Problemas dos grandes livros
Data do post: 21 de maio de 2010
Ainda sobre o ensino superior, vejam este artigo de Patrick Deneen: Why the great books aren’t the answer. Uma possível alternativa ao modelo técnico, compartimentalizado e reducionista das faculdades é o currículo baseado nos “great books”: os grandes livros do cânone ocidental. O problema, segundo o autor, é que um cânone tão díspare (que inclui Platão, Tomás de Aquino, Marx e Nietzsche) apenas reforçaria o relativismo e o subjetivismo da cultura universitária, com cada jovem escolhendo arbitrariamente aquele “pensador” com que mais se identifica. A perspectiva de cada universidade escolher uma abordagem para apresentar as obras também não lhe agrada muito, pois isso preservaria o relativismo, só que agora no nível institucional e não mais individual.
A crítica tem seu sentido. Simplesmente jogar um monte de livros tão contrários entre si sobre um estudante pode sim produzir um relativismo ou ceticismo nele; especialmente se a leitura seguir a ordem cronológica, dada a premissa implícita de que o que vem depois é sempre superior. Ao contrário do que imagina Deneen, contudo, a mente do universitário não é matéria inerte, e muitos são capazes de pensar por si próprios e, portanto, tirar frutos da leitura mesmo sem a supervisão da titia na sala de aula. Fica parecendo que, para o autor, o único jeito de escapar do relativismo é impor, a nível nacional (ou mundial?), uma abordagem católica tradicional a todas as faculdades. O que, a bem da verdade, apenas substituiria o relativismo institucional por um voluntarismo autocrático do poder soberano.
Não lhe ocorre que diversidade de opiniões não significa relativismo, que, aliás, caracteriza-se antes pela uniformidade do “tudo vale”, e não pela divergência de opiniões reais. Ele também não atenta para o fato de que idéias contrárias têm muito a ganhar com a existência de pensamentos alternativos. A dialética é meio de se aproximar cada vez mais da verdade, que não se encontra totalmente nessa ou naquela escola.
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Universidade para todos?
Data do post: 20 de maio de 2010
Talvez não seja uma boa idéia. Vejamos o caso americano: o estudante normal, pressionado pelas convenções sociais e pela família a cursar uma universidade, paga caro pela decisão. Quem termina o ensino superior (40% cai fora antes) sai dele com uma dívida de dezenas de milhares de dólares; adiou sua entrada no mercado de trabalho e começa no vermelho. É bem plausível que, para a maioria, o investimento não seja rentável financeiramente.
Claro que isso desconsidera os muitos benefícios não-monetários do ensino superior: abrir a mente do estudante a novas idéias, ensiná-lo a aprender por conta própria, torná-lo mais independente e responsável. Mas nos cursos superiores cada vez mais padronizados, voltados ao ensino de técnicas específicas, esses benefícios tornam-se cada vez menores; e ainda assim demandam tempo e investimento muito maiores do que se fossem curtos, intensos e ostensivamente voltados ao treinamento de profissionais. Para o estudante, entrar na universidade, extensão do ensino médio, significa curtir a vida longe da vigilância paterna e da necessidade de se sustentar ou se dedicar seriamente a qualquer coisa que não o prazer. É impossível medir, mas o saldo humano (moral e intelectual) dos dois primeiros anos pode muito bem ser negativo. As Economíadas e tequiladas que o digam! É a entrada no mercado (que em geral se dá no estágio, da metade para o fim do curso; forma de abrandar os custos – em tempo e dinheiro – da graduação) que ensina as virtudes necessárias e inicia o estudante na vida adulta.
No Brasil, é claro, o ensino superior é para poucos, se comparado a EUA e Europa. Mas somos vítimas da mesma obsessão. É só notar como o aumento de vagas é invariavelmente celebrado; e como surgem novas universidades a cada dia, sejam privadas (que cobram caro por um pedaço de papel), ou públicas (que também cobram caro, mas de quem não cursa).
Resta um preconceito cultural e institucional a favor do diploma universitário (que para a empresa é um meio gratuito – caro para o governo e para os pais – de filtrar candidatos). Ainda assim, conforme a idéia de que o terceiro grau não seja necessário, e de que existem métodos mais eficazes de capacitar trabalhadores (ex.: experiência), difunda-se pela mídia, a pressão para universalizar o terceiro grau deve também diminuir. Quem sabe aí a universidade consiga recuperar (se é que algum dia alcançou) seu ideal de formação humana e intelectual universalizante.
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Fuga de cérebros
Data do post: 21 de julho de 2008
Post recente no blog Free Exchange, da Economist, atenta para o fato de que as universidades que mais conseguem ter alunos ingressando nos concorridos programas de doutorado dos EUA são chinesas.
Fato mais interessante, contudo, é a natureza desses alunos e, conseqüentemente, dos programas de doutorado. Majoritariamente, tais estudos se concentram nas ciências naturais e em áreas intensivas em métodos quantitativos (engenharia, economia, negócios, etc). Por quais motivos não existe uma fuga de cérebros, ou, equivalentemente, uma competição internacional, nas humanidades?
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Milton Friedman
Data do post:
Milton Friedman foi um dos maiores economistas do século XX, se não o maior. Suas contribuições abarcam teorias sobre consumo agregado, teoria e história monetária, incluindo uma leitura particular dos motivos que causaram a Crise de 1929 e um trabalho seminal e largamente influente sobre a metodologia das ciências econômicas. Não é à toa que foi laureado com o Prêmio Nobel de economia de 1976. Friedman faleceu no final de 2006 e esses fatos o tornam digno de ter um centro de pesquisas com o seu nome na Universidade de Chicago, onde lecionou a maior parte da sua vida.
Contudo, Friedman também foi um grande defensor do livre-mercado, das liberdades individuais e da economia descentralizada. Seus livros Capitalism and freedom e Free to choose: A personal statement são clássicos da literatura “pró-capitalismo”. E, por isso, um grupo de professores da Universidade de Chicago luta para bloquear a criação do centro de pesquisas em seu nome, alegando que as visões de Friedman eram ideológicas demais.
Dado o tamanho da contribuição de Friedman à economia, a sua influência e a força de suas teorias, faz sentido lutar contra a criação desse centro de pesquisas? Roger Kimball escreve sobre isso aqui e aqui.
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Saber tudo sobre o nada
Data do post: 17 de julho de 2008
Newton afirmou que via mais longe porque se apoiava em ombros de gigantes. A ciência moderna utiliza muito bem esse princípio, mas vê mais longe apenas ao custo de focar a visão em áreas cada vez menores.
A evidência é de artigo da Economist que divulga uma pesquisa de James Evans, da Universidade de Chicago. Segundo ele, a disponibilização de artigos científicos online, ao invés de estimular um aumento no número médio de trabalhos citados por acadêmicos, provocou uma diminuição. A explicação plausível é que cada vez menos os pesquisadores “batem os olhos” em artigos de áreas fora de sua especialidade.
A vítima óbvia desse fenômeno é a interdisciplinaridade. A questão que se levanta é: vale a pena saber tudo sobre a menor das partículas se o número de pessoas com esse conhecimento será sempre contado com os dedos da mão?
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Platão ou Confúcio?
Data do post: 27 de junho de 2008
“Intellectual elitism, as much as an appreciation of Aristophanes’s bawdy humour, is the glue that binds Hellenists together—stoked, in some schools, by a feeling of official neglect or hostility from peers.”
Trecho tirado de um artigo na Economist sobre o estudo do grego clássico atualmente. Ponto interessante: como fica o estudo de uma língua morta (mas clássica) no mundo globalizado? Afinal, nos dias de hoje, a história gloriosa da Europa antiga parece apenas mais uma. É mesmo?
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Esquerda e direita e a crítica à Universidade
Data do post: 23 de junho de 2008
Uma coisa que me tem chamado a atenção é como as críticas feitas ao estado atual do ensino superior são fundamentalmente as mesmas ao longo de todo o espectro político-ideológico.
Compartimentalização do saber; especialização extremada que não permite mais uma visão do todo; ensino voltado exclusivamente para o mercado de trabalho. Sai-se, não formado, mas formatado.
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