Islã na Encruzilhada dos valores
Talvez seja cedo para dizer, mas tudo indica que as atuais revoltas populares no mundo islâmico terão impacto duradouro. Por décadas ditadores permaneceram no poder sem grande contestação, e agora nenhum deles sente-se seguro. É possível que haja alguma conspiração por trás dessas revoltas; mas pela primeira vez na história não é necessário, como bem argumenta Gary North. As redes sociais, devido a seu baixíssimo custo de entrada, permitem a publicação dos sentimentos e a articulação de movimentos de massa sem organização central. Ela também diminui muito a possibilidade de reação do governo. Se em décadas passadas um regime autocrático não hesitaria em abrir fogo contra os manifestantes, seguros de que poucos fora dali ficariam sabendo, hoje é uma questão de minutos entre o disparo de uma bala e a transmissão da morte de um civil a milhões de computadores.
A grande questão é o que sairá desses movimentos. Há fortes traços islamistas, o que não impede que cristãos tomem parte (apesar das sempre cautelosas palavras do papa Shenouda III pedindo oração e não-participação; o momento é extremamente delicado). Islamismo não necessariamente significa algo pior ou mais odioso do que o que está no poder agora. É um fato curioso: governos seculares de países islâmicos incentivam a propagação do salafismo wahhabita importado da Arábia Saudita, pois ele nada tem a dizer de política, e portanto apresenta menos perigo imediato ao governo do que islamismos menos fundamentalistas mas mais politizados.
Rashid Ghannouchi, que voltou à Tunísia depois de anos exilado, defende governo secular, direitos das mulheres e poder aos sindicatos. Sua mensagem, embora sempre baseada no Corão, é essencialmente a mensagem de um movimento social por direitos humanos, sem nada do fanatismo de uma Al Qaeda. No próprio Egito, pouco antes dos ataques, foi publicado o “Documento de Renovação do Islã” assinado por diversos intelectuais; seu conteúdo é surpreendentemente moderno. Jihad, por exemplo, só defensiva e em terras islâmicas; convivência entre homens e mulheres aceita em universidades e ambientes de trabalho. Pode parecer pouco, mas se trata de um país onde, devido à influência saudita, o próprio convívio social entre os sexos ia sendo proibido, e no qual as mulheres são constrangidas a usar roupas cada vez mais “modestas”.
A principal característica do Islã saudita é a preocupação exclusiva com a adesão exterior a preceitos legais; todo homem deve ter barba e usar túnica, toda mulher deve estar completamente coberta, todo intercâmbio social entre os sexos é proibido, não se pode ter conta em banco, etc. Recentemente uma mulher perguntou a um doutor da lei em seu programa de rádio o que ela deveria fazer agora que as circunstâncias a obrigavam a trabalhar no mesmo recinto que um homem. O doutor sugeriu que ela amamentasse o colega. Sim, você leu isso mesmo: que ela desse de mamar a ele do próprio peito, e dessa forma seriam como mãe e filho, e portanto livres do risco da fornicação. No limite, o legalismo viola o espírito de suas próprias leis. A reação pública foi geral. A mesma reação que está por trás do documento dos intelectuais e das revoltas populares.
O discurso salafista (do qual o wahhabismo é uma vertente) de se manter fiel às práticas das primeiras gerações parece perder legitimidade entre o povo (ufa! Resta algum bom senso!). O documento dos intelectuais também adota o discurso de se preservar os valores originais do Islã. Só que, para eles, os valores não são a barba e o niqab, e sim “liberdade, igualdade, conhecimento, justiça e ciência”. Se isso tudo estava de fato na origem do Islã eu não sei; mas é bom que os intelectuais advoguem tais coisas.
Ao mesmo tempo em que as revoltas nos dão motivos para ter esperança, elas também trazem algo de preocupante. É o medo de dizer abertamente o que está em jogo, de apontar o verdadeiro valor a ser defendido, que acaba tomando segundo plano para uma outra bandeira que é necessariamente secundária: a democracia. Colocar a esperança na democracia enquanto tal é ingênuo. Ahmadinejad foi eleito democraticamente; seria ele muito melhor que Mubarak? Democracia é uma forma de se organizar o funcionamento da política; ela não traz consigo nenhum conteúdo; será o que a maioria quiser. E se a maioria quiser uma teocracia islâmica na qual cristãos e judeus pagam impostos extras e membros de outras religiões são expulsos ou mortos, é o que terão, democraticamente. O ponto fundamental, o valor que a democracia supostamente defende melhor do que outras formas de governo e por isso deve ser preferida, é o respeito aos direitos individuais. Sem isso, não há governo justo e não há esperança de melhora. Há algo de angustiante em um intelectual cristão animado com o prospecto de democracia no Egito (num dos artigos acima citados), sob a qual a minoria cristã (entre 5% e 10%) poderia ser representada. Mas minoria no governo não significa nada; nem uma maioria significa se não há comprometimento do Estado em fazer valer os direitos individuais, como o Líbano tem mostrado claramente. A bandeira tem que ser os direitos individuais; não a democracia e não o direito das religiões ou das minorias; pois aglomerados não têm direitos, e é perfeitamente possível representar uma minoria oficialmente no governo e ainda assim tratar muitos de seus membros como cidadãos de segunda classe (por exemplo, impondo infinitas restrições à sua fé, como ocorre na Turquia, onde é praticamente impossível conseguir permissão para coisas como consertar o telhado de uma igreja), deixando os representantes oficiais da minoria a choramingar por uma tolerância cada vez menos respeitada. O que realmente importa é o direito individual, que inclui o direito a aderir à religião que lhe parecer verdadeira (e cujo corolário é, portanto, o direito a mudar de religião sem qualquer sanção), até mesmo se ela não constituir uma minoria significativa.
Os direitos individuais são a pedra de toque para saber se uma convivência minimamente harmônica entre Ocidente e Islã é possível. O que distingue o Ocidente das demais civilizações é sua base espiritual, que se concretiza em posições filosóficas: a afirmação da razão humana como eficaz para conhecer a realidade e, como consequência disso, a descoberta de uma moral objetiva. Um dos maiores méritos de S. Tomás de Aquino é exatamente esse: a elaboração racional da ética sem necessidade de fé e não circunscrita a um “povo eleito”. Nossos direitos universais inalienáveis são descendentes diretos da lei natural de S. Tomás. É muito significativo que, nos séculos XVI e XVII, enquanto a Espanha expandia seu império e escravizava povos inteiros, os teólogos de Salamanca afirmassem que os índios tinham direito às suas terras e liberdade, que nada justificava o roubo de suas posses e sua escravização, nem mesmo a recusa em se converter ao Cristianismo. Parece pouco, dado que os crimes ocorreram sem grandes empecilhos práticos? É verdade, ocorreram; mas ninguém duvidava seriamente de que eram crimes, ou seja, violações de uma ordem moral objetiva. No campo do espírito Salamanca venceu, e isso fez toda a diferença.
As grandes conquistas do Ocidente decorrem da afirmação da eficácia da razão humana no plano teórico e dos direitos individuais no plano prático. A ciência, a arte, a riqueza são consequências disso. Os muçulmanos não têm nenhum pudor em se apropriar da tecnologia ocidental (embora incapazes de contribuir eles próprios com ela) e de certas filosofias ocidentais. Marxismo, relativismo, desconstrucionismo; de fato, todas vieram do Ocidente; mas o que as caracteriza é justamente a negação daquilo que nos constitui. A razão humana é incapaz de conhecer o mundo real, e o discurso moral e político não passa de máscara para jogos de poder. Elas caem como uma luva para uma visão de mundo fideísta como é a do Islã convencional (e isso vem de muitos séculos): a razão é impotente, portanto tudo é questão de fé, e portanto ninguém tem como criticar minha fé. Não há certo e errado objetivos, apenas vontades arbitrárias em conflito; portanto, entreguemo-nos à vontade arbitrária de Deus; e ninguém pode questionar as minhas práticas. Como evidência deste casamento funesto apresento este artigo de opinião pós-moderno da Al Jazeera.
A grande questão nas atuais manifestações é se os muçulmanos serão capazes de aceitar (e eu acredito que serão, pois o bom senso natural do homem está do nosso lado) o nosso verdadeiro patrimônio, a idéia de direitos individuais válidos para todo e qualquer homem, que é o que permite que a democracia não degenere na mera vontade tirânica da maioria. A outra possibilidade é bem representada pela queima de uma efígie de Mubarak com a estrela de Davi desenhada no rosto. E daí teremos mais do mesmo: nações pobres espiritual e materialmente por restrições irracionais auto-impostas, violando a dignidade de seus próprios cidadãos e atribuindo suas mazelas a terceiros que não têm nada a ver. Importa se isso ocorre democrática ou ditatorialmente?
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Filosofia do terrorismo
Responda rápido: qual o grupo que mais sofre violência e discriminação no mundo? Se você respondeu os cristãos, acertou. E o fato mais alarmante é que a situação tem piorado; onde outrora cristãos e muçulmanos viviam em paz agora vigoram a intolerância e o terrorismo. No Oriente Médio a situação é extremamente grave. O êxodo de cristãos é maciço. Países com grande população cristã tradicional, como Líbano e Egito, têm virado palco de violência constante.
No Egito, particularmente, o fim do ano foi marcado pelos ataques a igrejas coptas (a principal Igreja do Egito, que se separou do ramo maior da Igreja no século V). O jornal Ahram publicou um editorial exaltado, no qual o autor, incrédulo quanto às mudanças de atitude islâmica que ele observa, acusa não só os fundamentalistas, mas também os moderados que, ainda que não partilhem das conclusões, aceitam passivamente as premissas do preconceito que alimenta o terrorismo, e os intelectuais que, embora deplorem a violência, não tomam atitude nenhuma. Resta saber, contudo, qual a “única opção” que o autor tem em mente; seria a resistência armada? O Papa Shenouda III (“Papa” é como o Patriarca de Alexandria – ou seja, o bispo supremo do país – é tradicionalmente chamado), num comunicado algo decepcionante, espera que a solução venha do governo e da lei que torna a todos iguais. Num momento em que as próprias instituições políticas refletem os preconceitos crescentes na sociedade, parece-me ingênuo; seus chamados à calma, à paz e ao diálogo são sensatos e justos, mas só funcionam se o adversário der um mínimo de valor à dignidade humana enquanto tal, o que não é o caso dos fundamentalistas. Por outro lado, mostrando que as palavras do Papa egípcio têm sabedoria, uma iniciativa muito positiva foi tomada por muçulmanos que se comprometeram a servir de escudos humanos nas igrejas para evitar futuros ataques. Isso eleva o cacife do jogo, pois a cada novo ataque tenderá a aumentar a rejeição da população muçulmana normal ao islamismo fundamentalista e político. Isso é o que se espera; na prática, até agora, o discurso fundamentalista tem encontrado mais e mais eco na maioria moderada.
Quais as causas desse crescimento da tensão religiosa? Há um fato observável: o islamismo de tipo salafi, ou fundamentalista (considera que a regra do Islã são as práticas das primeiras três gerações de fiéis; tudo o que veio depois deve ser recusado), tem crescido. Seu principal idealizador foi o sunita Abd-Al-Wahhab, fundador da detestável seita wahhabita. O maior incentivo institucional ao wahhabismo vem da monarquia saudita, que sempre aderiu a essa escola de pensamento, tendo até destruído lugares santos islâmicos (como a tumba do neto de Maomé e a de Fatima, uma de suas filhas) por supostamente incentivarem a idolatria. Que os EUA continuem a ter os Sauditas como aliados ao mesmo tempo em que levam adiante uma guerra ao terror é no mínimo embaraçoso. Mas é claro que o wahhabismo não é a única fonte do terrorismo. É só lembrarmos de Sayiid Qutb (Martin Amis nos introduz à vida e pensamento desse personagem singular, dentre muitas outras considerações sobre o Islã, o Ocidente e a religião em geral neste artigo de 2006), cujo pensamento revolucionário é uma da grande influência dos membros da Al Qaeda. Em comum todas têm o desejo de um Islã puro e sem acréscimos.
O Cristianismo também tem seu fundamentalismo, seu movimento de volta às raízes supostamente puras pré-institucionais, presente em alguns grupos protestantes. A diferença é que eles, por mais questionáveis que sejam suas crenças e atitudes, não estão explodindo ninguém. Há algo diferente no Islã.
Qual a causa espiritual mais profunda dessa facilidade para o fundamentalismo e a militância violenta (que existe em todas as religiões, mas aqui encontra condições mais propícias)? Algo da resposta pode ser econtrado aqui: The Closing of the Muslim Mind. Na opinião de Robert Reilly, o autor, o problema não é uma consciência revestida do sobrenatural (como argumentaria Martin Amis acima linkado), mas sim o tipo de sobrenatural do qual ela se reveste. O Islã já nos deu grandes mentes. A teologia racional, no entanto, bem como todo o ímpeto científico, foram condenados no berço; houve um período de conflito intelectual, assim como houve no Cristianismo (e a vitória, no Ocidente ao menos, foi para o lado que afirma o valor da razão), mas no final das contas a posição denominada asharita venceu. O que ela ensina? Tudo é vontade arbitrária de Deus e ponto final. Na filosofia da natureza, isso significa negação da causalidade; na ética, negação da lei natural. Na prática, sociedades miseráveis e homens-bomba. Ao homem cabe calar sua razão e se submeter; aniquilar tudo que não a fé. Isso coincide com o que viu e descreveu V.S. Naipaul na sua Wriston Lecture no Manhattan Institute em 1990.
Em dias normais sou um otimista e acredito no que há de sadio, tolerante e belo no Islã. Mas notícias como as atuais acentuam seus aspectos mais sombrios: o vazio interior, a violência, o totalitarismo do sagrado na vida do indivíduo. Resta saber se são aspectos contingentes ou necessários dessa que é a segunda maior religião do mundo e com a qual, querendo ou não, teremos de conviver.
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A eterna vigilância que foi para o brejo
Data do post: 9 de fevereiro de 2010
Alguém aí já ouviu a respeito de como anda o pré-julgamento de Geert Wilders? É claro que não. A imprensa nacional e internacional ficam quietinhas enquanto você, caro leitor, mal sabe que, neste julgamento, decidem-se alguns dos assuntos mais importantes para o futuro do Ocidente. Bem, se quiser acompanhar sobre esse evento, que já começou mal para o lado do réu, e também quiser saber mais sobre o que o originou com a devida objetividade, é só ir ao seguinte endereço:
http://www.wildersontrial.com/
e torcer para que a sua eterna vigilância não sofra o mesmo destino (Provavelmente isso acontecerá, mas, como diria Tony Soprano, who gives a fuck?).
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Perdão e Ironia
Data do post: 14 de maio de 2009
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Ideologias: a continuação da história
Data do post: 19 de março de 2009
Previram a morte das ideologias para décadas atrás. Hoje, o islamismo é prova de que as ideologias continuam fortes; as semelhanças com o leninismo que o precedeu são marcantes.
Ao mesmo tempo, outra ideologia ganha força no Ocidente: o ambientalismo.
Leiam este ótimo artigo de Theodore Dalrymple sobre a ideologia no mundo contemporâneo. Como sempre, o autor é bem-humorado e muito lúcido, e não cai no saudosismo pelos “bons e velhos tempos” que caracteriza o espírito de alguns de seus textos.
Minha única ressalva é à ausência de alternativas que ele nos deixa. Claro, aceitamos o mal que as ideologias causam. Mas a única alternativa apresentada no texto é a perpetuação e crescimento das “democracias liberais modernas”, esses ninhos de oportunismo, incompetência e falta de propósito. Melhor, sem dúvida, do que as respostas totalizantes de tantos “ismos”, mas ainda assim profundamente insatisfatória.
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