IFE - Instituto de Formação e Educação
RSS

Compre o Livro

História, honestidade e autoria

Filed under: História incluído por Julio Lemos
Data do post: 22 de maio de 2013

por Felipe Pimentel

No parágrafo oitavo do Livro I[1] das “Histórias” de Heródoto temos a seguinte passagem (é preferível evitar qualquer qualificação da passagem como anedota ou enigma antes de examiná-la com demora e cuidado):

Heródoto está a contar a história de Candaules, filho de Héracles (da família dos Heracleidai) e governante de Sardis, cidade da antiga Lídia. Candaules escolhera entre seus lanceiros um que especialmente lhe agradou, chamado Gyges (da família dos Mermnadai), a quem confiava não só os negócios mais importantes, mas também seus maiores segredos. Entre tais confidências, constava especialmente os insistentes elogios de Candaules à beleza de sua própria esposa. Mas Heródoto nos diz que Candaules desiste de somente falar a Gyges sobre este último tema e parte para uma estratégia mais audaz: “Gyges, acho que você não acredita em mim quando lhe falo da beleza de minha esposa, pois acontece que os homens confiam menos em seus ouvidos que em seus olhos. Imagine como poderias vê-la nua.” Gyges protestou veementemente e disse: “Mestre, que espécie de palavras néscias são as que afirmas, licitando-me a olhar sua mulher nua? Quando uma mulher desvenda sua túnica, ela também desvenda sua modéstia. Além disso, de velhos tempos temos aqueles justos ditos descobertos pelos homens, dos quais retiramos alguma sabedoria; e destes, um é que ‘cada homem deveria considerar por si próprio. (…)’”

Apesar dos pudores de Gyges, Candaules explica-lhe a situação: quando sua esposa chega em casa, ela tira suas roupas e as joga uma a uma em uma cadeira na entrada do quarto. Da cadeira até a cama, ela percorre o quarto nua. Segundo o rei, Gyges poderia esconder-se no quarto e espreitá-la neste curto, mas crucial trajeto. À noite, Candaules preparou a emboscada para sua própria esposa. Gyges escondeu-se no quarto e, conforme havia relatado o rei, assistiu à rainha retirar as vestes lentamente e caminhar lentamente até seu leito.

(Nada nos diz Heródoto sobre a nudez da rainha.)

Ocorre que Gyges tenta escapulir do quarto com os devidos pés de lã, mas um pequeno estalido faz a rainha ouvi-lo e vê-lo sair do quarto. Mas Gyges, por sua vez, não nota que ela o percebe. Percebendo que a entrada de Gyges em seu quarto era uma trama de seu marido, a rainha nada faz, mantém silêncio, cai no sono, esperando o próximo dia.

Na manhã seguinte, a rainha manda seus lacaios chamarem Gyges, e este, sem saber da ciência da rainha, vai a seu encontro e ouve: “Há dois caminhos abertos para você, Gyges, e eu lhe deixo escolher o que preferir. Ou você deve matar Candaules e possuir a mim e ao reino da Lídia, ou você deve aqui mesmo ser morto, de forma a que não possa no futuro, por obedecer a Candaules, ver o que não deveria.” Na encruzilhada entre a morte e um reinado (e aqui percebemos já um primeiro indicativo da distinção entre a história e o épico), Gyges escolhe viver. Refinando a vingança, a rainha exige-lhe que mate o rei pela mesma emboscada que dera origem à vingança: escondido no mesmo lugar, na mesma hora, no mesmo quarto. Armado com um punhal, na mesma noite, Gyges vinga a rainha da traição do rei, na qual ele próprio era partícipe. Termina Heródoto: “Assim, os Mermnadai obtiveram o governo ao usurpá-lo dos Heracleidai.”

Essa passagem conta a primeira história do livro de Heródoto. De forma que, sendo Heródoto, desde a denominação ciceroniana, o pai da História, essa é a primeira história do mundo. Ironias à parte, é o relato que Heródoto utiliza para ilustrar, trágica ou comicamente, sua metodologia da história:[2] o privilégio do olhar (opsis) sobre o ouvir (akoë)[3] e a articulação dessas ferramentas dos sentidos com a inteligência (gnomë) na formulação do saber histórico. É um conto que coloca em jogo a inovação que Heródoto buscava trazer neste lento caminho percorrido pelos gregos pelos discursos que buscam a verdade:[4] a história como disciplina e sua difícil relação com suas fontes.

A história, tal como deseja escrever Heródoto, partilha da mesma intenção que a poesia épica cultivava entre os gregos, a saber, a preservação de um patrimônio cultural no qual os homens reconheciam sua identidade ao mesmo tempo em que espelhavam seus comportamentos e ideais. Mas ele se distancia do épico à medida que busca relatar os fatos do tempo dos homens,[5] quando, em vez de de proclamar o célebre “Canta, ó musa, a cólera de Aquiles…”, ele proclama:

            “Eis a investigação de Heródoto de Helicarnassos, para que os feitos dos homens não possam ser esquecidos pelo lapso dos tempos, tampouco possam as obras grandiosas e maravilhosas produzidas algumas pelos gregos, outras pelos bárbaros perderem seu renome; e especialmente que se possa lembrar a causa que pôs em guerras uns contra os outros.” (Herodotus, The Histories, Livro 1, p.3)

Mantém-se o objetivo da preservação dos feitos gloriosos (klea andrön) e também da apresentação de um repertório de comportamentos e dinâmicas, fazendo a história herdeira da poesia épica e aparentada de outras modalidades de apresentação de feitos paradigmáticos,[6] tais como a tragédia, a oratória ou a retórica. Ou seja, como afirma Dosse, trata-se não somente de relatar o feito dos grandes heróis, mas de tratar dos valores coletivos dos homens comuns nas pólis.[7] O historiador somente se afasta, na medida do possível, do maravilhoso que caracteriza sobremaneira o épico (ainda que em Heródoto este afastamento seja muitas vezes pequeno – o que lhe rendeu a fama de mitólogo por dezenas de gerações -, especialmente após a condenação impiedosa de Plutarco em Sobre a malignidade de Heródoto; fama que será inicialmente aplacada pelo livro de Henri Estienne, no século XVI, a favor do historiador de Helicarnassos). É esse afastamento que faria do relato histórico algo menos voltado para o prazer da audiência que para a busca do verdadeiro[8]. E que também fez com que Políbio tenha suposto que seu relato não cairia no gosto de nem mesmo uma classe de leitores; e até Tucídides tenha suposto que a falta do elemento místico lhe retirava todo o sabor… Mas resta a questão: se o historiador não fala, tal como o aedo, pela musa, fala através de quem? Qual a confiabilidade de seu relato?

Para respondermos esta questão, teríamos que investigar a singularidade da história grega diante das outras histórias produzidas na Antiguidade. Muitos antes de Heródoto (ou mesmo de Hecateu de Mileto), temos uma série de textos cronográficos no Oriente próximo, como as crônicas do período acadiano (as Crônicas da Monarquia), os anais egípcios (como a Pedra de Palermo ou os Anais das guerras de Tutmés III), ou mesmo as histórias dos domínios assírios (como a Crônica de Esarhaddon).[9] Em que esses textos históricos se diferenciam dos textos dos historiadores gregos da época clássica? Há alguma singularidade da história que os gregos elaboraram que legitime a paternidade da disciplina?

A inovação grega, tal como demonstrou Wilamowitz, é a colocação do historiador como autor (Wilamowitz, 1908), ou como afirma Hartog: “Os gregos são os criadores, a partir de Heródoto, não da história, mas do historiador como sujeito” (Hartog, op.cit., p.46). Quer dizer, ao mesmo tempo que a historiografia grega se distancia do documento sem autor, ela exige a colocação do historiador como aquele que escreve não a história, mas uma história. Como afirma Nicolai: “A verdade da história antiga reside mais na imparcialidade e honestidade do historiador. “(Nicolai, op.cit., p.17).[10]

E a honestidade e imparcialidade do historiador estão colocadas no modo como ele apreende as evidências daquilo que relata. Heródoto sabe que o ver e ouvir têm de ser acompanhados pela inteligência (gnomë); caso contrário, são evidências cegas. Isto é, a teoria antiga da história foca-se nos ‘meios subjetivos’ (para usar a expressão de Schepens) entre as principais atividades de investigação do historiador. É como se os gregos tivessem intuído (ou mesmo reconhecido da forma mais profunda) a fragilidade do objeto histórico. A questão é sobre como o historiador estabelece contato com a realidade que examina. Quão próximo da coisa em si ele está?[11] (Shrimpton, 1997). É necessário que ele esteja in propria persona?

Não é necessário que o historiador suponha que ele domina o passado, como se fosse alguma espécie de mnemon, função que exerceu um tal Espensítio na Creta Antiga, um homem-memória que prestava seus serviços em julgamentos; ou mesmo como se fosse algum histor, um homem-história, que detém o relato verdadeiro sobre o que aconteceu. O historiador grego flutuava em algum espaço intermediário e corajoso entre essas funções. E é este espaço que pode orientar a tarefa de historiar nos dias modernos. Por quê?

Por um lado, temos o fracasso do hegelianismo e do marxismo como teleologia histórica, apesar de sua predominância na disposição de espírito e mesmo na orientação política de muitos praticantes nas academias. Seu corolário tímido normalmente é a simplificação dos eventos históricos através de conceitos abstratos que agem como homens grandiosos ou, até mesmo, heróis (em muitos livros de historiadores marxistas, às vezes, não há um só fato histórico). Já seu corolário audaz trata-se da mais direta ideologização do curso histórico, como alguma suposta evolução da história dos homens – moral, social, política ou econômica.

Por outro, a ameaça de a tão propalada “crise dos paradigmas”, que assola as humanidades, conduzir a história como disciplina ao relativismo radical (já defendido por alguns), permitindo o efeito torto da fragilidade epistemológica da disciplina: a falsificação (vem à mente o clichê exemplo de 1984). Diante do reconhecimento da dificuldade da história falar por si mesma, anuncia-se e propaga-se a multiplicação de versões históricas, que servem ora para a legitimação de qualquer ideologia política, (e pior) ora para nada.

E é do intervalo entre estes extremos – a ilusão da verdade histórica em terceira pessoa e o deserto de todas as verdades – que retiramos uma lição dos antigos: que a impossibilidade de dominar o passado, esse objeto para sempre perdido, não conduza o historiador ao desprezo dos rastros que o passado nos lega, pois, como afirma Huizinga, temos uma necessidade civilizatória de acertar contas com o passado. E que o historiador diante destes vestígios tenha a dignidade de os respeitar e acolher, para postar-se, acima de tudo, como autor.

            ***

            Se a verdade do historiador trai algum reinado é tema para as conjecturas de cada um.



[1] A divisão em livros não consta no original.

[2] Heródoto, como sói acontecer na antiguidade, não chega a possuir uma teoria da História, ainda que discuta claramente uma metodologia da história. A exceção a tal é Posidônio. Para tal, ver Nicolai, 2007.

[3] Para tal, ver Schepens, 2007.

[4] Para tal, ver Dosse, A História, 2012.

[5] Para tal, ver Hartog, Evidência da História: o que os historiadores veem. 2011.

[6] Para tal, ver Nicolai, 2007.

[7] Para tal, ver Dosse, op.cit.

[8] Para tal, ver Hartog, 2011; e Dosse, 2012.

[9] Para tal, ver Daniel Woolf, 2011.

[10] Para tal, ver Woodman, 1988; Vercruysse, 1988; e Nicolai, 2007.

[11] Para tal, ver Shrimpton, 1997.


Nenhum comentário ainda.  Seja o primeiro a comentar!

Lésbicas, letras e números

Filed under: Ciência,Educação,Geral,Literatura,Sociedade incluído por Julio Lemos
Data do post: 21 de novembro de 2012

Recentemente, Michael Gove — personagem da política britânica que, espero, voltará a ser mencionada aqui — argumentou em favor do estudo das “coisas inúteis”… como o lesbianismo poético francês. Minha ideia aqui é reforçar esses estímulos.

Antes, um pouco de contexto. Desde 2010, Michael Grove é o Ministro da Educação (literalmente, “Secretário de Estado da Educação”) da Grã-Bretanha, membro do Parlamento e do Partido Conservador. Seu foco como ‘ministro’ é a educação sem firulas: exames exigentes, reformas pontuais e profundas, e um adeus ao funcionalismo público. É bom lembrar que a jurisdição, por assim dizer, do seu ministério, se restringe aos jovens (até 16 anos). Muitos vêem nele um herói do exemplo, mais que do gogó. O ministro Gove, todavia, gosta de discursos, e faz questão de pontuar a sua ação com referências claras aos seus porquês. No início de novembro, Sir James Dyson, empresário e engenheiro britânico, atacando o romantismo de Gove, fez propaganda do utilitarismo na educação, dizendo — literalmente — que os jovens não deveriam perder tempo estudando abre aspas poesia lésbica francesa fecha aspas.

O coro dos seus defensores pôs-se então a fazer propaganda do lesbianismo poético descendente de Safo; a eles me junto, mas para ampliar um defesa que considero demasiado restrita — especialmente porque, no Brasil, ciência nos dá sono.

Se corrigimos o modo ainda tosco dos nossos colegas de Humanas no Brasil, muito ainda ficará por fazer. Para começar com um exemplo típico: a literatura pouco aproveita de si mesma. Um escritor aprende com tudo, menos com a literatura, que constitui tão-somente o seu ponto de partida (como dizia Luhmann, “a linguagem é um meio [medium]“, e não um sistema auto-referente). Um escritor nunca encontrará a sua própria voz se permanecer na infância mimética — na imitação dos seus antepassados. As respostas sempre estão fora da sua própria área de atuação. Basta lembrar da boa e velha admoestação de veteranos e maveriques: “meu jovem, vai arranjar briga em um bar e larga esses livros”. Goethe tinha o que dizer porque era um grande cientista; encontrou suas respostas nas ciências naturais, especialmente na fisiologia vegetal e na ótica. Homero, um ou muitos, as encontrou na guerra e nas crônicas bélicas; Shakespeare aprendeu com o teatro em tempo real e vendo o drama como um negócio; Pascal as encontrou na física e na matemática; Thomas Pynchon, na engenharia aeronáutica; todos eles, em alguma medida, mais na vida e no estudo experimental que nos tomos. E é por esse motivo que a literatura é útil para quem não se ocupará dela profissionalmente. Porque ela não será a sua área. Um administrador de empresas tira muito mais da literatura que de organogramas e reuniões regadas a jargões do management: aprenderá a conversar, a pensar, a ser exato e conciso com os escritores. Com os mesmos escritores que, por sua vez, tinham aprendido a contar histórias e a escrever enquanto faziam cálculos e contratos de seguro, como Franz Kafka; ou viajando em navios comerciais, comandando-os, fechando acordos ou agindo como espião internacional, como Daniel Dafoe, autor de Robinson Crusoe. Miguel de Cervantes também deve muito à guerra, como nosso contemporâneo malcriado Evelyn Waugh. Georges Bernanos apanhou muito na Primeira Guerra e mais tarde passou anos administrando uma fazenda no Brasil, para o qual emigrou em 1938. Parte de sua família vive até hoje no Mato Grosso do Sul, como reportou-me há algum tempo uma amiga, que conheceu e entrevistou sua bisneta Naíra Bernanos (e outros parentes). Em síntese, as Humanidades aprendem tudo o que importa, ou seja, o que lhes concede independência, fora da sua praia. (Cientistas e matemáticos é que podem se gabar de viver apenas em seu mundo — e mesmo assim se beneficiam do êxtase periódico.)

Digo isso porque é comum encontrar a reclamação de Lorde Dyson — de que a literatura é inútil aos nossos jovens — com sinal trocado entre acadêmicos de Letras e intelectuais. Dizem alguns que tudo o que não é literatura é inútil à pureza da arte. (O que não significa, aqui, que a busca da arte pela arte, até com desprezo de certos parâmetros exteriores, seja um erro; tomada cum grano salis, a tese faz sentido. O contexto aqui é mais o dos efeitos da arte nas outras esferas — fato inegável.) São os mesmos que dizem que a literatura (o ócio!) é inútil aos negócios; que os negócios (férias do ócio!) são inúteis para a literatura; ou que o lesbianismo parisiense desvia os católicos do bom caminho. Deliram todos, ao que parece. Sugiro que se interessem pelas coisas, mesmo que seja por contabilidade ou engenharia naval; o saldo sempre é positivo.

O estudo — como bem lembrou um dos defensores de Gove — vem de studium, que é o entusiasmo latinizado, a pura curiosidade livre de vícios e de virtudes. Trata-se do único móvel capaz de nos levar a produzir e a criar, mesmo em sentido utilitarista. Sem o exercício da curiosidade, o homem de negócios está morto; será no máximo um funcionário público. Ou talvez até um advogado — que, de tanto ouvir a sua classe dizer que tudo o que não é jurídico é inútil, tornou-se ele mesmo um títere sem utilidade alguma.

* * *

É preciso, dito isso, abandonar o beletrismo de Humanas e atualizar a própria educação liberal, ao menos no Brasil. O primeiro passo é extirpar o preconceito algo cômico — porque procura diminuir algo que é, muitas vezes, grandioso e exige muito trabalho — que as nossas Humanidades nutrem com respeito às ciências. Preconceito, aliás, totalmente ausente nos organizadores da série Great Books of the Western World. O beletrista (tanto o conservador como o clássico professor marxista) é capaz de exaltar a literatura, por ser guardiã dos valores da civilização, e ao mesmo tempo desprezar os seus efeitos palpáveis: a tecnologia, a técnica, o cálculo, a experimentação, o conforto, a automatização, os computadores. E também efeitos menos palpáveis, como a desconfiança diante dos sonhos da religião política, o ceticismo diante de todo tipo de esoterismo e misticismo, que  impregnam a cultura brasileira. (“Aqui, dizia um amigo, até o paleoconservadorismo pega; só não pega o amor à exatidão”.) São todos efeitos da civilização ocidental; curiosamente, não raro ela é isoladamente defendida enquanto são atacadas benesses suas visíveis como a luz elétrica, as cidades planejadas, elevadores, telefones, smartphones, computadores, Internet, liberdade de comprar e vender. Para citar um exemplo, é conhecida a repulsa de Russell Kirk aos carros, a que ele chamava “Jacobinos mecânicos” (wtf?), bem como aos computadores. Por mais que se trate de patologia, não deixa de ser impressionante, como o mal de Alzheimer ou a paralisia infantil.

O segundo passo é agregar, ao amor pelas letras, o amor pelos números e a habilidade correspondente (numeracy). Nós brasileiros somos suspeitos para discorrer a respeito — afinal, somos campeões em matemática. Nosso país ficou com a 53ª posição entre 65 países no Programa Internacional de Avaliação de Alunos elaborado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico. Uma posição formidável. Ainda assim, não podemos ficar confortáveis com nosso desempenho impressionante. Ainda chamamos de “fetichismo” o amor pelos números e pelo rigor lógico. Os países anglo-saxãos, conhecidos por seu horror à matemática, sempre souberam valorizar esse aspecto essencial da ciência.

Ironias deixadas de lado, carecemos também de curiosidade por esse lado exato das “coisas inúteis”, característico dos países civilizados. Philip Womack, um dos defensores de Gove, rememora:

I knew, when memorising my Physics GCSE syllabus, that I was motivated to get an A so that I would be able to apply to a good university; but I also knew that I would never have to do Physics again as an academic subject. But boy am I glad that I was made to do it, even though I was never going to be a particle physicist – I can now read up on quantum mechanics, or astronomy, without feeling left behind.

A acusação de fetichismo ou, pior, “cientificismo”, é claramente uma glorificação da preguiça que herdamos dos nossos antepassados bacharéis (e, infelizmente, dos velhos padres professores). Para um bacharel em direito, números dão muito trabalho; são chatos. E todo escritor e acadêmico de Humanas brasileiro é um bacharel, tenha ou não se formado em direito. Surpreende que tenhamos poucos prêmios Nobel, mesmo com o grande esforço dos departamentos de biologia, química, ciências médicas, matemática e física? E que achemos grande coisa a filosofia profunda dos franceses dos anos 60? Ou que nossa grande reclamação tenha como objeto a “hegemonia marxista”? Nada disso deveria surpreender. Temos preguiça. Muita preguiça. Tudo o que exige uma resposta exata, uma curiosidade incansável, provoca sono. Para outros, 2+2=4 é conservador demais.

O que parece difícil de compreender, entretanto, é que o amor à exatidão é, ou deve ser, comum à literatura e à matemática.

Restaria provar que as lésbicas também preferem a exatidão. Mas deixarei essa demonstração ao leitor.

.


Comments (18)

O seqüestro da crítica

Filed under: Debates incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 4 de maio de 2011

Por Rodrigo de Lemos

Quando Roger Kimball lançou The Rape of the Masters, pus-me a imaginar o que ele não diria sobre a crítica no Brasil. Bem antes dos anos 80 (década em que os resentniks pós-estruturalistas invadiram as universidades americanas), uma parte da crítica brasileira já entendia sua atividade como a violência aos mestres locais justificada pelas “boas causas”. E eis que aparece agora o Eduardo Wolf com esse artigo sobre “O seqüestro de Machado de Assis” na última Dicta&Contradicta. Claro, a reflexão do Eduardo não me parece dever alguma coisa à do Kimball; mesmo assim, não deixo de esperar que ela seja para nós um pouco do que The Rape of the Masters foi para os americanos: um alerta para os estragos decorrentes da politização da crítica e um sinal para os discordantes de que eles não estão sozinhos.

Nesse breve comentário, quero me deter em dois pontos: primeiro, por que interpretações como as de Roberto Schwarz sobre Memórias póstumas tornaram-se por aqui não apenas mais uma leitura, legítima entre outras tantas, sujeita a contestações e a ataques, mas a interpretação dominante, combatida de quando em quando por tímidos balbucios; em seguida, vou levantar os problemas e as contradições que a centralidade reclamada por críticos como Schwarz para suas leituras sociológicas trazem para suas próprias teorias. Quem acompanha os meios literários nacionais (nos quais sempre houve quem torcesse o nariz para um Murilo Mendes, por exemplo, por ele não ter feito poesia engagée nem ter sido um obcecado pela identidade nacional) sabe que o pensamento de Schwarz está longe de ser um caso isolado. Não faz muito, soube de um crítico que, comentando dois “O navio negreiro”, um de Heinrich Heine, outro o de Castro Alves, tentava mostrar como o poema do alemão era em muito superior ao do brasileiro: em lugar da preocupação meramente moral deste (e deixo o “meramente” por conta do crítico), o tratamento de Heine teria sido mais feliz ao tomar em conta as ligações do tráfico negreiro com o capitalismo internacional. Nenhuma palavra sobre a diferença de arte poética entre os dois: uso das imagens, das figuras de linguagem, dos procedimentos rítmicos; para ele, o poema de Heine era superior porque Heine era melhor sociólogo. Observações sociológicas desse tipo tornaram-se a tal ponto preferência nacional que passaram a ser tomadas por critério de julgamento estético.

Cabe perguntar o motivo desse furor sociologizante. Primeiro, a sociologia é o único horizonte para uma boa parte do público e dos próprios escritores. Diferentemente da França, por exemplo, que dispõe de uma verdadeira educação para a forma desde, no mínimo, o século XVI, para certas correntes críticas prestigiosas no Brasil, a análise imanente é vista com maus olhos. A retórica saiu de moda há tempos; poucos se interessam em voltar a Cícero e a Quintiliano para neles aprender a identificar e a empregar técnicas lingüísticas. O estudo da versificação é por aqui uma raridade, e a maioria do público de poesia, quando não dos próprios poetas, ignora os princípios básicos da métrica e da prosódia, isso sem falar em outros procedimentos fônicos mais sofisticados (modulações ou harmonias, por exemplo). Ao mesmo tempo, tudo em que o legado estruturalista foi positivo, tudo o que nele foi além de pretensão cientificista e que realmente podia contribuir para o estudo da literatura, é hoje preterido em favor de investigações temáticas que confirmem os derniers cris do politicamente correto e do multiculturalismo. Diante dessa planície analítica, não surpreende que as leituras sociológicas avancem terra adentro sem encontrar obstáculos de relevo.

Mas, para explicar essa tendência, há algo além dos recursos críticos limitados característicos do pensamento literário atual. A transformação de conceitos sociológicos em categorias de julgamento é o corolário de uma idéia aparentemente inocente e que, à força de repetição, entrou de tal forma no pensamento sobre literatura que se transformou no seu maior, e senão único, consenso: a de que a chave para a compreensão de uma obra literária está em sua relação com o contexto histórico; dito de outro modo, de que a significação mais profunda de uma obra explica-se pelo tipo de representação que ela traz de uma sociedade em um dado momento da história ou do tipo de relação que estabelece com essa sociedade. Daí decorreria, para os defensores dessa tese, que a qualidade da obra mede-se pela maneira mais ou menos penetrante com que ela revela as contradições do meio em que foi escrita, culminando frequentemente na instrução de um processo contra as classes dirigentes, contra o racismo, contra o falocentrismo, contra o perseguidor do momento.

Na verdade, a tensão atual entre críticos sociológicos (sobretudo marxistas) e críticos pós-something reside menos em uma oposição radical de visões sobre a sua própria atividade intelectual do que em uma diferença entre as causas a que eles a submetem, a luta de classe no caso dos primeiros, a defesa de minorias entre os segundos. Em ambos os grupos, desconsidera-se da análise literária não somente a dimensão formal, mas também qualquer outro aspecto relativo à vida interior (psicológica, moral ou religiosa) e que transcenda o jogo de forças sociais.

Claro, para muitos dos críticos de filiação sociológica, este último é um falso problema, pois o que são todas essas dimensões da natureza humana senão, a exemplo da própria obra literária, fenômenos de superfície que, por sua vez, encontram sua razão de ser na vida social e econômica? Mas, ao sustentá-lo, o crítico sociológico cria uma armadilha para sua própria leitura, pois ou bem lhe atribui uma objetividade que ele mesmo nega a qualquer outra forma de conhecimento, e então seria de esperar que justificasse essa superioridade apolínea auto-atribuída, ou bem dissolve a verdade do seu discurso na pura historicidade em que ele já dissolvera a verdade da obra literária. Rompe, no último caso, qualquer compromisso com a objetividade, com a busca de uma verdade transcendente à sua própria situação histórica, a seus interesses ideológicos e partidários – quando é o conhecimento da verdade que deveria determinar a estes últimos. A partir desse ponto, qualquer violência – estupro ou seqüestro – fica permitida, e só nos resta repetir a ritournelle do Eduardo ao fim do artigo “O que pensar, leitor, o que pensar?”.

Rodrigo de Lemos é mestre e doutorando em Literatura Francesa na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde atualmente é também professor na mesma área.


Comments (6)

Goethe e a retidão

Filed under: Filosofia incluído por Julio Lemos
Data do post: 22 de fevereiro de 2010

Goethe conhecia muito bem a natureza humana. Difícil dizer se foi o gênio — esse “quase mito” tipicamente romântico-germânico — ou o contato com os homens eminentes do passado e do presente que lhe trouxeram esse conhecimento.

O fato é que os dois versos a seguir estão entre os mais densos, os mais ricos em sentido da sua obra:

Ein guter Mensch, in seinem dunklen Drange,
Ist sich des rechten Weges wohl bewußt
(Faust I, 328-329).

“Um bom homem, por obscura que seja sua luta / Está ciente de que há apenas um caminho correto” (trad. livre).

Com isso Goethe revelava duas coisas: que o homem tem a sua liberdade limitada pelas circunstâncias e pela sua consciência (um duplo ‘obstáculo’, interior e exterior, mas sempre redutível à realidade); e que mesmo assim está dotado da prudência — ao menos sob a forma do dever — para decidir corretamente, mesmo que erre por algum motivo alheio ao seu controle.

Aí a tragédia e a esperança que rondam o coração do homem. Não à toa a sua obra da juventude, o “Werther”, traga já nas suas primeiras linhas a pergunta/afirmação: Bester Freund, was ist das Herz des Menschen!, que é o coração humano!


Comments (2)

Dois anos sem Bruno Tolentino

Filed under: Literatura incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 27 de junho de 2009

“(…) e o mundo é cada vez mais estrangeiro”.

Soneto 99 de A Imitação da Música (in: O Mundo como Idéia)

Toda vez que alguém me pergunta sobre ou então me lembro da minha convivência com Bruno Tolentino, chego sempre à seguinte conclusão: ele foi o único sujeito de quem posso dizer com certeza que era um gênio.

Mas hoje, dois anos depois de sua morte, não sei se responderia da mesma forma. É claro que Bruno era, de facto e de jure, aquilo que, na falta de expressão melhor, chamaríamos de “gênio” – até porque era realmente capaz de momentos brilhantes e de momentos em que era nada mais nada menos que “genioso”. Entretanto, depois de ter muito meditado sobre o uso e o abuso desta palavra – até mesmo Arnaldo Jabor conseguiu torná-la insuportável quando elogia alguém em suas colunas ou em declarações na televisão – creio que Bruno Tolentino não era apenas um “gênio”. Era, sobretudo, e aqui plagio descaradamente o ensaio de Joseph Brodsky sobre W. H. Auden (por sua vez, um exemplo para Bruno), a pessoa mais inteligente que já conheci – e acho que não conhecerei outra.

Explico-me: como já disse uma vez aqui, creio que o “gênio” é uma espécie de ruptura, não de continuidade, dentro do continuum da tradição de um país ou de vários países – aquilo que denominaremos mais tarde, se tudo der certo, de “civilização”. O próprio Bruno, alías, baseou a sua argumentação de polêmica cultural neste princípio ao se confrontar com o concretismo em Os Sapos de Ontem; para ele, os irmãos Campos eram uma ruptura para pior, herdeiros da anti-tradição do Modernismo de 1922, enquanto o modernismo europeu (o de Eliot e de Yeats) era um diálogo com a tradição ocidental e também a sua superação. O exemplo mais próximo que tivemos nesta linha foi a chamada Geração de 45, com Cecília Meirelles, João Cabral de Melo Neto e Murilo Mendes, sem contar, claro, com os inclassificáveis Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira.

Se estes poetas não eram propriamente “gênios”, eram também pessoas inteligentes que construíram uma obra idem porque preservavam a estrutura da língua e da linguagem – algo que os concretistas sempre quiseram derrubar com a chamada “morte do verso”. Mas este não é o xis da questão: para mim, Bruno Tolentino não pode ser catalogado como um “gênio” porque sua obra – um verdadeiro enigma para as limitações provincianas da nossa intelligenstia – cumpre exatamente aquilo que esperamos de pessoas inteligentes. Mas o que seria isso – ser inteligente?

Uma pessoa inteligente caracteriza-se por estar disposta a estar aberta à verdade do real – e esta verdade pode ser expressada por um paradoxo terrível que Bruno sabia muito bem como comunicar com o uso do famoso adágio lux sine umbra non est. Não há luz sem sombra. Ele foi a pessoa mais inteligente que conheci porque era capaz, muitas vezes em uma questão de segundos, de agarrar a essência de uma pessoa ou de um problema intelectual, e defini-la de um modo supreendente para todos, sem ser abstrato, chegando ao ponto de usar a linguagem chula. Uma tarde, por exemplo, enquanto conversávamos sobre um jovem poeta que era aclamado pela crítica nacional, Bruno definiu a sua poesia da seguinte forma: “Esse sujeito é incapaz de pedir uma pizza pelo telefone” (E era verdade: os versos daquele sujeito pareciam ser de alguém que preferiu a dislexia como modo de vida). Mas é claro que essa atitude – que era honesta e impiedosa, chegando ao limite da insensibilidade com muitas pessoas que realmente o admiravam – não era somente uma grife de gypsy-scholar metido a besta. Era sobretudo um princípio moral: Bruno Tolentino sabia que a vida era um palco de luz e sombra, ambas misturadas, e que a função do poeta era trazer ao leitor aquela firmeza de alma que só um permanente state of wonder pode provocar nas pessoas, e isso quando elas decidem ver o mundo tal como é – e não como eles querem que seja.

Se Bruno fosse um “gênio”, sua obra teria fracassado – o que não acontece porque ela é um portal para novas descobertas, não o fim de uma era. Cada vez que releio um poema, um ensaio ou estudo um verso tolentiniano, percebo que Bruno não só dialogava com toda a tradição – de Machado de Assis a Yves Bonnefoy, passando por Santa Teresa D´Ávila e Charles Baudelaire – mas também sempre desbravava um novo caminho para os novos poetas. Há, contudo, sempre um pseudo-contraponto. Li recentemente um artigo escrito por um desses “falsos novos poetas” badalados por essas editoras de butique, que, a partir da análise de um único soneto de A Imitação do Amanhecer, já diagnosticava que Bruno Tolentino era um fóssil do passado. Uma verdadeira estultice: como analisar a obra de um sujeito através de um soneto de um livro que é, na verdade, um painel de mais de 537 sonetos? O que falta a este rapaz é a apreensão de que a obra de Bruno exige do leitor a aceitação do mesmo princípio moral que o guiou em sua complicada vida: o de que a vida (e a poesia) tem uma margem de ambigüidade inexplicável – e que as coisas não podem ser definidas tão facilmente.

Desta maneira, creio que Bruno Tolentino não foi um “gênio”, mas sim uma pessoa extremamente inteligente que criou uma obra genial. Este paradoxo – tão comum em seus versos e em sua postura diante das outras pessoas – mostra a dificuldade de entender o que ele queria. Bruno foi um homem muito solitário – e talvez esta tenha sido a sua verdadeira tragédia. Mas, mesmo assim, não desistiu: a sua inteligência o fez ser mais que um professor – era também um “educador de sensibilidades”. Ele nos fazia retornar à experiência verdadeira da poesia e nos forçava a ver que a arte tinha uma dinâmica particular que não podia ser insultada. Isto foi, alías, o meu primeiro insight para sentir sua ausência quando, um dia, ao escutar uma excelente palestra de um amigo meu sobre Hamlet em um ambiente repleto de supostos magistrados, chegou o momento dos debatedores. Era uma mulher e um homem: ela era uma juíza federal, cheia de referências aos Derrida-e-desce e aos Foucaults da vida, e ele era um advogado beletrista, sócio de uma importante casa de cursos. A juíza fez uma palestra de quase uma hora sobre como a peça de Hamlet deveria ser chamada de Ofélia porque Shakespeare era, afinal de contas, um machista misógino, enquanto o tal advogado perguntou ao palestrante se era possível uma interpretação GLS de Hamlet. Fiquei chocado que alguém se aventurasse a fazer tal pergunta; certamente, se Bruno estivesse vivo e ali presente, levantaria-se de imediato e daria um safanão na cara do sujeito. Claro que o motivo não seria apenas a polêmica pela polêmica – acusação injusta que atingiu postumamente a obra de Bruno. A verdadeira razão seria essa “educação de sensibilidade” que Bruno cultivava em cada um que conhecia e que ele fazia questão de extrair em conjunto sobre os mais variados assuntos: desde como era trabalhar com Auden, passando sobre como era uma conversa com Bonnefoy e Geoffrey Hill, até o vislumbre de um detalhe em um quadro de Uccello e, sem dúvida, o respeito que devemos ter com a luz do dia que some em um pôr-do-sol.

Confesso que só fui sentir falta de Bruno muitos meses depois da sua partida porque, de certa forma, a sua obra inteira nos ensinou a ficarmos preparados para a sua morte. Mas não era algo mórbido: quando leio O Mundo como Idéia ou As Horas de Katharina tenho a impressão de que, apesar de seu sentimento trágico da vida, Bruno Tolentino sabia que ela valia muito a pena. Não é à  toa que resistiu a uma doença cruel até o fim, independentemente do sofrimento – do qual saiu irreconhecível, mesmo para os seus amigos mais próximos. Havia uma perseverança nele que, sem dúvida, deixava todos espantados – e que talvez não fosse deste mundo.

Assim, à guisa de despedida, deixo-lhes a seguinte citação:

“Ele foi um grande poeta (a única coisa que está errada com esta frase é o tempo de seu verbo, já que a natureza da linguagem faz com que o que alguém realiza em seu contexto permaneça invariavelmente no presente), e me considero intensamente afortunado por tê-lo conhecido. Mas mesmo que não o tivesse encontrado de todo, ainda me restaria a realidade de sua obra. Devemos agradecer ao destino por termos sido expostos a esta realidade, pela generosidade dessas dádivas, mais preciosas ainda porque não se destinavam a alguém em particular. Podemos dizer que se tratava de uma generosidade do espírito, só que o espírito sempre precisa de um homem para refratar-se através dele. Não é o homem que se torna sagrado devido a esta refração: é o espírito que, assim, se torna mais humano e compreensível. Isto – e o fato de que o homem é finito – já bastaria para nos fazer venerar este poeta”.

As palavras são de Joseph Brodsky e são sobre W.H. Auden. Mas eu não mudaria uma linha, pois dizem a mesma coisa sobre Bruno Tolentino. Independentemente de ser um gênio ou uma pessoa inteligente, o fato é que era um grande poeta – e um dos maiores, em qualquer língua. E quando os grandes poetas se encontram, seja lá onde estão, sabemos que são um dos poucos grupos – junto com os santos e os mártires – que podem dizer com certeza que, independentemente das sombras dentro das luzes existentes em nossas vidas, eles realmente venceram o mundo.


Comments (17)

Variedades Virtuais

Filed under: Geral incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 17 de fevereiro de 2009

Pérolas que só a blogsfera traz para você, caro leitor:

- The Voegelin View: excelente site feito por discípulos de Eric Voegelin. Na edição desta semana, tem a reprodução de uma conversa de Voegelin com estudantes irlandeses. A cada parágrafo há um trecho mais antológico que o outro.

- Novamente, Spengler, o colunista misterioso do Asia Times, nos dá o caminho das pedras para entendermos o que acontece com a nossa “crise econômica”. Na coluna de hoje, ele prova por A mais B que os EUA continuarão a ficar cada vez mais ricos, apesar de tudo e, principalmente, de todos.

- Leiam o excelente blog de Érico Nogueira, o nosso Rimbaud de Bragança, Ars Poetica, em que podemos ler deliciosos ensaios sobre Geoffrey Hill, Rilke e, claro, Bruno Tolentino.


Comments (4)

Scorn not the Internet

Filed under: Literatura incluído por Joel Pinheiro
Data do post: 13 de agosto de 2008

Só o futuro poderá julgar o efeito da Internet sobre a cultura. As mudanças que ela trouxe para nossos hábitos de ler e escrever são muitas, e atuam, não raro, em sentidos contrários.

Um grande e inegável benefício, contudo, é a disponibilização gratuita da obra de grandes autores do passado. Não é mais preciso comprar caros volumes para se ler a poesia completa de Wordsworth (o que não significa que a compra dos volumes não traga inúmeras vantagens!). Há muito material online, em bons sites, à espera de quem o acesse.

Neste soneto, cuja finalidade é defender o valor do soneto, Wordsworth nos lembra de alguns grandes nomes da literatura ocidental, cuja obra, com a Internet, está à nossa disposição.

Scorn not the Sonnet

          Scorn not the Sonnet; Critic, you have frowned,
          Mindless of its just honours; with this key
          Shakespeare unlocked his heart; the melody
          Of this small lute gave ease to Petrarch’s wound;
          A thousand times this pipe did Tasso sound;
          With it Camoens soothed an exile’s grief;
          The Sonnet glittered a gay myrtle leaf
          Amid the cypress with which Dante crowned
          His visionary brow: a glow-worm lamp,
          It cheered mild Spenser, called from Faeryland              
          To struggle through dark ways; and, when a damp
          Fell round the path of Milton, in his hand
          The Thing became a trumpet; whence he blew
          Soul-animating strains–alas, too few!


Comments (3)

Um minuto de silêncio

Filed under: Literatura incluído por Guilherme Malzoni Rabello
Data do post: 27 de junho de 2008

Hoje faz um ano que o Bruno Tolentino morreu. Aqui vai a nossa pequena homenagem,

A Explicação

Por Bruno Tolentino

[...]

É o real tudo aquilo que, à medida
em que nos abandona e se evapora,
sagra o aqui e o agora
entre os braços da Cruz, nosso sinal
de mais na escuridão.
Tudo o mais é ilusão,
mero jogo mental
que às vezes nos confunde,
mas que não pode desfazer o nexo
entre o instante mortal
e o perene esplendor da rosa-mundi.

Esse é o grande cordão umbilical,
o traço de união, aquele elo
que Eliot entreviu num roseiral
e o Velho do Restelo
num cais de Portugal.
É o mesmo nexo sobrenatural
que, às vezes, com uma rapidez de seta,
inexplicavelmente nos inquieta
ao deixar-se entrever à face lisa
do que eu chamo de espelho convexo
e Platão comparava a uma gruta.

Metáforas que valem como o indício
de que a mente se expande quando escuta
o sussuro imortal que anima a brisa,
sossega a ventania
e acode a cada rosa na agonia;
ele é que suaviza
o derradeiro amplexo
que desfigura e transfigura o ser,
ele é que acalma
e leva pela mão a pobre alma,
resgatada dos braços do suplício
para enfim perceber
o esplendor de um jardim muito maior
que seu curto reflexo.
Se enxergá-lo é difícil,
não ver é ainda pior
 


Comments (8)

The Lonely Hearts Club Band

Filed under: Geral incluído por Martim Vasques da Cunha
Data do post: 13 de junho de 2008
1818-20. Brush and sepia. 32,5 x 18,5 cm. Kupferstichkabinett. Berlín. Germany.
Woman in a Shawl. Caspar David Friedrich

Para o leitor de Dicta&Contradicta que acredita que o Valentine’s Day tupiniquim está repleto de açúcar-mascavo, eis aqui um poema de Carlos Drummond de Andrade que vem a calhar:

 A bruxa

                                              A Emil Farhat

Nesta cidade do Rio,
de dois milhões de habitantes,
estou sozinho no quarto,
estou sozinho na América.

Estarei mesmo sozinho?
Ainda há pouco um ruído
anunciou vida ao meu lado.
Certo não é vida humana,
mas é vida. E sinto a bruxa
presa na zona de luz.

Leia mais…


Comments (2)

A Gênese de ‘Do Enigma ao Mistério’ – I

Filed under: Especial incluído por Guilherme Malzoni Rabello
Data do post: 8 de junho de 2008

Para o primeiro número da Dicta traremos um Especial e tanto: ao longo das próximas semanas, sempre às terças-feiras, postarei aqui as gravações das três últimas aulas do Bruno Tolentino, que deram origem ao ensaio Do Enigma ao Mistério, editado por mim e publicado na revista impressa.

Jamais aceitaria fazer a edição que vai na revista se não pudesse também divulgar o material bruto. Foi uma decisão muito difícil editar o que vocês ouvirão a partir da próxima semana. Da morte do Bruno ao dia em que recebi a versão final do texto, estes versos do Auden em memória de W. B. Yeats martelavam na minha cabeça: the words of a dead man/ are modified in the guts of the living.

Como transformar em texto escrito três aulas completamente diferentes? Que critérios usar para cortar uma passagem? Reescrever o que está confuso ou manter a confusão? Foram algumas perguntas que me fiz, e pretendo contar como cheguei às respostas. Porque o trabalho não foi pequeno, pelo contrário: as 14 páginas da revista foram tiradas de quase 40 de transcrição. Procurei justificar (para mim mesmo) cada uma das decisões tomadas, mas certamente cometi vários enganos. Estendo agora minha mão à palmatória: aos que leram a revista e gostaram do texto, garanto que muito mais virá; aos que leram e não gostaram, digo que com certeza a culpa foi minha.

Dividi o trabalho em quatro etapas. Na primeira, simplesmente transcrevi as três aulas, sem nenhuma revisão ou preocupação externa. Na segunda, provavelmente a mais difícil, decidi se daria uma estrutura ao texto, mudando a ordem das aulas, ou se manteria a ordem original. Com muito custo, escolhi a primeira opção: o texto da revista começa com a segunda aula, continua pela terceira e termina na primeira. Contarei ao longo do tempo por que fiz isto, mas já aproveito para avisar que aqui as aulas vão exatamente na ordem em que foram gravadas, sem qualquer edição de som.

Tendo decidido como seria o texto, comecei a prepará-lo, tentando manter sempre que possível as exatas palavras usadas pelo Bruno. Em algumas passagens consegui; em outras seria impossível, uma vez que era necessário manter a inteligibilidade. Por fim, precisava tirar os vícios de linguagem que permeavam todo o ensaio (comuns na fala, mas imperdoáveis na escrita). Este era o grand finale que o texto merecia. E não teria ficado nem próximo do que ficou se não fosse pela mão de ferro do nosso editor, Henrique Elfes, que ralhou com cada vírgula que eu havia colocado, com cada pronome desnecessário, e finalizou o texto como ninguém.

Eu fico por aqui; mas como vocês já devem estar curiosos, preparei para hoje um aperitivo. Separei nas gravações as partes em que o Bruno recitava os seus poemas. Até onde sei, nenhum dos que seguem haviam sido gravados por ele. Quem conheceu o Bruno, certamente se lembra do quanto ele gostava de falar e de como fazia isso com facilidade. Reparem no tom da voz (principalmente no último poema) e vocês verão o que está a caminho…

Especial 1.1

Leia mais…


Comments (14)