O demônio pasteurizado
Data do post: 17 de fevereiro de 2011
Dizem que me preocupo demais com demônios. Como recentemente escrevi dois textos que relacionavam a literatura brasileira atual com exorcismo, engraçadinhos acharam que, em breve, eu iria começar a falar dos gibis do Alan Moore – um autor que, aliás, estimo muito. Também reclamaram de que eu não saberia explicar onde se encontrava na geração atual a tal temática de favelado – pois parece que estes novos autores fogem da periferia como o diabo foge da cruz (desculpem-me pelo trocadilho).
A minha intenção em escrever estes textos sobre a literatura brasileira atual é a de apresentar um panorama, não um sistema. Ainda assim, é necessário trazer à tona alguns pontos, talvez como uma espécie de critério para que depois ninguém venha a reclamar que coloquei demônios demais e literatura de menos.
O fato é que demonismo, literatura e a favela têm muita coisa em comum. Talvez tenham razão ao afirmarem que, na literatura brasileira que entrou em voga – repleta de jovens descolados e que sabem mais sobre estilo do que sobre substância - a favela não é mais um símbolo preponderante. Contudo, se o símbolo sumiu, a mentalidade permanece – e eis o perigo disso tudo. De qualquer forma, a literatura permanece dentro de um horizonte provinciano, por mais que pareça cosmopolita, com suas referências trendy e as citações cinematográficas.
Este provincianismo mostra que o autor é incapaz de extrair de si a loucura exigida pela literatura. Quando falo de demônios, falo exatamente disso: loucura, meus amigos, loucura – aquilo que Henry James, já na fase old pretender, afirmava ser the madness of art. Mas um aviso: não se trata de uma loucura qualquer, como a que nos fazem acreditar que será curada em hospícios e sanatórios. É uma insanidade que deve ser disciplinada, controlada, para que os tais demônios que as pessoas têm tanto medo de chamá-las não se apossam não só do escritor como também do seu estilo, da sua arte – enfim, para que não a transforme em futilidade.
Porque, de todas as mentalidades de favelado, a mais perigosa é a de ser futil – ou, se quisermos usar termos mais sofisticados e suaves, a do esteticismo. Kierkegaard definia três estilos de vida que alguém poderia experimentar: o estético, o ético e o religioso. A literatura brasileira, salvo raras exceções, não conseguiu passar do primeiro estágio. É algo ruim? Não, se quiser permanecer provinciano – uma característica que não precisa ser exclusivamente brasileira. Mas se o escritor tiver alguma ambição, então temos problemas – pois quanto mais alto se sobe, mais rápido pode-se cair.
Quem relacionou o problema do esteticismo com a da realidade brasileira foi o ensaísta e pensador Mario Vieira de Mello. Em seu Desenvolvimento e Cultura, ele argumenta com toda a razão que nunca tivemos idéias próprias, que sempre as copiamos e adaptamos conforme nossas necessidades. Já prevejo o leitor sabichão me alertar que este mesmo raciocínio se encontra também em Raízes do Brasil, de Sergio Buarque de Holanda; mas, agora, com uma diferença: Sergio afirmava que tal cópia levava ao esgarçamento das instituições e à falta de respeito a res publica. Vieira de Mello vai além: é a própria cultura que sai prejudicada, incapaz de se desenvolver de forma autônoma porque se prende às estruturas de poder e não consegue mais perceber a diferença entre a liberdade exterior e a liberdade interior.
Se fizermos uma analogia – o que é sempre perigoso pois analogias são saltos no escuro que podem nos levar para o outro lado ou direto para o abismo, já nos ensinava Indiana Jones e a última cruzada – a preocupação da literatura brasileira atual com as referências da moda e com um estilo mais apurado é um sintoma de liberdade exterior, mas nota-se também como os jovens escritores não estão preocupados com os demônios que são obstáculos para alcançarem a liberdade interior. Esta última não é um direito dado pela natureza; é algo a ser conquistado, domado. Portanto, quando falam sobre seus próprios demônios, o medo os leva a pasteurizá-los – a estetizá-los como se fossem joguinhos de criança, impedindo de vê-los como um problema que nunca terá solução.
Vejam bem: apesar do termo religioso, quando uso a palavra “demônio”, não quero fazer uma relação a lá “veja-como-a-nossa-literatura-é-uma-merda-porque-perdemos-o-contato-com-o-Nosso-Senhor”. É claro que isso é um problema – mas deixamos isso para os apologetas e os téologos (que, por sua vez, pouco entendem de literatura). O que importa é perceber como uma literatura se torna estéril porque vive o desconhecimento de que o desejo ontológico, o de querer ser uma coisa que nunca foi, nunca é e nunca será, é uma lei que nos come por dentro e que nos causa mais armadilhas interiores do que pensamos. Não podemos ter medo de falar em “demônios” porque nós somos justamente o que não queremos nomear. Para usar um termo dostoievskiano, nós somos os possessos – eu, você e todos que não aceitam que um exorcismo bem feito e sem futilidade é tudo o que precisamos. And good luck with that.
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A redescoberta da filosofia no Brasil I – Panorama Geral
Data do post: 31 de agosto de 2010
A Dicta.com começa a publicar uma série de artigos e entrevistas a respeito do tema “A redescoberta da filosofia no Brasil”, feita por um de nossos colaboradores, Felipe Cherubin. Hoje teremos um pequeno panorama histórico de um problema que até agora parece ser insolúvel: temos ou não temos condições de entender o que realmente significa a Filosofia? Somos capazes de pensá-la e, sobretudo, fazê-la como os mestres da tradição? Para Cherubin, este impasse é resolvido com a redescoberta das obras de Mario Ferreira dos Santos e Vicente Ferreira da Silva. (M.V.C.)
Por Felipe Cherubin
A reedição das obras dos filósofos Mário Ferreira dos Santos e Vicente Ferreira da Silva dão novos ares ao estudo da filosofia no país e demonstram que é possível um pensamento original e de alcance universal em terras brasileiras.
Mário Ferreira dos Santos (1907-1968) e Vicente Ferreira da Silva (1916-1963) estão entre os filósofos brasileiros mais importantes do século 20. Foram pensadores independentes que trataram dos mais importantes temas da filosofia com impressionante interdisciplinaridade, dialogando tanto com a tradição quanto com o que havia de mais importante e atual no debate intelectual de seu tempo. A redescoberta de suas obras lança novas bases para a construção de uma cultura mais refinada e autoconsciente, recolocando o Brasil, definitivamente, no cenário global da história da filosofia.
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Em 1986, o Embaixador Mário Vieira de Mello publicava O Conceito de uma Educação da Cultura, retomando a reflexão de seu livro anterior sobre o tema do esteticismo na formação da cultura brasileira e como a partir daí lançar bases para a criação de um espírito ético no Brasil.
Seguindo o espírito da letra de Vieira de Mello, podemos compreender de que a proposta de transformar a consciência que temos da realidade brasileira, de uma percepção estética para uma percepção ética, nada tem de um empreendimento moralista e tampouco se trata de menosprezar as realizações e experiências brasileiras no campo das artes e do sentimento nacional.
O problema que se coloca é se devemos manter nossa auto complacência ao repetir erros que nos saltam aos olhos ou se não seria a hora de tentarmos uma arrancada, elevando o nível de nossas realizações e da nossa inteligência combinando assim fatores culturais mais sólidos e abrangentes.
A educação é um processo limitado que se encerra onde começa a cultura que nada mais é que o reflexo social do esforço intelectual de cada ser humano de educar os outros e a si mesmo. Educação e cultura são as duas faces de uma mesma moeda chamada pedagogia e não se deve confundida com o que hoje entendemos por ensino, esse rito social intimamente ligado com o mercado de trabalho e com as pressões da empregabilidade e nos discursos recheados por palavras de ordem como “educação para a democracia”.
A questão não é polarizar a discussão entre democracia versus aristocracia ou em educação de elite e educação para as massas, mas sim entre poder versus cultura e reconhecer que a pedagogia deve ter independência em relação a democracia, assim como de qualquer regime político, como bem perceberam Sócrates e Platão quando criticaram os sofistas por exercerem um magistério à revelia da sociedade, abrindo um perigoso espaço para corrompê-lo por distorções da vida democrática e as exigências do poder, na perda a longo prazo da noção exata do que realmente é a educação.
No século 21, países colonizados como o Brasil vêem-se diante do dilema em optar entre o artificialismo de uma cultura cerrada no passado e o funcionalismo de uma cultura desvinculada da tradição. Como equacionar esse desafio? Para um país da dimensão do Brasil recorrer ao mito da brasilidade e das formas mais esdrúxulas de provincianismos apenas produz documentos para etnólogos do futuro e nunca expressões de alta cultura e patrimônios para a humanidade. Leia mais…
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O que aconteceu com Mário Vieira de Mello?
Data do post: 18 de março de 2009
Esta foi a pergunta que me fiz ao revirar a minha biblioteca e encontrar os seis livros que compõem a obra deste pensador brasileiro. São eles: Desenvolvimento e Cultura, O Conceito para uma Educação de Cultura no Brasil, Nietzsche – o Sócrates de nossos tempos, O Cidadão, O Humanista e O Homem Curioso. Todos escritos e publicados em um espaço de mais de quarenta anos de atividade intelectual. Todos escritos em uma linguagem acessível, elegante, redonda, sem medo de opinar sobre suas visões polêmicas porque, sem dúvida, tinha uma meditação sólida por trás de cada uma de suas linhas. E, de repente, Mário Vieira de Mello sumiu. Caiu no mais completo esquecimento. Há apenas uma menção no livro O Futuro do Pensamento Brasileiro, de Olavo de Carvalho (que, por sua vez, escreveu uma bela orelha introdutória para O Humanista, publicado pela Topbooks) e nada mais. Liguei para a editora que publicou a maioria de seus livros e fui informado que “o autor já falecera”. Alguém viu um obituário sobre ele (favor não confundam com o seu parente Sérgio, vítima do trágico atentado no Iraque…)?
Esta é mais uma amostra de que o Brasil é um país sem memória, yadda yadda yadda. Mas não se trata somente de um caso de um pensador que viveu fora dos circúlos intelectuais mainstream e que não é lembrado sequer por potenciais leitores que deveriam entender os seus escritos. Em várias páginas de O Cidadão, seu ensaio de “política filosófica”, Vieira de Mello faz uma reflexão assustadora e premonitória sobre a situação política atual, em especial a dos Estados Unidos. Segundo o pensador e diplomata brasileiro, existem três grandes fatos na História que surgiram através do “ideal da igualdade”: 1) A Revelação ao Povo de Israel do Deus único, em que forma-se uma aliança até o final dos tempos; 2) O surgimento da polis de Atenas como matriz da democracia grega, e 3) O evento histórico da Revolução Americana. Apesar de fazer referências à Revolução Francesa, considerada por muitos o início da modernidade, Vieira de Mello acredita que a Revolução Americana cumpre melhor esse marco porque, afinal, os americanos são os primeiros a construírem um país sob o ideal da igualdade.
Ao pensar nas relações entre esses eventos – e tecendo brilhantes insights sobre Platão e Aristóteles, inclusive com críticas contundentes a respeito da ética deste último -, ele faz a distinção entre Estados que se baseiam em “estruturas de poder” e “estruturas de cultura”. A sociedade que prefere se apoiar na primeira estrutura fará a sua escolha pela “liberdade exterior”; quando se escolhe a segunda estrutura tem-se consequentemente a “liberdade interior”. Esta última é defendida por Sócrates e Platão como exemplo de uma liberdade conquistada pelo indivíduo através de lutas e tensões constantes para dominar as suas paixões e deixar a razão do espírito dominar a sua vontade e a sua deliberação.
Os EUA – ao realizarem uma revolução que rompe com a tradição cultural européia – se apoiam na “estrutura de poder” e assim se identificam com a “liberdade exterior”. O argumento de Mário Vieira de Mello é que, ao fazerem tal opção, os EUA acreditam que realizam o caminho da liberdade, quando se esqueceram da interioridade moral defendida por Platão, e se preocupam somente com instituições e procedimentos formais, instrumentalizando o indivíduo em função de um governo ou de uma lei. Para a tirania – pelo menos na visão platônica explicada em A República - falta apenas um passo.
O que me espantou foi a clarividência da análise. Claro que Mário Vieira de Mello não fez nada de novo – Tocqueville intuiu a mesma coisa. Contudo, dentro da nossa época “obâmica”, em que nós desconhecemos se a Nova Ordem chegará pelo braço econômico ou pelo braço ecológico, não podemos deixar de lado a análise feita pelo falecido embaixador e ver que, de uma certa forma, a confusão entre “liberdade exterior” (um argumento que, por exemplo, é aplicado pelos defensores de Hugo Chávez, uma vez que ele foi eleito através de voto popular) e a “liberdade interior” é um dos nós górdios do nosso tempo. Se meditarmos com constância sobre esse dois pólos da cidadania política, percebemos que Vieira de Mello resolve uma dicotomia (odeio o termo, mas é o único que me vem à cabeça) que se encontra esboçada no clássico texto de Isaiah Berlin, Dois conceitos de liberdade. E, por sua vez, a opção pela “liberdade exterior” como pilar de sustentação das “estruturas de poder” nos faz ver que a questão da tolerância – ou, para sermos exatos, da liberdade de expressão – pode se tornar somente mais um termo oco na linguagem política, com o perigo de não ter nenhum significado na própria linguagem cotidiana, no melhor estilo “serei tolerante contigo desde que você não prejudique a minha tolerância”. O que, de outro ponto-de-vista, é a mesma forma que os nossos políticos e os nossos intelectuais acham que deve ser praticada a liberdade deles.
Ainda assim, o mais preocupante, para os efeitos deste post, não é só o problema da liberdade, mas o esquecimento que construíram ao redor da obra de Mário Vieira de Mello. Milan Kundera conta, em seu romance O Livro do Riso e do Esquecimento, a seguinte história:
Em fevereiro de 1948, o dirigente comunista Klement Gottwald postou-se na sacada de um palácio barroco de Praga para discursar longamente para centenas de milhares de cidadãos concentrados na praça da Cidade Velha. Foi um grande marco na história da Boêmia. Um momento fatídico que ocorre uma ou duas vezes por milênio.
Gottwald estava cercado por seus camaradas, e a seu lado, bem perto, encontrava-se Clementis. Nevava, fazia frio e Gottwald estava com a cabeça descoberta. Clementis, muito solícito, tirou seu gorro de pele e o colocou na cabeça de Gottwald.
O departamento de propaganda reproduziu centenas de milhares de exemplares da fotografia da sacada de onde Gottwald, com o gorro de pele e cercado por seus camaradas, falou ao povo. Foi nessa sacada que começou a história da Boêmia comunista. Todas as crianças conheciam essa fotografia por a terem visto em cartazes, em livros ou nos museus.
Quatro anos mais tarde, Clementis foi acusado de traição e enforcado. O departamento de propaganda imediatamente fez com que ele desaparecesse da História e, claro, de todas as fotografias. Desde então Gottwald está sozinho na sacada. No lugar em que estava Clementis, não há mais nada a não ser a parede vazia do palácio. De Clementis, só restou o gorro de pele na cabeça de Gottwald.
Confesso a vocês que, do jeito que as coisas estão, temo que a obra de Mário Vieira de Mello (e a de outros gigantes como Mário Ferreira dos Santos, José Guilherme Merquior, Otto Maria Carpeaux) vire o “gorro de pele na cabeça de Gottwald”.
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