Viagem à Itália II – O Natal é para todos
Data do post: 26 de fevereiro de 2010
Um mês foi o tempo que passei na Itália; um mês é o tempo que passou desde o primeiro post sobre a viagem. Mas viajar não é bater ponto, e escrever é aceitar que o tempo passa.
Então voltemos a uma tarde chuvosa. Havíamos almoçado no Trastevere e a garoinha que caía não deixou dúvidas quando um taxi apareceu. Era véspera de Natal e todos me diziam que seria impossível conseguir um taxi às nove da noite para ir ao Vaticano. Perguntei ao motorista se era mesmo tão difícil:
- Ma certo… C’é Natale per tutti!
- Vabbè… ma non ci sono taxisti mussulmani?
- Èh… ma non è tanto una questione religiosa… Perchè oggi c’è da mangiare. [vira para trás como se a rua fosse um detalhe desprezível]. È Il giorno che si mangia di più in tutto l`anno!
Isso me lembra da resposta dos italianos à proibição de cruzes em locais públicos e todo o rebuliço que se seguiu: prefeitos indignados, senhoras chorando, cruzes de 10m em praça pública, etc. e etc. O pessoal da Dicta ficou todo contente, como se fosse um gesto realmente heróico. Não sei não, acho que mais preciso foi meu taxista: non è tanto una questione religiosa, perchè c’è da mangiare!
Por lá, nada substitui a teatralidade do gesto; e nada passa muito da teatralidade do gesto…
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25.12.2009
- Hai vissuto un giorno storico ieri!
- Non lo sai, Principe, ero proprio li. La ragazza era a due passi di me!
Essas foram as únicas palavras que consegui dizer ao anfitrião no almoço de Natal – e elas não expressam completamente a frustração da noite anterior. Ao contrário do que havia previsto o taxista no Trastevere, encontrar um taxi foi a parte mais fácil daquela noite.
No dia anterior havia conseguido um convite todo especial para a Missa do Galo. Vermelho. Com lugar marcado. Na décima segunda fila. Tudo indicava que seria uma noite de Natal muito especial – e não seria um atraso a acabar com o programa. A missa começaria às dez da noite e o convite avisava que “a entrada será permitida a partir das 20hs30″. “Vamos chegar às nove; é cedo o suficiente para não correr risco e, afinal, temos lugar marcado” – foi o que pensei. Mas não o que aconteceu.
Chegamos à Piazza San Pietro e o que impressionou não foram as colunas de Bernini, mas uma fila que fazia um caracol de duas voltas entre elas. “Mas meu convite é vermelho”. Perguntei a um guarda onde seria a entrada e ele começou a acompanhar a fila com os olhos: era a mesma para todos. Pensei em furar a maldita, mas logo senti um misto de vergonha e medo – “furar fila de missa é Inferno na certa!”
Quarenta e cinco minutos se passaram e quando finalmente entramos na basílica uma sensação especial tomou conta de todos. Era como se estivéssemos na final do campeonato italiano, Roma x Lazio. Eu devia mesmo era ter furado aquela fila e chegado ao meu lugar em paz. Mas que nada, nesse momento até as Carmelitas davam cotoveladas umas nas outras para garantir o seu cantinho. Uma desordem completa.
Oito cotoveladas depois, cheguei à lateral da igreja rumo ao bendito lugar marcado, mas agora para ouvir da guarda papal que não poderíamos entrar. “É uma questão de segurança. O papa está chegando e lá dentro já está tudo lotado”, dizia o mais bravo. “Daqui a pouco a gente dá um jeito”, dizia o outro, mais caridoso com as várias pessoas que como eu tinham ficado presas naquela fila sem sentido.
E de repente entra o Papa. Agora sim uma comoção real, capaz até de ultrapassar a coluna que bloqueava completamente minha visão da cena. Foi sem ver nada que ouvi apenas um grito histérico, seguido de um silêncio completo. Devem ter tido vários gritos e o silêncio certamente não foi completo. Mas não importa: para mim foi um grito e o mais completo silêncio. Vocês lembram da história. Só voltei ao normal quando cinco guardas passaram exatamente na minha frente arrastando uma moça com a brutalidade esperada para ocasião.
“Viva il Papa”. E a multidão respondeu: “Viva il Papa”. A música voltou a tocar e minha esperança de chegar ao lugar foi embora junto com o Cardeal que passou numa cadeira de rodas. O papa levantou, a missa prosseguiu e tudo o que conseguia ver era uma coluna da Basílica de San Pietro. Ainda tentei achar um lugar, furar o bloqueio, subornar o guarda… Não, antes de subornar o guarda simplesmente reconheci que todo aquele teatro – a fila, a multidão, a louca – tinham acabado com minha chance de assistir à Missa do Galo. Fui-me embora.
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“Mas e o Príncipe?” – dirá o leitor curioso.
Na Itália é assim: nada passa da teatralidade do gesto porque tudo está na teatralidade do gesto.
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Feliz Natal
Data do post: 24 de dezembro de 2009
As aparências podem enganar. O verdadeiro sentido do Natal não é comprar presentes, e nem mesmo celebrar o nascimento do Papai Noel. Quer saber um pouco mais sobre essa festa, oriunda de uma cultura tão estranha à nossa? Leia aqui sobre as origens do velho rechonchudo, em artigo de Alastair Sooke para o Telegraph. E se os seus interesses pendem mais para a arqueologia do que para a história, que tal entrar na busca pelos ossos de S. Nicolau? Agora parece que eles estão na Irlanda.
O nascimento de um menino pobre num estábulo num canto esquecido do Império é comemorado 2010 anos depois; e seus ensinamentos e exemplos, uma religião excluída dentro de uma religião excluída, fundaram uma civilização. Dá o que pensar, e traz à mente as palavras de Sto. Agostinho: se o mundo se converteu sem milagre algum, então este é um milagre ainda maior.
Feliz Natal a todos!
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O álbum de Natal de Bob Dylan
Data do post: 5 de agosto de 2009
Isso mesmo, você leu corretamente. Bob Dylan lançará um álbum de músicas natalinas; mas não espere o bardo fanho cantar “White Christmas”; na verdade, são canções tradicionais religiosas dos EUA.
Mais informações aqui
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Mensagem de Natal 2008
Data do post: 23 de dezembro de 2008
This is the Month, and this the happy morn
Wherein the Son of Heav’ns eternal King,
Of wedded Maid, and Virgin Mother born,
Our great redemption from above did bring;
For so the holy sages once did sing,
That he our deadly forfeit should release,
And with his Father work us a perpetual peace.
John Milton, “On the morning of Christ´s Nativity”.
De todas as épocas do ano, o Natal parece ser a mais carregada de “peso”, de “sombras”. Claro que a ocasião é de festa: afinal, é Deus quem nasce, mais uma vez. Mas é de se pensar que ninguém sabe o que acontece quando Deus nasce. Por isso, o “peso”, as “sombras”. Em um mundo dominado por uma “crise” que jamais encontra uma solução, o Natal parece ser somente uma ocasião para comprar e dar presentes ou, pior, para descansar a cabeça de um ano díficil e preparar-se para um ano que promete ser mais díficil ainda.
Entretanto, ele não é apenas um “descanso para a mente do homem comum” ou o “nascimento de Deus”. O Natal é o nascimento do Deus que veio para nos salvar – eis a diferença. Um deus pode nascer e até ajudar o crente em seus caminhos no mundo tortuoso; mas um deus que nasça para salvar efetivamente o crente e, ainda depois deste resgate, continua a ter paciência para dar conselhos e confortá-lo – isso sim é quase impossível (e olhem que o tal do crente nunca é o melhor dos seres humanos).
No entanto, isso aconteceu – e a rejeição deste simples fato coloca em perigo não só uma questão civilizacional, mas também a nossa própria existência pessoal. Vivemos em um mundo que, mais cedo ou mais tarde, vai nos devorar em suas presas e temos Alguém com quem, através de um pouco de esforço, podemos conversar, dialogar e chegar em finais muito surpreendentes. E este Alguém também pede muito pouco – na verdade, segundo o Salmo 51, pede apenas um coração verdadeiramente contrito. Por “contrito” entenda-se o verdadeiro exame de consciência que só você e Deus podem saber o que se passa dentro do seu coração. Mas se perdermos a noção deste Alguém, como poderemos conversar, dialogar? Perdemos isso e tudo está perdido – nada mais, nada menos.
O Natal serve para mergulharmos nas suas “sombras”, no seu “peso” e relembrarmos constantemente que o nosso nascimento não acontece em um único dia, mas em todos os dias. O mesmo ocorre com a Ressurreição – que é um Natal redobrado, por assim dizer. Esta é a verdadeira alegria deste evento – uma alegria agridoce, sem dúvida, pois, como nos lembra São João de Ávila, a madeira da manjedoura é o prenúncio da madeira da Cruz. Mas entre uma e outra há todo um percurso e é nele que esse Alguém está do nosso lado, sem hesitar, sem nunca recusar seu conforto, mesmo que seja no mais perturbador de todos os silêncios.
Um Feliz Natal e um Próspero Ano Novo para todos os leitores que fizeram da Dicta&Contradicta uma realidade!
24 de dezembro de 2008.
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O Fim do Advento?
Data do post: 1 de dezembro de 2008
Começou oficialmente o Advento, aquele tempo de expectativa e preparação para o Natal. Mas será que nossa sociedade, querendo valorizar e exaltar o Natal (ou certos aspectos dele), vem perdendo a noção do Advento, que é condição necessária para dar-lhe significado? Estaria o Advento, que mal começou, já próximo do fim? O texto é de Joseph Bottum, conhecido nosso do número 1.
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