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Melhores do ano – parte I

Filed under: Literatura incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 16 de dezembro de 2010

A Dicta publicará entre hoje e amanhã uma seleção de melhores livros que você pode querer como presente de Natal. O primeiro a indicar é Túlio Borges, o enfant-terrible de Brasília, um de nossos colaboradores mais rigorosos e, por isso mesmo, mais confiáveis.

Por Túlio Borges

From Gibbon to Auden: Essays on the Classical Tradition (Oxford University Press, 2009), do exímio classicista G. W. Bowersock, é um belíssimo livro – a começar pela pintura de Hubert Robert que adorna a jaqueta. De Gibbon a Auden, passando por Berlioz, Burckhardt e Cavafy. Os vários ensaios são elegantes, eruditos e escrupulosos; e têm um tema em comum: as diversas maneiras pelas quais o espírito da Antigüidade Greco-Romana tem animado o Ocidente nos últimos séculos. Scholarship of the highest order! Um magnífico resumo da carreira de Bowersock, bem como uma estimulante introdução à sua obra.

Se Bowersock representa o ideal do estudioso, George Steiner é o polímata por excelência. Está no auge de sua forma na coletânea de ensaios George Steiner at the New Yorker (New Directions, 2009). Talvez a seleção se concentre demasiado na Europa Central, mas ainda assim dá ao leitor mais do que ele aprenderia em vários anos de um curso universitário nas Humanidades ou Ciências Sociais. Foi-se o tempo em que os docentes tinham algo inteligente a dizer sobre Anton von Webern e Viena, a culpabilidade de Albert Speer, a traição de Anthony Blunt, a sagacidade de Karl Kraus, a correspondência entre Walter Benjamin e Gershom Scholem ou a obra de Alexander Soljenítsin.

Por falar nisso, finalmente consegui terminar a leitura dos três volumes que compõem a edição americana de O Arquipélago Gulag, republicada em 2007 pela Harper Perennial. Um livro monumental. Soljenítsin sobreviveu ao inferno e tornou-se um homem de assustadora sabedoria. Em sua magnum opus, ele radiografa a alma humana, demonstrando indignação diante da estupidez e perfídia de que somos capazes. Só Tucídides – embora com menos paixão – demonstra semelhante competência no exame da natureza do homem.

Ainda em meados de 2009, foi-me enviada uma review copy de Disturbing Revelation: Leo Strauss, Eric Voegelin and the Bible (University of Missouri Press, 2009), de John J. Ranieri. O subtítulo diz tudo. Strauss e Voegelin, dois gigantes da filosofia política que travaram um dos diálogos mais fascinantes da história do pensamento, examinam um dos textos constitutivos da civilização ocidental. E Ranieri, autor de aguda sensibilidade, os coloca diante de outra imponente presença intelectual, a de René Girard. O livro deve sair no Brasil pela É Realizações.

Por fim, pude ler algumas extraordinárias biografias em 2010, como a de Whittaker Chambers, escrita há mais de uma década por Sam Tanenhaus, ou aquela de V.S. Naipaul, publicada em 2008 por Patrick French. Não obstante, devo destacar George Kennan: A Writing Life (ISI Books, 2008), de Lee Congdon. Trata-se de uma apropriada homenagem ao “maior americano do século XX”, o famoso diplomata cuja verdadeira vocação era a literatura e um homem de alma européia, que adorava o século XVIII. O livro de Congdon é tão bom que merece figurar ao lado da mais famosa biografia de Kennan, publicada um ano antes por John Lukacs.


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Em que prova-se que Ayn Rand é uma estúpida

Filed under: Sociedade incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 24 de setembro de 2009

Pelo menos segundo Whittaker Chambers, o Cabo Anselmo dos EUA (pela sua coragem moral e pela sua conversão em encarar a realidade como ela é, diga-se de passagem), em sua resenha devastadora sobre aquele tomo intragável chamado Atlas Shrugged. Ele vai ao ponto no seguinte trecho, além de ter um título que é a suprema ironia cortante: Big Sister is Watching You.

“(…) Atlas Shrugged can be called a novel only by devaluing the term. It is a massive tract for the times. Its story merely serves Miss Rand to get the customers inside the tent, and as a soapbox for delivering her Message. The Message is the thing. It is, in sum, a forthright philosophic materialism. Upperclassmen might incline to sniff and say that the author has, with vast effort, contrived a simple materialist system, one, intellectually, at about the stage of the oxcart, though without mastering the principle of the wheel. Like any consistent materialism, this one begins by rejecting God, religion, original sin, etc., etc. (This book’s aggressive atheism and rather unbuttoned “higher morality,” which chiefly outrage some readers, are, in fact, secondary ripples, and result inevitably from its underpinning premises.) Thus, Randian Man, like Marxian Man, is made the center of a godless world.

At that point, in any materialism, the main possibilities open up to Man. 1) His tragic fate becomes, without God, more tragic and much lonelier. In general, the tragedy deepens according to the degree of pessimism or stoicism with which he conducts his “hopeless encounter between human questioning and the silent universe.” Or, 2) Man’s fate ceases to be tragic at all. Tragedy is bypassed by the pursuit of happiness. Tragedy is henceforth pointless. Henceforth man’s fate, without God, is up to him, and to him alone. His happiness, in strict materialist terms, lies with his own workaday hands and ingenious brain. His happiness becomes, in Miss Rand’s words, “the moral purpose of his fife.”

Here occurs a little rub whose effects are just as observable in a free-enterprise system, which is in practice materialist (whatever else it claims or supposes itself to be), as they would be under an atheist socialism, if one were ever to deliver that material abundance that all promise. The rub is that the pursuit of happiness, as an end in itself, tends automatically, and widely, to be replaced by the pursuit of pleasure, with a consequent general softening of the fibers of will, intelligence, spirit. No doubt, Miss Rand has brooded upon that little rub. Hence in part, I presume, her insistence on man as a heroic being” With productive achievement as his noblest activity.” For, if Man’s heroism” (some will prefer to say: human dignity”) no longer derives from God, or is not a function of that godless integrity which was a root of Nietzsche’s anguish, then Man becomes merely the most consuming of animals, with glut as the condition of his happiness and its replenishment his foremost activity. So Randian Man, at least in his ruling caste, has to be held “heroic” in order not to be beastly. And this, of course, suits the author’s economics and the politics that must arise from them. For politics, of course, arise, though the author of Atlas Shrugged stares stonily past them, as if this book were not what, in fact, it is, essentially — a political book. And here begins mischief. Systems of philosophic materialism, so long as they merely circle outside this world’s atmosphere, matter little to most of us. The trouble is that they keep coming down to earth. It is when a system of materialist ideas presumes to give positive answers to real problems of our real life that mischief starts. In an age like ours, in which a highly complex technological society is everywhere in a high state of instability, such answers, however philosophic, translate quickly into political realities. And in the degree to which problems of complexity and instability are most bewildering to masses of men, a temptation sets in to let some species of Big Brother solve and supervise them.

One Big Brother is, of course, a socializing elite (as we know, several cut-rate brands are on the shelves). Miss Rand, as the enemy of any socializing force, calls in a Big Brother of her own contriving to do battle with the other. In the name of free enterprise, therefore, she plumps for a technocratic elite (I find no more inclusive word than technocratic to bracket the industrial-financial-engineering caste she seems to have in mind). When she calls “productive achievement” man’s noblest activity,” she means, almost exclusively, technological achievement, supervised by such a managerial political bureau. She might object that she means much, much more; and we can freely entertain her objections. But, in sum, that is just what she means. For that is what, in reality, it works out to. And in reality, too, by contrast with fiction, this can only head into a dictatorship, however benign, living and acting beyond good and evil, a law unto itself (as Miss Rand believes it should be), and feeling any restraint on itself as, in practice, criminal, and, in morals, vicious (as Miss Rand clearly feels it to be). Of course, Miss Rand nowhere calls for a dictatorship. I take her to be calling for an aristocracy of talents. We cannot labor here why, in the modern world, the pre-conditions for aristocracy, an organic growth, no longer exist, so that the impulse toward aristocracy always emerges now in the form of dictatorship”.

Detalhe de bastidores: quando este texto foi publicado na National Review, então sob a direção do próprio Chambers e de William F. Buckley, Rand dizia-se muito amiga do último. Depois deste evento, Rand simplesmente passou a ignorar Buckley em ocasiões públicas e fazia questão de falar mal de sua pessoa pelas costas. Segundo conhecidos, ela não suportou o fato do amigo ter autorizado uma resenha tão virulenta contra o seu livro.

Isso sim que é tolerância e liberalismo, hem?

Ah, sim, para quem não sabe quem é Whittaker Chambers (eu também não sabia; foi uma indicação do nosso colaborador Túlio Borges), aí vai mais um texto de Daniel P. Mahoney que explica tudo direitinho e mostra que, na comparação, o que Ayn Rand queria mesmo era criar a sua própria ditadura – sonho que, aliás, muitos liberais e libertários soi disant também querem implantar nessas plagas, algo tão idiota quanto um totalitarismo de esquerda.

(Observação aos incautos e maliciosos: eu respeito ainda mais o meu amigo Joel Pinheiro pela provocação acima. Portanto, sem comentários ao estilo Contigo, ok?)


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Uma testemunha do horror

Filed under: Literatura incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 22 de setembro de 2009

Quando Alexander Solzhenitsyn morreu há quase um ano, ninguém sabia dizer se ele era um grande escritor, um mero panfletário anti-comunista ou um profeta louco que queria o retorno da Mother Russia. O único que foi contra a corrente e que mostrou que Solzhenistyn era, de fato, um grande escritor e, mais, um grande pensador político, foi Daniel P. Mahoney, jovem scholar norte-americano que escreveu um dos melhores livros introdutórios sobre a obra do vate russo – Alexander Solzhenitsyn: The Ascent from Ideology. Sua tese é muito simples e também ousada: para Mahoney, Solzhenitsyn é um escritor digno de inovações formais, no mesmo patamar de um James Joyce, e um pensador político sofisticadíssimo, uma mistura de Sto. Agostinho com Tocqueville. Estão com dúvidas sobre a argumentação do muchacho? Então leiam o excelente artigo que Mahoney escreveu a respeito do relançamento de O Círculo Vermelho na Inglaterra, em uma versão original que mantém a intenção religiosa de seu autor.


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“The horrors of the Gulag ought to be as well known as Auschwitz, but they aren’t.”

Filed under: Do lado de lá incluído por Luiz Felipe Amaral
Data do post: 15 de agosto de 2008

Temos na The Economist uma resenha de The Forsaken: An American Tragedy in Stalin’s Russia, escrito por Tim Tzouliadis. O livro conta a história de norte-americanos nos gulags soviéticos: alguns buscando emprego e alívio para a Grande Depressão; outros, prisioneiros de guerra da Alemanha Nazista que foram “libertados” pelos soviéticos.

Coincidência ou não, a resenha é publicada na semana da morte de Solzhenitsyn.


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Sobre Solzhenitsyn

Filed under: Do lado de lá incluído por Rodrigo Duarte Garcia
Data do post: 5 de agosto de 2008

Wolf Vostell
Stalin - Wolf Vostell

A essa altura, todo mundo já falou alguma coisa sobre Alexander Solzhenitsyn, morto no último domingo, aos 89 anos. Autor de Arquipélago Gulag e vencedor do Nobel de Literatura em 1970, Solzhenitsyn foi um dos grandes defensores da liberdade individual contra as ideologias totalitárias do nosso tempo.

Nesse texto, Nathaniel Peters indica um discurso proferido por ele em Harvard, propondo a recuperação das obrigações morais e da virtude pessoal como remédio contra um legalismo detestável: a idéia de que “possuímos liberdades para o Bem. Assim como os indivíduos têm direitos que os seus concidadãos precisam proteger, eles também têm obrigações para com aqueles mesmos cidadãos. Passamos tanto tempo enfatizando direitos, diz Solzhenitsyn, que negligenciamos o ensino de obrigações. A quem muito foi dado, muito será pedido”.


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