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Compre o Livro

E agora, José?

Filed under: Literatura incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 18 de junho de 2010

Time that with this strange excuse

Pardoned Kipling and his views,

And will pardon Paul Claudel,

Pardons him for writing well.

W.H. Auden, In memory of W.B. Yeats.

Nada como voltar à programação normal com uma notícia dessas: morreu José Saramago. Dizem que não devemos falar mal dos mortos, que não pega bem, que você vai para o Inferno por causa disso, mas antes encontrar com Belzebu do que ser um hipócrita.

Contudo, temos de ser justos: Saramago escreveu três grandes livros – Memorial do Convento, O ano da morte de Ricardo Reis e História do Cerco de Lisboa. O resto é lixo adulado pela grande mídia. São nesses três grandes romances que o seu estilo de frases longas, enredos elaborados e ironias deliciosamente digressivas, marcou uma época e uma geração. Todos queriam escrever só com o ponto e só com a vírgula; todos queriam ter um sotaque castiço para emitir alguma obviedade como se fosse a maior pérola de sabedoria já dita.

Pois foi o que aconteceu com Saramago. Ele passou a acreditar muito mais em sua persona midiática do que propriamente em seu ofício de escritor. E a grande mídia aceitou isso de muito bom grado, inflando ainda mais o seu ego. Como se não bastasse, o Nobel resolveu premiá-lo como se fosse o nosso oráculo de Delfos quando, na língua portuguesa, quem ocupa esse lugar é seguramente Agustina Bessa Luís ou a já falecida Sophia de Mello Breyner Andersen.

Dessa forma, passou a dizer besteiras e, o pior, a escrever besteiras. Criticá-lo por ser ateu ou por ser comunista é fácil. Mas devemos criticá-lo pela influência nociva que provocou na própria língua portuguesa. Exceto os três livros mencionados, o estilo de Saramago tornou-se um cacoete que, na falta de uma comparação melhor, é muito parecido com o de um Boletim de Ocorrência Policial feito em algum DP da vida. E a consequência disso é que todos resolveram imitá-lo – e assim demoliram o que sobrou da língua portuguesa, este “túmulo do pensamento”, como diria Carpeaux.

Agora, que partiu para o Parnaso (gostaria de ver a cara dele quando encontrar a evidência empírica de que há uma vida além desta marmita…), é de se esperar o pó do esquecimento sobre o restante da sua obra. O que sobram são três livros magníficos; mas, oras bolas, como diria W.H. Auden, quem disse que escrever bons livros salva alguém de ser redimido?


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