mundo e uma satânica competência para articular seus membros e executar as ações terroristas.

O que o 11 de Setembro fez foi fazer com que os americanos empreendessem um processo de resgate de sua história, seus valores, seus princípios fundadores. Não é uma mudança de curso, presumo, mas de uma retomada.

O atual presidente Barack Obama sucedeu G. W. Bush porque a economia ruía e porque se valeu de valores e princípios fundadores do país. Em seu discurso logo após a vitória na eleição, Obama não defendia uma mudança radical das estruturas, mas uma política restauradora. As referências diretas a Abraham Lincoln, suposto modelo político e intelectual do presidente, estão no alicerce estrutural sustentado por outras grossas vigas: os Founding Fathers e a tradição do pensamento político americano. Mas se não era radical, Obama apresentava-se como restaurador daqueles princípios defendidos pelos homens que promoveram a união das 13 colônias num país e assinaram a Declaração de Independência.

O discurso calou tão fundo no coração dos americanos que os atos do presidente ao longo desses anos, contrários aos valores e princípios que alicerçaram suas promessas políticas, abriram as rachaduras que estimularam a reação de parte da sociedade dos Estados Unidos. Fenômenos como o Tea Party são a manifestação mais evidente dessa vereda que potencializou o confronto de posições. Os princípios e valores de Obama eram tão verdadeiros quanto à sua certidão de nascimento no Havaí.

A ação pela retomada dos princípios fundadores está restrita à parcela da sociedade que não apenas é americana, mas que assume o compromisso de proteger e preservar o país criado por seus antepassados.

***

Não é fácil identificar qual tipo de mudança, ou mudanças, foram provocadas pelos ataques terroristas na cultura americana — mais ainda na esfera internacional. Temos a face aparente do impacto, como a posição dos governos e os produtos culturais sobre o tema, mas nem sempre são o indicador mais adequado da mudança real, que implica em adoção de novos hábitos, de modos e de mentalidade. O medo é, de fato, um poderoso estimulante de mudança, mas o passar dos anos e a eficiência dos sistemas de segurança, que impediu novos ataques ou tentativas, tendem a embaçar a memória, não curar cicatrizes, e permite que as pessoas retomem suas vidas sem que o terrorismo seja a preocupação central, embora aquele sentimento de imunidade dos americanos, como classificou David Beers em texto para o Salon, tenha recebido um golpe fatal.

É preciso não confundir o acréscimo de novas preocupações e cuidados com mudança, que implica numa alteração daquilo que se tinha como senso comum. Quando o discurso da guerra contra o terror encontra um terreno compreensivelmente fértil dentro da sociedade, as pessoas assimilam-no como um instrumento que as deixarão em segurança. Isto é tão mais fácil quando entre esses indivíduos existem identidade, ideias e valores comuns (liberdade, direitos individuais, patriotismo, desconfiança em relação a certos tipos de imigrantes, et cetera) capazes de estabelecer uma relação de confiança.

Stuart Croft, em Culture, Crisis and America’s War on Terror (Cambridge University Press, 2006, 310 páginas), como bem resumiu Daniel Béland, mostra como uma metanarrativa coerente rapidamente foi assimilada pela população como um chão comum hegemônico com poder para legitimar o programa político batizado de guerra contra o terror e dominar o discurso político e a cultura popular. A metanarrativa era composta por quatro elementos:

a) a construção retórica de um inimigo perfeitamente identificável como representante do mal que atacou cidadãos americanos inocentes porque odiava a democracia e a liberdade.

b) a ideia de que os Estados Unidos deveriam cumprir sua missão e lutar pela justiça e pela liberdade;

c) a crença de que essa luta deveria ter uma dimensão global e ser liderada pelos americanos com apoio da sociedade internacional;

d) a difusão da informação de que ninguém dentro do governo dos Estados Unidos deveria ser responsabilizado pelos ataques terroristas no 11 de Setembro.

A retórica, a metanarrativa e a política contra o terror, que violou muitos dos direitos e liberdades individuais mais caros aos americanos, produziu, inicialmente, panfletos constrangedores em forma de filme, livro, programas de TV. Passada a excitação inicial, a cultura foi reagindo, se reorganizando, mas com uma clivagem ideológica mais nítida entre esquerda (simpatizantes do Partido Democrata) e direita (alinhados com o Partido Republicano).

Um exemplo de como a literatura tratou direta ou indiretamente os ataques terroristas em 11 de Setembro de 2001 e seus reflexos está na lista de melhor livro de ficção do ano elaborada pelo jornal New York Times: Brick Lane, de Monica Ali, foi um dos escolhidos em 2003; Snow, de Orhan Pamuk, em 2004; Saturday, de Ian McEwan, em 2005; The Emperor’s Children, de Claire Messud, em 2006; e Terrorist, John Updike, no mesmo ano; A Gate at the Stairs, de Lorrie Moore, em 2009; Freedom, de Jonathan Franzen, em 2010.

***

Será que devemos perdoar os americanos por terem lapidado um sistema econômico que permitiu à sua sociedade criar riqueza e prosperidade e irradiá-las para outras partes do mundo? Devemos ser seus defensores só porque eles criaram tecnologias e medicamentos que continuam sendo fundamentais no desenvolvimento de milhares de países e no tratamento e cura de milhões de pessoas? Apenas por terem criado e aprimorado um sistema educacional que faz com que o país abrigue as maiores e mais importantes universidades do mundo e atraia milhares de estudantes nacionais e estrangeiros do primeiro time assim como muitos dos mais destacados e prestigiados professores do planeta? Só porque os Estados Unidos conquistaram mais de 300 Prêmios Nobel de Economia, da Paz, de Química, de Física, de Literatura, de Medicina?

Devemos realmente perdoar os americanos apenas porque nos deram o jazz, a literatura, a tecnologia, os vinhos do Napa Valley, o cinema, Woody Allen, o bourbon, o Häagen-Dazs, a NBA, a Coca-Cola, a internet, a Apple, o Google, a Amazon et cetera?

O que os Estados Unidos deram ao mundo, cavalheiros, senão a corrupção de valores e a ruína moral?

Bruno Garschagen é Mestre em Ciência Política e Relações Internacionais pelo Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa e Universidade de Oxford, colaborador da revista Dicta&Contradicta e colunista do OrdemLivre.org.


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Especial 11 de setembro parte 2 – A doença infantil do antiamericanismo

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Data do post:

Por Fabio S. Cardoso

O centro acadêmico de uma das principais universidades públicas do País decidiu fazer festa. Até aí, nada de novo sob o sol. O mote da celebração, no entanto, é que merece destaque e comentário: tomando a personagem de Osama Bin Laden como referência, o cartaz pergunta: “Quem é o terrorista?”. Nunca fui a essa festa em especial, tampouco conheço os seus idealizadores. Mas é mesmo singular que os estudantes que frequentam os corredores da elite do pensamento acadêmico do Brasil façam menção ao 11 de Setembro em tom de deboche travestido de crítica como espécie de homenagem aos ataques das torres gêmeas, que, agora em 2011, completam dez anos.

O evento da universidade está longe de ser um caso isolado. Em verdade, é mesmo um lugar-comum junto a certa intelligentsia a percepção de que o 11 de setembro foi uma reação do mundo oprimido contra os seus opressores; uma resposta dos dominados em direção à hegemonia norte-americana; um acerto de contas, que, apesar de ter ceifado civis, tem como justificativa “a resistência ao império ianque” – isso quando não sobram “analistas” que veem nos EUA os principais responsáveis para o ataque.

De fato, entre os muitos males liberados da caixa de Pandora dos ataques de setembro de 2001, o antiamericanismo é o que se apresenta com feição mais supostamente sofisticada. Explica-se: existe mesmo um coro de descontentes com a conjuntura internacional em que os Estados Unidos representam liderança política, econômica e militar. Nesse sentido, o esporte favorito de muitos comentaristas sempre foi malhar os EUA, contestando, assim, a legitimidade da liderança norte-americana para desempenhar esse papel. Antes do 11 de setembro, esse grupo, sempre minoritário, encontrava ressonância e respaldo apenas em alguns setores da academia, sempre afeitos a rejeitar o governo vigente e exigir a “imaginação no poder”.

Depois de setembro de 2001, a reação por parte dessa intelligentsia foi repercutir, agora em voz alta (alguém diria: os idiotas perderam a modéstia), as palavras de ordem contra os Estados Unidos, não importando tanto que eles tenham sido atacados, tampouco levando em consideração que esses mesmos ataques foram perpetrados fora de um contexto de conflito militar. Nesse sentido, a reação dos Estados Unidos, sob o nome de Guerra ao Terror, ganhou cores de tentativa de golpe e no plano internacional a agenda norte-americana tornou-se um tema, no mínimo, aborrecido. É verdade que desde a primeira eleição de George W. Bush, marcado por controvérsias eleitorais, a opinião pública mundial já estava de mau-humor em relação aos norte-americanos. Mas nada se compara com o período pós-ataque.

O problema central é que esse tipo de observação costuma confundir fato com ficção; análise com palavras de ordem; leitura ideológica do mundo com interpretação elaborada da conjuntura internacional. Em poucas palavras, o antiamericanismo, hoje, parece reflexo de pensamento crítico e independente, quando, em verdade, representa o consenso de um cenário que é hostil à América e aos americanos. E o curioso é que esse comentário ultrapassou o sentimento que agrega pessoas em torno de uma causa política, transformando, essencialmente, o inconsciente coletivo das massas desgarradas de ideologia. Da mesma forma como o senso comum palpita sobre a política nacional, sobram pseudoteorias sobre o poder norte-americano. A ponto de mesmo uma festa num centro acadêmico escarnecer do 11 de setembro e ainda assim ser progressista.

Dez anos depois, o 11 de setembro não somente mudou o mundo, mas, também, alterou a compaixão do mundo. Como se vê, para pior.

Fabio S. Cardoso é jornalista e professor universitário.

[CONTINUA AMANHÃ]


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Loucura e tolice

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Data do post: 10 de setembro de 2010

Oh keep on moving keep on moving on a fast train
Going nowhere, across the desert sand, through the barren waste land.

Van Morrison, Fast Train.

É sempre próximo do dia 11 de setembro que certos eventos começam a mostrar um padrão; primeiro, é um pastor maluco que resolve queimar o Corão; segundo, temos George Soros investindo seu poder e dinheiro para neutralizar o movimento dos tea-parties; terceiro, Fidel Castro resolve ir para a “oposição”, contra os pedidos de Lula e Celso Amorim; depois é Barack Obama pedindo que o tal pastor não faça tal loucura porque estimularia mais atentados terroristas.

Quando falo em um padrão peço ao leitor que entenda isso em uma perspectiva paranóica-teológica, se for possível para a sua mente dominada por preceitos racionais. Não há como abordar isso de outra maneira quando sabemos as ações que foram feitas em um país supostamente democrático como os EUA a respeito do pastor doidivanas são as seguintes (agradeço ao Mr. X por ter feito esta lista, que eu não teria paciência nenhuma de fazê-la):

* A prefeitura da cidade negou ao pastor a permissão de fazer fogo;
* O seu banco cancelou sua hipoteca;
* A companhia de seguros cancelou o seguro à propriedade da Igreja;
* O General Petraeus, comandante das forças no Afeganistão, manifestou-se contrário, afirmando que poria em risco a vida de tropas;
* Hillary Clinton, Secretária de Estado e representante do governo americano, manifestou-se rispidamente contrária;
* Finalmente o próprio presidente americano, Barack Obama, pediu publicamente ao pastor para não queimar o livro;
* O site da Igreja foi cancelado e apagado pelo servidor;
* A Associated Press e a Fox News garantiram a seus espectadores que não mostrariam cenas da queima do livro caso esta ocorresse;
* Colunistas e articulistas, até mesmo à direita, informaram que era uma maluquice, um absurdo, uma loucura.
* A Interpol anunciou que o ato poderia levar a novos atentados.
* O pastor foi finalmente forçado a
desistir do ato, em base a uma promessa (depois desmentida) de mudança do local da mesquita de Ground Zero.

Se isso é democracia, não sei o que pode ser chamado de outro nome, exceto perseguição pura e simples; o pastor é um lunático, sem dúvida, mas deve ser impedido conforme os ditames da lei e da razão, e não dentro de estratégias de poder que usam outros subterfúgios para intimidar e, no fim, provar que são todos reféns de uma ideologia nociva encrustrada nos establishments americanos e europeus.

Na verdade, trata-se de um caso de “dois pesos, duas medidas”. Antes que voltem a me xingar – o que não vejo nada errado nisso pois prova que faço o meu trabalho direito – e me acusem de “islamofóbo”, vamos refrescar nossa memória sobre um evento que aconteceu há cerca de duas semanas, não foi noticiado na imprensa com alarde e que foi comentado com rigor por Richard Fernandez, do blog Belmont Club.

Eis o fato: Maher El-Gohary é um muçulmano egípicio que, em um belo dia, resolveu se converter ao Cristianismo. Ao que parece, como observa Fernandez, apesar dos intelectuais afirmarem que o Cristianismo está em decadência, muitos muçulmanos abraçam a religião cristã. Para o Islã, são apóstatas, i.e., renegaram a sua verdadeira fé (Antes que qualquer engraçadinho venha me dizer que o Catolicismo usa a palavra no mesmo sentido, tenho de dizer que, aqui, “apóstata” não é apenas quem renega a fé católica, mas a realidade transcendente como um todo, que seria protegida pela Igreja). E os apóstatas, na religião islâmica, sofrem uma pena duríssima: apedrejamento sumário (No Catolicismo, o sujeito é expulso do corpo místico, mas sempre há a esperança de que volte a pertencê-lo, desde que, claro, continue vivo – uma condição imprescindível, se formos observar).

El-Gohary e sua filha.

Portanto, antes que a ameaça se concretizasse, El-Gohary tentou sair do Egito e ir para a Austrália. Mas seu pedido de imigração foi negado. A filha de El-Gohary pediu a ninguém menos que Barack Obama para que intercedesse a seu favor, uma vez que, depois de se tornar uma adulta, a sua apostasia para a religião cristã a faria ter o mesmo possível destino de seu pai. A lógica é simples: se Obama defendeu com unhas e dentes a construção de uma mesquita próxima do Ground Zero, ele não ousaria negar o pedido de uma menina, que também se baseava nas normas da “tolerancia religiosa”.

Ocorre que Obama negou o pedido – e o governo americano, junto com o australiano, não quer saber mais de El-Gohary e sua prole. Afinal, vivemos em um mundo democrático, não é mesmo?

Lamento informar ao leitor liberal e poliana, mas não é nada disso. Vivemos em um mundo em que os supostos governantes alegam defender somente o coletivo, com suas propostas abstratas, e se esquecem quando o indivíduo, com seu problema concreto, precisa realmente de ajuda.

Se há um padrão aqui, temos de dar uma expressão – a covardia em assumir qualquer forma de responsabilidade.

Esta palavrinha – responsabilidade – foi estuprada diversas vezes pela elite intelectual e, ao que parece, ninguém resolveu entendê-la direito. Como bem observou Vaclav Havel, em suas Cartas a Olga, a responsabilidade não é um conceito filosófico e sim um mistério que nasce quando o ser humano desce nas profundezas de sua alma e descobre que o mundo não é como gostaria que fosse. Assim, a responsabilidade não se estende somente a um Outro, que podemos abstrair como um número de uma equação matemática, mas também a um horizonte de possibilidades que está muito além de nossas mentes. E este horizonte está, segundo o filósofo irlandês David Walsh, guarded by mystery, protegido pelo mistério. Quando alguém perde a noção de mistério em sua vida – ou, o que é pior, tenta administrá-lo como se fosse uma peça de engenharia – e isto se estende para a planificação de uma sociedade, o que temos é o resultado certo de desastre. E quem também nega isso na sua vida pessoal comete um erro sem retorno.

A responsabilidade só se dá entre os indivíduos, nunca entre as instituições. Por isso, quando supostos estadistas se preocupam com pastores lunáticos, abusando da estrutura de poder para impor a covardia generalizada, e não se preocupam com uma família que quer apenas exercer a sua nova fé em paz, descobrimos que esta foi a herança deixada pelo 11 de setembro: a loucura exaltadas a níveis globais.

Unamuno já dizia, ao meditar sobre o Dom Quixote de Cervantes, que o Cavaleira da Triste Figura podia ser louco, mas não era tonto. O oráculo espanhol mal previa que agora estamos loucos e tontos ao mesmo tempo. Salve-se quem puder e apague a luz quem sair por último, por favor.


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Oito anos depois…

Filed under: Sociedade incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 11 de setembro de 2009

Já podemos afirmar que ninguém mais se importa com o que aconteceu no dia 11 de setembro de 2001? Creio que sim. Agora todos estão preocupados com o economic meltdown – que, por coincidência, também aconteceu por volta deste mês -, com o plano de saúde de Obamis, com a barriguinha da Penélope Cruz, etc. Enfim, repete-se o adágio: o esquecimento é a nossa única herança.

Contudo, é só ler os jornais – este pão nosso de cada dia que Hegel afirmava ser a sua Bíblia matinal logo que acordava – e perceber que há uma estranha sombra pairando sobre todos nós. Hugo Chávez faz negócios com o Irã; a questão Israel e Palestina está longe de ser resolvida; o Irã e a Coréia do Norte continuam com seus programas nucleares; o nosso Supremo Tribunal da Justiça está prestes a julgar se deve ou não aceitar a extradição de um reconhecido terrorista italiano; e, last but not least, a Europa não sabe o que fazer com a invasão populacional do Islã em suas grandes capitais. Isso sem contar, é claro, na Guerra do Afeganistão, rebatizada pelo pacifista Obamis, e o aumento de escala exponencial do terrorismo em todo o mundo.

Mas isso não é nada perto daquilo que James Bowman, em um artigo muito pertinente publicado na última The New Criterion, chamou de “a morte da honra” (A Bias against Honor, infelizmente ainda não disponível no site do jornalista). A partir de uma matéria do The Washington Post sobre como estavam algumas famílias de vítimas do 11 de setembro depois de oito anos, sabemos que muitas delas, por exemplo, e apesar de serem democratas convictas, não vêem com bons olhos todo o “papo humanitário” que o governo Obamis realizou sobre as chamadas “torturas” em Guantanamo. O que elas mais desejam, obviamente, não é apenas uma reparação, mas, sobretudo, uma espécie de justiça. É claro que – e o René Girard dentro de mim começa a coçar logo os dedos – posso entender isso como vingança ou retaliação. Mas aqui vem a pergunta que não quer calar: será que a justiça não vem antes de qualquer espécie de perdão?

Outro exemplo da tal “morte da honra” – que, na verdade, é apenas um outro caminho para a vitória do esquecimento – é a tal carta testamento que Ted Kennedy escreveu ao Papa antes de morrer devido a um furioso tumor cerebral. Recentemente, li um artigo de uma dessas jornalistas brasileiras que moram em Nova York e que sempre agem como jecas quando se trata dos Kennedy e do chamado “pensamento democrata liberal americano”. Apelidava Ted de “O Leão do Senado” ou algo que o valha. Vamos deixar uma coisa clara: Ted Kennedy foi o responsável de, no mínimo, ter se omitido a ajudar a sua secretária Mary Jo Kopechne enquanto ela se afogava no fundo do lago Chappaquiddick. Não foi um “leão” em hipótese nenhuma: até hoje nunca ficou explicado por que demorou nove horas para chamar a polícia e por que, nesse meio tempo, resolveu falar com seus advogados e deixar que o seu “nível alcóolico” diminuísse. (A propósito, este foi um evento que quase passou despercebido nos obituários hagiográficos sobre Kennedy). Além disso, foi um político que apoiou entusiasticamente medidas pró-aborto, pró-casamento gay, de controle de natalidade, e como se não bastasse, usou o seu tumor cerebral como bandeira para a reforma de saúde que Obamis quer fazer nos EUA.

Entretanto, em sua carta ao Papa, o que ele escreve?

Most Holy Father

I am writing with deep humility to ask that you pray for me as my own health declines.

I was diagnosed with brain cancer more than a year ago and although I continue treatment, the disease is taking its toll on me. I am 77 years old and preparing for the next passage of life. I have been blessed to be part of a wonderful family and both of my parents, particularly my mother, kept our Catholic faith at the center of our lives. That gift of faith has sustained and nurtured and provides solace to me in the darkest hours. I know that I have been an imperfect human being, but with the help of my faith I have tried to right my path.

I want you to know Your Holiness that in my nearly 50 years of elective office I have done my best to champion the rights of the poor and open doors of economic opportunity. I have worked to welcome the immigrant, to fight discrimination and expand access to health care and education. I have opposed the death penalty and fought to end war.

Those are the issues that have motivated me and have been the focus of my work as a United States senator. I also want you to know that even though I am ill, I am committed to do everything I can to achieve access to health care for everyone in my country. This has been the political cause of my life.

Your Holiness, and though I have fallen short through human failings, I have never failed to believe and respect the fundamental teachings of my faith. I continue to pray for God’s blessings on you and on our church and would be most thankful for your prayers for me.

Reparem, como bem observou James Pierson em texto que medita sobre as implicações desta carta, que Ted Kennedy jamais faz referências às suas políticas a favor do aborto e do casamento gay. Como diria Jerry Seinfeld, not that it is anything wrong with that; mas se você está a escrever para o Papa – o doutor de uma doutrina que se opõe a tudo o que foi mencionado acima – e, especialmente em seus momentos finais, deveria ser um pouquinho honesto consigo mesmo.

Pierson também põe o dedo na ferida quando argumenta o seguinte:

What is most interesting about the letter, however, is its concise expression of the view that personal salvation can be achieved through liberal politics. Christians are enjoined to serve the poor and to atone for sins through sacrificial acts of charity and kindness. These have traditionally been understood as injunctions upon the individual person, but Sen. Kennedy gives them a political or legislative interpretation. He served the poor and sought penance for sins by deploying his political skills and influence to craft legislation “to open the doors of economic opportunity” and to “expand access to health care and education,” at the same time fighting against the death penalty and trying to end war. Sen. Kennedy won fame and prominence for these dedicated efforts on behalf of liberal programs and causes, and in the days after his death nearly everyone agreed that in doing so he had won redemption for past acts of carelessness and irresponsibility.

Para mim, isto é apenas mais um sintoma da “morte da honra”. Honra não é somente um “sentimento” de dignidade, de manter o respeito por si próprio; é talvez algo um pouco menos grandioso: a capacidade de alguém perceber seus próprios erros e saber que deve assumir a responsabilidade por eles – e que qualquer outra pessoa deve fazer o mesmo, seja um político, um cidadão comum e, sobretudo, um terrorista. O sistema jurídico serve justamente para reparar a honra daqueles que foram feridos e, assim, evitar o contágio de escalada violenta. Contudo, nos nossos dias, em que Ted Kennedy resolve esquecer o que fez de grave durante a vida toda e que ninguém mais se lembra do que aconteceu no dia 11 de setembro de 2001, a igualdade e a paz é o que corroem qualquer espécie de reparação. A nossa incapacidade de perceber o mal lógico que temos dentro de nós é o que provoca reações desesperadas como a do tal “Leão do Senado”. Queremos ser salvos pelo que supomos ser as nossas intenções mais puras e não pelas próprias ações. Queremos que todos vejam o que a mão direita faz pela mão esquerda e vice-versa. Afinal, o que se tem a perder quando o esquecimento é tudo o que resta no mundo segundo Obamis?

Da minha parte, vou fazer de tudo para não esquecer nem do que eu fiz, especialmente o mal que provoquei a algumas pessoas, e muito menos do que aconteceu no dia 11 de setembro, o dia em que, como bem disse W.B. Yeats, a terrible beauty was born.


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Continuem a ter medo, muito medo…

Filed under: Do lado de lá incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 11 de setembro de 2008

Pelo menos é o recado da The Economist e de Roger Kimball a respeito dos “jihadistas” que estão quietinhos, quietinhos, mas que logo, logo voltarão a atacar.

“We are not fighting so that you will offer us something. We are fighting to eliminate you.”*

* Ganha um Chokito quem descobir o autor desta frase. By the way, para quem tem memória curta, hoje é 11 de setembro.


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