Uma Educação Finlandesa
Data do post: 12 de janeiro de 2012
Não é fácil identificar a causa, ou as causas, de um fenômeno que se dá fora de ambientes controlados. Os melhores médicos creram, por séculos, que a sangria ajudava na cura de seus pacientes quando na verdade ela era nociva. Curas ocorriam, mas ninguém sabia o verdadeiro porquê.
Parece-me que estamos na mesma situação, hoje em dia, com relação à educação. Certas crianças aprendem melhor do que as outras; certos países têm ensino melhor do que outros. Não há grandes mistérios em se medir isso: bastam provas e testes padronizados. O problema está na hora de explicar as diferenças. Intelectuais, professores e políticos todos têm a sua teoria sobre como melhorar o ensino.
Já medir a qualidade do ensino é algo mais simples, embora diferentes métodos possam ser desenvolvidos e diferentes aptidões analisadas. Há provas uniformizadas que dão uma boa ideia do estado da educação de determinado lugar. Um desses exames padronizados e aplicado mundialmente é o PISA. E desde que o PISA começou a ser aplicado, em 2000, um fato chamou a atenção: dentre os países ocidentais, quem ocupava o primeiro lugar, disparado, era a Finlândia. Isso vale até hoje. Embora tenha ficado atrás de Shanghai em todas as provas, a Finlândia continua muito a frente de qualquer outra nação ocidental, inclusive das escandinavas Noruega e Suécia, cuja nota é medíocre em comparação e que sempre servem de parâmetro uns para os outros.
Os exames do PISA são sérios (aqui o artigo da Wikipedia com os rankings do PISA 2009); não se trata de fraude ou manipulação. Palmas, portanto, para a Finlândia. Mas a que, especificamente, se deve esse desempenho inesperado?
O candidato mais óbvio é o Ministério de Educação finlandês, que já vem de fato colhendo esses louros há vários anos. Ele vem recebendo visitas de comissões de vários países para expor e mostrar as conquistas do sistema de ensino finlandês; e vários autores têm tirado suas conclusões sobre o que é que dá à Finlândia esse diferencial. Segundo a recente reportagem do The Atlantic, o segredo da Finlândia é que ela, ao contrário dos EUA, valoriza a igualdade e não a excelência. Não existem escolas privadas; não existe um sistema de cobrança e avaliação das escolas; não se premia as escolas com melhor desempenho. “Accountability is something that is left when responsibility has been subtracted.”
A tese é polêmica. Mas ao invés de considerá-la, quero levantar um outro ponto. Desde 2006 a amostra de países do PISA foi aumentada, incluindo diversos países em desenvolvimento. Um deles foi a Estônia. E desde então ela também passou a ocupar as posições mais altas no PISA dentre as nações ocidentais (nunca tão boas quanto as da Finlândia, mas ainda assim acima de Noruega, Suécia, Alemanha).
Há um fator em comum entre Finlândia e Estônia: as línguas de ambos os países não pertencem ao ramo indo-europeu comum a quase toda a Europa, mas ao ramo fino-úgrico; e são muito parecidas entre si. Poderia a língua explicar o desempenho educacional? A tese ainda parece duvidosa, mas considerem o seguinte: dentro da Finlândia há uma minoria de falantes do sueco. Essa minoria é, em média, mais rica do que a de falantes do finlandês. No entanto, as notas dela no PISA são muito inferiores às deles. A tese do papel da língua na educação finlandesa é exposta neste breve artigo de Taksin Nuoret.
Talvez o melhor para nossa educação seja abandonar de vez o ENEM (que ainda não escolheu se vai priorizar a igualdade ou a excelência) e implementar o ensino universal do finlandês.
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Por que não ir à escola
Data do post: 12 de janeiro de 2011
Nos EUA, já são dois milhões educados em domicílio, sem ir à escola. Surpresa: o desempenho desses alunos costuma ser significativamente melhor. E mais: variáveis que explicam bem diferenças de desempenho entre alunos das escolas perdem muito poder explicativo na hora de se comparar o desempenho de jovens educados em casa; sexo, renda da família, escolaridade dos pais – o peso disso tudo é muito menor no caso do ensino domiciliar. Pouco a pouco os pais reivindicam para si aquele que sempre foi um de seus maiores direitos (e deveres): a educação dos filhos.
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“Ican Going to graduate now”
Data do post: 23 de novembro de 2010
Há algo profundamente errado com o sistema de ensino em geral, e com a academia em particular; suspeito que grande parte do que se produz, do resultado da “pesquisa” acadêmica, é puro gasto burocrático de tempo e espaço que não contribui em nada para o conhecimento de ninguém; nem do próprio estudante, que deveria ser o maior beneficiado.
Essa suspeita é confirmada pela existência de toda uma indústria de fabricar papers, trabalhos e dissertações. Neste artigo para o Chronicle, um escritor de teses anônimo (identificado como Ed Dante) nos deixa vislumbrar o alcance desse mercado negro. A demanda da empresa para a qual ele trabalha (que atende de alunos do colegial a pós-graduandos) abrange todas as disciplinas: enfermagem, negócios, filosofia, religião comparada, ciências naturais, economia; mas a campeã de pedidos é, curiosamente, a educação. Graças a ele, centenas de semi-analfabetos se formam e adquirem títulos acadêmicos sem ter que passar pela chatice do aprendizado. Que tantos alunos estejam dispostos a usar o serviço é sem dúvida preocupante, e levanta diversas considerações éticas (até alunos de seminário estão na lista!); mas o fato mais revelador é que nenhum professor ou diretor percebe nada. É provável que muitos deles próprios tenham subido na instituição graças a algum Ed Dante.
De fato, ao contrário do plágio, que pode ser facilmente descoberto, no caso da fraude não há o que perceber. Os artigos prolixos e vazios de Ed Dante (que se gaba de usar 40 palavras onde outros usariam 4) são exatamente aquilo que a instituição espera. E são produzidos por alguém sem conhecimento ou interesse algum pelo assunto; alguém que antes nem sonhava em pesquisar, digamos, Platão, ou a relação entre liberalização do comércio e práticas corporativas anti-éticas, e que consegue em dois dias ininterruptos de Google e Wikipedia escrever um trabalho de setenta páginas plenamente satisfatório. Em outras palavras, sucesso acadêmico não tem relação necessária alguma com aquisição de conhecimento e formação intelectual. O que os professores esperam não é uma mente capaz e interessada, e sim um repetidor de frases feitas e acumulador de notas de rodapé.
Ao fim de um longo e laborioso processo de escrever capítulos para uma dissertação, não há recompensa maior que receber por email a gratidão do aluno:
“thanx so much for uhelp ican going to graduate to now”.
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O Cardeal dos Cardeais
Data do post: 21 de setembro de 2010

Não, nós aqui da Dicta.com não nos esquecemos do evento mais importante da última semana – que não foi nenhum escândalo envolvendo governo ou coisas afins – mas sim a visita de Bento XVI à Inglaterra, que teve como motivo principal a beatificação de John Henry Newman, o cardeal que dizia que não era santo porque os santos não eram homens de letras. Bem, ele foi ambos.
No dia da beatificação ouvi estupefato de uma apresentadora do canal de TV por assinatura Globo News dizendo que o Papa havia homenageado um cardeal da Igreja Católica, que, só faltava dizer que por acaso se chamava Newman. Isso é o que chamo de analfabetismo funcional.
Para quem não sabe o que significa esta beatificação do cardeal dos cardeais, eis que vamos ao seu socorro e descobrimos, caso você seja poliglota e entenda inglês (se for monoglota, a Casa Civil o aceita perfeitamente, fique tranquilo), um texto recente de ninguém menos que Roger Scruton, explicando a importância de Newman para nossos dias tão conturbados - e em especial sobre o assunto da educação.
Agora, se você quiser saber mais sobre John Henry Newman, faça como qualquer um que tenha o dom da curiosidade: leia os seus textos. Estão todos disponíveis neste site e são o exemplo de que uma vida que envolve a busca pela verdade é sempre uma vida bem vivida.
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Educação apesar do sistema
Data do post: 6 de abril de 2010
Morreu no dia 30 de março Jaime Escalante, professor notório que conseguiu transformar alunos latinos de uma das piores escolas da Califórnia em campeões de matemática e cálculo. Existe um filme sobre a história que não menciona, infelizmente, o fim de sua carreira em 91. Ele não aguentou mais a pressão um sistema educacional feito para reprimir e eliminar a excelência e a motivação.
Gary North comenta a vida do professor e faz uma análise do sistema educacional público e sua estrutura nefasta de incentivos.
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Educação e Cultura brasileiras: cada vez piores?
Data do post: 4 de fevereiro de 2010
Artigo importante de Olavo de Carvalho. Que a educação e a cultura brasileiras não vão bem, isso todo mundo sabe. Mas não é todo dia que chegam dados para mostrar que elas têm piorado. Ao mesmo tempo em que o subsídio estatal aumenta. Estamos produzindo mais papers do que nunca; e nunca nossos papers foram tão irrelevantes. Há algo de profundamente errado aí, e a solução definitivamente não é aumento de recursos ou elaboração de mais um plano “revolucionário” para a educação.
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Análise cultural de qualidade
Data do post: 21 de abril de 2009
James Bowman é articulista da The New Atlantis. Li seus ensaios hoje pela primeira vez, e fiquei muito bem impressionado. Os dois que aqui linko tratam da cultura moderna. O primeiro, “Reality and the Postmodern Wink” descreve a infantilização dos adultos, manifestada na produção cinematográfica recente (o autor foi crítico de cinema por 18 anos, e conhece-a de perto). O segundo, “Is Stupid Making Us Google?”, é sobre os efeitos da computação e da internet no aprendizagem de crianças e jovens. Essas ferramentas têm potencializado, afirma Bowman, as tendências educacionais e progressistas (marcadas pela rejeição de toda e qualquer tradição), e seus resultados são preocupantes.
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