Goethe e a retidão
Data do post: 22 de fevereiro de 2010
Goethe conhecia muito bem a natureza humana. Difícil dizer se foi o gênio — esse “quase mito” tipicamente romântico-germânico — ou o contato com os homens eminentes do passado e do presente que lhe trouxeram esse conhecimento.
O fato é que os dois versos a seguir estão entre os mais densos, os mais ricos em sentido da sua obra:
Ein guter Mensch, in seinem dunklen Drange,
Ist sich des rechten Weges wohl bewußt (Faust I, 328-329).
“Um bom homem, por obscura que seja sua luta / Está ciente de que há apenas um caminho correto” (trad. livre).
Com isso Goethe revelava duas coisas: que o homem tem a sua liberdade limitada pelas circunstâncias e pela sua consciência (um duplo ‘obstáculo’, interior e exterior, mas sempre redutível à realidade); e que mesmo assim está dotado da prudência — ao menos sob a forma do dever — para decidir corretamente, mesmo que erre por algum motivo alheio ao seu controle.
Aí a tragédia e a esperança que rondam o coração do homem. Não à toa a sua obra da juventude, o “Werther”, traga já nas suas primeiras linhas a pergunta/afirmação: Bester Freund, was ist das Herz des Menschen!, que é o coração humano!
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Religião e vida pública
Data do post: 14 de janeiro de 2010
Tiger Woods deu suas escapulidas extra-conjugais. O fato caiu na boca do povo e agora a reprovação midiática é geral. Numa entrevista casual de rádio, perguntado sobre o que Tiger Woods deveria fazer agora, um jornalista sugeriu que ele se convertesse ao Cristianismo para obter o perdão de seus pecados. A celeuma foi geral.
A maioria das pessoas que tem alguma religião concorda que ela é algo importante em suas vidas; frequentemente o mais importante, que dá sentido e rumo à toda existência. Assim, não é algo que possa ser simplesmente ignorado fora da vida íntima. Um católico continua católico, e um budista continua budista, no trabalho, na política e na vida social.
Mas se o membro de cada religião se sentir mortalmente ofendido com as opiniões contrárias daqueles que não partilham de suas crenças e quiserem proibir suas manifestações públicas, o resultado será exatamente o banimento da religião da vida pública. Leiam a análise refinada (ainda que incitada por um debate um tanto ridículo) deste articulista do New York Times.
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O que aconteceu com Mário Vieira de Mello?
Data do post: 18 de março de 2009
Esta foi a pergunta que me fiz ao revirar a minha biblioteca e encontrar os seis livros que compõem a obra deste pensador brasileiro. São eles: Desenvolvimento e Cultura, O Conceito para uma Educação de Cultura no Brasil, Nietzsche – o Sócrates de nossos tempos, O Cidadão, O Humanista e O Homem Curioso. Todos escritos e publicados em um espaço de mais de quarenta anos de atividade intelectual. Todos escritos em uma linguagem acessível, elegante, redonda, sem medo de opinar sobre suas visões polêmicas porque, sem dúvida, tinha uma meditação sólida por trás de cada uma de suas linhas. E, de repente, Mário Vieira de Mello sumiu. Caiu no mais completo esquecimento. Há apenas uma menção no livro O Futuro do Pensamento Brasileiro, de Olavo de Carvalho (que, por sua vez, escreveu uma bela orelha introdutória para O Humanista, publicado pela Topbooks) e nada mais. Liguei para a editora que publicou a maioria de seus livros e fui informado que “o autor já falecera”. Alguém viu um obituário sobre ele (favor não confundam com o seu parente Sérgio, vítima do trágico atentado no Iraque…)?
Esta é mais uma amostra de que o Brasil é um país sem memória, yadda yadda yadda. Mas não se trata somente de um caso de um pensador que viveu fora dos circúlos intelectuais mainstream e que não é lembrado sequer por potenciais leitores que deveriam entender os seus escritos. Em várias páginas de O Cidadão, seu ensaio de “política filosófica”, Vieira de Mello faz uma reflexão assustadora e premonitória sobre a situação política atual, em especial a dos Estados Unidos. Segundo o pensador e diplomata brasileiro, existem três grandes fatos na História que surgiram através do “ideal da igualdade”: 1) A Revelação ao Povo de Israel do Deus único, em que forma-se uma aliança até o final dos tempos; 2) O surgimento da polis de Atenas como matriz da democracia grega, e 3) O evento histórico da Revolução Americana. Apesar de fazer referências à Revolução Francesa, considerada por muitos o início da modernidade, Vieira de Mello acredita que a Revolução Americana cumpre melhor esse marco porque, afinal, os americanos são os primeiros a construírem um país sob o ideal da igualdade.
Ao pensar nas relações entre esses eventos – e tecendo brilhantes insights sobre Platão e Aristóteles, inclusive com críticas contundentes a respeito da ética deste último -, ele faz a distinção entre Estados que se baseiam em “estruturas de poder” e “estruturas de cultura”. A sociedade que prefere se apoiar na primeira estrutura fará a sua escolha pela “liberdade exterior”; quando se escolhe a segunda estrutura tem-se consequentemente a “liberdade interior”. Esta última é defendida por Sócrates e Platão como exemplo de uma liberdade conquistada pelo indivíduo através de lutas e tensões constantes para dominar as suas paixões e deixar a razão do espírito dominar a sua vontade e a sua deliberação.
Os EUA – ao realizarem uma revolução que rompe com a tradição cultural européia – se apoiam na “estrutura de poder” e assim se identificam com a “liberdade exterior”. O argumento de Mário Vieira de Mello é que, ao fazerem tal opção, os EUA acreditam que realizam o caminho da liberdade, quando se esqueceram da interioridade moral defendida por Platão, e se preocupam somente com instituições e procedimentos formais, instrumentalizando o indivíduo em função de um governo ou de uma lei. Para a tirania – pelo menos na visão platônica explicada em A República - falta apenas um passo.
O que me espantou foi a clarividência da análise. Claro que Mário Vieira de Mello não fez nada de novo – Tocqueville intuiu a mesma coisa. Contudo, dentro da nossa época “obâmica”, em que nós desconhecemos se a Nova Ordem chegará pelo braço econômico ou pelo braço ecológico, não podemos deixar de lado a análise feita pelo falecido embaixador e ver que, de uma certa forma, a confusão entre “liberdade exterior” (um argumento que, por exemplo, é aplicado pelos defensores de Hugo Chávez, uma vez que ele foi eleito através de voto popular) e a “liberdade interior” é um dos nós górdios do nosso tempo. Se meditarmos com constância sobre esse dois pólos da cidadania política, percebemos que Vieira de Mello resolve uma dicotomia (odeio o termo, mas é o único que me vem à cabeça) que se encontra esboçada no clássico texto de Isaiah Berlin, Dois conceitos de liberdade. E, por sua vez, a opção pela “liberdade exterior” como pilar de sustentação das “estruturas de poder” nos faz ver que a questão da tolerância – ou, para sermos exatos, da liberdade de expressão – pode se tornar somente mais um termo oco na linguagem política, com o perigo de não ter nenhum significado na própria linguagem cotidiana, no melhor estilo “serei tolerante contigo desde que você não prejudique a minha tolerância”. O que, de outro ponto-de-vista, é a mesma forma que os nossos políticos e os nossos intelectuais acham que deve ser praticada a liberdade deles.
Ainda assim, o mais preocupante, para os efeitos deste post, não é só o problema da liberdade, mas o esquecimento que construíram ao redor da obra de Mário Vieira de Mello. Milan Kundera conta, em seu romance O Livro do Riso e do Esquecimento, a seguinte história:
Em fevereiro de 1948, o dirigente comunista Klement Gottwald postou-se na sacada de um palácio barroco de Praga para discursar longamente para centenas de milhares de cidadãos concentrados na praça da Cidade Velha. Foi um grande marco na história da Boêmia. Um momento fatídico que ocorre uma ou duas vezes por milênio.
Gottwald estava cercado por seus camaradas, e a seu lado, bem perto, encontrava-se Clementis. Nevava, fazia frio e Gottwald estava com a cabeça descoberta. Clementis, muito solícito, tirou seu gorro de pele e o colocou na cabeça de Gottwald.
O departamento de propaganda reproduziu centenas de milhares de exemplares da fotografia da sacada de onde Gottwald, com o gorro de pele e cercado por seus camaradas, falou ao povo. Foi nessa sacada que começou a história da Boêmia comunista. Todas as crianças conheciam essa fotografia por a terem visto em cartazes, em livros ou nos museus.
Quatro anos mais tarde, Clementis foi acusado de traição e enforcado. O departamento de propaganda imediatamente fez com que ele desaparecesse da História e, claro, de todas as fotografias. Desde então Gottwald está sozinho na sacada. No lugar em que estava Clementis, não há mais nada a não ser a parede vazia do palácio. De Clementis, só restou o gorro de pele na cabeça de Gottwald.
Confesso a vocês que, do jeito que as coisas estão, temo que a obra de Mário Vieira de Mello (e a de outros gigantes como Mário Ferreira dos Santos, José Guilherme Merquior, Otto Maria Carpeaux) vire o “gorro de pele na cabeça de Gottwald”.
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A Intolerância dos Tolerantes
Data do post: 23 de julho de 2008
“Há um tipo de… terror intelectual nesta cidade. As pessoas estão aterrorizadas; elas estão com medo de dizer o que pensam. O que Gary (Sinise) está fazendo para fornecer ajuda e consolo às vítimas é admirável, e eu o aplaudo por isso” – David Horowitz, falando no Washington Times de hoje sobre o “Friends of Abe” – belo nome -, grupo underground de Hollywood criado para reunir os atores que não rezam segundo a cartilha politicamente correta dos estúdios americanos.
Pouquíssimos participantes admitem publicamente o seu envolvimento, com medo de acabarem blacklisted pelos chefões da indústria. They name names… Pensando em The Front – de longe, o pior filme de Woody Allen –, é quase possível sorrir com a ironia de tudo isso. Via Andrew Sullivan, na Atlantic Monthly.
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