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Compre o Livro

It is not a house, it is a home?

Filed under: Geral incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 10 de março de 2012

Continuarei por ai, tentando vigiar os vigilantes, mas quem quiser ler outros textos com outras abordagens, pode também me acompanhar aqui.

 

 


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A autoconsciência do terror

Filed under: Literatura incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 18 de novembro de 2011

Don DeLillo

Em primeiro lugar, vamos ler o que Martin Amis, o enfant terrible da literatura inglesa, disse do novo livro de Don DeLillo – um volume de contos chamado The Angel Esmeralda, algo supreendente para um escritor que só se dedicou às narrativas longas, muitas vezes longuíssimas (caso de Submundo):

When we say that we love a writer’s work, we are always stretching the truth: what we really mean is that we love about half of it. Sometimes rather more than half, sometimes rather less. The vast presence of Joyce relies pretty well entirely on “Ulysses,” with a little help from “Dubliners.” You could jettison Kafka’s three attempts at full-length fiction (unfinished by him, and unfinished by us) without muffling the impact of his seismic originality. George Eliot gave us one readable book, which turned out to be the central Anglophone novel. Every page of Dickens contains a paragraph to warm to and a paragraph to veer back from. Coleridge wrote a total of two major poems (and collaborated on a third). Milton consists of “Paradise Lost.” Even my favorite writer, William Shakespeare, who usually eludes all mortal limitations, succumbs to this law. Run your eye down the contents page and feel the slackness of your urge to reread the comedies (“As You Like It” is not as we like it); and who would voluntarily curl up with “King John” or “Henry VI, Part III”?

 
***
Depois, vamos ler o que Antonio Xerxenesky, que revela ser um crítico mais interessante do que a sua ficção, escreveu sobre as relações subterrâneas que existem entre David Foster Wallace e a finada banda LCD Soundsystem:

São dois artistas, enfim, que merecem ser lidos e ouvidos, não apenas porque captaram o zeitgeist, mas porque possuem coração, porque mantiveram seus sentimentos, apesar de tudo que conspira contra isso, apesar da ironia sobrepujante e da horrorosa autoconsciência. Parece uma opinião brega, e talvez seja. Foster Wallace disse, no ensaio E Unibus Pluram, que os próximos rebeldes literários serão antirrebeldes: os que arriscarão ser tachados de melodramáticos e sentimentaloides. James Murphy não apenas repete isso, mas também executa algo similar em “Dance yrself clean”, canção que abre o seu disco de despedida do mundo da música, na qual aumenta o volume e pede para o ouvinte se lavar dançando, como se a dança fosse uma espécie de exorcismo que pudesse nos salvar de tudo, inclusive de nós mesmos.

Tudo bem, o primeiro trecho não fala diretamente da obra de DeLillo e sim das impressões introdutórias de Amis, este mestre da digressão, sobre o que ele ama e o que não ama no corpus de qualquer escritor. Na verdade, só copiei o trecho acima para que o leitor tenha interesse de ler o texto inteiro e, de brinde, saiba o que é uma verdadeira resenha.

Se lermos os dois textos com atenção, ambos discorrem sobre um tema que o próprio Foster Wallace – outro mestre da digressão – tinha plena noção: as conexões que existem entre a percepção exagerada do que seria (ou poderia ser) a realidade e o terror que surge disso. Segundo Amis, um escritor que sempre quis fazer o que DeLillo já fazia há tempo, o autor de Submundo e Homem em Queda, romances que, respectivamente, anteciparam e meditaram sobre os eventos da primeira década de 2000 (em especial, o terrorismo e o 11 de setembro), se tornou um profeta que soube expressar em uma linguagem cuidadosamente elaborada os dilemas da consciência estilhaçada dos nossos tempos.

Para Xerxenesky, DFW – que será tema de um ensaio fantástico de Júlio Lemos na próxima Dicta&Contradicta – eleva esta linguagem aos píncaros da insanidade – com a diferença de que há uma busca pela transcendência que, se compararmos os casos, DeLillo é muito mais bem sucedido do que o seu jovem contemporâneo (com quem, alías, trocou uma extensa correspondência).

A meu ver, esta autoconsciência do terror – marca registrada não só dos romances de DeLillo, DFW e Martin Amis, como também está presente em As benevolentes, de Jonanthan Littell, Às cegas, de Cláudio Magris e, em menor grau, Liberdade, de Jonathan Franzen – é uma encruzilhada que pode intoxicar a visão do escritor e envenená-lo com o mal que queria diagnosticar.

Por um lado, obriga-o a ver a realidade como é, em toda a sua terrível ambigüidade; por outro lado, pode fazer o escritor sucumbir à sua pressão e fazer a opção preferencial pelo desastre que é o niilismo.

David Foster Wallace ficou nessa encruzilhada e deu no que deu: depressão e suicídio. DeLillo já é um senhor de idade que decidiu se tornar o Beckett provecto da literatura americana, com seus livros esparsos, enigmáticos e quase impenetráveis.

Mas as questões que esses dois críticos e esses dois romancistas lançam são aquelas que todo escritor deve fazer antes de empunhar a caneta e começar a escrever qualquer linha.

E o que o LCD Soundsystem tem a ver com tudo isso?

Bem, não sei, mas antes de tudo ouçam essa canção e tenham um bom final de semana.


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Escravos das paixões

Filed under: Literatura incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 30 de abril de 2011

CRÍTICA

Amis ignora natureza humana, que Arendt tenta mudar

MARTIM VASQUES DA CUNHA
ESPECIAL PARA A FOLHA

“Você não pode mudar a natureza humana”, afirmam ao russo Boris Lermontov, personagem de “Os Sapatinhos Vermelhos” (1948), filme da dupla Powell e Pressburger. “É verdade”, ele diz.
“Mas posso fazer algo melhor: ignorá-la.” Alterar ou ignorar o ser humano? Essa é a questão secreta que une “Sobre a Revolução”, de Hannah Arendt (1906-1975), e “A Viúva Grávida”, de Martin Amis, 61.
O primeiro é um clássico da filosofia política que, após 30 anos da publicação original, se mostra mais interessante pelas imprecisões do que pelos raciocínios que deveria demonstrar.
O segundo, lançado em 2010, mostra um escritor no domínio da forma romanesca e sem medo de tocar o dedo na ferida de quem acha que a revolução é um bom negócio.

Leia mais aqui


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Sexo Literário

Filed under: Literatura incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 30 de janeiro de 2011

O escritor inglês Auberon Waugh (filho do Evelyn), falecido em 2002, legou-nos, além de seus livros, o Bad Sex Awards. Criado em 1993, seu objetivo é botar em evidência passagens especialmente desastradas sobre o ato sexual, como forma de humilhar os autores e, quem sabe, coibir um pouco a proliferação do sexo de mal gosto na literatura. O premiado deste ano comparou o ato sexual com o trabalho de um colecionador de insetos: “”like a lepidopterist mounting a tough-skinned insect with a too blunt pin he screwed himself into her”. Gracioso. Até Tony Blair entrou na corrida recentemente, por uma passagem de suas memórias que é citada no fim do artigo.

A grande questão é se o intuito do prêmio de diminuir a frequência do sexo na literatura tem funcionado. E parece que tem. É difícil atribuir o efeito a uma causa única, mas os juízes do Booker Prize percebem um claro declínio no sexo. O autor Martin Amis chega a defender que, com raríssimas exceções, nunca se deve descrever o ato sexual, pois é algo tão pessoal que não pode ser universalizado e portanto não encontrará eco em nenhum leitor. O que sobra é a pornografia ou o desastre. Será que só é possível descrever bem o sexo ruim?


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Filosofia do terrorismo

Filed under: Religião,Sociedade incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 6 de janeiro de 2011

Responda rápido: qual o grupo que mais sofre violência e discriminação no mundo? Se você respondeu os cristãos, acertou. E o fato mais alarmante é que a situação tem piorado; onde outrora cristãos e muçulmanos viviam em paz agora vigoram a intolerância e o terrorismo. No Oriente Médio a situação é extremamente grave. O êxodo de cristãos é maciço. Países com grande população cristã tradicional, como Líbano e Egito, têm virado palco de violência constante.

No Egito, particularmente, o fim do ano foi marcado pelos ataques a igrejas coptas (a principal Igreja do Egito, que se separou do ramo maior da Igreja no século V). O jornal Ahram publicou um editorial exaltado, no qual o autor, incrédulo quanto às mudanças de atitude islâmica que ele observa, acusa não só os fundamentalistas, mas também os moderados que, ainda que não partilhem das conclusões, aceitam passivamente as premissas do preconceito que alimenta o terrorismo, e os intelectuais que, embora deplorem a violência, não tomam atitude nenhuma. Resta saber, contudo, qual a “única opção” que o autor tem em mente; seria a resistência armada? O Papa Shenouda III (“Papa” é como o Patriarca de Alexandria – ou seja, o bispo supremo do país – é tradicionalmente chamado), num comunicado algo decepcionante, espera que a solução venha do governo e da lei que torna a todos iguais. Num momento em que as próprias instituições políticas refletem os preconceitos crescentes na sociedade, parece-me ingênuo; seus chamados à calma, à paz e ao diálogo são sensatos e justos, mas só funcionam se o adversário der um mínimo de valor à dignidade humana enquanto tal, o que não é o caso dos fundamentalistas. Por outro lado, mostrando que as palavras do Papa egípcio têm sabedoria, uma iniciativa muito positiva foi tomada por muçulmanos que se comprometeram a servir de escudos humanos nas igrejas para evitar futuros ataques. Isso eleva o cacife do jogo, pois a cada novo ataque tenderá a aumentar a rejeição da população muçulmana normal ao islamismo fundamentalista e político. Isso é o que se espera; na prática, até agora, o discurso fundamentalista tem encontrado mais e mais eco na maioria moderada.

Quais as causas desse crescimento da tensão religiosa? Há um fato observável: o islamismo de tipo salafi, ou fundamentalista (considera que a regra do Islã são as práticas das primeiras três gerações de fiéis; tudo o que veio depois deve ser recusado), tem crescido. Seu principal idealizador foi o sunita Abd-Al-Wahhab, fundador da detestável seita wahhabita. O maior incentivo institucional ao wahhabismo vem da monarquia saudita, que sempre aderiu a essa escola de pensamento, tendo até destruído lugares santos islâmicos (como a tumba do neto de Maomé e a de Fatima, uma de suas filhas) por supostamente incentivarem a idolatria. Que os EUA continuem a ter os Sauditas como aliados ao mesmo tempo em que levam adiante uma guerra ao terror é no mínimo embaraçoso. Mas é claro que o wahhabismo não é a única fonte do terrorismo. É só lembrarmos de Sayiid Qutb (Martin Amis nos introduz à vida e pensamento desse personagem singular, dentre muitas outras considerações sobre o Islã, o Ocidente e a religião em geral neste artigo de 2006), cujo pensamento revolucionário é uma da grande influência dos membros da Al Qaeda. Em comum todas têm o desejo de um Islã puro e sem acréscimos.

O Cristianismo também tem seu fundamentalismo, seu movimento de volta às raízes supostamente puras pré-institucionais, presente em alguns grupos protestantes. A diferença é que eles, por mais questionáveis que sejam suas crenças e atitudes, não estão explodindo ninguém. Há algo diferente no Islã.

Qual a causa espiritual mais profunda dessa facilidade para o fundamentalismo e a militância violenta (que existe em todas as religiões, mas aqui encontra condições mais propícias)? Algo da resposta pode ser econtrado aqui: The Closing of the Muslim Mind. Na opinião de Robert Reilly, o autor, o problema não é uma consciência revestida do sobrenatural (como argumentaria Martin Amis acima linkado), mas sim o tipo de sobrenatural do qual ela se reveste.  O Islã já nos deu grandes mentes. A teologia racional, no entanto, bem como todo o ímpeto científico, foram condenados no berço; houve um período de conflito intelectual, assim como houve no Cristianismo (e a vitória, no Ocidente ao menos, foi para o lado que afirma o valor da razão), mas no final das contas a posição denominada asharita venceu. O que ela ensina? Tudo é vontade arbitrária de Deus e ponto final. Na filosofia da natureza, isso significa negação da causalidade; na ética, negação da lei natural. Na prática, sociedades miseráveis e homens-bomba. Ao homem cabe calar sua razão e se submeter; aniquilar tudo que não a fé. Isso coincide com o que viu e descreveu V.S. Naipaul na sua Wriston Lecture no Manhattan Institute em 1990.

Em dias normais sou um otimista e acredito no que há de sadio, tolerante e belo no Islã. Mas notícias como as atuais acentuam seus aspectos mais sombrios: o vazio interior, a violência, o totalitarismo do sagrado na vida do indivíduo. Resta saber se são aspectos contingentes ou necessários dessa que é a segunda maior religião do mundo e com a qual, querendo ou não, teremos de conviver.


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