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O cálice da linguagem

Filed under: Filosofia incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 14 de setembro de 2011

“SÓCRATES – É verdade, meu Fedro! Mas acho muito mais bela a discussão dessas coisas quando alguém semeia palavras de acordo com a arte dialética, depois de ter encontrado uma alma digna para recebê-las; quando esse alguém planta discursos que são frutos da razão, que são capazes de se defender por si mesmos e ao seu cultivador, discursos que não são estéreis, mas que contém dentro de si sementes que produzem outras sementes em outra almas, permitindo assim que elas se tornem imortais. Aos que as levam consigo, tais sementes proporcionam a maior felicidade que é dado ao homem possuir”.

Platão, “Fedro” (277)

“(…) O semeador saiu a semear. Enquanto lançava a semente, parte dela caiu à beira do caminho, e as aves vieram e a comeram. Parte dela caiu em terreno pedregoso, onde não havia muita terra; e logo brotou, porque a terra não era profunda. Mas quando saiu o sol, as plantas se queimaram e secaram, porque não tinham raiz. Outra parte caiu entre espinhos, que cresceram e sufocaram as plantas. Outra ainda caiu em boa terra, deu boa colheita a cem, sessenta e trinta por um. Aquele que tem ouvidos para ouvir, ouça!”.

Mateus 13:3-9

“E disse o SENHOR: Eles são um só povo e falam uma só língua, e começaram a construir isso. Em breve nada poderá impedir o que planejam fazer. Venham, desçamos e confundamos a língua que falam, para que não entendam mais uns aos outros”.

Gênesis 11: 6-7

Eugen Rosenstock-Huessy pode ser um nome desconhecido para muitas pessoas que acreditam estar atualizadas na filosofia, mas isso é uma perda para todos nós, que sequer conhecemos a obra de um homem que levou o estudo da linguagem a níveis extremos de profundidade e, o mais importante, nobreza de espírito.

Rosenstock-Huessy é um pensador pouco ortodoxo em relação aos seus métodos de análise e em relação ao seu estilo, próximo da retórica exaltada de um visionário ou de um pregador. Em alguns aspectos, ele é, de fato, um visionário, como Otto Maria Carpeaux percebeu no ensaio que dedicou ao livro “Revoluções Européias”, lançado pela primeira vez numa Alemanha já dominada pelo nazismo em 1938, e depois reformulado para a edição americana de 1968 com o título de “Out of Revolution – Autobiography of a Western Man”. A prova de sua antecipação está, como o leitor pode perceber, nas datas em que este livro fundamental, mas esquecido, foi publicado, em que a história do mundo parecia querer mostrar, de maneira pueril, como as revoluções trariam benefícios para uma sociedade mais justa e igualitária.

Rosenstock anteviu que tudo isso era uma patologia do espírito porque possuia, antes de tudo, a dimensão vertical da eternidade, que orientava constantemente as suas análises filosóficas – especialmente, aquelas relacionadas com a filosofia da linguagem. Na verdade, ele não estava sozinho em suas pesquisas: havia, pelo menos, mais três sujeitos que perseguiam o mesmo intento, mas quis o destino, por uma dessas ironias inexplicáveis, que não repartissem entre si o resultado de seus trabalhos. São Eric Voegelin, autor do monumental “Order and History”, Bernard Lonergan, o homem que trouxe Santo Tomás de Aquino para o século XX e Xavier Zubiri.

“A Origem da Linguagem” (Ed. Record; tradução de Pedro Sette-Câmara, Marcelo de Polli Bezerra, Márcia Xavier de Brito e Maria Inês de Carvalho; organização de Olavo de Carvalho) é a melhor introdução às idéias de Rosenstock, idéias que não teriam muito sucesso nas universidades brasileiras, empanturradas em ideologias estruturalistas, semióticas e marxistas. Aliás, a ironia de toda essa história é que os grandes temas que obcecam nossos acadêmicos são os mesmos temas que o próprio Rosenstock-Huessy previu e trabalhou com uma dedicação impressionante: o multiculturalismo, o debate entre gêneros e alteridade de culturas primitivas e civilizadas. Contudo, a diferença está no fato de que Rosenstock via tudo isso não como uma forma de superioridade de uma determinada minoria sobre o curso inteiro da civilização, dando ensejo às affirmative actions que invadem o meio cultural brasileiro, mas como vários estágios da evolução espiritual do ser humano, como este conseguiu articular e tornar cada vez mais sofisticado este milagre chamado linguagem.

Neste ponto, fica claro que sua filosofia é a de um pensador religioso que não hesita em revelar o que seria a beleza do Verbo aos seus leitores, ouvintes e alunos. Assim, muitas das idéias de Rosenstock podem parecer tresloucadas por não terem o aparente método acadêmico, mas talvez o seu método seja justamente  criar uma nova maneira de ver as coisas deste mundo – e ela talvez só possa ser compreendida, se tiver a perspectiva religiosa da vida entre o homem e sua ligação mais profunda com a linguagem, identificada com o conceito de Deus. Esta flexibilidade – um espanto para muitos pesquisadores enclausurados em normas positivistas e meramente horizontais, pesadas como o chumbo – permite a Rosenstock desenvolver com graça e vigor alguns dos insights mais fascinantes já feitos sobre o tema.

Podemos definir insight como aquele momento em que um pensamento parece nos revelar o avesso do senso comum, mas que não deixa de se integrar à ordem natural das coisas. Rosenstock é mestre nisso: transmite o insight como se estivesse conversando informalmente num jantar ou numa comemoração. Claro que isso pode ter um pequeno problema: como se dará o desenvolvimento desse estalo?

Mas “A Origem da Linguagem” não veio para cumprir este papel. Sua função com o seu lançamento é jogar as sementes para ver se elas darão algum fruto.

Um desses momentos iluminadores no livro de Rosenstock é a sua razão do porquê a linguagem ser um milagre. O raciocínio pode parecer delirante, mas é justamente por causa do “delírio” que se torna verdadeiro. Deixemos o próprio Rosenstock-Huessy explicá-lo:

“(…) A linguagem criou um campo de força entre os que tinham vivido e os que iriam morrer. É comum expressarmos esse fato pela admissão de que há uma relação entre os mortos e os vivos. Explicamos ritos funerários dizendo que os mortos eram considerados ainda viventes. Esta não é a verdadeira fé da humanidade. A fé da humanidade inverteu a relação entre a morte e a vida: os mortos eram adorados por terem vivido aqui como “predecessores”; os vivos eram emancipados por estarem prontos para morrer como sucessores.

A paz e a ordem dependiam dessa inversão da suposta ordem natural de nascimento e morte. Para a sofisticada e moderna mente científica, o nascimento precede a morte. “O menino é pai do homem”, dizemos desde esse ponto de vista puramente individualista. O indivíduo, considerado unidade do nascimento à morte, teria permanecido mudo. Os animais não falam, com efeito, pela simples razão de não serem predecessores nem sucessores de ninguém. A constituição da humanidade consiste na constituição da sepultura como útero. As tribos, os impérios, as igrejas não discordam a esse respeito (…).

Se o homem concebe a vida entre nascimento e morte, não há progresso. O progresso depende da qualidade interseccionadora da morte como útero do tempo. Entre a sepultura e o berço, o homem civilizado torna-se articulado, educado, e encontra orientação e direção. As pressões resultantes da sepultura produzem a vertente por onde as águas da vida podem atingir as alturas de um novo nascimento. O animal cresce, mas não pode penetrar o tempo que antecede o seu próprio nascimento. Uma densa cortina impede-lhe o conhecimento de seus antecedentes. Ninguém diz ao animal qual é a sua origem. Mas nós, as igrejas e tribos de tempos imemorais, elevamos toda a humanidade acima da dependência do mero nascimento. Abrimos-lhe os olhos para suas origens e predecessores. Transformamos-lhe os meros nascimentos de modo que se mudassem numa sucessão de antecendentes bem conhecida e estabelecida. E transformamos as simples mortes em precedente para a emancipação dos sucessores. Fizemos com que o homem conhecesse a sua origem, elaborando-lhe uma língua. A origem da fala humana é a fala da origem humana! Falando uma língua, o homem tornou-se e continua a tornar-se humano.

(…) A origem da linguagem permite superar a relação “natural” entre nascimento e morte. O ímpeto de nosso encadeamento de linguagem é o mesmo de todas as formas já referidas, de todas as canções cantadas, de todas as leis promulgadas, de todas as orações rezadas, de todos os livros escritos – todas apontam para a direção que faz da morte a predecessora do nascimento”. (págs. 70-71)

O trecho é longo, mas ilumina os princípios pelos quais Rosenstock se guiará em sua investigação. Como a origem da linguagem é “uma das questões mais debatidas, ridicularizadas e desesperadoras da história humana”, ele quer hierarquizar qual tipo de linguagem que será analisada. Antes de tudo, não se pode confundir a linguagem informal da formal, ou seja, da linguagem que informa onde é o caminho para uma determinada cidade daquela que forma as palavras da oração ou as sentenças das leis. É a linguagem formal que deve ser analisada, pois seus componentes mostram como está o estado espiritual não só de um único indivíduo, como também da sociedade como um todo.

Entretanto, não é apenas no aspecto sociológico que a linguagem formal é importante. Ela foi a articulação de uma fala, que se cristalizou num ritual que simbolizava a passagem (ou melhor, o progresso) de um mundo para o outro, dos mortos para os vivos, daqueles que não estão mais aqui para aqueles que dentro em breve estarão, do passado para o presente, preparando o homem para o futuro. Eis aí o milagre: a origem da linguagem dá a possibilidade do ser humano conhecer sua própria origem, como prova o início do Evangelho de São João (“No princípio era o Verbo”) e a própria frase de Rosenstock, aparentemente tautológica – “A origem da fala humana é a fala da origem humana” -, guarda muitas relações com a frase célebre de Eric Voegelin ao abrir o seu “Order and History”: “A ordem da história emerge da história da ordem”.

As obras de Rosenstock e Voegelin têm muito em comum porque ambos estão preocupados com o problema da ordem divina e humana. São assuntos, aliás, de especial importância tratando-se da origem da linguagem, já que, como o ser humano começou a falar na linguagem formal, e seu aspecto informal é considerado uma perversão do Verbo, seria lógico concluir que a ordem bem articulada só pode ser expressada de forma clara e cristalina, com uma linguagem que tenha as mesmas características. Dessa forma, o problema da ordem e da desordem na sociedade e no indivíduo se intersecciona com a questão do tempo. Rosenstock não afirma em nenhuma parte do livro, mas deixa implícito que quem cria o tempo é a própria linguagem e o uso que fazemos dela – no qual o resultado influirá diretamente na estrutura social do mundo onde o indivíduo vive.

Contudo, o tempo, de acordo com os meandros da linguagem, não é um tempo ágil, de causa-e-efeito imediatos: tudo faz parte de um lentissímo esquema em que, muitas vezes, a resposta dar-se-á anos e anos depois que o primeiro mandamento – no caso, o ato de dar (ou dizer) um imperativo ou de mudar a natureza de um substantivo, p.ex: um nome – iniciar um fenômeno que Rosenstock, num lance digno de poeta, chamou de “taça do tempo”.

A imagem da “taça do tempo” não é uma escolha aleatória, como se pode prever de um homem que conhecia os símbolos de forma minuciosa. Este ensaio, contudo, preferiu o termo “cálice”, não só pelo duplo sentido que a palavra envolve com o tema que está sendo abordado (“cálice” sendo o objeto para beber, além de ser um trocadilho com o imperativo “cale-se”, que seria justamente a mudez do ser humano frente ao espanto que é a linguagem), mas também porque talvez fosse a intenção de Rosenstock de aludir ao cálice da Santa Ceia, em que Jesus bebeu o vinho que seria o seu sangue. A imagem que ele usa e abusa por todo o livro representa um mistério que poucos tiveram coragem de responder: Como as mais diferentes vidas podem ser unificadas através de uma palavra que atravessou anos, às vezes séculos? Para aqueles que acreditam ser essa uma pergunta inútil, este cetismo é esmigalhado em questão de segundos se o leitor se perguntar sobre a natureza de seu próprio nome e sobrenome que, de alguma forma, ecoa anos de História particular e coletiva, sem que se saiba ou tente imaginar.

Um dos exemplos mais didáticos de como funciona o fenômeno da “taça de tempo” de Rosenstock pode ser encontrado no cinema, no filme “Sunshine – O Esplendor de um Século” (2000), dirigido por István Szabo e com Ralph Fiennes no papel principal (no caso, três papéis principais). A história cobre as três gerações de uma família, os Sonnenschein, judeus-húngaros que tiveram sua fortuna graças a um licor chamado “Sunshine” (a tradução em inglês do sobrenome, que significa “aurora”). O patriarca é um homem muito religioso, chamado Emmanuel, que, ao descobrir que seu filho, Ignatz, quer casar com Valerie, uma menina que criaram como filha, afirma que isso seria contra as leis de Deus, pois a moça seria como parte da própria família. Mesmo assim, o filho consume a sua paixão pela garota e ambos se tornam amantes, sem o conhecimento dos pais. Formado em Direito, Ignatz é um caloroso defensor da monarquia austro-húngara, que ele considera “liberal”, mesmo que, para entrar como juiz na Suprema Corte, seja “sugerido” que mude o seu sobrenome, devido ao “tom” judeu. Ignatz não hesita e, até o próprio pai, já enfraquecido pela velhice, compreende a intenção do filho, que muda o nome de Sonnenschein para Sörs (“destino” em húngaro).

A mudança do substantivo, no caso um nome, é o início da “taça do tempo” que vai se estender por toda a História do Século XX. Antes houve o rompimento de um ritual – e de um ritual moral, que é o incesto entre irmãos, mesmo que eles não sejam do mesmo sangue, mas criados como se fossem. A quebra do ritual, que é a fala cristalizada, só pode implicar na quebra de um símbolo, que é o próprio nome. Poucas pessoas, hoje em dia, dão importância ao nome que escolhem para si mesmos ou para seus descendentes, mas o fato é que o nome é o que nos identifica como indivíduos e, não é à toa que, no Direito, de acordo com o maior comentarista do Código Civil Brasileiro, Clóvis Beviláqua, o nome é “o elemento fundamental na individualização da personalidade jurídica”. É o nosso nome que nos define, de certa maneira, que nos deixa com um passado para sermos arremessados para o futuro. Como diria o velho adágio: nomen est omen (o nome é destino).

Os agora Sörs (já que Valerie e o resto de sua família também fizeram o mesmo que Ignatz, pressionados pelo constante anti-semitismo do império áustro-húngaro) conseguem, com o perdão do trocadilho, um lugar ao sol no Estado. Ignatz é um juiz brilhante, mas que não hesita em reafirmar sua admiração pelo Imperador. Quando eclode a Primeira Guerra Mundial e o império desaba, Ignatz se vê numa prisão de desilusão que não pode compreender. Para piorar, os comunistas tomam o poder (e entre eles, está o irmão de Ignatz, Gustave) e o antes tão prestigiado juiz da Corte é condenado a prisão domiciliar, além de sofrer de problemas cardiovasculares que acarretarão em uma morte dolorosa. O filho de Ignatz e Valerie, Adam, vira um virtuose da esgrima, mas também um alienado político, pois defende o regime austro-húngaro que se aliou ao nazismo. Dessa vez, a mudança não será apenas na questão do nome: Adam se converte ao catolicismo e, numa das aulas de eucaristia, conhece sua esposa, uma judia na mesma situação constrangedora sobre sua religião. Uma série de circunstâncias mudam radicalmente a vida da família Sörs: apesar de ter ganhado a medalha de ouro nas Olímpiadas de Berlim em 1938, Adam, sua esposa, seu filho Ivan, a cunhada Greta (com quem tem um caso), seu irmão Istvan e sua mãe Valerie, vão para os pogroms e depois para os campos de concentração, onde Adam é torturado até a morte, afirmando sem parar que seu nome é “Adam Sörs, campeão mundial de esgrima”, sem dizer uma palavra sobre sua origem judaica.

Os únicos sobreviventes da tragédia são Valerie e seu neto Ivan. Amargurado pelo fato de que os nazistas foram os responsáveis pela morte de seu pai, Ivan, aconselhado por seu tio Gustave, se alia aos comunistas que ficaram com a Hungria, ajudando no expurgo de possíveis traidores do Partido Comunista. Contudo, gradualmente, Ivan vai tomando consciência da loucura que é o comunismo, tão ou quanto pior que o nazismo, e decide se tornar um opositor do Partido, acabando por ser preso e condenado por seis anos. Ivan é libertado justamente quando o regime comunista está acabando, mas ainda mostra os sinais de sua irredimível burocracia. Vai morar com a avó na antiga casa da família e quando Valerie tem um derrame, Ivan procura a receita do bisavô do licor “Sunshine”, que desaparecera misteriosamente anos atrás. No hospital, a última palavra que Valerie diz ao neto é justamente o antigo sobrenome judeu: Sonnenschein.

Ivan nunca soube que este era o verdadeiro nome da família; quando  descobre, no meio de uma mudança, uma carta de Emmanuel dirigida a Ignatz que o aconselhava a seguir as leis de Deus durante a sua vida, a primeira coisa que Ivan faz é usar de novo o nome Sonnenschein. Curiosamente, é também a época que o regime comunista acaba na Hungria.

Esta longa exposição da história de “Sunshine” se deve para o leitor perceber o que é a “taça do tempo” que Rosenstock tanto fala. “A linguagem precisa de tempo para repletar-se de significado”, escreve ele, “Ninguém esperava que um hino, um juramento ou um feitiço fosse mais que promessa de compreensão mútua. Os nomes não são generalizações, como pensam nossos filósofos. Nossos ancestrais consideravam a generalização coisa do demônio. Teriam considerado uma blasfêmia tratar a educação como capacidade de fazer generalizações. Os nomes eram para o adolescente inciado promessas de vagarosa ascensão ao entendimento. Eram rodeados de mistério, e não porque fossem verdadeiros, mas porque deviam tornar-se verdadeiros”.

Ao não compreender que a quebra de um nome é a quebra de um espírito, Ignatz Sonnenschein amaldiçoa o resto de sua família – e muitos fizeram o mesmo na vida real, sempre por causa de alguma causa política que, obviamente, contrariava a verdadeira lei divina. Para Rosenstock, “o espírito da linguagem e a linguagem do espírito são vida vivida condensada em nomes”. E continua, num outro trecho esclarecedor: “‘Espírito’ é como geralmente se chama o poder de um nome de conter o passado e amplos conjuntos de vida realmente vivida, de modo que aqueles que o invocam possam experimentá-los. Quando comparamos os números dez, cinco ou três com os nomes de deuses e de homens, os números podem ajudar-nos a definir os nomes por meio de contraste. Os números são entendidos sem espaço de tempo. Por isso inventamos uma escrita especial para 1, 2, 3, 4, etc. A matemática é a ciência dos fatos que não exigem vivência temporal real para serem entendidos. Mas os nomes estão no pólo oposto. Todos os homens de todos os tempos têm de ter vivido antes de conhecer a Deus. Deus não é um número nem uma palavra. Ele tem um nome. Todos os nomes, salvo o de Deus, têm existência curta. Mas todos demandam ser preenchidos de significado por longos períodos de tempo” (pág. 99).

Este longo período de tempo em que a linguagem se comunica é o milagre que Rosenstock admira como poucos. E o que mantém a unidade desse fenômeno é justamente a linguagem formal, que é a bebida na qual a “taça do tempo” é preenchida. “A linguagem formal é um processo físico, compreendido no universo de nossos cinco sentidos, pelo qual uma taça de tempo é formada e desfeita. Dentro dessa taça de tempo, ou espaço de tempo, ou campo de correspondência, os seres humanos dividem o seu trabalho. Eles não podem dividir o trabalho se não se tiveram internado no campo comum da linguagem formal. E não podem partir para novas divisões do trabalho até que o velho campo esteja dissolvido. Precedentemente a todos os atos sociais, deve-se constituir o campo de correspondência em que se ordenarão e cumprirão os atos, após cujo cumprimento deverá desaparecer o campo” (pág. 124).

A “taça do tempo” é um fenômeno complexo e, por isso mesmo, capaz de abuso e incompreensão, porque necessita de continuidade. A verdadeira função da linguagem é unificar uma sociedade, senão ela perecerá. Daí seu caráter miraculoso e, paradoxalmente, corriqueiro. Entretanto, Rosenstock avisa que a linguagem é um território fértil para que o pai da mentira – o demônio – possa criar sua estripulias e perverter não só as sementes, como também o solo. O resultado disso seria a desarticulação da linguagem, criando suas quatro doenças: a guerra, a crise, a revolução e a tirania.

Rosenstock-Huessy acredita piamente que a linguagem é um dom divino e isso justifica o seu ataque aos filósofos modernos, que não acreditam mais na existência do pai da mentira e usam a linguagem como um mero exemplo lógico, destituída de qualquer relação com a realidade concreta, a mesma realidade na qual ela se baseou para se cristalizar e se prolongar através do tempo no seu modelo formal. A ausência de uma formalidade na linguagem do cotidiano, que não crie um equilíbrio entre o passado e o presente, pode dissolver a realidade num outro tipo de ordem – a ordem pervertida. Este é o aspecto trágico que está latente na questão da origem da linguagem: em qualquer momento, ela pode transformar a verdade em mentira e é neste abismo que se revela, paradoxalmente, a falta que faz uma linguagem articulada.

É aqui que entram as quatro doenças: guerra, crise, revolução e tirania (também denominada degeneração). Sem o conhecimento delas, nunca poderemos saber a benção que é a linguagem e como ela verdadeiramente estrutura o espírito de nossas vidas. “A medicina não se torna ciência senão quando penetra os mistérios das doenças. A sociologia não se torna científica senão quando pode explicar guerras e revoluções. A ausência da devida ordem, ou seja, a presença do indevido, é que serve para explicar a “origem” da ordem devida. Quando descobrimos por que determinado estado de coisas é negativo e ruim, começamos a entender a origem do bom. A biologia será a ciência da vida no exato dia em que a morte for inteiramente compreendida. No mesmo sentido, teremos uma ciência da fala ou da linguagem assim que penetrarmos o inferno da não-linguagem” (pág. 49).

Rosenstock não brinca em serviço ao querer cavar as doenças da linguagem. Mas, antes de tudo, ele deve estabelecer um princípio, como todo bom cientista: “Nossa maneira de formular a questão da origem da linguagem desloca o terreno da questão para o da política e da história. Aqui, a questão ‘Quando o homem deve começar a falar?’ é feita como a pergunta a que deveriam responder outras autoridades que não os professores de inglês, árabe ou sânscrito. Estes tratam as línguas como fatos. Aqui, todavia, as línguas são apresentadas como pontos de interrogação da história política. Queremos, aliás, sugerir aos leitores puramente literários ou gramaticais que nos deixem agora mesmo, sob pena de ficarem desapontados ao descobrir que a nova linguagem não é criada pelos pensadores ou pelos poetas, mas pelas grandes calamidades políticas ou levantes religiosos” (pág. 50).

O que se segue é uma explicação originalissíma da relação que há entre a linguagem e os eventos da ordem e da desordem. Em primeiro lugar, temos a guerra, que é quando um país não escuta a linguagem de outro país e ambos entram em conflito, para que a harmonia possa um dia se reestabelecer e um poder ouvir o que o outro fala. Depois, temos a revolução, uma ruptura mais profunda ainda, pois o que é inaudível são os sons da tradição e do passado, escolhendo a energia desenfreada do presente, não havendo espaço para reflexão, apenas “hipersensibilidade aos gritos da juventude”. Em contrapartida, temos a degeneração (ou a tirania), em que os sons do futuro não são ouvidos, e assim privilegia a excessiva temperança do passado que, um dia a mais, um dia a menos, só tende a morrer, através de uma entropia ou então da própria revolução violenta. Por fim, há a crise que Rosenstock nos explica dessa maneira inusitada, aliás com um exemplo perfeito para nossos tempos de crise econômica: “Quando um desempregado bate à minha porta e eu digo ‘não há trabalho para ti!’, isso parece não implicar nenhum problema lingüístico. Mas implica, sim. O desempregado que pede ‘trabalho’ está na verdade pedindo que lhe digam o que fazer. Tendo a pensar que nossos economistas não percebem, além da dificuldade financeira que há em tal reivindicação, a reivindicação de que falem com ele! Queremos que nos digam o que fazer na sociedade. A crise interna de uma sociedade em desintegração resulta de que ninguém diz a muitas pessoas dessa sociedade o que devem fazer” (pág. 60). A crise (ou anarquia) vem da ausência de ordem dada ou expressa, uma ordem que, para ser cristalizada em palavras de lei, precisa ser articulada em termos formais. Quando um não escuta o outro ou um não sabe falar com o próximo, este é o aviso de que a linguagem cairá no reino do pai da mentira.

É o que atualmente acontece no Brasil e no mundo, onde a linguagem se tornou um repositório de jargões publicitários e clichês ideológicos. Mas, ao mesmo tempo que se pende para a mentira, há também a ira escandalosa da verdade. Se em “Sunshine”, a mudança de um nome amaldiçoava uma família na história trágica de um país e de um século, no nosso início de século XXI temos um novo fenômeno: as quatro doenças da linguagem amalgamadas em algo ainda inexplicável, mas que podemos traduzir apenas numa imagem – a dos aviões atravessando as Torres Gêmeas do World Trade Center no dia 11 de setembro de 2001. Parece um raciocínio sem nexo, mas o símbolo da torre é de grande importância para a questão da origem da linguagem – não é à toa que a capa da edição nacional é o famoso quadro  de Pieter Brueghel, o Velho, a respeito da Torre de Babel, o episódio do Gênesis em que se conta o castigo de Deus de confundir o homem, que queria construir uma torre gigantesca para chegar a Ele.

A torre é também um dos símbolos da alma e, de uma certa maneira, se seguirmos Rosenstock, a linguagem é a alma de uma sociedade. Portanto, não seria lógico pensar que a queda das Torres Gêmeas é o marco de uma nova “taça do tempo” que só veremos o resultado daqui a alguns anos, se ainda estivermos vivos? Não seria o fato da guerra, da revolução, da degeneração e da crise se unirem, como numa espécie de punição em que o homem, já confuso por ter cada um desses problemas, tenha que decifrar o enigma que o fará voltar à ordem? Essas questões não são inúteis se colhermos com afeição as sementes que Rosenstock plantou em seu livro. Ele é um filósofo que leva o leitor a novas maneiras de ver o mundo e, ainda assim, maneiras que fazem parte de uma tradição – a tradição daqueles homens que, movidos pelo senso de dever, investigaram a realidade para se chegar à verdade. E, para Eugen Rosenstock-Huessy, como a verdade estava na linguagem, a única coisa que o homem pode fazer ao deparar-se com ela é se curvar e calar completamente a fala que ainda não se cristalizou no símbolo do pássaro que nos abençoou com o Verbo original.


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Aramaico ressurrecto

Filed under: História,Sociedade incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 15 de abril de 2010

O aramaico, língua franca do Oriente Médio até a expansão do Islã (que trouxe consigo o árabe), hoje em dia se restringe a três vilas da Síria. Para que ele não seja completamente perdido em poucas gerações (era, afinal, a língua falada no tempo de Jesus Cristo, e uma das línguas da Bíblia), foi fundado um instituto para ensiná-lo e difundi-lo. Infelizmente, certas semelhanças com o hebraico vêm causando problemas com as autoridades políticas…


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Linguagem e confusão

Filed under: Filosofia,Sociedade incluído por Julio Lemos
Data do post: 29 de outubro de 2009

O livro Wittgenstein: The Man and His Philosophy traz uma história altamente relevante, que aproveito para traduzir aqui:

Um sábio chinês, em um passado longínquo, certa vez foi abordado pelos seus discípulos, que lhe perguntaram o que ele faria se lhe fosse concedido o poder de colocar em ordem os assuntos do país. Ele respondeu: “Eu certamente garantiria que a linguagem fosse empregada com correção”. Os discípulos ficaram perplexos. “Na verdade”, eles disseram, “se trata de um assunto meio banal. Por que o Sr. atribui tanta importância a isso?”  E o Mestre replicou: “Se a linguagem não é empregada com correção, então o que é dito não é o que se quer dizer; se o que é dito não é o que se quer dizer, então o que deve ser feito permanece por fazer; e se permanece por fazer, a moral e a arte serão corrompidas; se a moral e a arte forem corrompidas, a justiça não funcionará; e se a justiça não funcionar, então o povo entrará num estado de confusão sem volta”.

É ou não é?


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Updating Shakespeare

Filed under: Literatura incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 23 de julho de 2009

Deve a linguagem de Shakespeare ser atualizada para facilitar o entendimento de espectadores e leitores modernos? Estou com o autor deste artigo e seu retumbante “NÃO!”.


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Esqueceram de mim

Filed under: Filosofia incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 22 de julho de 2009

Recentemente, dois artigos publicados sobre a questão da linguagem e do pensamento me fizeram perder o sono. O primeiro é de uma jovem pesquisadora, Lera Boroditsky, que argumenta que a linguagem molda o pensamento humano e que, portanto, cada um que vive em seu país ou em sua realidade teria um modo diferente de expressão. O segundo é de um velho conhecido nosso, o dr. Theodore Dalrymple, que vai por um caminho diferente – ele critica duramente os abusos do politicamente correto e do relativismo pós-moderno – embora também siga a mesma linha de raciocínio: a de que o pensamento, mesmo em uma fase considerada pré-verbal, é moldado pela linguagem.

A pergunta que se deve fazer é a seguinte: De onde vem a linguagem? Ela surge por geração espontânea ou a partir do funcionamento de nossas mentes? Podemos apreendê-la a partir da observação do datum da realidade? Rosenstock-Huessy, que dedicou toda a sua vida sobre este problema, diferenciava o que seria a linguagem A da linguagem B. A primeira é a cotidiana e tem um caráter funcional, e está presente, por exemplo, na comunicação básica entre dois seres humanos que discutem entre si sobre qual seria o melhor caminho para se chegar a uma cidade ou uma rua. A segunda é a formal, em que aplicamos sempre quando queremos escrever um texto, fazer um relatório, cantar em um coro, encomendar um defunto, celebrar um casamento, e por aí vai. É claro que esta é a linguagem que pertence exclusivamente aos homens, porque, neste momento, não nos interessa a que pertence aos animais.

Um outro critério surge quando percebemos que a linguagem sobre a qual Boroditsky e Dalrymple discutem é a de seres humanos adultos e maduros em seus respectivos termos biológicos e psíquicos. Ainda assim, a pergunta se complica: Como a linguagem se desenvolve, amadurece?

São perguntas simples, mas têm impacto em nossa cultura – em especial, em nossa cultura pós-pós-pós moderna, no interior da qual tentamos viver com alguma dignidade. Aparentemente, os estudiosos do assunto falam em crise da linguagem, em degeneração da linguagem – ou em revolução da linguagem. Neste ponto, fico novamente com Rosenstock-Huessy: estamos no meio de uma guerra da linguagem.

Segundo ele, as quatro doenças da linguagem humana caracterizam-se pelas seguintes disposições: a guerra é não escutar o que o inimigo diz, a crise é não dizer ao amigo o que fazer, a revolução é a gritaria inarticulada, e a degeneração é a repetição hipócrita.

Alguém duvida de que estamos no meio de uma guerra? (É claro que você duvidará se acreditar em Steven Pinker). Vivemos em um mundo onde ninguém confia em ninguém e, portanto, todos são inimigos potenciais – e, neste caso, a primeira coisa que se perde é justamente a capacidade de escutar o próximo, em uma perversão inédita da famosa Lei de Ouro sobre a qual toda sociedade se baseia.

Se estamos no meio de uma doença extrema da linguagem, como podemos curá-la? Bem, se nem eu sei de onde ela surge, como posso saber disso também? O fato é que, para se ter uma guerra – qualquer tipo de guerra – é necessário ter duas coisas: seres humanos com interesses conflitantes e uma realidade concreta que eu possa modificar segundo o meu intento, conforme os instrumentos disponíveis (Novamente, estes instrumentos não precisam ser armas letais e explosivas; podem ter um caráter mais sutil). Ora, estes dois requisitos estão fora do meu pensamento; logo, o que a minha linguagem apresenta é uma forma de representação destes elementos: um lugar objetivamente concreto que tem como palco um aglomerado de seres humanos com valores distintos e contrários. E como sei que seus valores são opostos e até incomensuráveis entre si, resultando no inevitável conflito?

É aqui que entra – e eu vou usar agora o meu artifício de curto-circuito, sempre criticado pelos meus algozes, mas que empresta um certo charme às minhas alucinações – o problema da consciência. Uso o termo aqui não como um poder, e sim como um ato; ou seja, ele, segundo Sto. Tomás de Aquino, implica na relação de conhecimento a alguma coisa que pode ser resolvida em cum alio scientia – isto é, o conhecimento aplicado a um caso específico e individual.

O caso específico e individual é sempre o próprio ser humano, em especial a natureza humana. Poderia ir além e afirmar que trata-se da condição humana – mas isso seria transformar o ato de consciência em algo abstrato, o que não é a minha intenção. A consciência é este locus específico onde julgo as ações que devo ou não devo fazer; e, com ela, posso captar a realidade exterior que está à minha frente em todas as suas variantes. É um locus que ilumina a estrutura do real e, ao mostrar os seus paradoxos, permite a sua expressão dentro de uma linguagem articulada, madura e, sobretudo, compreensível para os meus semelhantes. Contudo, para isso acontecer de fato, tenho de entender que o meu semelhante também tem a capacidade de realizar esse mesmo ato e que também tem esse locus que ilumina o real. Só assim pararei de vê-lo como um desconhecido, como um inimigo – e só assim poderemos escutar um ao outro e parar com a guerra da linguagem (E se você quiser saber mais sobre isso, leia o fundamental Anamnesis, de Eric Voegelin, lançado recentemente no Brasil).

O nó górdio de todas as discussões sobre o pensamento e a linguagem – uma discussão que, diga-se de passagem, parece-se muito com o enigma do ovo e da galinha ou até mesmo do biscoito Tostines – é que a consciência humana foi jogada para debaixo do tapete. Em uma apresentação acadêmica que fiz há alguns anos, um professor da FAAP, encharcado de Adorno e Derrida, perguntou-me se eu acreditava que o ser humano tinha uma consciência, algo de que ele próprio duvidava. A única coisa que respondi foi que, para chegar àquela dúvida, foi necessário um ato de consciência. Não obtive refutação – o que também indicou consciência da parte dele. E se por acaso insisto – chegando ao ponto de ser monomaníaco – em assuntos aparentemente díspares, como o surgimento de uma casta burocrática que quer acabar com a liberdade de religiões, destruindo justamente a base de uma tradição que foi construída entre trancos e barrancos e que ainda nos sustêm, ou então no perigo que há no surgimento de movimentos progressistas que se unem com criminosos e lunáticos para diminuir a liberdade ínfima que tenho dentro do meu corpo, é porque o que está em jogo é a consciência como um dom que não me pode ser extirpado sem dor.

Quando se esquece da consciência, esquece-se também de que a função da linguagem é descobrir novas maneiras de exprimir uma realidade inesgotável em suas possibilidades. E, ao esquecer de ambas, o ser humano é apenas um instrumento – não a imago Dei que o Ocidente sempre soube existir. Thomas More descobriu, ao escrever a sua Utopia, que o verdadeiro perigo das épocas futuras é que talvez as pessoas não tenham uma clara consciência do mal que possam praticar. O perigo ainda está aí. E talvez seja por isso que não consegui dormir ao ler os textos de Lera Boroditsky e Theodore Dalrymple; porque, afinal de contas, a minha consciência não permitiu que eu ficasse em silêncio.


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V de Vingança

Filed under: Do lado de lá incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 26 de março de 2009

Nunca pensei que isso fosse acontecer, mas o fato é que a Inglaterra está cada vez mais parecida com aquele cenário sombrio retratado por Alan Moore e David Lloyd em sua graphic novel V de Vingança (esqueçam a adaptação cinematográfica, uma verdadeira bobagem). Em primeiro lugar, o governo de Gordon Brown, o político que teve de pechinchar com Tony Blair para conseguir seu cargo de primeiro-ministro, impediu o parlamentar europeu Geert Wilders de entrar no país para exibir e debater seu curta-metragem Fitna. Em aspectos estéticos, o curta é canhestro, mas tem uma linha de raciocínio bem clara e perturbadora: os motivos do terrorismo islâmico estão no próprio Corão. Segundo Wilders, não existe um Islã moderado – existem muçulmanos moderados. A secretária de Estado Jacqui Smith, ao alegar que Wilders promovia o “hate speech”, ordenou que o paralamentar holandês fosse barrado literalmente na porta do aeroporto. Ainda assim, Wilders não deixou barato: apareceu em todos os meios de comunicação europeus e publicou o discurso que daria na Câmara dos Lordes, uma peça de urgência retórica que não fica nada a dever a um Winston Churchill. (Como de hábito, não apareceu nada relevante na imprensa brasileira; somente João Pereira Coutinho escreveu uma coluna na Folha resumindo a situação) 

Coloco-o na íntegra para a vossa edificação:

Geert Wilders’ speech in the House of Lords — if he had not been barred from entering the UK

What Wilders would have said if the British officials had allowed him in:

Ladies and gentlemen, thank you very much.

Thank you for inviting me. Thank you Lord Pearson and Lady Cox for showing Fitna, and for your gracious invitation. While others look away, you, seem to understand the true tradition of your country, and a flag that still stands for freedom.

This is no ordinary place. This is not just one of England’s tourist attractions. This is a sacred place. This is the mother of all Parliaments, and I am deeply humbled to speak before you.

The Houses of Parliament is where Winston Churchill stood firm, and warned – all throughout the 1930’s – for the dangers looming. Most of the time he stood alone.

In 1982 President Reagan came to the House of Commons, where he did a speech very few people liked. Reagan called upon the West to reject communism and defend freedom. He introduced a phrase: ‘evil empire’. Reagan’s speech stands out as a clarion call to preserve our liberties. I quote: If history teaches anything, it teaches self-delusion in the face of unpleasant facts is folly.

What Reagan meant is that you cannot run away from history, you cannot escape the dangers of ideologies that are out to destroy you. Denial is no option.

Communism was indeed left on the ash heap of history, just as Reagan predicted in his speech in the House of Commons. He lived to see the Berlin Wall coming down, just as Churchill witnessed the implosion of national-socialism.

Today, I come before you to warn of another great threat. It is called Islam. It poses as a religion, but its goals are very worldly: world domination, holy war, sharia law, the end of the separation of church and state, the end of democracy. It is not a religion, it is a political ideology. It demands you respect, but has no respect for you.

There might be moderate Muslims, but there is no moderate Islam. Islam will never change, because it is build on two rocks that are forever, two fundamental beliefs that will never change, and will never go away. First, there is Quran, Allah’s personal word, uncreated, forever, with orders that need to be fulfilled regardless of place or time. And second, there is al-insal al-kamil, the perfect man, Muhammad the role model, whose deeds are to be imitated by all Muslims. And since Muhammad was a warlord and a conqueror we know what to expect.

Islam means submission, so there cannot be any mistake about it’s goal. That’s a given. The question is whether the British people, with its glorious past, is longing for that submission.

We see Islam taking off in the West at an incredible speed. The United Kingdom has seen a rapid growth of the number of Muslims. Over the last ten years, the Muslim population has grown ten times as fast as the rest of society. This has put an enormous pressure on society. Thanks to British politicians who have forgotten about Winston Churchill, the English now have taken the path of least resistance. They give up. They give in.

Thank you very much for letting me into the country. I received a letter from the Secretary of State for the Home Department, kindly disinviting me. I would threaten community relations, and therefore public security in the UK, the letter stated.
For a moment I feared that I would be refused entrance. But I was confident the British government would never sacrifice free speech because of fear of Islam. Britannia rules the waves, and Islam will never rule Britain, so I was confident the Border Agency would let me through. And after all, you have invited stranger creatures than me. Two years ago the House of Commons welcomed Mahmoud Suliman Ahmed Abu Rideh, linked to Al Qaeda. He was invited to Westminster by Lord Ahmed, who met him at Regent’s Park mosque three weeks before. Mr. Rideh, suspected of being a money man for terror groups, was given a SECURITY sticker for his Parliamentary visit.

Well, if you let in this man, than an elected politician from a fellow EU country surely is welcome here too. By letting me speak today you show that Mr Churchill’s spirit is still very much alive. And you prove that the European Union truly is working; the free movement of persons is still one of the pillars of the European project.

But there is still much work to be done. Britain seems to have become a country ruled by fear. A country where civil servants cancel Christmas celebrations to please Muslims. A country where Sharia Courts are part of the legal system. A country where Islamic organizations asked to stop the commemoration of the Holocaust. A country where a primary school cancels a Christmas nativity play because it interfered with an Islamic festival. A country where a school removes the words Christmas and Easter from their calendar so as not to offend Muslims. A country where a teacher punishes two students for refusing to pray to Allah as part of their religious education class. A country where elected members of a town council are told not to eat during daylight hours in town hall meetings during the Ramadan. A country that excels in its hatred of Israel, still the only democracy in the Middle-East. A country whose capitol is becoming ‘Londonistan’.

I would not qualify myself as a free man. Four and a half years ago I lost my freedom. I am under guard permanently, courtesy to those who prefer violence to debate. But for the leftist fan club of islam, that is not enough. They started a legal procedure against me. Three weeks ago the Amsterdam Court of Appeal ordered my criminal prosecution for making ‘Fitna’ and for my views on Islam. I committed what George Orwell called a ‘thought crime’.

You might have seen my name on Fitna’s credit role, but I am not really responsible for that movie. It was made for me. It was actually produced by Muslim extremists, the Quran and Islam itself. If Fitna is considered ‘hate speech’, then how would the Court qualify the Quran, with all it’s calls for violence, and hatred against women and Jews?
Mr. Churchill himself compared the Quran to Adolf Hitler’s Mein Kampf. Well, I did exactly the same, and that is what they are prosecuting me for.

I wonder if the UK ever put Mr. Churchill on trail.

The Court’s decision and the letter I received form the Secretary of State for the Home Department are two major victories for all those who detest freedom of speech. They are doing Islam’s dirty work. Sharia by proxy. The differences between Saudi-Arabia and Jordan on one hand and Holland and Britain are blurring. Europe is now on the fast track of becoming Eurabia. That is apparently the price we have to pay for the project of mass immigration, and the multicultural project.

Ladies and gentlemen, the dearest of our many freedoms is under attack. In Europe, freedom of speech is no longer a given. What we once considered a natural component of our existence is now something we again have to fight for. That is what is at stake. Whether or not I end up in jail is not the most pressing issue. The question is: Will free speech be put behind bars?

We have to defend freedom of speech.

For the generation of my parents the word ‘London’ is synonymous with hope and freedom. When my country was occupied by the national-socialists the BBC offered a daily glimpse of hope, in the darkness of Nazi tyranny. Millions of my country men listened to it, illegally. The words ‘This Is London’ were a symbol for a better world coming soon. If only the British and Canadian and American soldiers were here.

What will be transmitted forty years from now? Will it still be ‘This Is London’? Or will it be ‘this is Londonistan’? Will it bring us hope, or will it signal the values of Mecca and Medina? Will Britain offer submission or perseverance? Freedom or slavery?

The choice is ours.

Ladies and gentlemen,

We will never apologize for being free. We will never give in. We will never surrender.

Freedom must prevail, and freedom will prevail.

Thank you very much.

Geert Wilders

MPChairman, Party for Freedom (PVV)

The Netherlands

Em segundo lugar, é só notar o jeito fanfarrão e sarcástico do próprio Gordon Brown ao ouvir o discurso de apenas três minutos devastadores de Daniel Hannan, membro do Parlamento Europeu, representando o Sudoeste da Inglaterra. Hannan fez o que qualquer político decente (hello, Brazil!) deveria fazer: falou na frente do algoz, olhos nos olhos, firme, sem nenhuma hesitação. Gordon Brown sequer o encarou; deu uma risadinha e continuou a ler seus documentos burocráticos. A imprensa mainstream ignorou completamente o fato; mas, sabe-se lá como, de repente não mais que de repente, o discurso de Hannan se tornou o vídeo mais visto no You Tube, com mais de 630.000 acessos em um único dia.

Wilders e Hannan são a prova de que ainda existe uma verdadeira oposição e de que a política não é apenas uma negociata atrás da outra para a imposição da Nova Ordem Mundial. E ainda temos um brinde: vocês podem reclamar do que for – das idéias deles, de que os muçulmanos são todos bonzinhos, de que Gordon Brown é um cara bacana, etecétera -, mas jamais podem negar que os dois sabem usar a linguagem como poucos estadistas atuais usam. Entre o moleque que escreve os discursos de Barack H. e as frases de Wilders e Hannan que nos remetem à prosa de ouro de Churchill e Edmund Burke, não hesito em afirmar que o primeiro jamais conseguiria criar linhas como estas para refletir a nossa atual situação econômica:

Once again today you try to spread the blame around. You spoke about an international recession, international crisis. It is true that we are all sailing together into the squalls, but not every vessel in the convoy is in the same dilapidated condition. Other ships used the good years to caulk their hulls and clear their rigging – in other words, to pay off debt – but you used the good years to raise borrowing yet further. As a consequence, under your captaincy, our hull is pressed deep into the waterline under the accumulated weight of your debt

E, como mostra o V de Vingança de Alan Moore, são sempre nos momentos de crise de liberdade que descobrimos quem são os verdadeiros estadistas.


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