Cine Belas-Artes e o custo oculto da nostalgia
Data do post: 19 de janeiro de 2011

O Cine Belas-Artes, um velho cinema de São Paulo, está para fechar. É sempre uma tristeza quando algo com o qual estamos habituados e temos laços sentimentais vai embora. Por isso um grupo de amigos do velho cinema já clama pelo seu tombamento, o que eternizaria o estabelecimento falido. Uma passeata foi organizada; cem pessoas compareceram. Adesão menor que muita gincana de colégio. Mas essas cem (mais milhares cujo amor pela causa só não é menor do que o esforço de assinar petições online) fazem tanto barulho que se cogita seriamente ceder à pressão dos manifestantes. O caso todo é involuntariamente humorístico. Até o diretor do Departamento do Patrimônio Histórico reconhece: “O caso não é nada simples porque envolve um patrimônio cultural, mas também um prédio que, em termos arquitetônicos, não tem especial valor”. Em outras palavras, o caso é simples: um cinema velho e que dá prejuízo vai fechar, mas alguns gatos pingados querem proibir o inevitável por decreto.
No fundo o que está em jogo no “debate” sobre o tombamento do Cine Belas-Artes é isso: tem gente (pouca gente) que quer mantê-lo funcionando mas não quer arcar com os custos. Então fazem barulho até convencer os políticos a meter o dedo, isto é, forçar os outros a pagar. O sociólogo Carlos Alberto Dória é explícito: “Por que os governos não se propuseram a ajudar no pagamento de um aluguel mais alto?”. Pedir que o governo pague um aluguel mais alto significa pedir que toda a população pague para manter um cinema ao qual poucos querem ir. É sintomático da nossa forma de governo: não ganha quem tem razão, e nem necessariamente a opinião da maioria; ganha quem faz mais barulho. Então pode bem acontecer que um punhado de indignados de internet consiga perpetuar um cinema falido sem tirar um Real do bolso. Digo, um Real do bolso deles, pois pode ter certeza que alguém pagará esse pato. Ou o proprietário do terreno vai ter que se conformar com um aluguel baixo por toda a eternidade ou o dinheiro (seja para desapropriar o prédio ou para pagar um aluguel mais alto) virá dos impostos.
Alguém como o sociólogo supra-citado acredita que o Belas-Artes seja um valor absoluto, uma entidade cuja própria existência é necessária para a humanidade e sem a qual a vida não faria sentido, e que portanto justifica enormes sacrifícios (dos outros). “Será que só agora perceberam a importância do Belas Artes?” O que ele deveria ter dito é “Será que só agora perceberam a importância do Belas Artes para mim?” Não é preciso ser um relativista pós-pós-pós-moderno para ver que certas coisas importam para uns e não para outros. Toda a cultura do tombamento ergue-se sobre uma impossível comparação de valorações subjetivas. Como resolver o impasse?
O mercado (ou seja, as transações voluntárias entre pessoas livres) oferece a maneira mais eficiente e mais justa. O dono decide acerca do que é seu. A solução óbvia dentro dessa perspectiva seria que os próprios descontentes, reconhecendo que o cinema não se paga, se oferecessem a pagar uma quantia maior pelo privilégio de freqüentá-lo; talvez fizessem uma vaquinha. Conversando com o dono do estabelecimento poderiam chegar a um valor pelo qual ele topasse renovar o contrato. Caso o valor fosse muito alto, perceberiam que, embora valorizem o cinema, não o valorizam a ponto de sacrificar os recursos que ele necessita para se manter rentável; e nesse caso é bom que ele feche as portas, para que os recursos nele utilizados possam ir a destinações nas quais os desejos da população sejam melhor atendidos. O problema é que não sabemos essas destinações de antemão; muitas delas nem existem ainda, então fica difícil angariar manifestantes para a oposição. O tombamento é popular porque se apresenta como uma medida sem custos. “Você gosta do Belas-Artes? Então eternize-o.” O que se preserva é bem conhecido, e o que nunca surgirá por causa do tombamento ninguém ficará sabendo. Quem disse que o valor sentimental do Belas-Artes supera aquilo do qual abriremos mão? Dado seu baixo sucesso (e é por isso que ele está fechando), não será muito difícil que os recursos (inclusive o espaço físico) encontrem finalidades mais de acordo com os valores da população.
Por que os freqüentadores assíduos não aproveitam seus últimos dias para dar-lhe um terno adeus? O mundo muda. Ele teve uma bela carreira de quase 70 anos, mais do que muitos outros. Tudo nasce, cresce e morre. Algumas coisas duram mais do que outras; as pirâmides de Gizé ainda estão aí (ao contrário das demais maravilhas clássicas); a Hobby Video na qual passei felizes momentos da minha infância já se foi; é a vida. Há muitas coisas novas que surgiram desde então e que só puderam surgir porque recursos foram tirados de empreitadas velhas e deficitárias. Por trás do tombamento há o desejo de tornar eterno uma idiossincrasia histórica que é, por natureza, temporária. É arbitrário cristalizar um estabelecimento querido num anseio vão de preservá-lo para todo o sempre, mesmo contra os desejos expressos (por meio de ações) da população que ele deveria servir. O velho vai embora, surge o novo; às vezes o novo é pior – outras vezes, apesar da nostalgia que insiste em sobre-valorizar passado, é melhor. Transformar tudo em peça de museu impede que novas soluções substituam as antigas. Se nossos antepassados o fizessem, ainda moraríamos sob a taipa.
Não exijam dos outros aquilo que vocês mesmos não estão dispostos a pagar. Se houver demanda, novos cinemas cult surgirão e serão palco de novas e ricas experiências humanas, que gerarão memórias tão valiosas quanto as que hoje em dia temos do Cine Belas-Artes. Se não houver demanda suficiente, então talvez manter cinemas cult funcionando não seja uma boa idéia, e sessões de DVD em casa sejam a melhor pedida. Em ambos os casos, o mundo seguirá seu curso e em poucos anos aquela perda incalculável mal será lembrada. Quem freqüentava o cinema um dia morrerá, e suas memórias e gostos irão junto. Seria injusto impô-los por coerção às gerações futuras. Por valiosíssimo que seja, o Cine Belas-Artes é um legado cujo peso elas não merecem carregar.
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A agressividade vai ao cinema
Quem não se diverte com o banho de sangue do Kill Bill, ou com o Clint Eastwood metendo bala na cara de bandidos? Isso sem falar nas pancadarias e tiroteios de James Bond, Jason Bourne e Jack Bauer.
Acredito que nosso gosto pela violência na tela tenha a ver com o lado destrutivo da natureza humana. Seria a “pulsão de morte” freudiana? Não sei; prefiro o nome clássico, “apetite irascível”: nossa capacidade de sentir raiva e buscar a superação de algum obstáculo.
Continue a leitura no Terra à Vista.
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Análise cultural de qualidade
Data do post: 21 de abril de 2009
James Bowman é articulista da The New Atlantis. Li seus ensaios hoje pela primeira vez, e fiquei muito bem impressionado. Os dois que aqui linko tratam da cultura moderna. O primeiro, “Reality and the Postmodern Wink” descreve a infantilização dos adultos, manifestada na produção cinematográfica recente (o autor foi crítico de cinema por 18 anos, e conhece-a de perto). O segundo, “Is Stupid Making Us Google?”, é sobre os efeitos da computação e da internet no aprendizagem de crianças e jovens. Essas ferramentas têm potencializado, afirma Bowman, as tendências educacionais e progressistas (marcadas pela rejeição de toda e qualquer tradição), e seus resultados são preocupantes.
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Santo debate, Batman!!!!!!
A melhor coisa que ocorre atualmente nos meios culturais tupiniquins é a celeuma em torno do “novo filme do Batman”. Sabe-se lá por quê, todo mundo com algum espaço e algum provável leitor quer dar o seu pitaco no Morcegão. Da revista Paisá, passando pelo João Pereira Coutinho, até o Inácio Araújo, todos criticaram o filme de Christopher Nolan. Creio que quem viu realmente sobre o que é o filme fui eu, o Pedro Sette Câmara e o crítico da First Things.
Em primeiro lugar, quero dizer que Christopher Nolan é, sim, um diretor talentoso. Pode não ser um gênio da sétima arte, mas, sem dúvida, é alguém com um projeto próprio (todos os seus filmes são sobre os dilemas da consciência moral). Alguns amigos meus implicaram com “Batman Begins”, outros insistem que “Amnésia” (Memento) é um filme feito na sala de montagem. Bem, creio que neste último caso, fico com as palavras de Stanley Kubrick: “Cinema é montagem”. Mas, em poucas e precisas palavras, defino assim a filmografia de Nolan: “Memento” é um dos poucos filmes que vi sobre o assunto “atos sem testemunha” – ou seja, o momento em que só você sabe o que fez na sua vida e ninguém mais; “Insônia” é o melhor thriller já feito sobre a mancha moral que entorpece nossa consciência quando optamos por fazer o mal; “Batman Begins” praticamente tirou o Morcegão do limbo cultural onde ele se encontrava depois das palhaçadas de Tim Burton e Joel Schumacher; e “The Prestige” é uma lástima, uma bobagem que quase me fez perder a admiração por Nolan.
Em segundo lugar, “The Dark Knight” é um dos melhores filmes do ano. Existem dois motivos: 1) É uma película extremamente subversiva, que, sob a aparência de uma adaptação de quadrinhos, faz um comentário conservador sobre a sociedade, ao mostrar uma visão de mundo que discute e ilustra exemplos que já foram dados por Aristóteles, Thomas Hobbes, Kant, entre outros luminares da ciência política; 2) A arquitetura dramática de “The Dark Kinght” é, como mostrou Pedro Sette Câmara, baseada no mecanismo mimético de René Girard. Isso significa que, se Nolan fosse honesto o suficiente com o seu público, ele não faria concessões (e não fez, por incrível que pareça – daí o sucesso do filme, artístico e financeiro). Por isso, a crítica boçal de um Inácio Araújo ao classificá-lo como “reacionário”. Sim, o filme é “reacionário” – se isso ocorre é porque Nolan decidiu mostrar o real como é e isso implica admitir que a própria realidade exige de você uma “reação”. Contudo, no Brasil, país onde tudo é visto pela “perspectiva ideológica”, ser “reacionário” é algo negativo, quando, na verdade, “The Dark Knight” é só uma pequena representação do mundo-cão onde vivemos, em que o Mal não tem racionalidade, e, às vezes, a única forma de combatê-lo é a velha e arquiconhecida real politik.
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Pílulas Cinematográficas
Data do post: 21 de julho de 2008
Para você, estimável leitor, algumas breves notas sobre quatro filmes que todo aspirante a homem de cultura deve ver:
THE DARK KNIGHT (Dir: Christopher Nolan) – Achei que o último Nolan, aquela besteira chamada “The Prestige”, poderia prejudicar a sua filmografia em construção. Mas eis que ele mostra quem é com “The Dark Knight”, também conhecido como “o novo filme do Batman”. Bem, esqueçam o Morcegão. Na verdade, o filme é um pequeno tratado de ciência política. Em duas horas e meia de ação alucinante, Nolan comenta Hobbes, Aristóteles e George W. Bush com uma clareza que falta aos professores da USP. E, como se não bastasse, é o único filme que assume uma postura pró-Bush. What a nerve, dirão nossos democratas. Atualização: leiam aqui a crítica mais inteligente sobre o filme que foi publicada na imprensa mundial.
O ESCANFANDRO E A BORBOLETA (Dir. Julien Schnabel) – Nunca gostei de Schnabel – acho insuportável “Basquiat” – mas confesso que, neste filme, ele acertou. O filme exibe detalhadamente os mecanismos da vida interior de um homem, mesmo quando seu corpo impõe uma limitação angustiante. Como se não bastasse, temos a sra. Roman Polanski mostrando que também pode ser uma atriz de categoria ao interpretar uma minuciosa cena de humilhação emocional – e temos Tom Waits, com sua All the world is green, dando a melancolia justa que o assunto exige.
A QUESTÃO HUMANA (Dir. Nicolas Klotz) – O filme é foucaultiano e esquerdista, mas é de uma riqueza cinematográfica única. Poucas vezes vi o tema do Holocausto e das imagens que o remetem à nossa memória trabalhado com o rigor necessário.
MEAN GIRLS (Dir. Mark Waters) – Por indicação do nosso companheiro Pedro Sette Câmara, esta é, sem dúvida, a melhor introdução à teoria do desejo mimético de René Girard, junto com All About Eve, do grande Joseph L. Mankiewicz. O roteiro é de Tina Fey, possivelmente a única democrata com quem gostaria de tomar um café-da-manhã.
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Olhem só o que vão fazer com o Evelyn Waugh…
Data do post: 23 de junho de 2008
Stefan Beck nos alerta para o que a Miramax irá fazer com a obra-prima de Mr. Waugh, “Brideshead Revisited”.
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