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Loucura e tolice

Filed under: Sociedade incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 10 de setembro de 2010

Oh keep on moving keep on moving on a fast train
Going nowhere, across the desert sand, through the barren waste land.

Van Morrison, Fast Train.

É sempre próximo do dia 11 de setembro que certos eventos começam a mostrar um padrão; primeiro, é um pastor maluco que resolve queimar o Corão; segundo, temos George Soros investindo seu poder e dinheiro para neutralizar o movimento dos tea-parties; terceiro, Fidel Castro resolve ir para a “oposição”, contra os pedidos de Lula e Celso Amorim; depois é Barack Obama pedindo que o tal pastor não faça tal loucura porque estimularia mais atentados terroristas.

Quando falo em um padrão peço ao leitor que entenda isso em uma perspectiva paranóica-teológica, se for possível para a sua mente dominada por preceitos racionais. Não há como abordar isso de outra maneira quando sabemos as ações que foram feitas em um país supostamente democrático como os EUA a respeito do pastor doidivanas são as seguintes (agradeço ao Mr. X por ter feito esta lista, que eu não teria paciência nenhuma de fazê-la):

* A prefeitura da cidade negou ao pastor a permissão de fazer fogo;
* O seu banco cancelou sua hipoteca;
* A companhia de seguros cancelou o seguro à propriedade da Igreja;
* O General Petraeus, comandante das forças no Afeganistão, manifestou-se contrário, afirmando que poria em risco a vida de tropas;
* Hillary Clinton, Secretária de Estado e representante do governo americano, manifestou-se rispidamente contrária;
* Finalmente o próprio presidente americano, Barack Obama, pediu publicamente ao pastor para não queimar o livro;
* O site da Igreja foi cancelado e apagado pelo servidor;
* A Associated Press e a Fox News garantiram a seus espectadores que não mostrariam cenas da queima do livro caso esta ocorresse;
* Colunistas e articulistas, até mesmo à direita, informaram que era uma maluquice, um absurdo, uma loucura.
* A Interpol anunciou que o ato poderia levar a novos atentados.
* O pastor foi finalmente forçado a
desistir do ato, em base a uma promessa (depois desmentida) de mudança do local da mesquita de Ground Zero.

Se isso é democracia, não sei o que pode ser chamado de outro nome, exceto perseguição pura e simples; o pastor é um lunático, sem dúvida, mas deve ser impedido conforme os ditames da lei e da razão, e não dentro de estratégias de poder que usam outros subterfúgios para intimidar e, no fim, provar que são todos reféns de uma ideologia nociva encrustrada nos establishments americanos e europeus.

Na verdade, trata-se de um caso de “dois pesos, duas medidas”. Antes que voltem a me xingar – o que não vejo nada errado nisso pois prova que faço o meu trabalho direito – e me acusem de “islamofóbo”, vamos refrescar nossa memória sobre um evento que aconteceu há cerca de duas semanas, não foi noticiado na imprensa com alarde e que foi comentado com rigor por Richard Fernandez, do blog Belmont Club.

Eis o fato: Maher El-Gohary é um muçulmano egípicio que, em um belo dia, resolveu se converter ao Cristianismo. Ao que parece, como observa Fernandez, apesar dos intelectuais afirmarem que o Cristianismo está em decadência, muitos muçulmanos abraçam a religião cristã. Para o Islã, são apóstatas, i.e., renegaram a sua verdadeira fé (Antes que qualquer engraçadinho venha me dizer que o Catolicismo usa a palavra no mesmo sentido, tenho de dizer que, aqui, “apóstata” não é apenas quem renega a fé católica, mas a realidade transcendente como um todo, que seria protegida pela Igreja). E os apóstatas, na religião islâmica, sofrem uma pena duríssima: apedrejamento sumário (No Catolicismo, o sujeito é expulso do corpo místico, mas sempre há a esperança de que volte a pertencê-lo, desde que, claro, continue vivo – uma condição imprescindível, se formos observar).

El-Gohary e sua filha.

Portanto, antes que a ameaça se concretizasse, El-Gohary tentou sair do Egito e ir para a Austrália. Mas seu pedido de imigração foi negado. A filha de El-Gohary pediu a ninguém menos que Barack Obama para que intercedesse a seu favor, uma vez que, depois de se tornar uma adulta, a sua apostasia para a religião cristã a faria ter o mesmo possível destino de seu pai. A lógica é simples: se Obama defendeu com unhas e dentes a construção de uma mesquita próxima do Ground Zero, ele não ousaria negar o pedido de uma menina, que também se baseava nas normas da “tolerancia religiosa”.

Ocorre que Obama negou o pedido – e o governo americano, junto com o australiano, não quer saber mais de El-Gohary e sua prole. Afinal, vivemos em um mundo democrático, não é mesmo?

Lamento informar ao leitor liberal e poliana, mas não é nada disso. Vivemos em um mundo em que os supostos governantes alegam defender somente o coletivo, com suas propostas abstratas, e se esquecem quando o indivíduo, com seu problema concreto, precisa realmente de ajuda.

Se há um padrão aqui, temos de dar uma expressão – a covardia em assumir qualquer forma de responsabilidade.

Esta palavrinha – responsabilidade – foi estuprada diversas vezes pela elite intelectual e, ao que parece, ninguém resolveu entendê-la direito. Como bem observou Vaclav Havel, em suas Cartas a Olga, a responsabilidade não é um conceito filosófico e sim um mistério que nasce quando o ser humano desce nas profundezas de sua alma e descobre que o mundo não é como gostaria que fosse. Assim, a responsabilidade não se estende somente a um Outro, que podemos abstrair como um número de uma equação matemática, mas também a um horizonte de possibilidades que está muito além de nossas mentes. E este horizonte está, segundo o filósofo irlandês David Walsh, guarded by mystery, protegido pelo mistério. Quando alguém perde a noção de mistério em sua vida – ou, o que é pior, tenta administrá-lo como se fosse uma peça de engenharia – e isto se estende para a planificação de uma sociedade, o que temos é o resultado certo de desastre. E quem também nega isso na sua vida pessoal comete um erro sem retorno.

A responsabilidade só se dá entre os indivíduos, nunca entre as instituições. Por isso, quando supostos estadistas se preocupam com pastores lunáticos, abusando da estrutura de poder para impor a covardia generalizada, e não se preocupam com uma família que quer apenas exercer a sua nova fé em paz, descobrimos que esta foi a herança deixada pelo 11 de setembro: a loucura exaltadas a níveis globais.

Unamuno já dizia, ao meditar sobre o Dom Quixote de Cervantes, que o Cavaleira da Triste Figura podia ser louco, mas não era tonto. O oráculo espanhol mal previa que agora estamos loucos e tontos ao mesmo tempo. Salve-se quem puder e apague a luz quem sair por último, por favor.


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Tio Roger sabe das coisas…

Filed under: Do lado de lá incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 3 de setembro de 2008

Se você quer saber o que realmente acontece na “mais-importante-eleição-presidencial-dos-últimos-tempos” (em outras palavras, a luta entre John white men´s burden McCain e Barack that´s not a nigger´s name* Obama), esqueça tudo o que leu na imprensa nacional. Leiam Roger Kimball que, em poucas palavras, resume a verdadeira questão por trás desta disputa:

“At bottom, this election is not about “change” or “experience” but about culture, which is to say it is about what we value as individuals and as citizens. It is about some very basic questions: what matters most in a society? How should we live our lives? What place does love of country, of family, of freedom have in the economy of our hopes and ambitions? The crises of the last several years–the threat of Islamic terrorism, economic instability, a newly rampant Russia and Iran–have pushed such questions out of the limelight. But Sarah Palin–the pro-life, gun toting, seriously religious hockey mom and aggressive political reformer–has suddenly brought them back into vogue. As Thomas Lifson notes, “Liberals have long lamented the existence of two nations in America. They are right to do so today, but in a way they never meant. It is not the divide between rich and poor which soon will be causing serious pain on the left. Sarah Palin’s pending nomination for Vice President is exposing the depth of the cultural divide between Middle America and the leftists who have taken over the education, media, and cultural establishment of our country.'”.

* Quem disse isso foi algum duplo mimético do rapper Ice-T ou algo da espécie.  Não sei, não consigo me lembrar do nome do sujeito. Lamento em informá-los, caros amigos da comunidade afro-americana, mas meu conhecimento da “música negra” se restringe a apenas às obras de Robert Johnson, Blind Willie McTell, Charlie Parker, Miles Davis, Otis Redding, Marvin Gaye, Temptations e Michael Jackson (antes deste se transformar em Jacko the Wacko, é claro). By the way, se um rapper negro – uma das “castas” que mais criam guetos nos EUA – disse isso de Obama, logo logo teremos surpresas na eleição de Novembro.


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Isto é Obama…

Filed under: Geral incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 21 de julho de 2008

Há algo errado quando o candidato democrata simplesmente dá uma de petista ao boicotar a única revista que poderia estar do seu lado – só por causa de uma charge de capa que virou um famoso tiro-no-pé.


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