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Especial 11 de setembro parte 6 – A origem do mal

Filed under: Religião incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 10 de setembro de 2011

Crédito da foto: Scott Eaton

O atentado às Torres Gêmeas marcou indelevelmente a memória de quem viveu aquele dia. Cada um lembra onde estava quando soube que o WTC tinha sido atacado. Havia um clima de ansiedade e perda de sustentação; tudo estava em aberto. O trabalho e as aulas pararam. Eu estava no primeiro ano do ensino médio, e voltava para casa mais cedo. Muitos colegas foram ao anfiteatro da escola assistir os noticiários. Não vi, mas fiquei sabendo que se comemorou naquele anfiteatro quando o segundo avião bateu, o que não me surpreende: todos ali eram muito conscientizados.

Aplaudir o ato, ou ver nele qualquer semblante de justiça, é quase obsceno. Creio desnecessário argumentar longamente sobre isso. No fundo até os terroristas o sabiam. Marwan al-Shehhi, um deles, respondera certa vez quando lhe perguntaram por que ele nunca sorria: “Como você pode sorrir quando há pessoas morrendo na Palestina?” Por admissão própria, ele via a morte violenta de pessoas como má. Ao decidir cometer os atentados, os jovens fundamentalistas aceitaram ser um canal, um meio de realização, desse mal. Aceitando-se a lógica consequencialista dos terroristas (que é também aceita por importantes filósofos ocidentais) tudo é potencialmente permitido.

Quando especialistas indagam pelas causas de uma atrocidade como essa, as motivações políticas e religiosas tomam o primeiro plano, mas um importante componente filosófico desses crimes, a ideia de que os fins justificam os meios (lembram-se do que Anders Breivik disse sobre seu crime? “Atroz, mas necessário”), é sempre deixada de lado. Talvez porque nossa cultura já a tenha internalizado de tal forma que ela nem figure mais como uma posição filosófica, e pareça antes um elemento imutável da condição humana. Não se concebe mais a possibilidade daquela inflexibilidade que preferia ver o mundo desmoronar nas mãos dos bárbaros e infiéis do que pecar.

Enfim, aceito sem sombra de dúvida que os terroristas eram maus. Nego, contudo, que a maldade explique seus atos. Uma saudável reação aos determinismos psicológicos, neurológicos, sociológicos tem insistido em que a ação criminosa é uma decisão livre e consciente. E até aí não vejo problema, que só surge quando, dessa razoabilidade inicial, dá-se um passo a mais e afirma-se que, portanto, não se pode falar em nenhuma causa além da livre decisão pessoal, posto que qualquer outra coisa tolheria a autonomia, e assim a responsabilidade moral, do agente. Mas qual o preço de se aderir a essa visão de que o ato mau é uma livre escolha alheia a qualquer causalidade? A maldade se torna ininteligível, uma força que vem não se sabe de onde e sem explicações ou propósito.

Explico-me: em toda ação o agente persegue algo que considera bom. Se não considerasse que o fim de seu ato é bom, não quereria agir. O movimento que não tem causas finais é na melhor das hipóteses um reflexo mecânico, algo que nem chega a configurar uma ação propriamente humana. Portanto buscamos algo que consideramos bons. E não somos nós que decidimos o que consideramos bom. Ao deliberar, escolhemos meios para alcançar um fim que, para essa ação, tem o caráter de um dado imutável. É possível questioná-lo, e compará-lo a outros fins que também são atraentes; essa comparação, todavia, necessariamente se dá à luz de algum fim maior, para os quais esses em consideração são apenas meios. Se não for assim, se a comparação entre os possíveis fins de nossos atos não tiver um critério à luz do qual ser resolvida, então a escolha de um desses fins é um evento fortuito, aleatório do ponto de vista do agente (embora tenha suas causas, vá lá, microfísicas).

Na prática, isso se traduz, por exemplo, em que nenhum homem tem a capacidade ver a dor, a morte, a inimizade, a ignorância como bons em si mesmos. Não está em nosso poder deixar de querer o bem e nem decidir sobre o que é o bem que queremos. Está em nosso poder, contudo, querer o bem de maneira errada, por exemplo subordinando bem maior a um menor, evadindo a consideração racional que mostraria o quanto essa escolha nos distancia daquilo que verdadeiramente procuramos. Isso é o mal. O mal não é uma inclinação contrária a nossa inclinação natural (no sentido de que não a escolhemos), mas sua corrupção. O mal parasita o bem, e toda existência que ele tem é, na verdade, a existência do bem parcialmente mutilado.  Mesmo o aparente desejo do mal pelo mal, o desejo de transgredir a moralidade pelo mero fato de ser proibido, tem algum bem que o anima: a admiração dos colegas, a afirmação da própria autonomia e poder, etc.

Assim, não basta saber que o terrorista “era mau” e dar-se por satisfeito da mesma maneira que se soubéssemos que “era louco” (caso em que não mais esperaríamos alguma explicação plausível, ou mesmo inteligível, para seu ato). Precisamos conhecer de onde veio sua maldade; qual era o bem que foi corrompido. Esse é um exercício que será sempre politicamente incorreto, e não tem como não sê-lo. Pois ao nos perguntar sobre as causas de um ato mau, perguntamos, entre outras coisas, pelas crenças e valores que levam a tal distorção do caráter (ou, ainda, que atraem àqueles cujo caráter já é distorcido), e que são elas também, por consequência, más.

No caso do 11 de setembro, sabemos bem a origem intelectual do crime: o Islã de tipo sunita fundamentalista. Para eles, todas as respostas para a existência humana, tanto individual quanto social, estão perfeitamente dadas pelo Corão e pelas falas documentadas de Maomé. Tudo o que passa disso é, na melhor das hipóteses, distração. É preciso dizer o que isso representa para a ciência? Para a arte? Para a filosofia? Se quem pensa assim ficasse contente com sua escolha de vida, até tentando convencer aos demais por seu exemplo e argumentos, e convivendo em paz com eles, não haveria grandes problemas. O problema é que essa versão do Islã inclui a prescrição sobre como a sociedade deve se organizar, e essa prescrição não é exatamente uma carta de direitos individuais. Uma sociedade na qual mulheres não podem mostrar o rosto em público ou conviver com homens não-aparentados, na qual quem não é muçulmano (e da mesma exata variante) é reprimido de várias maneiras, e na qual o muçulmano que decide deixar sua fé recebe a pena de morte. Mesmo com tudo isso, poderia ser que, apesar da proposta política monstruosa, essa ideologia religiosa fosse consistente e respeitasse os próprios mandamentos, não os violando quando fosse conveniente. Contudo, nem aí encontramos consolo: pois para essa visão de mundo não existe certo e errado cognoscíveis racionalmente. Toda a ética deriva do capricho arbitrário de Deus, que pode inclusive dar a ela quantas exceções e auto-contradições ele quiser. Portanto, muito embora Deus condene o homicídio, se for pela causa de destruir os inimigos da fé, tudo bem.

É possível ter um mínimo de decência e sanidade e não ver nisso algo tenebroso? Como fingir que todas as crenças são iguais, que todas as culturas são boas, se há crenças e culturas que pregam isso?

Mas esse é só o primeiro passo da minha proposta de reflexão: identificar o que há de errado nas concepções dos terroristas, que é praticamente tudo. O segundo é, lembrando novamente que o mau tem causas, perguntar-se acerca do que causa uma crença como essa; ou mais especificamente, o que leva alguém a aderir a essa visão de mundo? Trata-se de um estado de revolta profundo. Não revolta contra a “modernidade” (o que é isso, afinal?), mas contra a razão: contra a capacidade do ser humano de conhecer, agir, convencer e criar, a ser substituída pela imposição da fé cega e da obediência muda, o preço a ser pago para se alcançar alguma paz de espírito em meio ao caos, miséria e injustiça que assolam a existência.

E como não se revoltar contra o mundo ao crescer nas condições de pobreza e, o que é pior, falta de perspectivas e a mediocridade existencial nas quais crescem tantos jovens muçulmanos, seja nos países originais de suas famílias ou nas nações europeias para as quais seus pais imigraram? Sua situação é ruim e o sentimento de revolta contra um estado de coisas aviltante é justo. Só que a causa de sua miséria não é o Ocidente, não são os EUA e nem Israel.

A existência de uma nação na qual impere a razão e os direitos individuais, que é o que os EUA ainda simbolizam (na prática, o são parcialmente) é incompatível com a ideologia islâmica fundamentalista, que sempre os odiará. Mas por que essa ideologia encontra adeptos? É tudo manipulação e mentira dos líderes da militância fundamentalista, ou será que os EUA e Israel dão alguns bons motivos para a revolta que se dirige contra eles?

Se o individualismo e a razão são os responsáveis pela morte dos parentes de um rapaz numa operação do exército americano, ou pela violência expansionista do Estado de Israel, a negação desses valores deve ser uma coisa boa. Preservar o mito de que o mal é inexplicável, ou de que não tenha causas boas, serve à ilusão de que não há nada que os EUA e Israel possam fazer para reduzir o ânimo fundamentalista contra eles. Mas os atos do governo americano no Oriente Médio fornecem largo incentivo para que mais jovens muçulmanos se interessem pelo ideário fundamentalista.

Dar as causas de um ato é muito diferente de atribuir responsabilidade. Quem sai na rua ostentando celular e relógio caros e é roubado não é, de forma nenhuma, culpado pelo crime. Mas é impossível de negar que suas ações incentivaram o crime. Da mesma forma, afirmar que a política desastrada dos EUA no Oriente Médio incentive o ânimo fundamentalista anti-americano não é afirmar que os americanos e israelenses, ou mesmo seus governos, sejam culpados do terrorismo. Além disso, é claro que o caso de Israel é o mais complicado, pois ela luta, ao contrário dos EUA, por sua existência, que deve ser assegurada (e não há dúvidas de que, apesar do uso excessivo da violência, Israel tem a superioridade civilizacional, cultural e moral da região). Ainda assim, não dá para deixar de pensar que, se o governo fosse menos expansivo, atrairia para si muito menos ódio (que é partilhado por quase todos no mundo árabe, mesmo não-muçulmanos).

Desde o 11 de setembro os EUA vêm travando uma longa guerra ao terror e intensificando sua presença no mundo muçulmano. No desmantelamento da Al Qaeda essa operação tem sido bem-sucedida. Mas e no que diz respeito ao fanatismo e ao fundamentalismo islâmico que alimentam o tipo de pensamento dos quais a Al Qaeda é um caso particular? Ainda é cedo para dar um veredito, mas o fundamentalismo parece crescer, especialmente entre os jovens (inclusive entre os jovens imigrantes, menos integrados à cultura europeia que seus pais). Talvez estejamos assistindo os últimos suspiros de um tipo de ideologia que não tem como sobreviver em meio ao mar de informação incensurável que é a Internet. Ou talvez o crescimento e articulação de um novo adversário do Ocidente para as próximas gerações. Seja qual for o caso, a presença do exército americano tem sido sempre um motivo para aumentar o ressentimento das populações locais por seu “salvador” indesejado. Foi assim no Afeganistão, no Iraque (e lembrem-se que na entrada em Bagdá os americanos foram efusivamente saudados pelo povo), e continua sendo.

As revoluções no mundo árabe são um momento crítico. Paralelo ao apreço pela democracia (que pode servir tanto para garantir direitos individuais como para violá-los com o aval da maioria) está o fortalecimento do fundamentalismo sunita (que não é equivalente a terrorismo mas está a um passo dele). Se elas seguirão o caminho de abertura e sanidade com que aparentemente começaram, ou se serão cooptadas pela militância islamista, só o tempo dirá. O mal sempre procurará pretextos para odiar o bem; o melhor que o bem pode fazer é não dar motivos. O terrorismo muçulmano que destruiu o WTC e a “conscientização” marxista que se alegrou ao vê-las cair (ramos de uma mesma árvore intelectual) usam meios nefastos para um fim terrível; mas se originam, em parte, de uma revolta justa contra um mal real.

[CONTINUA AMANHÃ]


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Servidão voluntária

Filed under: Religião,Sociedade incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 11 de abril de 2011

Bem que gostaríamos de culpar o extremismo islâmico até pelo assassino do Realengo. Mas sejamos justos: tudo indica que ele era apenas louco; e para um louco até um filme ou uma música dos Beatles pode servir de pretexto para matar; quanto mais uma religião cuja relação com a violência é ambígua.

O que é um fato inegável é a conversão de europeus ao Islã, ou melhor,  a versões particularmente virulentas do Islã. Quão profundo é o poço de desespero no qual alguém tem que cair para que se sinta atraído a uma religião (que se entenda que me refiro a certo tipo de Islã, e não a todas as suas possíveis variações) que tem a oferecer basicamente duas coisas: um sistema de obrigações sobre as quais não é preciso pensar, apenas obedecer; e um inimigo facilmente identificável a se demonizar (os EUA)? Que o secularismo relativista facilitaria a expansão do Islã (o velho truísmo: you can’t beat something with nothing) era de se esperar; mas que ele próprio forneceria uma massa de niilistas desesperados dispostos a se submeter ao culto da pura irracionalidade e da força bruta é uma constatação surpreendente.

3/4 dos conversos são mulheres. O que se conclui disso? Que talvez elas sejam as mais vitimadas pela ausência de valores e pelo culto hedonista que se tornou a religião semi-oficial da Europa? Seja como for, eu só espero que, para o bem delas, os novos muçulmanos europeus não importem de terras tradicionalmente islâmicas as antigas tradições do assassinato de honra (bem, já estão importando; e sendo justo com o Islã, há muitos muçulmanos que condenam a prática como contrária à sua religião) e da punição física às vítimas de estupro.

Uma nota curiosa: na página do New York Times linkada acima (o último link), o comentário com maior número de recomendações é de um sujeito que iguala o tratamento dado à mulher nas tribos de Bangladesh (onde uma jovem de 14 anos foi morta a chicotadas por ter sido vítima de estupro) ao machismo dos EUA. A isso só se pode dizer: depois não venham reclamar!


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Islã na Encruzilhada dos valores

Filed under: Religião,Sociedade incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 1 de fevereiro de 2011

Talvez seja cedo para dizer, mas tudo indica que as atuais revoltas populares no mundo islâmico terão impacto duradouro. Por décadas ditadores permaneceram no poder sem grande contestação, e agora nenhum deles sente-se seguro. É possível que haja alguma conspiração por trás dessas revoltas; mas pela primeira vez na história não é necessário, como bem argumenta Gary North. As redes sociais, devido a seu baixíssimo custo de entrada, permitem a publicação dos sentimentos e a articulação de movimentos de massa sem organização central.  Ela também diminui muito a possibilidade de reação do governo. Se em décadas passadas um regime autocrático não hesitaria em abrir fogo contra os manifestantes, seguros de que poucos fora dali ficariam sabendo, hoje é uma questão de minutos entre o disparo de uma bala e a transmissão da morte de um civil a milhões de computadores.

A grande questão é o que sairá desses movimentos. Há fortes traços islamistas, o que não impede que cristãos tomem parte (apesar das sempre cautelosas palavras do papa Shenouda III pedindo oração e não-participação; o momento é extremamente delicado). Islamismo não necessariamente significa algo pior ou mais odioso do que o que está no poder agora. É um fato curioso: governos seculares de países islâmicos incentivam a propagação do salafismo wahhabita importado da Arábia Saudita, pois ele nada tem a dizer de política, e portanto apresenta menos perigo imediato ao governo do que islamismos menos fundamentalistas mas mais politizados.

Rashid Ghannouchi, que voltou à Tunísia depois de anos exilado, defende governo secular, direitos das mulheres e poder aos sindicatos. Sua mensagem, embora sempre baseada no Corão, é essencialmente a mensagem de um movimento social por direitos humanos, sem nada do fanatismo de uma Al Qaeda. No próprio Egito, pouco antes dos ataques, foi publicado o “Documento de Renovação do Islã” assinado por diversos intelectuais; seu conteúdo é surpreendentemente moderno. Jihad, por exemplo, só defensiva e em terras islâmicas; convivência entre homens e mulheres aceita em universidades e ambientes de trabalho. Pode parecer pouco, mas se trata de um país onde, devido à influência saudita, o próprio convívio social entre os sexos ia sendo proibido, e no qual as mulheres são constrangidas a usar roupas cada vez mais “modestas”.

A principal característica do Islã saudita é a preocupação exclusiva com a adesão exterior a preceitos legais; todo homem deve ter barba e usar túnica, toda mulher deve estar completamente coberta, todo intercâmbio social entre os sexos é proibido, não se pode ter conta em banco, etc. Recentemente uma mulher perguntou a um doutor da lei em seu programa de rádio o que ela deveria fazer agora que as circunstâncias a obrigavam a trabalhar no mesmo recinto que um homem. O doutor sugeriu que ela amamentasse o colega. Sim, você leu isso mesmo: que ela desse de mamar a ele do próprio peito, e dessa forma seriam como mãe e filho, e portanto livres do risco da fornicação.  No limite, o legalismo viola o espírito de suas próprias leis. A reação pública foi geral. A mesma reação que está por trás do documento dos intelectuais e das revoltas populares.

O discurso salafista (do qual o wahhabismo é uma vertente) de se manter fiel às práticas das primeiras gerações parece perder legitimidade entre o povo (ufa! Resta algum bom senso!). O documento dos intelectuais também adota o discurso de se preservar os valores originais do Islã. Só que, para eles, os valores não são a barba e o niqab, e sim “liberdade, igualdade, conhecimento, justiça e ciência”. Se isso tudo estava de fato na origem do Islã eu não sei; mas é bom que os intelectuais advoguem tais coisas.

Ao mesmo tempo em que as revoltas nos dão motivos para ter esperança, elas também trazem algo de preocupante. É o medo de dizer abertamente o que está em jogo, de apontar o verdadeiro valor a ser defendido, que acaba tomando segundo plano para uma outra bandeira que é necessariamente secundária: a democracia. Colocar a esperança na democracia enquanto tal é ingênuo. Ahmadinejad foi eleito democraticamente; seria ele muito melhor que Mubarak? Democracia é uma forma de se organizar o funcionamento da política; ela não traz consigo nenhum conteúdo; será o que a maioria quiser. E se a maioria quiser uma teocracia islâmica na qual cristãos e judeus pagam impostos extras e membros de outras religiões são expulsos ou mortos, é o que terão, democraticamente. O ponto fundamental, o valor que a democracia supostamente defende melhor do que outras formas de governo e por isso deve ser preferida, é o respeito aos direitos individuais. Sem isso, não há governo justo e não há esperança de melhora.  Há algo de angustiante em um intelectual cristão animado com o prospecto de democracia no Egito (num dos artigos acima citados), sob a qual a minoria cristã (entre 5% e 10%) poderia ser representada. Mas minoria no governo não significa nada; nem uma maioria significa se não há comprometimento do Estado em fazer valer os direitos individuais, como o Líbano tem mostrado claramente. A bandeira tem que ser os direitos individuais; não a democracia e não o direito das religiões ou das minorias; pois aglomerados não têm direitos, e é perfeitamente possível representar uma minoria oficialmente no governo e ainda assim tratar muitos de seus membros como cidadãos de segunda classe (por exemplo, impondo infinitas restrições à sua fé, como ocorre na Turquia, onde é praticamente impossível conseguir permissão para coisas como consertar o telhado de uma igreja), deixando os representantes oficiais da minoria a choramingar por uma tolerância cada vez menos respeitada. O que realmente importa é o direito individual, que inclui o direito a aderir à religião que lhe parecer verdadeira (e cujo corolário é, portanto, o direito a mudar de religião sem qualquer sanção), até mesmo se ela não constituir uma minoria significativa.

Os direitos individuais são a pedra de toque para saber se uma convivência minimamente harmônica entre Ocidente e Islã é possível. O que distingue o Ocidente das demais civilizações é sua base espiritual, que se concretiza em posições filosóficas: a afirmação da razão humana como eficaz para conhecer a realidade e, como consequência disso, a descoberta de uma moral objetiva. Um dos maiores méritos de S. Tomás de Aquino é exatamente esse: a elaboração racional da ética sem necessidade de fé e não circunscrita a um “povo eleito”. Nossos direitos universais inalienáveis são descendentes diretos da lei natural de S. Tomás. É muito significativo que, nos séculos XVI e XVII, enquanto a Espanha expandia seu império e escravizava povos inteiros, os teólogos de Salamanca afirmassem que os índios tinham direito às suas terras e liberdade, que nada justificava o roubo de suas posses e sua escravização, nem mesmo a recusa em se converter ao Cristianismo. Parece pouco, dado que os crimes ocorreram sem grandes empecilhos práticos? É verdade, ocorreram; mas ninguém duvidava seriamente de que eram crimes, ou seja, violações de uma ordem moral objetiva. No campo do espírito Salamanca venceu, e isso fez toda a diferença.

As grandes conquistas do Ocidente decorrem da afirmação da eficácia da razão humana no plano teórico e dos direitos individuais no plano prático. A ciência, a arte, a riqueza são consequências disso. Os muçulmanos não têm nenhum pudor em se apropriar da tecnologia ocidental (embora incapazes de contribuir eles próprios com ela) e de certas filosofias ocidentais. Marxismo, relativismo, desconstrucionismo; de fato, todas vieram do Ocidente; mas o que as caracteriza é justamente a negação daquilo que nos constitui. A razão humana é incapaz de conhecer o mundo real, e o discurso moral e político não passa de máscara para jogos de poder. Elas caem como uma luva para uma visão de mundo fideísta como é a do Islã convencional (e isso vem de muitos séculos): a razão é impotente, portanto tudo é questão de fé, e portanto ninguém tem como criticar minha fé. Não há certo e errado objetivos, apenas vontades arbitrárias em conflito; portanto, entreguemo-nos à vontade arbitrária de Deus; e ninguém pode questionar as minhas práticas. Como evidência deste casamento funesto apresento este artigo de opinião pós-moderno da Al Jazeera.

A grande questão nas atuais manifestações é se os muçulmanos serão capazes de aceitar (e eu acredito que serão, pois o bom senso natural do homem está do nosso lado) o nosso verdadeiro patrimônio, a idéia de direitos individuais válidos para todo e qualquer homem, que é o que permite que a democracia não degenere na mera vontade tirânica da maioria. A outra possibilidade é bem representada pela queima de uma efígie de Mubarak com a estrela de Davi desenhada no rosto. E daí teremos mais do mesmo: nações pobres espiritual e materialmente por restrições irracionais auto-impostas, violando a dignidade de seus próprios cidadãos e atribuindo suas mazelas a terceiros que não têm nada a ver. Importa se isso ocorre democrática ou ditatorialmente?


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Filosofia do terrorismo

Filed under: Religião,Sociedade incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 6 de janeiro de 2011

Responda rápido: qual o grupo que mais sofre violência e discriminação no mundo? Se você respondeu os cristãos, acertou. E o fato mais alarmante é que a situação tem piorado; onde outrora cristãos e muçulmanos viviam em paz agora vigoram a intolerância e o terrorismo. No Oriente Médio a situação é extremamente grave. O êxodo de cristãos é maciço. Países com grande população cristã tradicional, como Líbano e Egito, têm virado palco de violência constante.

No Egito, particularmente, o fim do ano foi marcado pelos ataques a igrejas coptas (a principal Igreja do Egito, que se separou do ramo maior da Igreja no século V). O jornal Ahram publicou um editorial exaltado, no qual o autor, incrédulo quanto às mudanças de atitude islâmica que ele observa, acusa não só os fundamentalistas, mas também os moderados que, ainda que não partilhem das conclusões, aceitam passivamente as premissas do preconceito que alimenta o terrorismo, e os intelectuais que, embora deplorem a violência, não tomam atitude nenhuma. Resta saber, contudo, qual a “única opção” que o autor tem em mente; seria a resistência armada? O Papa Shenouda III (“Papa” é como o Patriarca de Alexandria – ou seja, o bispo supremo do país – é tradicionalmente chamado), num comunicado algo decepcionante, espera que a solução venha do governo e da lei que torna a todos iguais. Num momento em que as próprias instituições políticas refletem os preconceitos crescentes na sociedade, parece-me ingênuo; seus chamados à calma, à paz e ao diálogo são sensatos e justos, mas só funcionam se o adversário der um mínimo de valor à dignidade humana enquanto tal, o que não é o caso dos fundamentalistas. Por outro lado, mostrando que as palavras do Papa egípcio têm sabedoria, uma iniciativa muito positiva foi tomada por muçulmanos que se comprometeram a servir de escudos humanos nas igrejas para evitar futuros ataques. Isso eleva o cacife do jogo, pois a cada novo ataque tenderá a aumentar a rejeição da população muçulmana normal ao islamismo fundamentalista e político. Isso é o que se espera; na prática, até agora, o discurso fundamentalista tem encontrado mais e mais eco na maioria moderada.

Quais as causas desse crescimento da tensão religiosa? Há um fato observável: o islamismo de tipo salafi, ou fundamentalista (considera que a regra do Islã são as práticas das primeiras três gerações de fiéis; tudo o que veio depois deve ser recusado), tem crescido. Seu principal idealizador foi o sunita Abd-Al-Wahhab, fundador da detestável seita wahhabita. O maior incentivo institucional ao wahhabismo vem da monarquia saudita, que sempre aderiu a essa escola de pensamento, tendo até destruído lugares santos islâmicos (como a tumba do neto de Maomé e a de Fatima, uma de suas filhas) por supostamente incentivarem a idolatria. Que os EUA continuem a ter os Sauditas como aliados ao mesmo tempo em que levam adiante uma guerra ao terror é no mínimo embaraçoso. Mas é claro que o wahhabismo não é a única fonte do terrorismo. É só lembrarmos de Sayiid Qutb (Martin Amis nos introduz à vida e pensamento desse personagem singular, dentre muitas outras considerações sobre o Islã, o Ocidente e a religião em geral neste artigo de 2006), cujo pensamento revolucionário é uma da grande influência dos membros da Al Qaeda. Em comum todas têm o desejo de um Islã puro e sem acréscimos.

O Cristianismo também tem seu fundamentalismo, seu movimento de volta às raízes supostamente puras pré-institucionais, presente em alguns grupos protestantes. A diferença é que eles, por mais questionáveis que sejam suas crenças e atitudes, não estão explodindo ninguém. Há algo diferente no Islã.

Qual a causa espiritual mais profunda dessa facilidade para o fundamentalismo e a militância violenta (que existe em todas as religiões, mas aqui encontra condições mais propícias)? Algo da resposta pode ser econtrado aqui: The Closing of the Muslim Mind. Na opinião de Robert Reilly, o autor, o problema não é uma consciência revestida do sobrenatural (como argumentaria Martin Amis acima linkado), mas sim o tipo de sobrenatural do qual ela se reveste.  O Islã já nos deu grandes mentes. A teologia racional, no entanto, bem como todo o ímpeto científico, foram condenados no berço; houve um período de conflito intelectual, assim como houve no Cristianismo (e a vitória, no Ocidente ao menos, foi para o lado que afirma o valor da razão), mas no final das contas a posição denominada asharita venceu. O que ela ensina? Tudo é vontade arbitrária de Deus e ponto final. Na filosofia da natureza, isso significa negação da causalidade; na ética, negação da lei natural. Na prática, sociedades miseráveis e homens-bomba. Ao homem cabe calar sua razão e se submeter; aniquilar tudo que não a fé. Isso coincide com o que viu e descreveu V.S. Naipaul na sua Wriston Lecture no Manhattan Institute em 1990.

Em dias normais sou um otimista e acredito no que há de sadio, tolerante e belo no Islã. Mas notícias como as atuais acentuam seus aspectos mais sombrios: o vazio interior, a violência, o totalitarismo do sagrado na vida do indivíduo. Resta saber se são aspectos contingentes ou necessários dessa que é a segunda maior religião do mundo e com a qual, querendo ou não, teremos de conviver.


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Por que tantas mulheres européias se convertem ao Islã?

Filed under: Religião,Sociedade incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 30 de outubro de 2010
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Tablóide também tem reportagem boa. Eve Ahmed, que escreve para o Daily Mail, foi criada muçulmana mas abandonou a fé por sentir-se presa e controlada por uma infinidade de regras. Qual não é seu espanto ao constatar que muitas mulheres ocidentais bem-sucedidas escolhem, de livre e espontânea vontade, prestar obediência total e irrestrita a Alá.


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Uma luta muito antiga…

Filed under: Religião incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 14 de março de 2010

Neste post esclarecedor, Richard Fernandez explica e comenta as raízes da luta entre cristãos e muçulmanos que desembocou, por exemplo, no massacre  de 500 pessoas que ocorreu na cidade de Jos, na Nigéria, há cerca de uma semana – e que foi tratado com desprezo pela mídia e pela casta política (obviamente, se as vítimas fossem muçulmanas e não cristãs, tenho certeza de que a reação seria diferente).

Fernandez se inspira nas observações do prof. Philip Jenkins, que afirma claramente que o futuro do Cristianismo não se encontra mais no Ocidente secularizado e sim no Terceiro Mundo africano. Vejam só um trecho:

The relationship between Christianity and Islam poses a challenge for at least half of the 20 nations expected to have the world’s largest populations by 2050. By present projections, three of these future mega-states—Nigeria, Ethiopia, and Tanzania—will be almost equally divided between the two faiths. In several others, like the Congo, the Philippines, Russia, and Uganda, predominantly Christian nations will have Muslim minorities of 10 percent or more. Mainly Muslim states will coexist with comparable Christian sub-populations in Indonesia, Egypt, and the Sudan. In all of these places, if relations between the faiths do not improve over the next 40 years, prospects for civil order are terrifying. The world’s roster of failed states would have several new members.


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Reflections on the revolution in Europe

Filed under: Sociedade incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 24 de setembro de 2009
Tags: ,

O que acontece quando uma cultura que tem vergonha de si mesma e acha que o único valor é a diferença, o multiculturalismo, entra em contato com outra que tem bastante certeza de si mesma e que quer se universalizar? Um congresso sobre as maravilhas da diversidade? Valiosíssimas trocas de experiências e aceitação mútua? Mãos dadas em roda ao som de kumbaya?

Uma válida nova contribuição para um tema já bem discutido.


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Cartoon wars

Filed under: Sociedade incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 4 de setembro de 2009

Advogados holandeses processam muçulmanos por… um cartum. Basicamente uma inversão da “querela do cartum” de alguns anos atrás. Dessa vez, não foram ofensas a Maomé, mas a negação do holocausto, que motivou a ação.

Sim, é verdade, nem os holantesdes e nem os judeus saíram as ruas e atacaram embaixadas; os grupos envolvidos na causa têm agido dentro da lei. Mas o princípio é o mesmo, e é uma pena que eles não percebam. Claro que negar o holocausto é um mal; mas bani-lo por meio da sanção legal apenas aumenta a ditadura do politicamente correto (isto é, do discurso aceitável) sobre nossas vidas, ao mesmo tempo em que dificulta as relações entre as diferentes culturas.

No caso dos cartuns anti-islâmicos, a resposta do Ocidente já foi ambígua. Alguns políticos defenderam o direito de se publicar as tirinhas (que nem eram tão ofensivas assim), mas as vozes mais públicas apenas pediram desculpas pela ofensa e aderiram moralmente à censura imposta pela turba enfurecida. Agora que alguns advogados adotam a mesma estratégia contra grupos muçulmanos, as perspectivas para a liberdade de expressão, ou seja, para o diálogo franco, tornam-se mais sombrias, que é exatamente o que querem os inimigos do Ocidente.

Certas armas são más independente de quem as esteja manejando.


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O Islã e o Ocidente

Filed under: Geral incluído por dicta
Data do post: 8 de agosto de 2009

Aí vai o texto da semana, a demora na publicação tem um motivo muito importante. Quando decidimos que iríamos abrir o acesso ao texto de Roger Scruton recebemos três emails do Iêmen escritos em árabe. Demorou alguns dias até conseguirmos um tradutor, mas no final das contas não era nenhuma ameaça terrorista: felizmente apenas uma fã pedindo o email de um dos nossos editores…

*****

O Islã e o Ocidente
por Roger Scruton

O Ocidente hoje está envolto num conflito violento e dilatado contra as forças do radicalismo islâmico. Esta luta é sumamente difícil, tanto pela dedicação do nosso inimigo à sua causa, como – talvez principalmente – pela enorme desconjunção culturalpor que passaram Europa e América desde o fim da guerra do Vietnã. Em termos simples, os cidadãos do Ocidente perderam o seu apetite por guerras estrangeiras; perderam a esperança de conquistar qualquer vitória que não fosse temporária; perderam a confiança no seu modo de vida. De fato, não têm mais certeza sobre as exigências que esse modo de vida lhes faz.

Ao mesmo tempo, viram-se diante de um novo oponente, um oponente que crê que o modo de vida ocidental é profundamente defeituoso e que talvez seja mesmo uma ofensa a Deus. Num “acesso de desatenção”, as sociedades ocidentais permitiram que esse oponente ganhasse espaço no seu próprio seio; nalguns casos – como a França, o Reino Unido e a Holanda -, em guetos que apenas mantêm relações tênues e hostis com a ordem política que os circunda. E tanto na Europa como na América há um crescente desejo de apaziguamento: uma contrição pública habitual; uma aceitação, ainda que pesarosa, dos editos censuradores dos mulás; e um conseqüente passo em direção ao repúdio do nosso patrimônio religioso e cultural. Há vinte anos, seria inconcebível que o arcebispo de Canterbury pronunciasse um discurso em favor da incorporação da lei religiosa islâmica (a shariá) ao sistema legal inglês. Hoje, contudo, muitas pessoas julgam essa uma proposta razoável, talvez um avanço rumo a uma contemporização pacífica.

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