Última defesa de André Rieu frente Lang Lang
Data do post: 27 de junho de 2012
Embora a discussão sobre André Rieu pareça ter se alongado, me vejo obrigado a retornar ao maestro. Antes de tudo, em um primeiro texto, onde o comparo a Lang Lang, me vi causando forte comoção entre os eruditos – recentemente cheguei a ser acusado de ser um ignorante musical. Mas preciso retornar ao tema pois meu argumento central seguiu intocado: afinal, que tipo de universo mental é este da apreciação clássica, que faz com que avaliemos performances como um desdobramento da ética?
Uma rápida olhada nos comentários suscitados nas redes sociais pode servir para ilustrar a celeuma. Grosso modo, podemos dizer são uma versão curiosa do politicamente correto, a ser resumida como “Rieu e sua orquestra representam a decadência da indústria cultural massificadora de nossos dias”.
Estes críticos estariam melhor em uma espécie de ECO 92 dedicada não ao meio ambiente mas à “programação das rádios”. E como todo eco-chato, tenho certeza, sairiam dali legislando de forma proto-totalitária sobre aquilo que devemos ou não ouvir – tudo, é claro, para o nosso próprio bem e o de nossos ouvidos. Este viés crítico, como toda militância, conta com sua referência entre os doutos. Um respeitável professor de uma das instituições mais importantes do ensino de música do Brasil, elogiando o artigo do Leonardo Martinelli, manda ver:
Esses gênios em fazer $ com música híbrida (ou hermafrodita) não convertem essa horda de hereges ignaros em apreciadores do biscoito fino europeu. Eles apenas criam um gênero paralelo, e gostam dele, fruem dessa outra corrente. Dificilmente eles passam à casta da boa música clássica, eles entram em uma canoa criada para bater-lhes a carteira, e gostam disso. Não gostam de Bach ou Beethoven, gostam daquilo ali. Para quem citou Adorno, que se referia ao ‘som eunucóide da jazz-band’, ele simplesmente gastaria três edições da [Revista] Concerto para demolir esses novos ícones. Parabéns aos ‘Meninos da Concerto’: vocês estão criando uma pequena ‘Sorbonne’ musical com essas proposições. A César o que é de César, ao Rieu Rien.
O público de Rieu é portanto feito de “hereges” e tolos que sentem prazer em ver sua carteira batida. Aquilo que Rieu faz não é digno de nota, pois não é Bach ou Beethoven – a Rieu, sequer as batatas, a Rieu nada! O professor explica o que para ele faz, ou deveria fazer, esta “pequena Sorbonne”: com ela “teremos evoluído no sentido de um espírito de crítica, pela discussão, pelos conflitos que nos mostram soluções ou caminhos.” Dada máxima vênia ao professor, me permito entender que a solução é a da exclusão daquilo que não gostamos! Tanto assim que segue com uma analogia não muito feliz mas absolutamente relevante para entender o meu texto anterior:
O fato de Rien ter despertado esse debate não lhe dá mérito algum. Na história, Hitler, Stalin, o Golpe de 64 foram péssimos, genocídios, e não foram, pra dizer o mínimo, necessariamente merecedores de qualquer coisa que não os livros de história e um exemplo do que não deve ser seguido…
Não à toa, esta forma de crítica se desdobra nas tantas e indelicadas referências ad hominem que pululam em nossas redes – “o que não entendo é do porque essas pessoas ficam dando atenção a alguém medíocre como ele”, “sinceramente algo ruim tem mesmo é que ser esquecido!” ou “na Holanda, o nome Rieu = Riool – significa esgoto – Andre Riool!”.
Se você acha que contra estes pouco se deve dizer, são nada além de torcida organizada, está errado. O “não falemos de Rieu, ele não é dos nossos, ele não é importante”, pode parecer inócuo, mas não é. Quando se espalha que Rieu não tem mérito algum sobre o debate, advoga-se, conscientemente ou não, a chamada espiral do silêncio em torno do violinista. Suponho que, se nossos músicos clássicos tivessem o poder das gerações da MPB da década de 70, Rieu seria ostracizado no Brasil. Eu detestaria pensar que se dependesse de meus amigos Rieu acabaria como Wilson Simonal. Não por ser a favor da ditadura mas por ser pouco sofisticado.
E olha que coisa: a Rieu devemos todo o mérito do debate. Ou a maior parte do mérito, já que o outro devemos à Revista Concerto. Mas a Revista se mostrou relevante exatamente por não ser a Sorbonne – o texto de Martinelli, que provocou tudo isso aqui, tem a qualidade extraordinária de se posicionar inequivocamente sobre um assunto que não está intramuros. A César o que é de César. Olhando para o mundo, saindo da toca – coisa que todo músico clássico tem medo, e a Revista Concerto não tem -, querendo ou não, gostando ou não, lidando com o mundo para além de uma casca de nós, será inescapável admitir que no Brasil, neste primeiro semestre de 2012, tivemos apenas dois assuntos relevantes na editoria “música clássica”: a transmissão ao vivo pela web do primeiro concerto da Temporada Osesp, e a vinda de André Rieu e Lang Lang. Foram os únicos assuntos que saíram do consumo do gueto e, por isso, se colocaram no diálogo aberto com toda a sociedade.
Não importa quantas críticas se façam sobre a falta de homenagens ao saudoso maestro Eleazar de Carvalho, não importa quanta reclamação se publique sobre crossover – o Brasil ainda vai transformar o papel do “crítico musical” no de “cobrador musical”, no estilo do protagonista do conto de Rubem Fonseca –, com exceção daqueles dois assuntos, tudo o mais que se publicou durante este primeiro semestre foi feito para consumo interno, papel gasto estritamente para nós, tarados pela boa e velha música clássica. Alguns de nós preferimos que siga assim. André Rieu e Lang Lang, ao menos pelo trabalho que fazem, posso imaginar, parece que não.
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O assunto Rieu/Lang é bom para outras averiguações. Aproveite a mesa necessariamente eclética do final de semana, puxe papo sobre música clássica e veja o que é passível de empatia. Em qualquer ambiente, seja com senhores cultíssimos, seja com seu amigo do treino de jiu-jitsu, sobrará como assunto em comum a figura controversa de John Neschling na Osesp (papo antigo, mas sempre requentável), a vinda de André Rieu e Lang Lang, a transmissão pela internet dos concertos web.
Então a pergunta: as pessoas precisam de música clássica ou a música clássica precisa das pessoas? O sujeito que mais admiro em São Paulo é um marceneiro que veio, como muitos de nós, tentar a vida por aqui. Com força e caráter extraordinários não precisa, do ponto de vista da coragem e trato social, um segundo sequer das sinfonias de Beethoven; Richard Wagner, por sua vez, conhecia a obra completa do gênio de Bonn. Não trocaria minhas tardes com um por tardes com outro.
Por isso a pergunta é boa. Foi recolocada, em outro contexto, pelo professor André Egg de Curitiba em um artigo bastante curioso, de título controverso, “Em defesa da música clássica contra Leonardo Martinelli”. De André conheço apenas um ensaio, ao qual sempre recorro para minhas aulas do “Falando de Música”, que discorre sobre o Partido Comunista e o movimento nacionalista musical brasileiro.
A despeito do ponto central ser de fato excelente – ponto central que é resumido na pergunta acima – é claro que o artigo é um pouco ingênuo. Sobretudo por confundir seu diagnóstico com uma eventual solução, e esta sugerir que a música clássica precise de menos “clássicos” e mais “contemporâneos” nas salas de concerto (não, Egg não sugere que Rieu é um representante da Neue Musik, como comentam maldosamente alguns pelo Facebook…); escrevendo a partir de Curitiba, Egg deve evidentemente espelhar um pouco as cores locais da programação e acusar aquilo que sente falta. Mas, é claro, deste particular não seguimos tautologicamente para o geral pois, evidentemente, não é o caso em toda parte. Em São Paulo não faltam concertos com música contemporânea (para alguns, há até demais), há fãs de Brahms e Rieu aos montes – inclusive, conheço quem seja fã dos dois ao mesmo tempo.
Ouso dizer que não falta sequer público para concertos contemporâneos. Falta é capilaridade – em música nova, ouvimos sempre as primeiras que são as últimas audições. O problema dessa relação “contemporâneos x público” é antiga, e na tradição clássica remonta o século XIX. A síntese do problema, desde então, parodiando Millôr, é que a maior parte dos compositores contemporâneos não são compositores… e, ouvindo bem, nem são assim tão contemporâneos!
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Para terminar, Guilherme Malzoni retorna ao dilema: por quê Lang Lang faria tão mal? Não faria pois não faz. É todo esse o argumento do meu ensaio original – que reivindica a Rieu o que é de Rieu. O caso é que a crítica quer que ele seja também um educador, um intelectual, alguém à altura de Mozart para solfejar Mozart em público. Mas na prática pouco importa se Rieu, Emerson Lake & Palmer e Michel Teló assumem Beethoven de ouvido, e saem umbigando-o por aí – isso nada tem a ver com Beethoven, meu Deus! Beethoven está morto e nem a Berliner Philharmoniker regida pelo Papa o trará de volta. O único dever moral de um intérprete é com os vivos, não com os mortos, e por isso a cultura – e a história – da performance é tão diferente da história das composições a que estamos habituados.
Assim como quer de Rieu o que ele não pode dar, a crítica assume de Lang, por default, o que ele não estaria apto a entregar – a renovação. Por isso Lang faria mal, pois como educador ou renovador é uma piada. Pouco importa que seu público tenha na Sala São Paulo uma nova versão de uma sonata inteira de Schubert – o mais provável é que quem ouviu o Schubert de Lang tenha achado Schubert um chato (vide referência de Guilherme sobre Beethoven) e tenha saído dali curtindo a “Campanella” de bis. Acharam a “Campanella” mais legal que o Schubert – na verdade, para o grosso do público, como para mim, Schubert só serviu para retardar a chegada da “Campanella”. Todos naquela ocasião vilipendiamos Schubert pois queríamos mesmo ouvir o bis!
Preferir Liszt a Schubert… Faz algum mal essa escala de valores? A princípio não. Guilherme está certo, e Lang está mais a vontade com Liszt pois ambos estão mais ao nosso gosto de guitar heroes que o melancólico Schubert ou o heroico Beethoven. A música clássica é eclética e muito mais democrática que seus defensores: ela comporta com facilidade Bruckner, a “Campanella”, Lang Lang e Pierre Boulez. O que acontece é que, por vezes – e isso aconteceu com Rieu – a crítica, para renegar um de seus patinhos feios, assume como critério primeiro para avaliação de performance o impacto didático do artista. Aí temos problema. É neste sentido, apenas neste, que se Rieu poderia fazer mal, Lang faria ainda mais. Mas meu ponto todo é que não devemos ter este pressuposto quando assitimos um concerto de música clássica, assim como não podemos ter esse pressuposto quando assistimos um show do Bob Dylan. Para quem quer aprender temos o “Falando de Música”, o Conservatório de Tatuí, um acervo enorme de gravações, estudos musicológicos vários…
Não deveríamos fazer das salas de espetáculo meros espaços educativos. Não seria bom nem para o espetáculo nem para a educação. Quanto aos fãs de Rieu: os intelectuais precisam perceber que as pessoas não são piores apenas por gostarem de diversão. Aliás, é bom que gostem. E, em diversão, Lang e Rieu são mestres e não fazem mal algum a ninguém.
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Em busca de Molière
Comparar Lang Lang com André Rieu pareceu exagerado até para quem não gosta da música do pianista. Meu quase xará Leonardo T. Oliveira foi o primeiro a ocupar o espaço de comentários abaixo do post, desdobrando-o em duas pertinentes observações que foram, posteriormente, retrabalhadas em um longuíssimo ensaio no seu excelente blog, Euterpe. É sempre motivo de alegria ver um texto – mais precisamente meu apelo à tradição da performance – se tornar ponto de partida para um algo da complexidade proposta pelo Leonardo. Mas em todos seus argumentos segue algo que pode ser resumido com “o Lang Lang é no máximo um músico sensacionalista (…)Rieu é uma verdadeira prostituta musical.” A inadequação de Lang seria menor que de Rieu – pois o primeiro, embora se valha do texto para aparecer, preserva seu conteúdo; o segundo, simplifica-o a não mais poder para alcançar mais gente. Do primeiro, o dinheiro é efeito colateral, do segundo é o objeto, a música é o meio.
Mas crítica musical trata de recepção, não intencionalidades, que é matéria para psicanalistas e confessores. O artista, como o ser humano, pode ser cheio de boas intenções e mesmo assim fazer coisas abjetas. E vice-versa. Não à toa foi nestes termos que terminei o artigo, dizendo do esforço empreendedor de Rieu, e jogando no salseiro Lang, que sequer era objeto do artigo do outro Leonardo, o Martinelli, involuntariamente responsável por toda esta deliciosa discussão; pleiteei o empenho de ambos, exatamente por não saber se Rieu e Lang são ou não, no íntimo de suas consciências, “do mal”. “O diabo, na rua, no meio do redemunho”…
(Após a versão de Rieu de “ai se eu te pego”, que escandalizou alguns, sugiro a visita ao Lang na Sonata ao Luar aqui)
O que sim estava no argumento de Martinelli – e é reiterado de alguma forma por T. Oliveira – é o desdobramento desta primeira posição: pois agindo como age, Rieu deseducaria o público. Sua maldade não está, portanto, naquilo que faz com Mozart, mas naquilo que o público passa a entender por Mozart depois de ouvir Rieu. Embora sofisticado, não me convence. Joel Pinheiro – antes de um post próprio sobre o fenômeno das tosses entre movimentos, excitado pelo blog de Álvaro Siviero do Estadão – já havia resumido bem o outro lado da questão: este argumento tem como premissa que “se André Rieu não existisse, as multidões que vão a seus shows estariam ávidas pela orquestra sinfônica de Berlim” Sabemos que não – aliás, era mais barato ouvir a Sinfônica de Berlim no Teatro Municipal há duas semanas atrás que André Rieu no Ginásio do Ibirapuera. No íntimo da argumentação está a mais perversa das colocações, ao assumir que as platéias de Rieu não sabem fazer suas escolhas, e que o crítico é sim uma figura mais evoluída que aquela gentalha a pagar R$600,00, todos revisitação de Monsieur Jourdain a espera do tutor ou doutor adequado. Mas, lamento informar, quem vai no Ginásio vai se divertir, não se educar. Aliás, e isso é bom, eles não acham que música clássica é matéria de educação. E neste sentido o público – o grosso do público – não difere muito daquele de Lang Lang, também ali para ver e ouvir um fenômeno que eles não entendem direito mas que todo mundo diz que é bom…
Rieu e Lang são os únicos músicos clássicos que conheço que poderiam parafrasear Miles Davis e dizer “if I don’t like what they write, I get into my Ferrari and drive away”. Eles definitivamente não precisam de nós. E não precisam de nós os que pagam por seus ingressos. Fiz a comparação não para defender um e atacar o outro, mas para demonstrar que nada do que eles fazem é moralmente acusável – e pleitear tais instâncias é no mínimo uma forma de entendermos algumas das ideologias com a qual ouvimos música clássica.
Certa feita ouvi um rabino defender, frente a um ateísta, a virgindade de Maria. Bem humorado, terminou dizendo que aquela não era melhor maneira de passar a noite mas, por tratar do que para ele era uma ilustração fundamental da fé, não se absteria de discutir o assunto. Eu não queria estar aqui a falar de Rieu e Lang, mas as questões que suscitam são das melhores.
Uma última nota: é fazendo o que faz que Rieu invoca esta ótima discussão a ganhar espaços nas páginas do Estadão; acaba o gajo a fazer sim um belo serviço à música clássica. Como bem disse o Joel “a existência do pior, do inferior, danifica em algo, ou tira o interesse que existiria pelo, superior?” Saímos todos melhores com o caso.
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