Dixit Aristoteles?
Não é incomum encontrarmos em textos respeitáveis trechos com a seguinte cláusula: “Aristóteles ensina que…”. Não raro citações desse tipo refletem mais a ignorância do citador do que o pensamento do citado. Onde Aristóteles ensina que…? Surpreendentemente, em lugar nenhum. O hábito é difundido tanto na Academia quanto na Internet, onde se multiplicam filósofos e sábios. Filologia — e a sua variante leiga “verifique a fonte” — nunca foi o forte do Brasil; mas por mais que não seja, também, o forte do Japão, não encontrei um só texto de autor japonês que lançasse mão de cláusulas desse tipo.
Invoquei a filologia, a ciência dos textos escritos, porque são casos extremos. (Há casos até de pensadores brasileiros que conhecem a vida interior e as doutrinas ocultas de Pitágoras e outros pré-socráticos!) Autores antigos são as vítimas mais torturadas; cansei de folhear teses sobre um estranho Aristóteles que escrevia em português. Como normalmente se ignora tanto as versões dos manuscritos sobreviventes e edições modernas quanto a língua em que foram escritos, a cláusula “Aristóteles ensina que…”, se comparada a versões modernas (como “Husserl ensina que…”), costuma implicar uma violência maior. Um grego cujos manuscritos são na verdade obra de alunos e copistas se situa a uma distância maior do que um alemão do século passado, cujos toques (ou os de Edith Stein, sua discípula mais ilustre) na máquina de escrever, por assim dizer, praticamente ainda nos chegam aos ouvidos.
Deixando a filologia de lado, vamos analisar uma hipótese mais próxima. Quando alguém responde à crítica contra o uso de cláusulas fáceis como essa — “Husserl ensina que…” –, costuma redarguir: “Ah, então é preciso saber alemão para citar Husserl? Quantos anos preciso ter estudado Husserl para poder dizer que ele ensina isso ou aquilo?” A objeção é muitas vezes válida. O pedantismo não se justifica. Se tenho uma boa tradução à mão, basta reproduzir o texto: “Aqui vai. Husserl diz na página tal do livro tal que…”. Ou posso citar uma fonte secundária (um Cambridge Companion, por exemplo) que comprove a opinião de Husserl sobre algum ponto. Umberto Eco caracteriza a metodologia científica, mesmo em Humanas, como uma “neurose da comprovação”; e ser neurótico, nesse sentido figurado, é o mínimo que se exige de um aluno sério. Pois aqui está a melhor objeção ao método fácil do “Aristóteles ensina que…”: se a opinião fidedigna não está à mão, o melhor não seria simplesmente abster-se usá-la? Recorrer a autores para embasar certas posições é útil; mas se o que citamos, de ouvido ou leitura, não é fidedigno, o feitiço se volta contra o feiticeiro, e quem queria se socorrer de um autor para elevar-se acaba, ao final, por se enterrar na própria ignorância. Pois que uso posso fazer de uma caricatura de Aristóteles? O melhor é apoiar-me em minha própria inexatidão do que na inexatidão de simulacros.
Adquiri do meu antigo orientador (um romanista) o hábito de verificar as citações próprias e alheias. O procedimento é tão fácil e simples que, espero, não me irão acusar de falta de modéstia. O fato é que quando a menção era a Aristóteles, quase sempre, ou não pude encontrar a passagem, ou então encontrei um trecho que contradizia a opinião imaginada. Quem lê Aristóteles à luz de Tomás de Aquino frequentemente cai em ciladas desse tipo. O Aristóteles traduzido para o latim de Moerbeke às vezes — mas nem sempre — está muito longe do Aristóteles da edição grega usual, de Bekker (ainda considerada insuperável). Na dúvida, prefiro acreditar que os filólogos e comentadores estavam (e estão) certos quando derrubaram, um a um, os mitos sobre o aristotelismo, geralmente fruto de uma vontade de harmonizá-lo com algum corpo de opiniões filosóficas árabes, cristãs ou modernas. O trabalho dos comentadores mais recentes da escola de Oxford é ainda mais implacável. Pouco do Aristóteles, versões salão ou clergyman, que ouvimos da boca de nossos ilustres professores pode ser encontrado nas fontes fidedignas. Pessoalmente, como sou lento, demorei cerca de dez anos para digerir a notícia.
A experiência que pretendo comunicar aqui é mais velha do que a dos nossos tataravós. Aprendi-a imperfeitamente assistindo, e participando timidamente, de grupos de estudo inspirados nos seminários que comumente se organizam nas universidades européias desde o século XIX. Quase todos no Brasil. Na Alemanha, era frequente ver alunos acostumados ao vale-tudo dizendo “Aristóteles ensina que…” sendo contraditados, imediata e secamente, pelos alunos de médio escalão (alunos de doutorado); quando isso não acontecia, um professor associado intervia, mencionando a existência de um manuscrito Z ou de um papiro, e fazia-se silêncio. Não se trata de puro espírito de contradição. O que poderia parecer humilhante para o aluno era, na verdade, apenas um banho de água fria necessário. Os professores mais antigos eram os primeiros a reconhecer a própria ignorância — ativamente, examinando posições e argumentos. O hábito de pensar dos alemães e ingleses, infelizmente, ainda não aportou em todas as praias brasileiras, acostumadas à retórica, ao bacharelismo, à crítica política misturada aos comentários filosóficos — como se as categorias de Aristóteles fossem objeto de golpes de Estado e assaltos revolucionários. Com isso não quero dizer que o Brasil não tem futuro; só quero dizer que outra realidade é possível. E que o primeiro passo é querer adquirir o hábito do estudo que definitivamente não temos. Sem ele, facilmente nos deixaremos enganar pelo primeiro guru retórico que aparecer.
A única lição a tirar é ser criterioso. Se não sabemos, não falamos. Se sabemos, mas não temos à mão exatamente a passagem, ou a procuramos ou recorremos à nossa experiência para argumentar a respeito do ponto que vagamente atribuímos ao autor x. Em vez de dizer que Aristóteles recomenda que demos prioridade à contemplatação sobre a ação, ou que basta apenas alguns reparos para torná-lo um cristão avant la lettre, digamos simplesmente que essa posição, que pode ser de Aristóteles ou de Bezerra da Silva, se sustenta por esse ou por aquele motivo. Recorrer ao senso comum ou à experiência é muito melhor do que recorrer a uma opinião falseada de algum autor. Infelizmente, no Brasil, raramente aparece alguém com a ideia ‘genial’ de verificar a fonte.
Ser criterioso com as fontes é o primeiro passo para pensar por conta própria — ou ao menos para evitar o vexame de se referir a uma opinião falseada. Quando dizemos que o sujeito está sendo apressado, ou que não conhece o grego ou o alemão, logo vem a justificativa: “Não importa o texto, o plano meramente verbal; importa a apreensão da Verdade”, que já ouvi kata poda, literalmente (sim, ouvi também a maiúscula, que soa mais como uma fricativa bilabial do que como uma lábio-dental). O que responder-lhe? A uma, se o que interessa é a contemplação direta da Verdade, por que referir-se a qualquer autor, seja ele um apóstolo ou um professor de filosofia? A duas, a contemplação direta da Verdade simplesmente não é atividade filosófica, mas divinatória ou mística. Os textos não são o mais importante — não são: filosofia é razão em exercício, por escrito ou oralmente –, mas desde antes da invenção da imprensa já eram um ponto de partida inescapável.
O hábito de estudar ainda não aportou em (todas as) nossas praias; mas certamente o hábito de contemplar diretamente a Verdade já virou paixão nacional.
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Notas sobre a discussão racional
Estar preparado para defender posições com clareza é segurar uma faca de dois gumes. Se é verdade que é possível explicitar, com razoável exatidão, a tese que se quer defender, também o é que deste modo o contendor está, por assim dizer, nu, e deve dar adeus à vontade de vencer a qualquer custo. Para blindar-se, aparentemente, diante dos possíveis ataques, é possível adotar uma dessas três atitudes: ser um bom retórico; ser confuso; ser um fanático. A blindagem é só aparente para um ‘agente racional’, que a pode desfazer e desprezar; mas ela parece funcionar para alguns iluminados, e infelizmente sempre funciona aos olhos do público preguiçoso e destreinado. O retórico defende qualquer tese — acredite sinceramente nela ou não — porque sabe ocultar falácias e tornar magicamente legítimos os argumentos ad hominem (que pretendem tornar verdadeira a tese sustentada atingindo pessoalmente o defensor da tese contrária). O confuso evita formular claramente suas teses, ou faz da contradição a sua arma. O fanático está tão convencido de uma tese absurda, que nunca se cansa: é aquele que dizemos “vencer pelo cansaço”. Ou então é um guru, sempre escoltado por seguidores incansáveis.
No debate, só é possível argumentar racionalmente com algum treino filosófico. O público brasileiro está muito longe de aceitar o debate racional como modo válido de discussão, por paradoxal que pareça. Há uma “tese cumulativa” em favor dessa visão; basta observar e comparar dados da experiência. Em países onde o debate racional está em vigência, por contraste, quem não está preparado simplesmente não debate. Diz-se que um famoso biólogo britânico, indagado sobre o porquê de não aceitar debater com certo filósofo, respondeu: “nunca debaterei com um filósofo porque não tenho treino filosófico”. Não tenho como confirmar a informação, mas podemos usar a história como ilustração.
Eu considero a saída legítima. Um biólogo sem treino filosófico pode falar sobre a sua ciência. Se a bactéria x tem a propriedade A, e isso me é ofensivo, ou (a) aguardo uma descoberta que obrigue os biólogos a alterar o enunciado, aceitando-o de pronto, ou (b) nego a ciência. Como a ciência, em bloco, se assenta sobre fundamentos bastante sólidos, será irracional adotar a segunda opção. Por isso, seja qual for a posição filosófica ou religiosa do sujeito, negar a ciência será sempre um passo equivocado. É equivalente a adotar o esoterismo — a doutrina segundo a qual o verdadeiro conhecimento está reservado a poucos e escapa ao domínio do científico, e mesmo filosófico mainstream – ou qualquer superstição. A ciência, portanto, obriga a todos num debate racional. O limiar está na interpretação dos dados da ciência. A própria ciência interpreta imediatamente seus dados — daí porque todo cientista com visão geral tenha também uma visão filosófica, a rigor metodológica, sobre a sua área, mesmo que não saiba argumentar de modo consistente a respeito. Mas a filosofia, ao que parece, vai um pouco mais longe. Se um cientista diz que a bactéria y tem e não tem, ao mesmo tempo, e sob a mesma perspectiva, a propriedade A, certamente comete um erro lógico e filosófico. Isso o próprio cientista pode verificar sem treino filosófico. Mas ele não poderá, se não for também treinado em filosofia, defender a teoria da evolução de modo consistente — é capaz, até, de perder para um criacionista fanático bem treinado que sequer seja biólogo (desde que ele seja capaz de fazer o cientista destreinado contradizer-se; o que não é difícil).
A filosofia não traz nenhum conhecimento novo ao conjunto de dados empíricos e matemáticos; mas permite argumentar a partir desses dados, se existe competência. Por isso a ignorância científica em um filósofo da ciência (e em um filósofo ideal tout court, contando como ciência a história, a psicologia, a matemática, a lógica, etc) é ainda mais grave do que a ignorância filosófica em um cientista. Este já tem em seu favor um corpo de conhecimentos sólido e uma sua interpretação imediata, embora sejam ambos (objeto e método) reformáveis; assim, mesmo que perca um debate, ao voltar ao laboratório estará fazendo ciência. Já o filósofo tem acesso aos modos de argumentação, mas carece de conteúdo sobre o qual argumentar. Pode ganhar o debate e voltar para casa sem nada ter esclarecido. Isso é ainda mais grave em matéria de cosmologia e metafísica. Se ouvimos um filósofo ignorante de física a falar a esmo sobre o início do universo, a desconfiança será o sentimento mais positivo que teremos, a não ser que a sua tarefa consista apenas em uma análise lógica das proposições envolvidas. Isso porque o início do universo é uma questão empírica. Estabelecido, ou tomado como hipótese, o fato de que o universo teve um início (e essa é a premissa para as próximas afirmações), posso argumentar que não existe um passado infinito, e associar a essa argumentação a ideia de tempo contínuo, ou de espaço discreto, noções de teologia natural, etc. Posso, inclusive, dizer — mesmo estando redondamente enganado — que metafisicamente esse começo é apenas um retorno. Mas não posso atribuir ao enunciado “esse começo do universo é apenas um retorno” o status de enunciado empiricamente verificado. E nem posso dizer, sem reparos, “o universo não teve um começo”, porque estou comprometido com a premissa acima, como agente racional. Como eu disse, a filosofia pode ir mais longe; mas seu papel é rigorosamente delimitado. Não tanto como pensavam os verificacionistas, por óbvio. A pergunta pelo porquê das coisas costuma ser quase sempre legítima, o mesmo quanto à tentativa de a responder — contanto que não façamos uso de argumentos esotéricos ou religiosos (e. g., revelados) disfarçados de argumentos empíricos ou filosóficos. O imponderável é legítimo, mas deve ser tratado com cuidado, com distinção dos âmbitos. (Um exemplo mais técnico e que pode ser generalizado: pensemos na premissa cientificamente imponderável C, segundo a qual “Deus existe”, e na conclusão B, “o neutrino não tem carga elétrica”; uma vez que a conclusão B não é afastada pela premissa C, e é confirmada pela coleção de dados empíricos Γ, o âmbito científico funciona corretamente com ou sem a presença de C, e portanto é neutro com respeito a ela: se Γ ├ B e não (C não├ B), também temos que Γ, C ├ B. Pode-se dizer isso de várias maneiras, e a generalização é evidente para quaisquer Γ, C e B dentro das premissas fixadas.)
Debates racionais, portanto, não têm a rigor perdedores ou ganhadores. Se os dados estão certos e os argumentos não são falaciosos, noções são esclarecidas e informações são validamente interpretadas e relacionadas. Teses se fortalecem ou se enfraquecem. Seria muito estranho que uma tese fosse verdadeira porque a pessoa que a sustenta ganhou um debate, e vice-versa. Um pouco de objetividade nunca fará mal.
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