Poland Springs
Data do post: 20 de fevereiro de 2010
Esta matéria séria, porém hilária, de David P. Goldman, a.k.a. Spengler, sobre o empresário de estratégias George Friedman mostra que a profecia pode ser um jogo arriscado quando se antecipa de que, dentro de cinquenta anos, a Polônia será uma potência mundial, de que teremos uma guerra entre os EUA e o eixo japonês-turco e de que o México pode ser importante na geopolítica mundial porque possuirá nove engenheiros de computação tão cruéis quanto um exército.
É ver para crer.
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Tarantino encontra Hobbes
Data do post: 14 de outubro de 2009
É claro que Bastardos Inglórios não é o melhor filme de Quentin Tarantino – ainda creio que esta posição é de Pulp Fiction e das duas partes de Kill Bill -, mas ele guarda algumas surpresas para o espectador.
A primeira é o rigor estético de Tarantino e o modo como ele joga tudo isso para o alto sem perder o controle. Existem no filme duas seqüências de tirar o fôlego que mostram que ele sabe escrever diálogos como poucos e sabe filmar igual a um Sergio Leone quando quer. O primeiro capítulo do filme, em que somos apresentados ao coronel da SS Hans Landa (Christofer Waltz), é uma daquelas aulas de como segurar o espectador somente pelo poder mortífero das palavras – em qualquer língua. A mesma coisa acontece na longa cena da taverna, encenada igual a uma peça de teatro, em que a tensão é estendida até o limite do insuportável, para depois Tarantino resolver tudo com sua carnificina habitual, filmada com um riso repleto de nervosismo.
Mas depois Tarantino mostra que não tem medo de arriscar. Faz inúmeras citações cinematográficas – de Rastros de Ódio a Scarface, passando pela referência enciclopédia de nomes do cinema europeu – para explodir tudo com a inserção da canção-hit dos anos 80 Cat People, de David Bowie, no meio de uma cena que se passa em 1944. A reação é: O que isso faz aqui? Nada, óbvio. O que Tarantino quer fazer é mostrar para você que ele é capaz de criar o seu próprio mundo – a ambição de qualquer artista.
Assim, fica clara a opção de Tarantino em querer transformar a Segunda Guerra Mundial em uma guerra de história em quadrinhos. Hitler é visto como uma caricatura patética; Churchill faz uma ponta sem nenhuma ligação lógica com a trama; e Goebbels é mostrado como um burocrata histérico. Tal escolha vai até os últimos limites: a Guerra tem seu final alterado, com os nazistas sendo dizimados em um cinema, sob a vingança do rosto judaico que paira na fumaça de um forno crematório. Enfim, é Tarantino não só criando o seu próprio mundo, mas também mudando a história do nosso mundo.
A pergunta que fica é: Isso tem alguma relação com a realidade? Eis aí a grande surpresa de Bastardos Inglórios. Apesar de toda a traquinagem, de todo o virtuosismo, das referências populares, Tarantino mostra uma visão-de-mundo surpreendentemente madura para um cineasta que antes era acusado de ser “infantilóide”. Sua moral é simples e assustadora: Em um mundo em guerra, não existe perdão – e quem mostrar um vislumbre disto é eliminado na hora. Por isso, é previsível que algumas comunidades judaicas não gostem ao ver soldados americanos judeus escalpelando seus inimigos – afinal, a posição de vítima é sempre a mais confortável -, mas o fato é que a visão hobbesiana da guerra segundo Tarantino mostra que a paz é somente interlúdio e nada mais. O modo como o filme termina, com o personagem de Brad Pitt dando uma aula de justiça ao espectador, ainda que à custa de muito sangue, prova que estamos realmente em tempos interessantes no nosso mundo cultural. Afinal, há algo de inquietante quando um cineasta nerd possui um realismo que falta aos estadistas de pacifismo bocó que existem por aí.
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Um dia a casa cai…
Data do post: 23 de abril de 2009
Esta foi uma semana de eventos interessantes: além da morte de J.G. Ballard (nunca dei bola para a obra dele, mas David Cronenberg fez um belo filme com seu mediano Crash (1998) e Theodore Dalrymple escreveu um excelente obituário que serve como introdução aos seus livros) e do aparecimento de Susan Boyle (na verdade, uma voz um pouco melhor do que o habitual e a prova definitiva que estamos a viver naquilo que Ortega y Gasset chamava de a ascensão do homem-massa), tivemos a resolução do maior mistério da Internet dos últimos dez anos. Finalmente, soubemos quem é Spengler.
Vocês devem se lembrar que já recomendei Spengler aos leitores da Dicta. Foi uma dica do poeta e tradutor Nelson Ascher, meu oráculo para política internacional. Ao ler os artigos anteriores de Spengler queria saber quem era o homem. Rumores na blogsfera diziam que ele era um ex-assessor de Lyndon LaRouche, que tinha trabalhado no governo Reagan, que era um aficionado pela obra filosófica de Franz Rosenzweig, que tinha sido um empresário de sucesso em Wall Street e que o motivo de seu “pseudônimo” (uma paródia ao autor de O Declínio do Ocidente) era porque ele tinha se convertido definitivamente ao judaísmo e que sabia que a única solução para a crise do mundo contemporâneo era a união entre a Sinagoga e a Igreja.
Bem, os rumores estavam certos. Foi divulgado que Spengler é, de fato, David P. Goldman, que admitiu ser tudo aquilo sobre o qual falaram, menos o de ter sido assessor de Lyndon LaRouche (e convenhamos que muito do que Spengler escreve vai contra os princípios ocultos de LaRouche, um anti-semita enrustido). O interessante é a razão de seu “desmascaramento”. A convite de Joseph Bottum, editor-chefe da First Things depois da morte de seu fundador, Richard John Neuhaus, Goldman tornou-se o editor associado da revista, ocupando o posto que foi o de Bottum. Qualquer pessoa bem informada sabe o que isso significa: que Spengler – ou David P. Goldman, como agora podemos chamá-lo – saiu de seu modesto púlpito do jornal Asia Times para ser alçado como uma das maiores mentes do pensamento sadio na América. Com sua “promoção”, Goldman fica lado a lado de gigantes como o próprio Bottum (que já está velhinho, com quase 70 anos), Roger Scruton e Roger Kimball.
E que nenhum engraçadinho venha me dizer que só citei pensadores ditos “conservadores”. A prova disso é justamente o artigo de estréia que Goldman escreveu para a First Things – Demographics and Depression. Ele faz uma crítica arrasadora do conservadorismo americano, ao afirmar que a guerra cultural foi perdida porque os políticos conservadores se empolgaram no aumento de riqueza que o governo Reagan teria dado à população norte-americana. E a perda nessa guerra influenciou no fator principal da atual crise supostamente econômica: o de que os americanos não sabem mais o que é uma família e se recusam a formar uma, preferindo viver como casais solteiros ou, pior, disfuncionais. As conseqüências dessa nova visão-de-mundo são simples e atuam no médio e no longo prazo: um país começa a envelhecer rapidamente e não tem mais pessoas jovens para assumirem riscos e desafios, pois escolhem uma vida de aposentadoria precoce e de dependência estatal (e, se você viu semelhanças com a nossa pátria amada, be scared, be really scared). O resultado disso é nada mais nada menos que a pobreza econômica e moral de uma nação.
O artigo é ainda mais perturbador porque, como é de hábito nos escritos de Goldman quando era Spengler, se houver alguma mudança, ela não surgirá de nenhum plano de governo, mas sim de uma atitude existencial do ser humano ao se confrontar com o seu problema básico: o da morte e o da sua sobrevivência para a permanência da raça humana.
E como isso não se dá apenas através dos meios naturais e humanos e sim através de algo que está fora do nosso controle, sinto e lamento em informá-los que, do jeito que as coisas estão, concordo com Goldman-Spengler: um dia a casa cai…
P.S. A First Things anunciou hoje que Spengler terá um blog em sua distinta casa. Começou bem: seu primeiro post é sobre as relações tumultuadas entre a Igreja Cristã e Israel. Ah, sim, isso sim é um assunto importante para ser discutido – não a tal da Susan Boyle. O que me faz pensar o seguinte: Será que toda essa comoção aconteceria se Boyle fosse bonita?
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Variedades Virtuais
Data do post: 17 de fevereiro de 2009
Pérolas que só a blogsfera traz para você, caro leitor:
- The Voegelin View: excelente site feito por discípulos de Eric Voegelin. Na edição desta semana, tem a reprodução de uma conversa de Voegelin com estudantes irlandeses. A cada parágrafo há um trecho mais antológico que o outro.
- Novamente, Spengler, o colunista misterioso do Asia Times, nos dá o caminho das pedras para entendermos o que acontece com a nossa “crise econômica”. Na coluna de hoje, ele prova por A mais B que os EUA continuarão a ficar cada vez mais ricos, apesar de tudo e, principalmente, de todos.
- Leiam o excelente blog de Érico Nogueira, o nosso Rimbaud de Bragança, Ars Poetica, em que podemos ler deliciosos ensaios sobre Geoffrey Hill, Rilke e, claro, Bruno Tolentino.
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Conselhos de Spengler
Data do post: 5 de fevereiro de 2009
Por indicação do poeta, tradutor e crítico Nelson Ascher, descobri há tempos a coluna de Spengler, que publica no jornal Asia Times. Em um texto recentemente publicado, há este trecho antológico, um pequenino conselho dele a um recém-empossado presidente de uma grande potência ocidental:
Leiam as outras colunas de Spengler. Não aconselhável para os fracos de coração.
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