O elogio da mãe chinesa
Data do post: 7 de fevereiro de 2011
Nosso modo ocidental, moderno, de educar a criança é fazer com que ela se sinta amada e querida, fomentando assim sua auto-estima. Papai e mamãe vão ficar felizes mesmo se você não ganhar; é só dar o seu melhor!
Com a mãe chinesa é diferente. Ela não hesita em humilhar seus filhos e rebaixá-los moralmente; chega a delicadezas como chamá-los de “lixo”. Obriga-os a treinar e estudar até que superem, na marra, suas dificuldades. Se não ganhar, apanha. O ponto é que, depois de muito sofrimento, os filhos alcançam, em geral, as primeiras colocações no que quer que estivessem praticando. Os ocidentais, por outro lado, cheios de auto-estima mas com poucos troféus.
Esse é o ponto de vista chinês que está ganhando espaço na mídia de língua inglesa.
O sucesso, digamos, técnico dos chineses é inquestionável. Pergunto-me, contudo, se essa mesma pedagogia que produz pianistas e engenheiros impecáveis produzirá também compositores, filósofos e empreendedores capazes de não apenas obedecer, e sim liderar com perfeição. Imagino também qual o destino daqueles que, depois de toda a pressão, fracassam? Não que a saída “deixe a criança fazer o que lhe der na telha” pareça superior; deve haver um equilíbrio desejável por aí.
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O que Hernán Cortés tem a nos ensinar
Data do post: 3 de janeiro de 2011
Em 2010 uma serpente emplumada me mordeu e fui tomado de um interesse febril pelos povos meso-americanos. O foco desse interesse estava no primeiro encontro deles com os europeus, que é sem dúvida um momento capital da história universal. Ao mesmo tempo, resultou numa das maiores tragédias da história que foi a destruição dos povos, civilizações e culturas que aqui viviam antes de chegarem as caravelas. A febre já passou, provavelmente para nunca mais voltar. A cura se deu quando cheguei a uma conclusão óbvia, já sabida por muitos, e mesmo por mim, de antemão, mas agora vista com clareza. Deixe-me traçar brevemente o itinerário que percorri.
Nunca fui daqueles que vêem os conquistadores como grandes vilões e os nativos como astrônomos hippies amantes da natureza. Contudo, aprendi que igualmente falsa é a representação do mundo asteca como um reino de horror idolátrico e bestial em níveis dignos de Lovecraft. A história real é bem mais interessante. E uma boa fonte, pela qual comecei, é ler o relato de Bernal Diaz del Castillo, um dos soldados de Hernán Cortés (soldado ralé, o que lhe deixava relativamente isento dos interesses dos poderosos) na expedição que culminou na tomada de Tenochtitlán. O que dali emerge é, em primeiro lugar, uma história contingente, acidental, que poderia ter sido muito diferente. Em nenhum momento há um plano consciente de dominação; há oportunidades que são agarradas no calor do momento; há tentativas de amizade e paz, enganações e armadilhas dos dois lados. Durou pouco a impressão de que os espanhóis fossem deuses, embora o apelido tenha permanecido; durou pouco também o horror aos cavalos, que logo estavam sendo sacrificados, junto com soldados capturados, à vista do acampamento espanhol para lhes meter medo. Em um episódio dramático, os conquistadores foram quase dizimados e tiveram que fugir desesperados cada um por si. A varíola chegou casualmente, trazida por um escravo negro; Bernal nota o contágio estranhamente forte entre os indios. Acima de tudo, é uma história de personagens singulares, como Gerónimo de Aguilar, padre franciscano que precedera os conquistadores e que vivera por anos como prisioneiro numa cidade nativa até ser resgatado e tornar-se intérprete de maia do grupo (outro sobrevivente, numa vila próxima, atingiu condição de proeminência e preferiu a nova vida a juntar-se aos espanhóis); La Malinche, a nativa de Tabasco que, além de entender tanto nahuatl quanto maia, tornou-se amante de Cortés e deu-lhe seu primeiro filho homem, considerado o “primeiro mestiço”; Montezuma, o rei asteca, alternadamente astuto e pueril, que embora feito refém pelos conquistadores tornou-se amigo de todos, levando os raptores a chorarem sua morte acidental numa escaramuça (e maldizerem o frade que ainda não o tinha catequizado devidamente).
Dentre todas as figuras notáveis, entretanto, uma se eleva sobre as demais, particularmente forte e enigmática: o próprio Hernán Cortés. Movido ao mesmo tempo por sede de poder e pela lealdade para com seu imperador e colegas, colecionador de amantes e defensor zeloso do Catolicismo, Cortés é um daqueles personagens tão singulares que se pode dizer que, tivesse não existido, o rumo de nossa história teria sido outro. Nada o explica perfeitamente. Sua campanha ia contra os desejos das autoridades espanholas estabelecidas na América, e num momento decisivo ele teve que convencer exércitos espanhóis que vinham combatê-lo a se juntar a ele. Suas cartas, outra leitura indispensável, são um incessante jogo de tecer relações favoráveis com as autoridades locais e com o Imperador para que ninguém entrasse em seu caminho. Ao chegar numa cidade nova, tratava de estabelecer um trato amigável com os chefes, o que lhe seria útil mais à frente. Ao mesmo tempo, fazia questão de instituir o Cristianismo à força, mesmo que de forma tão desastrada e turrona que lhe prejudicasse a estratégia de conquista. Havia um frade no grupo (além de Aguilar, o tradutor resgatado), que, talvez devido a sua experiência com a fraqueza e inconstância humanas, aconselhava uma conduta prudente e tolerante: deixe os nativos com seus ídolos e vícios, evangelizemo-os aos poucos, de forma que eles possam entender a religião e queiram se converter. Cortés não queria nem saber; chegava à nova cidade, queimava os ídolos, erguia uma cruz e um altar à Virgem e ordenava que práticas pagãs (sacrifícios humanos, canibalismo) cessassem imediatamente sob ameaça de guerra. Talvez mais que a sede de poder, guiava-o o desejo da aventura e do heroísmo. Era ele, então, o resultado concreto de séculos de romances de cavalaria, cuja era de sonhos ingênuos chegava ao fim. Leia mais…
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Domar o dragão?
Data do post: 5 de fevereiro de 2010
Qual a melhor maneira para o Ocidente lidar com a China? Tentar adaptar seus valores às particularidades chinesas ou proclamá-los sem concessões? É uma questão que já criou conflitos entre jesuítas e dominicanos e agora pesa sobre governos e empresas ocidentais. Artigo do Wall Street Journal.
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We call them “cowboys”
Data do post: 19 de julho de 2009
Tive a sorte, nesta semana, de conhecer Rémi Brague numa palestra, descrita num artigo do Tagespost (em alemão) e comentada em meu blog.
Mas o que nos interessa aqui é uma surpreendente entrevista publicada em The Clarion Review intitulada “Yellow Ants“, Fundamentalists, and Cowboys. Ela servirá de introdução às principais preocupações desse ‘pensador’ no melhor sentido do termo.
Deixo um trecho apimentado como propaganda:
Do you think there is a threat that Europe may lose this unique openness? Is the West becoming ‘normal’?
With the decline of Christianity and classical education, the West is indeed becoming less and less interested in the classical sources of our civilization. Knowing less about our own civilization also seems to make us lose the ability to listen carefully to what we could learn from others. The Chinese show us that to survive you must work. And what do we do? We call them “yellow ants”. Muslims show us that to survive, you must procreate. We call them “fundamentalists”. Americans could teach us that you must not blind yourself to the fact that you have enemies. And what do we do? We call them “cowboys”.
Why are we allowing this to happen?
Perhaps we have become victims of our own success. It seems Europeans have eaten the carrot of civilization that used to spur them onwards. To survive, we must learn to remain humble, in spite of our successes.
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Perdão e Ironia
Data do post: 14 de maio de 2009
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