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Drive e o fim do cinismo

Filed under: Cinema incluído por Ieda Marcondes
Data do post: 23 de março de 2012

 

Em 1940, no final de O Grande Ditador, Charlie Chaplin fez o seu famoso discurso:

“Nosso conhecimento nos tornou cínicos. Nossa esperteza, severos e cruéis. Pensamos muito e sentimos pouco[…]Mais do que esperteza, precisamos de bondade e gentileza. Sem estas qualidades, a vida será violenta e tudo será em vão.”

São palavras ditas no contexto da Segunda Guerra Mundial, mas que podem ser facilmente aplicadas em contextos diversos como, por exemplo, o meio intelectual ou acadêmico (nos quais a violência seria de um tipo mais indireto, menos físico, mais verbal) ou, então, o meio político (em que a violência que ocorre em nome da esperteza é de ordem moral, social, etc.). Podemos aplicar tais palavras na forma pela qual levamos nossas próprias vidas, nossas profissões, nossas escolhas. A maioria de nós está imersa em um cinismo avançado; vivemos de ironia e tentativas repetitivas de demonstrar uma esperteza ímpar, não sentimos realmente o que estamos falando, não há coerência interna com o que estamos fazendo, não somos sinceros sequer com nós mesmos, que dirá com os outros. E, assim, nos tornamos violentos; cometemos pequenos e diários atos de violência contra nós mesmos e contra os outros.

Drive é um filme violento (do tipo de violência que destrói crânios e faz uma sujeira terrível), mas trata-se de uma violência redentora. Para salvar aquilo que, em meio a um oceano de cinismo, é para nós o que há de bondade e gentileza, não seremos violentos? Não defenderemos aquilo até as últimas consequências, até a própria morte? E nossa morte não seria uma morte honrosa?

Ryan Gosling, o excelente herói sem nome de Drive (o “driver” ou, simplesmente, “motorista”) dirige carros em cenas elaboradas para filmes de ação durante o dia e, à noite, se disponibiliza como motorista de fuga para várias empreitadas criminosas das quais ele faz questão de se manter mais ou menos desinformado e alheio. Seu mecânico Shannon, interpretado por Bryan Cranston de Breaking Bad, é quem lhe fornece carros insuspeitos, porém envenenados, para que consiga despistar a polícia com habilidade e inteligência. Fora Shannon, o “driver” não possui raízes; não possui família, amigos ou história (por isso, sequer tem nome), mas as coisas começam a mudar quando ele conhece sua vizinha Irene (Carey Mulligan) e seu filho Benicio.

O filme passa um longo e necessário tempo estabelecendo a afeição que surge entre e o motorista e sua vizinha para que, quando ficamos sabendo que seu marido está para ser solto da prisão, possamos sentir tal informação com tristeza pelo novo casal (tudo feito em uma cena lindíssima: o motorista passeando de carro com ela, luzes verdes dos semáforos iluminam seus rostos, ela então conta sobre o seu marido, um farol vermelho, uma parada, um silêncio, um suspense, e um sinal verde novamente). Além disso, é o afeto entre eles que vai colocar todo o resto do filme em ação, até o último minuto.

O retorno do marido de Irene, Standard Gabriel, apresenta um novo problema à trama. Ameaçado por antigos parceiros, ele terá de cometer mais um assalto para sanar uma dívida. O motorista resolve ajudá-lo, mas tudo dá errado e logo ele, sua vizinha e seu filho estarão em risco. O “driver” precisará encontrar todos os criminosos envolvidos (entre eles, Ron Pearlman e Albert Brooks) para garantir não a segurança própria, mas a de Irene e Benicio.

O filme lida com o fim do cinismo porque seu personagem não poderá mais viver da forma que vivia. Agora que ele tem por quem zelar, não poderá, se conseguir salvar Irene e ainda sobreviver, voltar ao crime e colocá-la em risco novamente. Ele aprende que atos têm consequências, que não há verdadeira impunidade. Isso fica claro em uma cena em que um antigo “contratante” do motorista o aborda em um bar, querendo chamá-lo para mais um serviço, e ele reage com raiva, afastando o sujeito. Afinal, são criminosos que estão ameaçando o que ele conheceu, enfim, como o que há de melhor na vida (o amor, a família) e ele simplesmente não pode mais ser um deles ou sequer tolerá-los.

Drive é um filme maravilhoso, tanto sob o ponto de vista estético (há cenas lindíssimas em que a luz serve para pontuar momentos importantes, como o farol na cena do confronto com o personagem de Ron Pearlman na praia) quanto sob o ponto de vista de seu conteúdo. É um filme revigorante, raro, pois não só fala de um fenômeno escasso hoje em dia (o fim do cinismo) como trata-se de um filme de ação de gosto refinado;  uma experiência que se repetirá poucas vezes.


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O seqüestro da crítica

Filed under: Debates incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 4 de maio de 2011

Por Rodrigo de Lemos

Quando Roger Kimball lançou The Rape of the Masters, pus-me a imaginar o que ele não diria sobre a crítica no Brasil. Bem antes dos anos 80 (década em que os resentniks pós-estruturalistas invadiram as universidades americanas), uma parte da crítica brasileira já entendia sua atividade como a violência aos mestres locais justificada pelas “boas causas”. E eis que aparece agora o Eduardo Wolf com esse artigo sobre “O seqüestro de Machado de Assis” na última Dicta&Contradicta. Claro, a reflexão do Eduardo não me parece dever alguma coisa à do Kimball; mesmo assim, não deixo de esperar que ela seja para nós um pouco do que The Rape of the Masters foi para os americanos: um alerta para os estragos decorrentes da politização da crítica e um sinal para os discordantes de que eles não estão sozinhos.

Nesse breve comentário, quero me deter em dois pontos: primeiro, por que interpretações como as de Roberto Schwarz sobre Memórias póstumas tornaram-se por aqui não apenas mais uma leitura, legítima entre outras tantas, sujeita a contestações e a ataques, mas a interpretação dominante, combatida de quando em quando por tímidos balbucios; em seguida, vou levantar os problemas e as contradições que a centralidade reclamada por críticos como Schwarz para suas leituras sociológicas trazem para suas próprias teorias. Quem acompanha os meios literários nacionais (nos quais sempre houve quem torcesse o nariz para um Murilo Mendes, por exemplo, por ele não ter feito poesia engagée nem ter sido um obcecado pela identidade nacional) sabe que o pensamento de Schwarz está longe de ser um caso isolado. Não faz muito, soube de um crítico que, comentando dois “O navio negreiro”, um de Heinrich Heine, outro o de Castro Alves, tentava mostrar como o poema do alemão era em muito superior ao do brasileiro: em lugar da preocupação meramente moral deste (e deixo o “meramente” por conta do crítico), o tratamento de Heine teria sido mais feliz ao tomar em conta as ligações do tráfico negreiro com o capitalismo internacional. Nenhuma palavra sobre a diferença de arte poética entre os dois: uso das imagens, das figuras de linguagem, dos procedimentos rítmicos; para ele, o poema de Heine era superior porque Heine era melhor sociólogo. Observações sociológicas desse tipo tornaram-se a tal ponto preferência nacional que passaram a ser tomadas por critério de julgamento estético.

Cabe perguntar o motivo desse furor sociologizante. Primeiro, a sociologia é o único horizonte para uma boa parte do público e dos próprios escritores. Diferentemente da França, por exemplo, que dispõe de uma verdadeira educação para a forma desde, no mínimo, o século XVI, para certas correntes críticas prestigiosas no Brasil, a análise imanente é vista com maus olhos. A retórica saiu de moda há tempos; poucos se interessam em voltar a Cícero e a Quintiliano para neles aprender a identificar e a empregar técnicas lingüísticas. O estudo da versificação é por aqui uma raridade, e a maioria do público de poesia, quando não dos próprios poetas, ignora os princípios básicos da métrica e da prosódia, isso sem falar em outros procedimentos fônicos mais sofisticados (modulações ou harmonias, por exemplo). Ao mesmo tempo, tudo em que o legado estruturalista foi positivo, tudo o que nele foi além de pretensão cientificista e que realmente podia contribuir para o estudo da literatura, é hoje preterido em favor de investigações temáticas que confirmem os derniers cris do politicamente correto e do multiculturalismo. Diante dessa planície analítica, não surpreende que as leituras sociológicas avancem terra adentro sem encontrar obstáculos de relevo.

Mas, para explicar essa tendência, há algo além dos recursos críticos limitados característicos do pensamento literário atual. A transformação de conceitos sociológicos em categorias de julgamento é o corolário de uma idéia aparentemente inocente e que, à força de repetição, entrou de tal forma no pensamento sobre literatura que se transformou no seu maior, e senão único, consenso: a de que a chave para a compreensão de uma obra literária está em sua relação com o contexto histórico; dito de outro modo, de que a significação mais profunda de uma obra explica-se pelo tipo de representação que ela traz de uma sociedade em um dado momento da história ou do tipo de relação que estabelece com essa sociedade. Daí decorreria, para os defensores dessa tese, que a qualidade da obra mede-se pela maneira mais ou menos penetrante com que ela revela as contradições do meio em que foi escrita, culminando frequentemente na instrução de um processo contra as classes dirigentes, contra o racismo, contra o falocentrismo, contra o perseguidor do momento.

Na verdade, a tensão atual entre críticos sociológicos (sobretudo marxistas) e críticos pós-something reside menos em uma oposição radical de visões sobre a sua própria atividade intelectual do que em uma diferença entre as causas a que eles a submetem, a luta de classe no caso dos primeiros, a defesa de minorias entre os segundos. Em ambos os grupos, desconsidera-se da análise literária não somente a dimensão formal, mas também qualquer outro aspecto relativo à vida interior (psicológica, moral ou religiosa) e que transcenda o jogo de forças sociais.

Claro, para muitos dos críticos de filiação sociológica, este último é um falso problema, pois o que são todas essas dimensões da natureza humana senão, a exemplo da própria obra literária, fenômenos de superfície que, por sua vez, encontram sua razão de ser na vida social e econômica? Mas, ao sustentá-lo, o crítico sociológico cria uma armadilha para sua própria leitura, pois ou bem lhe atribui uma objetividade que ele mesmo nega a qualquer outra forma de conhecimento, e então seria de esperar que justificasse essa superioridade apolínea auto-atribuída, ou bem dissolve a verdade do seu discurso na pura historicidade em que ele já dissolvera a verdade da obra literária. Rompe, no último caso, qualquer compromisso com a objetividade, com a busca de uma verdade transcendente à sua própria situação histórica, a seus interesses ideológicos e partidários – quando é o conhecimento da verdade que deveria determinar a estes últimos. A partir desse ponto, qualquer violência – estupro ou seqüestro – fica permitida, e só nos resta repetir a ritournelle do Eduardo ao fim do artigo “O que pensar, leitor, o que pensar?”.

Rodrigo de Lemos é mestre e doutorando em Literatura Francesa na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde atualmente é também professor na mesma área.


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Pílulas Cinematográficas

Filed under: Cinema incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 21 de julho de 2008

Para você, estimável leitor, algumas breves notas sobre quatro filmes que todo aspirante a homem de cultura deve ver:

THE DARK KNIGHT (Dir: Christopher Nolan) – Achei que o último Nolan, aquela besteira chamada “The Prestige”, poderia prejudicar a sua filmografia em construção. Mas eis que ele mostra quem é com “The Dark Knight”, também conhecido como “o novo filme do Batman”. Bem, esqueçam o Morcegão. Na verdade, o filme é um pequeno tratado de ciência política. Em duas horas e meia de ação alucinante, Nolan comenta Hobbes, Aristóteles e George W. Bush com uma clareza que falta aos professores da USP. E, como se não bastasse, é o único filme que assume uma postura pró-Bush. What a nerve, dirão nossos democratas. Atualização: leiam aqui a crítica mais inteligente sobre o filme que foi publicada na imprensa mundial.

O ESCANFANDRO E A BORBOLETA (Dir. Julien Schnabel) – Nunca gostei de Schnabel – acho insuportável “Basquiat” – mas confesso que, neste filme, ele acertou. O filme exibe detalhadamente os mecanismos da vida interior de um homem, mesmo quando seu corpo impõe uma limitação angustiante. Como se não bastasse, temos a sra. Roman Polanski mostrando que também pode ser uma atriz de categoria ao interpretar uma minuciosa cena de humilhação emocional – e temos Tom Waits, com sua All the world is green, dando a melancolia justa que o assunto exige.

A QUESTÃO HUMANA (Dir. Nicolas Klotz) – O filme é foucaultiano e esquerdista, mas é de uma riqueza cinematográfica única. Poucas vezes vi o tema do Holocausto e das imagens que o remetem à nossa memória trabalhado com o rigor necessário.

MEAN GIRLS (Dir. Mark Waters) – Por indicação do nosso companheiro Pedro Sette Câmara, esta é, sem dúvida, a melhor introdução à teoria do desejo mimético de René Girard, junto com All About Eve, do grande Joseph L. Mankiewicz. O roteiro é de Tina Fey, possivelmente a única democrata com quem gostaria de tomar um café-da-manhã.


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