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Ignorantes, mas com opinião

Arquivado em: Sociedade incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 4 de março de 2010

Indivíduos que cursaram as melhores universidades dos EUA não têm mais conhecimento sobre a história, economia ou instituições do país do que aqueles que não fizeram curso superior. O único efeito de se ter educação universitária parece ser a radicalização (para a esquerda) das opiniões políticas. Pelo menos é isso que diz um recente estudo.


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Herança e mérito

Arquivado em: Sociedade incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 24 de fevereiro de 2010
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A composição da elite americana tem mudado. O poder não está mais nas mãos de umas poucas famílias (majoritariamente protestantes e brancas) cujos filhos podiam ter a certeza de herdar o poder dos pais – entrada garantida nas melhores universidades, altos cargos da política, direção das grandes empresas, financeiras e bancos. Ele é cada vez mais acessível a quem provar o  mérito próprio; isto é, a quem tiver o melhor desempenho na escola e, em seguida, nas melhores faculdades.

Mas será que a nova elite, meritocrática, é melhor do que a antiga, hereditária? David Brooks, do New York Times, tem suas dúvidas.

Afinal, no que consiste esse “mérito” que tem permitido a ascenção social? No domínio de técnicas e conhecimentos específicos da área em que se quer trabalhar; o político de hoje em dia é o político profissional, que domina a técnica da política; e o mesmo vale para o jornalista (um caso curioso, aliás, pois a elite jornalística não era composta de gente rica – ainda assim, era um clube de difícil acesso a quem vinha de fora), para o dono ou administrador de empresas, etc.  A velha elite ao menos provia à sua descendência uma educação abrangente, capaz de lidar com grandes idéias e conceitos. A perspectiva de deixar um legado aos filhos também produzia, segundo o articulista, um incentivo em se pensar no longo prazo, ao contrário dos tecnólogos atuais, para quem – da política ao mundo financeiro – só o presente importa.

Afinal, o que era melhor (ou pior)? O privilégio hereditário, fechado e excludente, mas promotor de uma formação mais global e humana; ou a meritocracia democrática, transparente e aberta a todos, mas produtora de fileiras de mentes formatadas às suas especializações?


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Dalrymple sobre os EUA

Arquivado em: Sociedade incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 10 de fevereiro de 2010

Dalrymple compara Europa e EUA. Longe de ser um pró-americano fanático, ele reconhece muitos problemas na terra do Tio Sam, mas é também lá que ele enxerga a maior esperança ocidental hoje em dia, se é que os americanos conseguirão se desviar da trilha traçada pelas nações européias. A “guerra cultural” dos EUA determinará o futuro da nossa civilização.


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Os EUA, a guerra e os conservadores

Arquivado em: Sociedade incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 21 de dezembro de 2009
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Alguém acompanhou o discurso do Obama na premiação do Nobel? Para quem não viu, como eu, o texto integral está aqui. É uma boa dose de realismo pragmático para quem se elegeu numa plataforma de esperança idealista. “So yes, the instruments of war do have a role to play in preserving the peace.”

Em seguida, leiam o artigo de George Weigel sobre a teoria da guerra justa. O artigo é bom, faz pensar; mas leva a perigosas conclusões. Ele aponta os erros dos teóricos contemporâneos da guerra justa, que partem sempre de uma “presumption against war”, uma convicção de que a guerra deve ser sempre o último dos últimos recursos, e adicionam cláusula sobre cláusula para dificultar a decisão de se entrar em guerra. Contudo, se ele aponta um possível erro de forma inteligente, o que ele propõe em seu lugar pode ser usado para justificar praticamente qualquer guerra (notem como Weigel já flerta com a idéia de atacar o Irã, um país sem a menor possibilidade de atacar os EUA).

Já George Weigel propõe que o que estava por trás da doutrina tradicional de guerra justa não era a “presumption against war”, e sim a “passion for justice”. Assim, é dever do governante legítimo zelar pela justiça, que conduz à verdadeira paz, a tranquilidade da ordem, algo diferente da mera ausência de conflito (algo compatível com tiranias brutais e outras injustiças). Em poucas palavras: a doutrina da guerra justa tradicional buscava, antes de tudo, a justiça, e não, como fazem os teóricos contemporâneos, motivos para impedir a guerra.

Na minha opinião, a defesa das guerras travadas pelo governo americano constitui um dos maiores erros do chamado “movimento conservador”. Sim, a guerra justa, que é sempre contra um agressor (que já tenha atacado ou que provavelmente atacará, como bem aponta o artigo), não precisa ser o último recurso; basta que seja o melhor recurso. A justiça deve ser buscada sim, mas sem nunca esquecer do direito de auto-determinação dos povos e do que é melhor para a própria nação.

Nem todo mundo que é contra as guerras americanas no Oriente Médio é contra os EUA e a favor de seus inimigos. Muito pelo contrário: seria o melhor para os EUA sair imediatamente daquela confusão insolúvel e deixar que os povos locais se acertem. Mas não, como um Napoleão (aquele outro “apaixonado pela justiça”) dos tempos modernos, querem espalhar pelo mundo inteiro seu sistema político, uma tentativa obviamente fracassada de erguer “democracias liberais” entre os povos das Arábias – e pior: no melhor estilo soviético, impõem um regime socialista (com racionamentos e cotas) até que chegue o sonhado dia da democracia e da liberdade. O número de vidas americanas perdidas, sem falar na quantidade de recursos simplesmente jogados no lixo, empobrecendo enornemente a população americana, são muito maiores do que precisavam ser. O ódio anti-americano tem diminuído? Tem é aumentado. Quando entraram no Iraque, os soldados eram comemorados nas ruas; hoje, são execrados.

Os EUA foram fundados sob uma filosofia política do não-intervencionismo, ou isolacionismo político: os enrolos diplomáticos das nações européias e suas infinitas guerras não lhes diziam respeito. Relações comerciais, livre troca de mercadorias, sim; laços políticos, alianças, guerras, não. Deixo George Washington falar: “The great rule of conduct for us, in regard to foreign nations, is in extending our commercial relations, to have with them as little political connection as possible.” E Thomas Jefferson: “peace, commerce, and honest friendship with all nations, entangling alliances with none.”

Infelizmente, outra ideologia andou lado a lado dessa: a do expansionismo, imperialismo e intervencionismo externo, que é a verdadeira negação dos valores de liberdade e autonomia que a Independência representava. A colonização das Filipinas e a anexação de grande parte do México foram resultado desse pensamento. Infelizmente, após as guerras mundiais o isolacionismo político perdeu toda a força que lhe restava e, desde então, os EUA têm abraçado integralmente o intervencionismo.

Não é papel de ninguém impor a justiça, e muito menos a democracia, por todo o mundo. Cada povo deve se auto-determinar. Se a mera injustiça e ausência de democracia justificam invasão, então estão justificadas desde já invasões a quase todas as nações da África, da Ásia e até a algumas da América Latina.

Os EUA saem dessas empreitadas muito mais pobres e mais odiados, e é bem questionável se os países por eles invadidos estão melhores ou piores; só o tempo dirá. Hoje em dia, vivem sob racionamento geral. Todo crescimento do poder do governo é acompanhado de uma igual diminuição da liberdade de seus cidadãos. Quem é pro-americano deve saber que os americanos também são prejudicados nessas guerras e em todas as suas aventuras militares (que gastam os recursos que poderiam ser usados para construir mais e melhores sistemas defensivos, por exemplo). A paixão pela justiça deve sempre ser acompanhada da paixão pela liberdade.


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Thank God America Isn’t Like Europe!

Arquivado em: Do lado de lá incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 27 de março de 2009
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O título diz tudo. Artigo que vale a pena ser lido, pois faz um excelente ponto. E se utiliza da genética e da psicologia evolutiva de uma maneira surpreendente.


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O que aconteceu com Mário Vieira de Mello?

Arquivado em: Filosofia incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 18 de março de 2009

Esta foi a pergunta que me fiz ao revirar a minha biblioteca e encontrar os seis livros que compõem a obra deste pensador brasileiro. São eles: Desenvolvimento e Cultura, O Conceito para uma Educação de Cultura no Brasil, Nietzsche – o Sócrates de nossos tempos, O Cidadão, O Humanista e O Homem Curioso. Todos escritos e publicados em um espaço de mais de quarenta anos de atividade intelectual. Todos escritos em uma linguagem acessível, elegante, redonda, sem medo de opinar sobre suas visões polêmicas porque, sem dúvida, tinha uma meditação sólida por trás de cada uma de suas linhas. E, de repente, Mário Vieira de Mello sumiu. Caiu no mais completo esquecimento. Há apenas uma menção no livro O Futuro do Pensamento Brasileiro, de Olavo de Carvalho (que, por sua vez, escreveu uma bela orelha introdutória para O Humanista, publicado pela Topbooks) e nada mais. Liguei para a editora que publicou a maioria de seus livros e fui informado que “o autor já falecera”. Alguém viu um obituário sobre ele (favor não confundam com o seu parente Sérgio, vítima do trágico atentado no Iraque…)?

Esta é mais uma amostra de que o Brasil é um país sem memória, yadda yadda yadda. Mas não se trata somente de um caso de um pensador que viveu fora dos circúlos intelectuais mainstream e que não é lembrado sequer por potenciais leitores que deveriam entender os seus escritos. Em várias páginas de O Cidadão, seu ensaio de “política filosófica”, Vieira de Mello faz uma reflexão assustadora e premonitória sobre a situação política atual, em especial a dos Estados Unidos. Segundo o pensador e diplomata brasileiro, existem três grandes fatos na História que surgiram através do “ideal da igualdade”: 1) A Revelação ao Povo de Israel do Deus único, em que forma-se uma aliança até o final dos tempos; 2) O surgimento da polis de Atenas como matriz da democracia grega, e 3) O evento histórico da Revolução Americana. Apesar de fazer referências à Revolução Francesa, considerada por muitos o início da modernidade, Vieira de Mello acredita que a Revolução Americana cumpre melhor esse marco porque, afinal, os americanos são os primeiros a construírem um país sob o ideal da igualdade.

Ao pensar nas relações entre esses eventos – e tecendo brilhantes insights sobre Platão e Aristóteles, inclusive com críticas contundentes a respeito da ética deste último -, ele faz a distinção entre Estados que se baseiam em “estruturas de poder” e “estruturas de cultura”. A sociedade que prefere se apoiar na primeira estrutura fará a sua escolha pela “liberdade exterior”; quando se escolhe a segunda estrutura tem-se consequentemente a “liberdade interior”. Esta última é defendida por Sócrates e Platão como exemplo de uma liberdade conquistada pelo indivíduo através de lutas e tensões constantes para dominar as suas paixões e deixar a razão do espírito dominar a sua vontade e a sua deliberação.

Os EUA – ao realizarem uma revolução que rompe com a tradição cultural européia – se apoiam na “estrutura de poder” e assim se identificam com a “liberdade exterior”. O argumento de Mário Vieira de Mello é que, ao fazerem tal opção, os EUA acreditam que realizam o caminho da liberdade, quando se esqueceram da interioridade moral defendida por Platão,  e se preocupam somente com instituições e procedimentos formais, instrumentalizando o indivíduo em função de um governo ou de uma lei. Para a tirania – pelo menos na visão platônica explicada em A República - falta apenas um passo.

O que me espantou foi a clarividência da análise. Claro que Mário Vieira de Mello não fez nada de novo – Tocqueville intuiu a mesma coisa. Contudo, dentro da nossa época “obâmica”, em que nós desconhecemos se a Nova Ordem chegará pelo braço econômico ou pelo braço ecológico, não podemos deixar de lado a análise feita pelo falecido embaixador e ver que, de uma certa forma, a confusão entre “liberdade exterior” (um argumento que, por exemplo, é aplicado pelos defensores de Hugo Chávez, uma vez que ele foi eleito através de voto popular) e a “liberdade interior” é um dos nós górdios do nosso tempo. Se meditarmos com constância sobre esse dois pólos da cidadania política, percebemos que Vieira de Mello resolve uma dicotomia (odeio o termo, mas é o único que me vem à cabeça) que se encontra esboçada no clássico texto de Isaiah Berlin, Dois conceitos de liberdade. E, por sua vez, a opção pela “liberdade exterior” como pilar de sustentação das “estruturas de poder” nos faz ver que a questão da tolerância – ou, para sermos exatos, da liberdade de expressão – pode se tornar somente mais um termo oco na linguagem política, com o perigo de não ter nenhum significado na própria linguagem cotidiana, no melhor estilo “serei tolerante contigo desde que você não prejudique a minha tolerância”. O que, de outro ponto-de-vista, é a mesma forma que os nossos políticos e os nossos intelectuais acham que deve ser praticada a liberdade deles.

Ainda assim, o mais preocupante, para os efeitos deste post, não é só o problema da liberdade, mas o esquecimento que construíram ao redor da obra de Mário Vieira de Mello. Milan Kundera conta, em seu romance O Livro do Riso e do Esquecimento, a seguinte história:

Em fevereiro de 1948, o dirigente comunista Klement Gottwald postou-se na sacada de um palácio barroco de Praga para discursar longamente para centenas de milhares de cidadãos concentrados na praça da Cidade Velha. Foi um grande marco na história da Boêmia. Um momento fatídico que ocorre uma ou duas vezes por milênio.

Gottwald estava cercado por seus camaradas, e a seu lado, bem perto, encontrava-se Clementis. Nevava, fazia frio e Gottwald estava com a cabeça descoberta. Clementis, muito solícito, tirou seu gorro de pele e o colocou na cabeça de Gottwald.

O departamento de propaganda reproduziu centenas de milhares de exemplares da fotografia da sacada de onde Gottwald, com o gorro de pele e cercado por seus camaradas, falou ao povo. Foi nessa sacada que começou a história da Boêmia comunista. Todas as crianças conheciam essa fotografia por a terem visto em cartazes, em livros ou nos museus.

Quatro anos mais tarde, Clementis foi acusado de traição e enforcado. O departamento de propaganda imediatamente fez com que ele desaparecesse da História e, claro, de todas as fotografias. Desde então Gottwald está sozinho na sacada. No lugar em que estava Clementis, não há mais nada a não ser a parede vazia do palácio. De Clementis, só restou o gorro de pele na cabeça de Gottwald.

Confesso a vocês que, do jeito que as coisas estão, temo que a obra de Mário Vieira de Mello (e a de outros gigantes como Mário Ferreira dos Santos, José Guilherme Merquior, Otto Maria Carpeaux) vire o “gorro de pele na cabeça de Gottwald”.


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