Uma filosofia do jornalismo?
Data do post: 19 de novembro de 2009
Esta é a proposta de Carlin Romano, o mesmo que escreveu o ensaio denunciando as intenções nazistas na filosofia de Martin Heidegger e todo mundo aqui ficou alvoroçado.
Segundo ele, jornalismo e filosofia têm uma coisa em comum: a busca pela verdade.
Será? Bem, pelo menos, era isso que tentaram me ensinar na faculdade. Mas, como diria o bardo fanho, reality has always too many heads – e confesso a vocês que, quando trabalhei em redações, ficava tentado a me perguntar como Pilatos: O que é a dita-cuja?
O artigo de Romano é bem fraquinho – e por um único motivo: esquece-se do ponto principal. E qual é? Quem matou o problema foram Max Weber e Ortega y Gasset em seus respectivos Ciência e Política e Missão da Universidade.
O primeiro argumenta a respeito da formação superficial de qualquer jornalista – isso já na primeira década do século XX. Para Weber, o jornalismo ocupa-se de superficialidades, de argumentos pouco desenvolvidos e de opiniões – a chamada doxa de Platão – que sequer conseguem captar o fundo subterrâneo da realidade. Por isso o amor fanático por explicações precisas, por ideologias certinhas, por visões de mundo que tentam aprisionar o mistério da existência em um papel de quinta categoria.
Já Ortega vai além. Fala da presunção dos jornalistas. Por mexer com aquilo que a sociedade lida em uma primeira impressão – e, lembrem-se, a primeira impressão é a que fica – a classe jornalística se arvora como uma espécie de elite espiritual, um pseudo-clero que acredita piamente que mexe com a vida das pessoas. E mexe – geralmente, para pior.
Romano não toca em nenhum desses pontos – fica enrolando o leitor e parece até um jornalista em causa própria quando defende um curso de “filosofia do jornalismo” (detalhe: ele dá aulas sobre isso na Universidade da Pennsilvânia, o que mostra que um jabaculê é sempre um jabaculê).
Da minha parte, o que acho que o jornalismo precisa não é de uma filosofia. O que precisa é ter vergonha na cara e começar a fazer a única coisa que deve ser feita: ir contra todo e qualquer abuso sistemático de poder. Se não for isso, como diria Millôr Fernandes, é nada mais nada menos do que um armazém de secos e molhados.
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Internet e jornais
Data do post: 18 de setembro de 2009
Você confia mais na informação lida num jornal físico ou na Internet? Os americanos, e isso não deve ser restrito apenas a eles, têm preferido saber das novas via computador.
Devo dizer que eu também. Não tanto por algum motivo ideológico (afinal, os sites de notícia que eu leio são quase todos parte da “liberal media”), mas por pura praticidade: a Internet é mais facilmente navegável, não suja minhas mãos, não tem um sistema estranho de páginas que nunca abrem na direção esperada, e, de quebra, economiza papel e dinheiro.
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Homes away from home
Data do post: 31 de julho de 2008
Esqueçam os romances de Sterne, as peças de Shakespeare, os versos de Auden ou os discursos de Churchill. Há uma verdadeira contribuição britânica para o ocidente, uma que não depende dos gostos literários de quem a usufrui: o pub.
O diário de correspondente da semana na Economist é justamente sobre essa instituição britânica, ensinando-nos sobre suas qualidades e desvantagens, histórias e tendências.
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Isto é Obama…
Data do post: 21 de julho de 2008
Há algo errado quando o candidato democrata simplesmente dá uma de petista ao boicotar a única revista que poderia estar do seu lado – só por causa de uma charge de capa que virou um famoso tiro-no-pé.
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Jornalismo e metafísica
Data do post: 6 de julho de 2008
No Brasil conhecemos o mau jornalismo como ‘jornalismo marrom’. Segundo James Keryan, estão inventando a ‘ciência marrom’. O que não é nenhuma novidade.
Estive pensando sobre o jornalismo: há lugar ainda para a boa e velha investigação dos fatos? Como os seus pais fundadores Randolph Hearst e Joseph Pulitzer, os editores de sucesso preferem agradar os leitores com sensacionalismo, assim como os diretores de cinema preferem atrizes que adoram passar frio.
Embora não tenhamos o estilo do New Yorker, temos ainda jornalistas ‘indo até o fim’ como se deve, citando fontes (ou ao menos consultando-as), sem medo de dizer que, mais uma vez, “it’s no big deal”. O padrão de quem não procura as coisas, mas o impacto, é o lado exclusivamente patológico da vida, ou ao menos o seu aspecto mesquinho, confirmador de cinismos. O jornalista marrom é como o advogado fanático, que se acostuma com casamentos arruinados e pensa que o dele também terá o mesmo fim (o que é quase como buscar aquilo que se profetiza). Ele tem em vista o desejo do leitor médio: “Não vá me decepcionar. Por favor, seja imprudente”.
Mas é óbvio que os escândalos também merecem divulgação, como no Caso Watergate, embora ele tenha sido mais divulgado por confirmar os ideais do Partido Democrata – hoje indiscutivelmente apreciados pelos brasileiros – do que por ser uma vitória do jornalismo viril. Teria dúvidas antes de aprovar integralmente o trabalho de Woodward & Bernstein, mas confesso que muito disso é desejável e se perdeu. E sem esquecer o irônico e corajoso Edward R. Murrow, retratado com o seu rictus amarus e tudo o mais em Good Night, and Good Luck (2005).
Não hesitaria, entretanto, em sugerir aos jornalistas menos sociologia e mais metafísica. Uma solução para a sua falta de realismo, sobriedade e hierarquia seria a luta por colocar as idéias em ordem na própria cabeça. Novamente, não é algo para ser demonstrado; é algo para ser posto em prática.
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