A Revolução das Roupas
Data do post: 15 de março de 2012
Theodore Dalrymple revela sua melhor forma, na minha opinião, ao fazer o comentário sobre costumes contemporâneos salpicados de dados anedóticos, tirados em geral de sua própria experiência, e alusões literárias. Desnecessário dizer que sempre vêm acompanhados de motivos, e bons motivos, para mostrar que os costumes atuais são inferiores aos que vieram antes. É o que ele faz em seu artigo mais recente para a New English Review, examinando a mudança realmente notável no vestuário de homens e mulheres ao longo do último século e a mudança de valores que a troca de guarda-roupas revela.
Dalrymple parece ter um prazer especial em defender o ponto polêmico; quanto mais aparentemente retrógrado e detestável na opinião dos “bem-pensantes”, melhor. Seus leitores agradecem a perspicácia da crítica. Neste caso, ele defende que é perfeitamente possível e válido julgar o livro pela capa: o que a pessoa veste, como ela se apresenta ao mundo, diz muito (sempre, é claro, com alguma possibilidade de erro) sobre como ela é.
Ele é acurado ao apontar: o que décadas atrás era o modo “boêmio” de se vestir, hoje é o modo normal. A estética boêmia venceu, e a estética burguesa encontra-se em franca retirada, restrita aos setores mais conservadores do mundo profissional: escritórios de advocacia, distritos financeiros, etc. Tempos atrás, era impensável ir trabalhar sem gravata; hoje em dia, para muitas pessoas (para este que escreve inclusive) é impensável trabalhar com ela.
Não posso deixar, contudo, de oferecer uma interpretação diferente e mais benévola das mudanças de vestuário em curso. O traje clássico burguês – terno e gravata (e colete entre os mais antiquados) – representa certos valores: profissionalismo, eficiência e impessoalidade (o único possível elemento de expressão pessoal é a escolha da gravata). A estética boêmia (camisas coloridas para fora das calças, sapatos casuais ou mesmo tênis sociais) reflete novos valores: relações menos frias, mais pessoais; um trabalho talvez um pouco menos eficiente, mas também mais humano, caloroso e criativo; um ambiente profissional mais acolhedor e menos implacável, e que dá mais espaço para a expressão da individualidade de cada um, e exige menos rigor e disciplina na apresentação pessoal (uma leve barba por fazer, por exemplo, é aceitável).
Entendo os pontos positivos de ambos os arranjos, mas sinceramente me agrada viver num mundo menos impessoal e formal nas relações humanas que outrora. Isso não exclui o juízo de Dalrymple, de que as novas gerações (e os membros da velha que pegaram o bonde) são mais egoístas e preguiçosas, e que muitos de seus membros caem num verdadeiro solipsismo, que se reflete, por exemplo, em universitários vestidos como mendigos (faltou, contudo, examinar os vícios das gerações passadas, que eram outros, mas não menos reais). Só ressalta que essa mudança social e cultural também tem seu lado bom. Se houve decadência cultura nesse quesito, ela não é tão clara quanto parece à primeira vista; as aparências revelam, mas também enganam.
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Questão de Honra
Data do post: 1 de fevereiro de 2012
Deve um capitão afundar com seu navio? Qualquer que seja a resposta, uma coisa é certa: ele não deve fugir na surdina e deixar os passageiros desamparados. Theodore Dalrymple, tomando o recente e trágico caso italiano do Costa Concordia como ponto de partida, indaga sobre o dever de um capitão, e James Bowman aponta o que, segundo ele, foi perdido mas é essencial para esse debate: o vocabulário da honra.
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Perdão: estatal ou pessoal
Data do post: 4 de janeiro de 2012
Ano Novo é tempo de propósitos de melhora pessoal. Melhora pessoal pressupõe que, no ano velho, tivemos falhas, pecados, erros (escolha a opção mais de acordo com sua visão de mundo). Algumas dessas falhas, por infringirem os direitos alheios ou serem perigosas ao bem comum, são criminalizadas.
Todos nós, que vivemos em sociedades moldadas por valores judaico-cristãos, entendemos o valor do perdão. Todo mundo peca. Todo mundo precisa de segundas chances. Por isso, todo mundo merece uma segunda chance de seus semelhantes. Mesmo um criminoso. E que chance ele terá na vida se tiver que expor seu passado criminal a todo empregador potencial? Deveria o Estado, portanto, proibir que empregadores tivessem acesso à ficha criminal de seus candidatos? Uma pergunta válida.
Vejam a resposta ponderada e muito lúcida de Theodore Dalrymple, pseudônimo famoso de nosso contribuidor habitual Anthony Daniels.
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“O inverno se aproxima”
Data do post: 23 de novembro de 2011

Alguém se lembra quando chamavam a Primavera Árabe de “a vitória da democracia” há alguns meses?
Pois bem, agora perceberam que seu nome verdadeiro é “Inverno Islâmico“:
Shock is acceptable if one is surprised by something completely unexpected.
This is something that does not apply in any way, shape, or form to some Arab and non-Arab writers, media figures, and [political] analysts, who are today expressing their shock and disappointment with regards to the course that the so-called Arab Spring has taken. Today, those who supported the Egyptian revolution are in a state of shock with regards to the domination of the political arena by religious parties and currents.
This is something that has expanded beyond the Egyptian scene. Indeed what we are seeing is a political Islamist tsunami occupying the scene and displacing the “civil” youth. In Libya, we find [religious] fundamentalists of all backgrounds, from those who have taken up arms, to those who are making speeches and giving sermons, inside the country and abroad, not to mention figures like Ali al-Salabi.
There is, perhaps, no perfect solution to the problem of what to do with a fallen despot. To allow him to live in peaceful, and usually very prosperous, retirement seems unjust to the victims of his despotism, and is likely to embitter them. He will seem to them almost to have been rewarded for his deeds, for a prosperous retirement is the wish of any, rarely fulfilled. To treat him as a scapegoat, as if he alone were responsible for his despotism and he had no accomplices, is to create an abscess of hypocrisy and historical untruth that sooner or later will have to be opened, or will burst spontaneously. To punish not only the despot but all who co-operated with or benefited from his rule is to risk endless social conflict and violent reaction.
It might be thought that this a problem of an age that is now past; that after the Arab Spring, we are entering an age of universal democracy. I think this is the case no more than it was ever the case that history was at an end. Astonishing though it may seem, there were rumours in Europe of a possible coup in Greece as a solution to the impasse there. When disorder becomes great enough, men (as Goethe said) long for the man on the white horse, for we love order at least as much as we love liberty, for the former is a precondition of the exercise of the latter, and of much else besides. Europe, the Yugoslavia de nos jours, is becoming ungovernable, thanks to its governors. Another age of the man on the white horse might be dawning.
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London calling
Data do post: 11 de agosto de 2011
Quer saber a verdadeira razão dos tumultos em Londres? Esqueça as explicações sociológicas e vá direto ao homem que previu e mostrou o que aconteceria vinte anos antes: Theodore Dalrymple, também conhecido como Anthony Daniels. Em livros como Lost at the Bottom, Not with a bang, but with a whimper e Our Culture, what´s left of it, ele relata suas experiências como médico e psiquiatra nos mesmos bairros onde ocorrem os motins, em que um povo que já foi o norte de uma civilização transformou-se numa das inúmeras variações da barbárie.
Em seu novo artigo para o City Journal, Daniels atira para tudo e para todos – sempre com uma elegância impecável - e sobra até para Amy Winehouse, um exemplo perfeito de como uma pretensa elite cultural mimetiza e idolatra o que há de pior nos underdogs que infestam os subúrbios:
To have spotted it required no great perspicacity on my part; rather, it took a peculiar cowardly blindness, one regularly displayed by the British intelligentsia and political class, not to see it and not to realize its significance. There is nothing that an intellectual less likes to change than his mind, or a politician his policy.
(…)
The culture of the person in this situation is not such as to elevate his behavior. One in which the late Amy Winehouse—the vulgar, semicriminal drug addict and alcoholic singer of songs whose lyrics effectively celebrated the most degenerate kind of life imaginable—could be raised to the status of heroine is not one that is likely to protect against bad behavior.
E enquanto isso, em homenagem aos subúrbios, poderíamos ficar com The Clash, uma escolha óbvia, mas preferimos ficar com esta musiquinha singela:
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Denis Dutton (1944-2010)
Data do post: 21 de janeiro de 2011

Enquanto o mundo se refastelava no Natal e no Ano Novo e o Brasil se preparava para ser governado pelos Smierdiakovs da vida, acontecia um evento muito triste: a morte de Denis Dutton.
Quem?, escuto o vulgo a perguntar. Bem, o esquecimento é sempre uma possibilidade muito concreta no mundinho intelectual, e como é uma das minhas obrigações nesta marmita que é o planeta Terra lembrar-nos de que isso também pode acontecer conosco, faço aqui as vezes de oráculo da memória alheia.
Denis Dutton foi o editor e o criador do Arts and Letters Daily que, se não estiver enganado, é simplesmente o melhor site de clipping de artigos mais interessantes publicados no mundo anglófono, sem distinção ideológica, indo de uma The New Republic até uma The New Criterion no espaço de uma coluna.
A revolução que Dutton causou na mente de muitos intelectuais e, em especial, jornalistas não foi pequena. Ele simplesmente provou, no final da década de 90, que havia vida inteligente na internet. E fez mais: teve a coragem moral de mostrar aos seus leitores que também havia perspicácia em um pensamento que ia na contra corrente da mídia e que hoje damos o nome de conservador (seja lá o que for isso).
No caso do Brasil, o impacto foi grande, mas como sempre a mídia nunca alardeou isso. Já na blogosfera, a reação foi outra. Por exemplo: se não fosse pelo Arts and Letters, jamais saberíamos a existência da Roger Kimball ou de Theodore Dalrymple – que, aliás, escreveram obituários emocionantes sobre o editor. Posso dizer sem hesitação que o site é meu vício matutino: não consigo começar o dia sem saber o que ele publicou. E todos nós sabemos que metade da imprensa cultural brasileira não saberia do que acontece lá fora se não fosse pelos esforços de Dutton – aquele colunista dominical do Estadão que o diga…
De uma forma ou de outra, Dutton mudou nossas vidas – e para melhor. Sua morte precoce, aos 66 anos, e sua passagem extraordinária por aqui, não podem ser esquecidas como o pó que se esconde debaixo do tapete.
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Trust is all we need
Data do post: 10 de dezembro de 2010
Os dois maiores fatos desta semana não têm uma relação aparente: a prisão de Julian Assange, criador do Wikileaks, e o discurso de Mario Vargas Llosa em Estocolmo, na semana em que recebeu o Prêmio Nobel de Literatura 2010.
Ah, mas eles têm sim senhor. Em artigo curto e lúcido de Theodore Dalrlymple sobre o assunto, o nosso amigo doutor aponta a verdadeira razão para que o Wikileaks seja considerado um braço do totalitarismo cultural que nos enreda atualmente:
The idea behind WikiLeaks is that life should be an open book, that everything that is said and done should be immediately revealed to everybody, that there should be no secret agreements, deeds, or conversations. In the fanatically puritanical view of WikiLeaks, no one and no organization should have anything to hide. It is scarcely worth arguing against such a childish view of life.
The actual effect of WikiLeaks is likely to be profound and precisely the opposite of what it supposedly sets out to achieve. Far from making for a more open world, it could make for a much more closed one. Secrecy, or rather the possibility of secrecy, is not the enemy but the precondition of frankness. WikiLeaks will sow distrust and fear, indeed paranoia; people will be increasingly unwilling to express themselves openly in case what they say is taken down by their interlocutor and used in evidence against them, not necessarily by the interlocutor himself. This could happen not in the official sphere alone, but also in the private sphere, which it works to destroy. An Iron Curtain could descend, not just on Eastern Europe, but over the whole world. A reign of assumed virtue would be imposed, in which people would say only what they do not think and think only what they do not say.
Se o nosso amigo está correto ou não, só o tempo dirá. Contudo, tivemos com Mario Vargas Llosa o exemplo de que a confiança ainda impera nas relações humanas – e da forma mais amorosa possível. Em seu discurso, Vargas Llosa fez um elogio à literatura e à leitura como forma de libertação interior dos possíveis totalitarismos que poderemos enfrentar. O momento mais emocionante não foi a declaração de amor à Madame Bovary ou a Dom Quixote, mas sim à uma pessoa mais próxima, sua esposa Patrícia, que, durante 47 anos, organizou a sua vida inteira para a única coisa que sabia fazer direito: escrever.
Quem não se emocionar com tamanha prova de confiança, tenha certeza de que não é um ser humano.
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Um convidado bem perturbador
Data do post: 24 de agosto de 2010

Os primeiros sintomas de que a sociedade está doente são a descrença de que o mal existe e a insensibilidade em relação ao bem, já dizia Jean Bodin.
É o que acontece atualmente no Brasil – e no restante do mundo.
Querem provas? Nem falo da eleição que já está decidida desde o início dos tempos, muito menos da imbecilidade que reina nos centros pensantes dos EUA e da Europa.
Falo de um sentimento que, apesar de ser pouco palpável, algumas pessoas podem sentir no zeitgeist: a cegueira do ser humano em saber que é capaz de realizar atrocidades – sempre com as melhores intenções, é claro.
Anos e anos de iluminismo, anos e anos de razão, anos e anos de ciência e progresso – e para quê? Para termos Auschwitz, Dachau, Treblinka. Os Gulags. O 11 de setembro.
Como disse Theodore Dahlymple em artigo magistral para o City Journal, o mal é sempre uma presença incômoda em nossas vidas, que queremos vê-lo embaixo do tapete, mas não podemos porque, afinal, ele é a verdadeira prova de nossa tão querida igualidade: a capacidade de ferir o seu semelhante.
Além disso, há um outro problema: o mal tem uma persistência assustadora. Ele sabe se disfarçar. Sabe se esconder. E é incapaz de chegar ao seu ladinho e disser: “Olá, eu sou o Mal, prazer em conhecê-lo”.
Mas o fato é que as pessoas pensam dessa forma. Acreditam que ele se anuncia como se tivesse um mínimo de sensibilidade. Meus caros, esqueçam tal idéia pois ele não tem essa politesse, apesar de, muitas vezes, se camulfar na aparência de um gentleman (leiam King Lear, ouçam Sympathy for the Devil e saberão do que falo).
Quando entramos nessa espiral, não há retorno. Pode demorar, mas a derrocada é inevitável. A doença se alastra pela sociedade e não se pode fazer mais nada. Exceto, é claro, dançar um tango argentino e fantasiar de que o mal possa ter a aparência de um Peter Sellers.
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Read not the Times. Read the Eternities.
Data do post: 5 de julho de 2010
Que 2012 que nada. O fim do mundo ocorreu sexta-feira, 02 de julho de 2010, com a humilhação final do Brasil na Copa. Vale a pena continuar depois disso? Não seria preferível a aniquilação, ou melhor, o nunca ter existido?
Aos poucos vamos nos recompondo. Como primeiro passo de um auto-tratamento improvisado, recomendo Dalrymple esnobando, com razão, o futebol. Especialmente perspicaz é a correlação feita entre o nível cultural dos países europeus ao longo das últimas décadas e o aspecto e comportamento dos jogadores de suas seleções. Ânimo! É só um jogo de brutamontes bestificados empacotado, propagandeado e vendido às massas mais grosseiras do mundo. Já me sinto um pouco melhor.
Em seguida, cumpre distanciar a mente das realidades mundanas das quais o futebol é a expressão máxima. Contemplem o universo visto pela mais recente tecnologia. A astronomia, a contemplação do cosmos, era, para Aristóteles, o cume da atividade racional humana.
Agora só falta transcender a matéria; elevarmo-nos da ciência de Aristóteles às doutrinas místicas não-escritas de Platão, que estão, contudo, inscritas em regularidades simbólicas ao longo de toda sua obra. A euforia pop (com direito a um apanhado de citações de efeito no fim do artigo) que engloba a descoberta me faz duvidar um pouco de sua importância; mas o achado de um código platônico secreto é sempre empolgante.
Alguém ainda pensa em futebol? O efeito deve durar, pelo menos, até a final Alemanha x Uruguai, na qual nossos ex-conterrâneos cisplatinos reafirmarão sua superioridade futebolística.
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Dalrymple e a pobreza
Data do post: 21 de junho de 2010
Um de nossos articulistas favoritos, Theodore Dalrymple (mais conhecido pelo seu nome verdadeiro Anthony Daniels nas páginas da Dicta impressa), escreve sobre os efeitos sociais desastrosos de boas intenções (nem sempre tão boas assim) aliadas à ignorância.
Baseando-se mais em sua rica experiência de vida do que em qualquer modelo econômico, ele mostra como a compaixão pelos menos afortunados pode ser a maior inimiga deles. Tanzânia e Inglaterra, redistribuição de renda e educação estatal, são vistos sob aspectos bem diferentes do convencional por esse escritor que não teme defender o que, para a opinião estabelecida, é indefensável.
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