A doença como cura?
Data do post: 9 de novembro de 2011
“Doença: antes de mais nada, tudo depende de quem está doente, de quem está louco, epiléptico, paralítico – uma pessoa medianamente tola, em cujo caso a doença prescinde do aspecto intelectual ou cultural, ou um Nietzsche, um Dostoiévski. Em ambos os casos, aquilo que resulta da doença é mais importante e estimulante para a vida e sua evolução do que qualquer normalidade aprovada do ponto de vista médico. A verdade é que a vida nunca prescindiu da doença, e dificilmente haverá uma afirmação mais idiota do que “a doença só pode gerar coisas doentias”. A vida não é suave com as pessoas, e podemos dizer que ela prefere mil vezes a doença criativa, doença que enfrentará os obstáculos a cavalo, saltando de rocha em rocha com audaz embriaguez, à saúde que anda a pé. A vida não é delicada e está longe de querer fazer qualquer distinção moral entre saúde e doença. A vida toma o resultado ousado da doença, ingere-o, digere-o e, da maneira que ela o acolhe, aquilo significa saúde. Toda uma horda e geração de rapazes receptivos e saudáveis se lança sobre a obra do gênio doente, transformado em gênio pela doença, admirando, elogiando, elevando, prosseguindo, transformando, legando-a para a cultura que não vive apenas do pão ordinário da saúde. Todos se declararão fiéis ao nome do grande enfermo, todos eles que, graças à sua insanidade, não precisam mais ficar insanos. De sua insanidade eles haverão de se alimentar, saudáveis, e neles ele haverá de ser saudável.
Thomas Mann, em “Dostoiévski, com moderação” (págs. 124-25), no livro “O escritor e sua missão”, publicado neste mês pela Jorge Zahar.
Uma leitura fundamental que deve ser ouvida ao som da seguinte canção:
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Especial 50 anos de Teoria Mimética Parte 2 – Da descida aos infernos à ressurreição
Data do post: 26 de outubro de 2011

Por Karleno Bocarro
Apaixonei-me logo pela mulher de meu amigo, confessa Dostoiévski. O ano é 1854, ele tinha acabado de deixar a prisão; obrigado ainda, como cumprimento de pena, a servir como soldado em Semipalátinsk, província siberiana, onde torna-se amigo do casal Issáiev. Logo em seguida, falece o marido. Dostoiévski pede a viúva, Mária Dmítrievna, em casamento. Mária é uma espécie de Emma Bovary russa que adora falar com orgulho de seus antepassados franceses emigrados durante a Revolução, e anseia por uma existência moscovita. Ela porém ama um outro, o jovem e belo Vergunov. Dostoiévki tem trinta e cinco anos, é feio. Vergunov é professor; ganha pouco. Dostoiévski retrata então para a viúva um quadro magnífico de si mesmo – um brilhante escritor com um futuro solar – ao mesmo tempo em que desencanta o rival: ligar-se a ele significa uma existência, na desolada Sibéria, com uma fileira de filhos. Contudo, é preciso não dar a impressão de estar trabalhando para si mesmo; Dostoiévski intercede pelo rival junto à Mária. A paixão de Dostoiévski, exasperada pelo entusiasmo da jovem por Vergunov, além de exageradamente romântica, é mórbida, doentia. Ele escreve: Sou um louco! Um amor dessa espécie é uma doença. E justifica sua conduta ambígua, sem deixar de atribuir-se uma grandeza de alma superiora, a questões táticas; felicita-se, fala às vezes da santidade de seu amor. Vergunov todavia perde interesse por Mária. Confrontado com a responsabilidade em manter um compromisso assumido, Dostoiévski casa com Mária, mas a sua paixão logo arrefece. No dia do casamento ele tem um ataque de epilepsia e a vida conjugal inicia-se com brigas e dificuldades financeiras.
Em um de seus primeiros livros, Dostoiévski: Do Duplo à Unidade (Tradução de Roberto Mallet. É Realizações, 2011), René Girard pretende tornar a biografia do escritor russo, graças à obra, verdadeiramente inteligível, e não o contrário, com a sua biografia explicar a obra. Girard mostra como Dostoiévski, nas suas primeiras obras, expõe em graus variados a própria experiência de um amor obsessivo, o qual se mantém aceso por meio de uma relação triangular – a atração de um homem por uma mulher aumenta vertiginosamente quando existe um outro por qual ela se interesse. No entanto, este outro não é somente um odiado rival, ele estimula uma paixão que tende a tornar-se excessiva e perigosa. Recua o interesse do rival, como o caso do jovem Vergunov por Mária, diminui a fascinação do apaixonado. O resultado é relacionamentos artificiais com pouco pé na realidade. Segundo Girard isso acontece porque o desejo humano, ao contrário dos apetites e necessidades naturais – aqui o instinto determina os objetos –, depende sempre da mediação do outro, de um modelo adotado como guia para a definição do próprio desejo, o qual é sempre mimético, nunca autônomo. Mas essa necessidade de imitação leva a tensões entre a rivalidade e a admiração, a qual pode degenerar tanto numa raiva incontrolável como numa fusão apaixonada e perigosa – um tema dostoiévskiano recorrente, quer se trate de personagens comuns ou de personalidades históricas. Por exemplo, a admiração de Raskhonilkov por Napoleão em Crime e Castigo, ou de Arcádi, o herói em O Adolescente, pelo banqueiro Rothschild.
As grandes personagens de Dostoiévski trazem à tona a sua própria experiência de vida: deterioração espiritual, obsessões maníaco-depressivas, compulsão por jogos, crises de epilepsia e conflitos com seus pares. Um episódio que ilustra bem esta cega rivalidade é aquele que envolve a sua estréia como romancista. Acolhido, ao estreiar na vida literária com Gente Pobre, como um novo Gógol, invejado por Turguiêniev e Nekrasov, Dostoiévski cai em desgraça ao desagradar Belinsky, o crítico literário mais importante da época, com O Duplo – aos olhos de Belinsky, um romance em demasia psicológico e pouco político; alheio aos problemas sociais da Rússia. Ele escreve ao irmão: Fiquei abatido; tenho um terrível defeito; um orgulho, uma vaidade sem limites. O simples pensamento de ter decepcionado a expectativa do público e de ter estragado uma obra (O Duplo) que poderia ter sido grandiosa mata-me literalmente. Muitas passagens estão mal-acabadas. Tudo isto torna-me a vida insuportável.
Girard demonstra como esta experiência particular e pendular de vaidade ao orgulho ferido é exemplarmente refletida em Memórias do Subsolo. O maior sofrimento do herói do subsolo provém do fato dele não conseguir distinguir-se dos homens que o rodeiam. Ele pretende derrotar os outros, mostrar-lhes a dignidade de ser “único”. Mas aos poucos toma conscência do fracasso, pois percebe-se rodeado de pequenos funcionários com sonhos e (também) derrotas idênticos. E na tentativa desesperada de obter-lhes o reconhecimento, para ganhar a própria auto-estima, liga-se mais e mais a eles, tornando-lhes semelhante. Consciente da derrota, da inutilidade da luta contra seus adversários, o sentimento que o domina ao final é de inferioridade. O anti-herói do subsolo possui enfim uma atitude ambígua em relação ao oponente: ele o admira e o rejeita, mas quando fracassa se divide em um ser desprezado e um observador que despreza. Torna–se Outro para si mesmo.
René Girard observa que esta fase romântica, impregnada de elementos de sadismo e masoquismo, não salva o escritor; encerra-o muito mais num círculo de orgulho, ressentimento e mentiras. Pior, perpetua o mecanismo de uma existência voltada ao fracasso e à fascinação doentia por si mesmo.
No entanto, observamos em Crime e Castigo, o primeiro grande romance de Dostoiévski, os traços iniciais de uma conversão. Raskholnikov, em seu nihilismo, vai mais longe, ao cometer assasinato, do que o homem do subsolo. Confrontado com o orgulho e loucura de seu crime, Sonja, porém, o salva. Ele orienta-se, ao contrário do homem do subsolo que recusa o amor de Lisa, a prostituta, em direção à redenção – aceita a culpa e carrega a própria cruz.
Em Os Possessos o mundo é um abismo repleto de homens de subsolo: o moralmente suspeito Stepan Trofímovitch, o rancoroso e vingantivo Vierkhovênski, o demoníaco Stavróguin, o sinistro Kirilov; todos em busca de uma redenção às avessas, a própria danação. Kirilov é a personagem de Dostoiévski que mais nos lembra Nietzsche e sua tentativa de sobrepujar o nihilismo, num mundo onde todos estão plenamente perdidos e derrotados, por meio de exagerada afirmação do eu. Uma perigosa tentação que Dostoiévski superou ao colocar Cristo no centro de sua relação com o outro, um outro que devemos amar como a nós mesmos, se não queremos idolatrá-lo e odiá-lo no fundo do subterrâneo. Mas que em Nietzsche naufragou em demência, pois “querendo divinizar-se sem o Cristo, o homem coloca-se a si mesmo na cruz” (p. 128). Ou então ao revoltar-se contra Deus para adorar-se a si mesmo acaba sempre adorando o outro, como a devoção das personagens do livro pelo demoníaco Stavróguin. Pois bem, nessa verdadeira proclamação do triunfo de Satã que é Os Possessos onde encontra-se a eficiência da graça? Girard especula que a escolha cristã pode ser deduzida da loucura e fracasso dos personagens.
Se o período “romântico” é uma verdadeira descida aos subterrâneos do inferno, onde a presença do orgulho está por trás de todas as coisas, nos separando dos outros e de nós mesmos, nos romances intermediários – Crime e Castigo, O Idiota, Os Possessos e O Adolescente – o subterrâneo não é mais uma condição irreversível, e sim uma passagem para a última etapa de uma cura espiritual. Pois como diz Aliocha a respeito do irmão Ivan: Ou ele ressuscitará na luz da verdade, ou sucumbirá no ódio. Isso significa, segundo Girard, que à luz de seu último romance, Os Irmãos Karamazov, a existência de Dostoiévski, e o conjunto de sua obra, assumem a forma de uma morte e de uma ressureição: “Aceitando ver-se primeiro como pecador, o escritor não se desfez do concreto, não se abismou na deleitação amorosa: abriu-se a uma experiência espiritual de que sua obra é tanto a recompensa quanto o testemunho” (p.142). Criar significa outrossim matar o homem velho, prisioneiro de formas estéticas, psicológicas e espirituais que estreitam o horizonte de homem e de escritor.
A edição da É Realizações ainda traz um DVD, A Gênese de uma Ideia, com entrevistas de René Girard. Nelas vemos um homem afável e inteligente. Pensador de qualidade, Girard se expressa como escreve; a sua prosa é límpida e agradável. O livro e o DVD oferecem, portanto, uma excelente introdução ao pensamento deste que é ao lado de Joseph Frank, George Steiner, Lev Shestov, Nikolai Berdiaev, Romano Guardini, Henri de Lubac, um dos grandes estudiosos de Dostoiévski.
Karleno Bocarro é escritor, autor de “As almas que se quebram no chão” e de “O advento” (no prelo).
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Curso – Modernidade atormentada: Dostoiévski e os Irmãos Karamazov
Data do post: 13 de março de 2011
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Update: Geralmente, odeio dar entrevistas – sempre segui o conselho de Peter Drucker de que, se eu não quisesse ficar velho, teria de evitar entrevistas e intelectuais -, mas abro a exceção ao meu amigo Bruno Garschagen, que resolveu me fazer algumas perguntas sobre o projeto Cultura Sem Limites. Você pode ler a entrevista aqui.
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Diamond Dogs
Data do post: 20 de janeiro de 2011
Sim, leitor, agora que volto de férias em pleno reino dos Diamond Dogs e dos Smierdiakovs que governam nosso país recheado de Festival de Besteiras que assolam nossa consciência, vamos ver o que fiz durante este meio e o que interessa ao seu próprio interesse que, geralmente, não é o mesmo que o meu (e thanxs God a isso):
- Quer saber como um terrorista é um estúpido? Então assistam Carlos, o épico disfarçado de mini-série de Olivier Assayas, de seis horas, e que conta minuciosamente a história de O Chacal, um dos maiores filadaputa que já passaram pelo mundo. Interpretado com força por Edgar Ramirez, o filme assusta por mostrar criminosos andando calmamente nas ruas, tomando drinques com policiais que deveriam prendê-lo, farreando sem que ninguém o perturbe. Já vimos este filme antes, não?
- Tudo bem, comecei pesado, correto? Então vamos de Morangos Silvestres, de Ingmar Bergman, que assisti por esses dias. Todos nós somos Victor Sjostrom. Achamos que seremos uma grande coisa quando na verdade descobriremos que seremos medíocres até o talo. O que sobra é a redenção dos pequenos gestos, o milagre dos detalhes que jamais percebemos em nossas vidas.
- No Natal, li as biografias de David Bowie e de Keith Richards. A primeira é de um amadorismo terrível; a segunda é de um tédio que nos deixa irritados. Então a vida destes sujeitos é só isso: drogas, drogas, alguma música, mais drogas, um pouco de sexo atrapalhado, mais drogas? Sim, é só isso. Então desculpa aí que a vida real é mais divertida.
- Para não dizer que cai ontologicamente nas coisas que leio, li também Os irmãos Karamazov, do bom e velho Dostoievski. Em verdade, em verdade vos digo meus amigos: o segredo último da vida se encontra nos Evangelhos, na Divina Comédia e nas páginas finais dos Karamazov.
- E por falar em segredo último da vida, fomos ver o último do Clint Eastwood, Hereafter. Não é um dos seus melhores lances – a cena final parece ter sido imposta por Spielberg. Mas a seqüência de doze minutos com Matt Damon e Bryce Dallas-Howard é a prova de que o homem continua um dos maiores diretores do mundo. Aquilo é de uma dor profunda, de uma tragédia que borbulha silenciosamente, que não há como ficar impassível. Além disso, há comentários engraçados sobre o multiculturalismo na Europa e a mídia atéia na França que observamos com ironia nos lábios.
- E sobre o Belas Artes: fecha logo, por favor. A última vez que fui lá, há cerca de dois anos, respirei ácaros que vinham do carpete e do ar-condicionado. Não era cinema, era um muquifo. E muquifos devem ir para o brejo – que é a mesma coisa que tombamento aqui no Brasil.
- A tragédia da serra carioca e as enchentes em São Paulo só mostram uma coisa que a mídia tenta esconder, mas não consegue: o Estado faliu, meus amigos. Consegue apenas manter uma aparência de vida. Vive às custas da entropia que o come internamente. Recomendo sem problemas aquilo que Thoreau chamava de desobediência civil. É a única forma de colocar as coisas nos eixos.
- E a mídia – especialmente a Folha de São Paulo e a revista piauí – insistem em afirmar que Reinaldo Moraes e seu Pornopopéia é a nova obra-prima volumosa e revolucionária da nova literatura brasileira. Não é. Tentei ler cem páginas de palavrões desordenados e fiquei bocejando. No Brasil, deboche é tratado como genialidade. Não é, nunca foi. Quer saber o que é deboche, leia Mencken e Thackeray. Que eram gênios, por sinal.
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Melhores do ano – parte IV
Data do post: 21 de dezembro de 2010
Minha vez de fazer as cinco recomendações natalinas.
A Confederacy of Dunces – John Kennedy Toole
Ignatius Reilly é preguiçoso, mal-humorado, fracassado, hipocondríaco, arrogante, extremamente pretensioso e carece do mais básico senso de ridículo. Sua visão de mundo reacionária e teológica, que culmina na devoção pela Consolação da Filosofia de Boécio e uso dela como guia existencial, tornam-no uma figura improvável na lasciva New Orleans dos anos 60. Para completar, tem trinta anos de idade, quatro dos quais gastos num mestrado ainda inacabado, nunca trabalhou e mora com a mãe. Ah sim, e é obeso mórbido com flatulência crônica. Como pode ser ele cativante e, junto com Myrna Minkoff, sua antítese espelhada e antiga rival ideológica da faculdade, o personagem mais são de toda a trama? Acompanhar as peripécias desse “Oliver Hardy louco, Dom Quixote gordo, Tomás de Aquino perverso” (como o descreveu Walker Percy) quando circunstâncias externas o obrigam a procurar um emprego – mais uma iniqüidade do mundo moderno – é uma experiência ao mesmo tempo hilária e enriquecedora a nosso sentido de humanidade.
The Bourgeois Virtues – Deirdre McCloskey
Sim, o mercado precisa de uma base moral para funcionar. Nada mais lugar-comum. O que muitas vezes não se diz é que ele é também um ambiente que permite e incentiva a formação das virtudes. O livro de Deirdre McCloskey, primeiro de uma trilogia, é desigual – há longas considerações de virtudes particulares que parecem fora de lugar (especialmente quando o assunto é “gênero”). Mas a substância principal, a reunião há muito adiada de economia de mercado e ética das virtudes, é um bálsamo para qualquer leitor insatisfeito com as escolhas-padrão entre liberais amorais e virtuosos filo-socialistas. Ela é uma ótima economista, escreve bem e revela amplidão de leituras; é bom que não-filósofos invadam um pouco o terreno; o desvio ocasional é mais do que compensado pelo frescor de novas perspectivas no debate.
The Book in the Renaissance – Andrew Pettegree
A boa História é feita menos de leituras grandiosas do que de fidelidade aos fatos. Esse é o grande mérito de Andrew Pettegree: debruçar-se sobre os dados dos primeiros 150 anos da imprensa (de meados do XV até o fim do XVI) e nos pintar um retrato bastante convincente e extenso de como foi esse conturbado mercado em seu início. O que as pessoas liam, o que sustentava as empresas, quais os grandes empreendedores, quais as principais cidades do mundo editorial, os tamanhos das tiragens, como evoluiu a tecnologia, as técnicas de diagramação e a tipografia; tudo isso embasado em pesquisa minuciosa. Há algo mais contrário às humanidades do que a contabilidade? E, no entanto, séculos mais tarde, são os registros contábeis que nos ajudam a contar a história. A riqueza de dados e fatos anedóticos encantará qualquer um que se interesse pelo Renascimento europeu ou pela história da imprensa.
Memórias do Subsolo – Dostoievski
Precisa de elogio meu? Melhor estudo da ação do mal na natureza humana do que muitos, ou até todos, os tratados filosóficos; que dirá científicos. Leiam.
The Mysterious Flame – Colin McGinn
O problema da relação mente e corpo é dos mais complicados da filosofia. Colin McGinn é da escola dos “mysterians”, colega de Thomas Nagel: defendem, por um lado, um dualismo bastante forte e, por outro, que não conhecemos, e mais, que somos incapazes de conhecer, a natureza da relação. E por acaso é de se espantar que um alicate não consiga desmontar a si mesmo? O livro é bem acessível, chegando a pecar por uma simplificação demasiada das discussões, mas os argumentos principais estão lá e há momentos de pura maestria argumentativa (por exemplo, quando McGinn mostra que, se as máquinas futuras operarem pelos mesmos princípios que as atuais, então nunca criaremos um robô “consciente”, não importa o quanto a IA avance). A tese de que mente e corpo são duas substâncias sempre me pareceu inverossímil; e ele é mais dado a reducionismos fáceis do que Nagel, que é inegavelmente superior. Mas quando qualquer um dos dois descreve a natureza da sensação subjetiva e sublinha a diferença dela para com os processos físicos do cérebro, desperta o cartesiano dentro de mim; sem glândula pineal, claro.
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Dostoiévski: um gigante em uma biografia gigantesca

Para minha satisfação, e em parte tristeza, terminei o último dos cinco volumes da biografia de Dostoiévski, escrita por Joseph Frank, que foi professor de Literatura nas universidades de Princeton e Stanford. A tristeza é aquela de quando terminamos um livro excelente, em cuja companhia permanecemos meses: começa a bater a saudade, e sabemos que nunca mais leremos aquela obra pela primeira vez.
Todos os volumes da biografia, editada no Brasil pela Edusp, somam mais de 3.000 páginas. Nem acredito que os enfrentei! No entanto, posso assegurar, sem medo de exagerar, que foi uma das melhores coisas que li na vida. Cada volume apresenta trechos antológicos, e não consigo destacar um em relação aos outros: tudo é muito interessante.
A biografia transita por três níveis: a vida propriamente dita de Dostoiévski, que é o fio que unifica tudo; a análise da sua obra literária; e o ambiente cultural e político daqueles anos na Rússia. Joseph Frank é habilidoso ao entretecer os assuntos, mantendo sempre o ritmo e chamando a atenção do leitor; parece até um romance do biografado.
Por sinal, a vida de Dostoiévski é impressionante. Sua formação intelectual, os flertes revolucionários da juventude, o tempo de prisão, os anos no exército, o retorno à vida cultural e a confecção das suas obras-primas, as disputas ideológicas nas quais se envolveu, a profunda humanidade da sua vida familiar, sua consagração pública nos últimos anos… Os vários eventos são contados com profundidade e agilidade, e o biógrafo chega às motivações religiosas e morais do biografado, que dão o sentido último de sua existência.
A grandeza do escritor russo chega a esmagar. Ao mesmo tempo, tomamos conhecimento das suas limitações – sua exagerada xenofobia, os laivos de antissemitismo, suas previsões exageradas a respeito da civilização européia, o temperamento irritadiço e difícil –, que não obscurecem a admiração que sentimos por ele. Afinal, como não nos sentirmos gratos com alguém que nos legou Crime e castigo, O idiota, Os demônios e Os irmãos Karamázov? Olhe que apenas falei de seus grandes livros, sem citar uma série de outros escritos de valor.
Por falar me gratidão, também me sinto em dívida com Joseph Frank, por ter feito algo tão bom! O livro é rigoroso, exato, maneja fontes primárias e há um enorme trabalho por trás dele. Poderia ser árido, mas é exatamente o contrário: uma leitura deliciosa. A tradução é bastante satisfatória: apesar de alguns erros, o português é de qualidade e fluido, o que se agradece. A Edusp merece uma salva de palmas por ter se metido nessa empreitada.
Haveria muito o que falar de Dostoiévski. Acredito que entendi melhor suas motivações e o ambiente no qual elaborou seus livros e artigos. Fico curioso para saber o que ele escreveria se estivesse no Brasil de hoje. Pois a Rússia trilhou o caminho contra o qual ele alertou durante décadas, e nesse sentido foi um derrotado na batalha ideológica que travou. No entanto, o comunismo soviético acabou por cair, enquanto Dostoiévski seguirá sendo lido, servindo de aviso contra a ideologia e o abandono da fé cristã pelos intelectuais.
Como pequena amostra, cito um trecho da biografia, que trata dos últimos momentos do autor com seus filhos, já no leito de morte, e que serve como um resumo de toda a obra:
“Pediu que seu exemplar do Novo Testamento [que ele recebeu trinta anos antes, quando estava na prisão] fosse dado ao filho Fédia e que se lesse aos filhos a parábola do Filho Pródigo. Liubov [filha de Dostoiévski] lembrou-se mais tarde de que ele disse: se algum dia cometessem um crime (prestupliénie, palavra que tem um sentido mais amplo do que um simples delito penal), confiassem em Deus seu Pai, pedissem-Lhe perdão e estivessem certos de que Ele se regozijaria com seu arrependimento, assim como fez o pai com a volta do Filho Pródigo. Era essa parábola de transgressão, arrependimento e perdão que queria deixar como última herança aos filhos; e podemos considerar que isso constitui seu próprio entendimento definitivo do sentido de sua vida e da mensagem de sua obra” (v. 5, p. 923).
Soube que, em inglês, foi lançada uma versão condensada dessa biografia em um único volume, com aproximadamente 1.000 páginas. Imagino que também será de qualidade, porque foi o próprio Joseph Frank quem a realizou. De qualquer modo, duvido que a trocaria pela versão completa.
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Curso: Dostoievski – Política e Salvação
Data do post: 11 de agosto de 2010
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